Como foi visto no item anterior, ainda há muito que se conquistar em termos de simetria de poder, mas não podemos deixar de frisar que as mulheres já conquistaram, aos poucos, pela própria capacidade de reivindicar, o direito à educação, ao voto, à independência econômica. A luta, ainda permanece pela igualdade salarial e acesso às profissões e cargos mais valorizados; por direitos sexuais e reprodutivos; pela partilha do trabalho doméstico; e pela paridade na representação política entre homens e mulheres, como mostra Carvalho (2009).
Como destaca Quirino (2011), no que tange à relação de gênero e mundo do trabalho hoje a questão não se reduz apenas a ressaltar os aspectos negativos das contradições vividas pela mulher e, mais uma vez, a buscar a redefinição do seu papel nos espaços públicos e privados. De acordo com a autora, outras questões convergem na busca de avanços e nos retrocessos, espaços de lutas e conquistas rumo à desnaturalização das desigualdades sociais, as quais multiplicam estereótipos, menosprezam a diversidade cultural e supervalorizam as diferenças biológicas e culturais existentes entre homens e mulheres. A mesma autora afirma ainda:
A pouca visibilidade dada ao trabalho da mulher, tanto em relação às atividades econômicas exercidas por elas, quanto pela importância da sua contribuição para a esfera produtiva, assinalam a desvalorização a qual são submetidas por sua condição feminina. Para tal análise, no entanto, é necessário que se considere os diferentes momentos históricos, as limitações ditadas pela ordem de gênero presentes em cada sociedade – como um padrão historicamente construído – de relações de dominação e poder entre homens e mulheres que, impregnado de determinados modelos de feminilidade e de masculinidade, atravessa as estruturas sociais. (QUIRINO, 2011, p. 25)
Não podemos nos furtar à compreensão de que já somos muitas nas mais diferentes áreas da produção. Entretanto, de acordo com a Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (2009), mesmo no terceiro milênio ainda encontraríamos no imaginário de muitas pessoas a persistente ideia de que mulher não teria vocação ou capacidade para ocupar determinadas funções que seriam reservadas aos homens.
Também ainda persistiria a ideia de que existiriam profissões femininas e masculinas, profissões para negro, branco, índio.
Indo ao encontro da reflexão anteriormente exposta, Maruani (2009) afirma que, analisar a situação das mulheres no mercado de trabalho e o emprego feminino torna-se o fio condutor para compreender o seu espaço na sociedade. Para a autora, o fato de a maioria delas não deixar de atuar quando se tornam mães mostra o fim das descontinuidades de suas trajetórias profissionais – uma verdadeira ruptura em relação às normas sociais anteriores.
De acordo com Silva (2010), reconhecer o papel das mulheres trabalhadoras implica identificar e admitir sua participação nos espaços públicos, o que, até o início do século XX, não era comum. No entanto, a autora elucida que elas sempre trabalharam, pois os afazeres domésticos, os cuidados com os filhos e com a casa configuram trabalho, embora não remunerado e pouco considerado por ser praticamente invisíveis. Ressalta, ainda, que, apesar de todas as resistências, o ingresso delas em postos laborais fora do ambiente familiar aconteceu. No entanto, essa inclusão se deu de forma subalterna e na periferia do capitalismo.
Como mostra Devreux (2009), a contribuição das mulheres para a produção econômica e sua presença no mercado de trabalho constituem precisamente desvios em relação à “norma” da repartição entre o papel expressivo feminino da esposa-mãe que se consagra à vida doméstica e aos cuidados das pessoas, exercendo sua função afetiva no âmbito da família. Dessa forma, o desafio é, fazer aparecer a contribuição, muitas vezes invisível, das mulheres para a vida econômica.
A propósito, conforme Toledo (2008), o capitalismo e a sociedade burguesa, que tantas esperanças trouxeram à mulher no sentido de emancipá-la da servidão doméstica e do papel subalterno que a sociedade feudal lhe reservou, não conseguiram cumprir suas promessas. Segundo a autora, discriminada como trabalhadora e como mulher, ela conseguiu reunir, dentro do capitalismo, a maior lista de reivindicações que qualquer outro setor social jamais conseguiu em toda a sua história. Toledo (2008) frisa ainda que a mulher alia as reivindicações de todos os trabalhadores – emprego, salário e condições de trabalho – às suas necessidades específicas como mulher – licença maternidade, direito a decidir sobre seu corpo, creches para cuidar de seus filhos e o fim da violência doméstica – chaga que a sociedade impõe a ela a cada dia com maior brutalidade. Sendo assim, com base nessa autora, concordamos que o grau de emancipação da mulher é o mais importante indicativo do grau de desenvolvimento geral de uma sociedade.
Sobre as condições em que vivem homens e mulheres dentro das sociedades, Kergoat (2009) reforça também que essa situação não é produto de um destino biológico, mas, sobretudo, de construções sociais. Mulheres e homens formam dois grupos sociais envolvidos numa relação específica: as relações sociais de sexo. Estas, como todas as relações sociais, possuem uma base material, no caso o trabalho, exprimem-se por meio da divisão social do trabalho entre os sexos – chamada de divisão sexual do trabalho.
