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Com a concepção marxiana da humanização da natureza, esta perde a unilateralidade que Hegel lhe confere. Como indicamos, no pensamento hegeliano, a natureza é o reino da necessidade, da miséria e da prisão no limite da materialidade, oposta ao reino espiritual da liberdade. Vimos como, na Introdução aos Cursos de estética, os impulsos em direção a objetos sensíveis são compreendidos como desejos: estes se caracterizam por não visarem o universal, e sim objetos singulares sensíveis, de modo que o próprio sujeito se põe na relação com o objeto como um “ser particular sensível” e não como “ser pensante”, não em sua dimensão universal. A apropriação “meramente sensível” é a pior, a menos adequada ao espírito, porque apenas no âmbito do pensamento o ser humano é verdadeiramente livre.

Em Marx, vimos que o caráter genérico, universal, encontra-se na relação sensível com o mundo e com os outros seres humanos. É interessante como, ao referir os objetos artísticos e a formação dos sentidos pela apropriação da arte, Marx não os distingue dos demais objetos sensíveis criados. Por certo, na medida do seu caráter concreto, toda produção sensível é particular, e os objetos artísticos têm peculiaridades que os diferenciam da produção técnica, de objetos cotidianos, da produção científica etc. Mas, tanto quanto todos os produtos da ação humana sensível, são objetivação de pulsões humanas e sua apropriação conforma os sentidos humanos e engendra a sua necessidade. Assim, toda a sensibilidade objetiva é produto da ação humana e, nesse sentido, humanizadora da sensibilidade subjetiva.

Em Hegel, vimos que a sensibilidade do objeto artístico é uma sensibilidade ideal, portanto a relação com esses objetos é qualitativamente distinta da apropriação dos demais objetos sensíveis. O caráter egoísta e particular da “apreensão meramente sensível” descende da dimensão negativa da objetivação, que consiste no próprio caráter objetivo, coisal. Como vimos, segundo o entendimento marxiano de Hegel, o movimento de objetivação caracteriza-se como auto-estranhamento da consciência-de- si, de maneira que toda exteriorização é uma forma de estranhamento, porque toda coisidade é estranha à essência humana. Esta tem a forma da consciência, portanto, pensamento, espírito, abstração.

É certo que Marx salienta como mais significativa contribuição de Hegel a concepção segundo a qual tanto o mundo objetivo como os próprios seres humanos são produtos da atividade humana, de seu próprio trabalho. Como parte dessa compreensão, a atividade é entendida como “ação conjunta dos homens”, portanto como atividade social, genérica e, por conseguinte, histórica. Assim, a natureza humanizada, como produto da objetivação, é também reputada como produto ativo, histórico. Contudo, Marx pontua que a atividade em Hegel se compreende apenas como espiritual, atividade do pensamento, e não sensível. Como indicamos, a produção sensível exterior vale como objetividade na qual os seres humanos se reconhecem a si mesmos, seja ao intuir- se nas ações simples, como no exemplo da criança que lança a pedra na água, seja ao conhecer-se em sua essência universal nas formas complexas, como a arte. A prioridade é sempre da consciência. Em consonância com isso, o ser humano se eleva acima da natureza, da qual faz parte, na medida em que sabe da sua natureza animal. O ser humano é, portanto, anfíbio: vive em dois mundos contraditórios, um que carrega a pura negatividade e outro que traz a pura positividade.

A objetivação é entendida muito diversamente por Marx. Nesse processo, os seres humanos se transformam não apenas em seu saber, mas em sua natureza sensível. A natureza humana traz a forma da sua humanidade, e a consciência mesma é uma faculdade derivada do processo de humanização dos sentidos. Em sua concepção, portanto, há um só mundo, o mundo sensível humano, a natureza humanizada. N’A

ideologia alemã, Marx explicita a diferença que existe entre as duas formulações de

objetivação:

Longe de ser verdade que “a partir do nada” eu faço a mim mesmo, por exemplo, como “falante”, diríamos que o nada que aqui serve de base é um algo bastante diversificado,

o indivíduo real, seus órgãos da fala, um estágio determinado do desenvolvimento físico, a língua e os dialetos existentes, ouvidos capazes de ouvir e um meio ambiente humano que produz sons audíveis etc. etc. Portanto, na formação de uma qualidade, algo é criado de algo por meio de algo, e nunca tal como na lógica hegeliana, em que algo é criado do nada por meio de nada e para nada. (Id. A. 153-154).

Mas essa diferença central acarreta considerações as mais distintas sobre a sensibilidade humana. Em Hegel, os desejos direcionados a apreensões sensíveis são os menos adequados ao humano, e a ação que se toma quando sujeito desses desejos não é livre. Em Marx, esses desejos adquirem a forma de desejos humanos, e quanto mais o seu objeto é humano, mais humano é também o impulso subjetivo. São desejos livres na medida em que seu objeto é criado para si. Lembramos ainda que Marx inaugura o caderno dos Manuscritos de 1844 que examinamos aqui pela relação de desejo entre seres humanos, destacando essa relação como parâmetro de humanização precisamente porque é diretamente humana e sensível, natural. Enquanto, na Introdução dos Cursos

de Estética, ao tratar dos desejos sensíveis, Hegel não a menciona. Essa relação parece

refutar a negatividade dos desejos sensíveis, por ser aquela em que sensibilidade e interioridade se confundem da maneira mais imediata.

As consequências dessas diferenças atingem diretamente o escopo da arte. Em Hegel, como abordamos, a efetividade é traçada como viva e florescente, por ser a esfera da determinação e do particular, dotada de um “ânimo caloroso” e de uma “vitalidade completa e concreta”, sem contestar a sua essência negativa como reino da necessidade. O reino espiritual, essencialmente livre, é contudo qualificado como “lei fria”, “conceito morto, em si mesmo vazio”. Em conformidade com a dialética da objetivação, necessária ao espírito com vistas à determinação, a verdade consiste na reconciliação dos opostos – a autoconsciência – que, entretanto, não extingue a oposição e os lados contrários, mas sim, estes persistem como contrapostos na reconciliação. Por conseguinte, o aspecto sensível e natural segue negativo, e o traço ativo e para-si continua pertencendo apenas ao espiritual.

A arte toma daí a sua relevância. Sua finalidade consiste em expor, em sua forma mesma, a verdade que reside na conciliação do espiritual com o sensível. Nela, a ideia se figura sensivelmente, criando-se como belo ou ideal, isto é, um conteúdo espiritual concreto expresso numa forma sensível. Não se dirige à inteligência, como as abstrações: seu conteúdo é necessariamente concreto, do contrário não se mostra em

forma sensível; mas interessa à interioridade, ao ânimo, e não aos sentidos. Nisso, distingue-se dos demais objetos que se relacionam com o ser humano pela mediação do desejo. A beleza sensível artística é espiritualizada porque contém em si a essência humana, de modo que se oferece aos sentidos visando o espírito, e não a sensibilidade mesma.

Embora espiritualizado, o sensível na arte carrega, como toda objetivação, a maldição da matéria, e com isso a arte encontra limites à manifestação do conteúdo espiritual. Em sua capacidade de expressar a essência humana, a arte se torna inferior a outros modos da autoconsciência, como a religião e a filosofia. No seu evolver histórico, a arte perde a possibilidade de figurar o conteúdo ético, universal.

Não abordamos aqui as questões de conteúdo artístico e sua essência mimética, que deixamos para os capítulos seguintes. Só depois dessa apresentação poderemos sugerir uma possível reposta à questão da perda do conteúdo universal, a partir da visão de Marx. Adiantamos que, se para Marx o desenvolvimento do universo “espiritual”, a subjetividade, decorre da humanização da natureza humana, vemos desde logo que não deve haver limite histórico para a figuração de conteúdos humanos na forma sensível: esta é a forma humana. Vimos também que o indivíduo é genérico, suas qualidades subjetivas tomam a forma social. Deste viés, podemos considerar que a singularidade humana sempre é uma forma da universalidade humana, de modo que conteúdos universais, genéricos, podem pertencer a formas particulares de representação. Isso aponta, também, para a ausência de limite histórico para a figuração de conteúdos universais em formas individuais. Retornaremos a esses temas adiante.

Centramos, por enquanto, no caráter sensível do objeto artístico e de sua apropriação subjetiva, quer dizer, a prioridade artística da afecção dos sentidos. Em Marx, uma visão sobre a arte deve necessariamente opor-se à sua desvalorização pelo desenvolvimento da história, pelo fato de que a própria sensibilidade é compreendida em sua forma humana. Como objeto criado pela ação humana para si, dirige-se aos sentidos não em sua natureza imediata, mas sim à sua humanidade. Nos exemplos em que menciona objetos artísticos, estes são abordados como objetos belos, cuja apropriação conforma os sentidos, moldando neles a capacidade de apreciar a beleza.

O objeto belo é, em primeiro lugar, produzido. A natureza, que passa a ser considerada bela, não é suficiente, em seu estado imediato, para conformar o sentido da

beleza. Antes, é a criação ativa de um objeto belo, novo, que produz essa capacidade subjetiva e conduz, historicamente, à apreciação das belezas naturais. Essa ideia é presente em Marx de maneira indireta. Encontramos nos Manuscritos de 1844 casos como o da beleza dos minerais, quando compara os sentidos de um comerciante de minerais, que apenas vê neles o seu valor, e não a sua qualidade concreta, e perdem, assim, seu “sentido mineralógico” (M., 110). Mas, ao se referir à formação dos sentidos, os exemplos de objetos belos cuja apreensão torna os sentidos capazes de apreciar a beleza são de objetos produzidos pela ação humana, com finalidade humana.

Com respeito à produção de objetos belos, encontramos que, assim como toda a produção sensível, a criação artística considera certas determinações objetivas. A subjetividade humana não cria a beleza apenas a partir de si, de sua pura interioridade. Ao comparar o ser humano com as espécies animais, Marx escreve:

o homem sabe produzir segundo a medida de qualquer species, e sabe considerar, por toda a parte, a medida inerente ao objeto; o homem também forma, por isso, segundo as leis da beleza. (M., 85)

No seu sentido mais elementar, a arte é um objeto que se forma pela ação humana “segundo as leis da beleza”. Como vimos, o que é belo aos olhos pode não ser belo aos ouvidos, de modo que a criação tem em vista peculiaridades dos objetos. Contudo, sendo uma criação, é exteriorização e concretização de pulsões humanas, que ultrapassam a medida da espécie.

Por conseguinte, a arte se dirige aos sentidos capazes de apreciar a beleza e, com isso, ainda em sua dimensão mais primordial, a arte é formadora dos sentidos. No processo de sua apropriação como objeto, a arte propicia a sua humanização porque se dirige à humanidade dos sentidos. Isso significa que se dirige aos sentidos como órgãos naturais humanos, no conjunto de suas determinações, portanto aos sentidos práticos e à consciência como modos pelos quais se desenvolve a sensibilidade. Aprimora diretamente os sentidos, mas em sua ampla condição subjetiva, o que inclui aprimorar as relações humanas em que a sensibilidade participa. Nesse sentido amplo, a arte pode desenvolver os sentidos práticos, de modo que pode ser, por exemplo, um fator de humanização das relações entre mulher e homem.

Para desenvolver essas possibilidades da arte, teremos que adentrar o fenômeno artístico em seu conteúdo e forma específicos, para além da sua determinação sensível fundamental. Neste capítulo, ficamos com a ideia de que, para Marx, o processo

histórico de humanização identifica-se com o processo de aprimoramento da sensibilidade humana. Por isso, o traço sensível inerente à arte não traz uma desvantagem do ponto de vista da autoconsciência com relação às outras formas mais diretamente dirigidas ao pensamento, as formas abstratas. Como formadora dos sentidos, forma a subjetividade, portanto a arte é um modo perene da autoconsciência.

Com relação a Feuerbach, Marx se distingue da identificação de arte e beleza natural. A unidade de natureza e arte implica uma separação de subjetividade e objetividade, de modo que tanto a beleza objetiva como a alma estética são inatas, naturais, e não produzidas pela ação humana. Nessa unidade, não se leva em consideração a formação dos sentidos como criação de sentidos internos, na medida da relação com o sentido humano cristalizado no objeto. Como vimos, em Marx, a arte faz sentido para o indivíduo enquanto exteriorização de forças humanas, e a própria apreciação (não artística) de belezas naturalmente dadas se possibilita inicialmente pela produção ativa da beleza para si.

Em ambas as críticas, diretas ou indiretas, às noções de Hegel e Feuerbach, vemos que a criação de um objeto sensível para o sujeito cria também um sujeito sensível ao objeto. Ao objeto sensível criado como beleza pertencem conteúdos humanos e universais. Reciprocamente, à sensibilidade humanamente criada pela apropriação desses objetos pertence o universo subjetivo.