Tal divisão do trabalho se relaciona à forma de repartição decorrente das relações sociais de sexo e possui sua forma historicamente adaptada a cada sociedade. Tem por características, a destinação prioritária dos homens à esfera produtiva e das mulheres à esfera reprodutiva e, simultaneamente, a ocupação pelos homens das funções de forte valor social agregado (políticas, religiosas, militares, etc.). Essa forma de divisão social do trabalho tem dois princípios organizadores: o da separação (existem trabalhos de homens e trabalhos de mulheres) e o da hierarquização (um trabalho de homem vale mais do que um trabalho de mulher). (KERGOAT, 2009, p. 67).
Assim, Cattanêo e Hirata (2009) afirmam que a divisão sexual do trabalho possibilita a organização flexível do trabalho: o trabalho assalariado das mulheres, principalmente sob a forma de tempo parcial compulsório, e o trabalho assalariado dos homens, possibilitado pelo trabalho doméstico das mulheres. Segundo essas autoras, a implantação dessa divisão sexual é possível à medida que haja legitimação social. É em nome da conciliação da vida familiar com a vida profissional que tais vínculos empregatícios são propostos às mulheres. A diferença salarial também é socialmente legitimada pela representação usual do salário feminino como renda complementar.
Tais afirmações nos remetem de volta às reflexões de Quirino (2012) sobre o trabalho feminino no Brasil. Segundo, ela a partir da década de 1970 até os dias atuais, a participação das mulheres no mercado de trabalho tem apresentado espantosa progressão. Com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a autora afirma que houve um acréscimo de mais de 10 milhões de trabalhadoras entre 1976 e 201010.
A autora destaca as seguintes causas para o aumento da participação da mulher no mercado de trabalho, dentre outras: o aumento da escolaridade feminina, a queda da
10 Entretanto, Rogerat (2009), mostra que há mais de 20 anos as mulheres ainda predominam dentre os
desempregados, especialmente, os de longo prazo e, sobretudo, os jovens. Também lembramos que a população na década de 70, era 96 milhões de pessoas e em 2010, aumentou para 150 milhões de pessoas.
fecundidade; novas oportunidades oferecidas pelo mercado devido ao desenvolvimento tecnológico e aos novos modelos de organização e gestão da força de trabalho e, finalmente, as mudanças nos padrões culturais que alteraram os valores relativos aos papéis sociais atribuídos a homens e mulheres na sociedade.
No entanto, Quirino (2012) reforça que o crescimento da taxa de participação da mulher no trabalho assalariado, não diminui a responsabilidade dela em relação às atividades domésticas e aos cuidados dos filhos e demais parentes. Assim, permaneceram os modelos familiares tradicionais, provocando sobrecarga para as novas trabalhadoras, que veem o seu trabalho duplicado ou triplicado, como é o caso das educandas da EJA.
Mais recentemente, segundo Lavinas, Cordilha e Cruz (2016), corroborando com Hirata, a mão de obra feminina permanece concentrada nos serviços e no comércio e é amplamente majoritária nas ocupações formais e informais e de tempo parcial. Isso explica, juntamente à imperiosa necessidade de conciliar atividade remunerada e obrigações domésticas, porque o número médio de horas trabalhadas fora de seu lar, semanalmente pelas mulheres é, em média, inferior ao dos homens.
Nesse caminho, também Silva (2010) já afirmava que, mesmo com o processo de emancipação das mulheres, elas não se veem desobrigadas de algumas funções, ao contrário, acumulam atividades e responsabilidades.
Esse fato ocorre porque, como sublinha Machado (2001), apesar de os dados demonstrarem progressiva inserção no mercado de trabalho, várias forças de resistência ainda atuam em sentido contrário, gerando diferenciais sexistas nas condições de exercício profissional, procedentes, basicamente, de uma ordem cultural patriarcal, que sublinha a responsabilidade feminina na esfera doméstica e relega, no campo ocupacional, sua participação a determinados guetos.
Ao mencionarem que ainda hoje as mulheres ocupam cargos e profissões menos valorizadas, as autoras citadas tocaram em um ponto de suma importância no desenvolvimento desta pesquisa. Aprofundando essa ideia, podemos reafirmar que elas ocupam profissões que ainda são consideradas femininas, de cuidado, como por exemplo: professoras, enfermeiras, médicas e empregadas domésticas, sendo esta última profissão comum às entrevistadas deste estudo. Essas profissões consideradas femininas, geralmente estão associadas ao cuidado com o outro, como é argumentado por Helena Hirata:
Se quiséssemos definir de maneira muito rigorosa o que é o care, seria: é o tipo de relação social que se dá tendo como objeto outra pessoa. Descascar batatas é care, mas de uma forma muito indireta: é care porque preserva a saúde, o outro ser. Fazer com que outro ser continue com saúde implica cozinhar, alimentá-lo, pois precisa desse cuidado material, físico. Então, pode-se dizer que tudo faz parte do care, mas aí não teríamos mais uma definição rigorosa de care. Deixar a casa limpa e agradável, deixar a cama cheirosa e agradável, passar o lençol, isso tudo pode fazer parte do trabalho de care da empregada doméstica ou da diarista, que deixa essas tarefas prontas. […] Em números de 2009 (PNAD), seriam, no Brasil, 7 milhões e 223 mil pessoas em emprego doméstico, das quais 504 mil são homens e 6 milhões e 719 mil são mulheres. Será que podemos dizer que todas essas mulheres que fazem o trabalho doméstico remunerado são trabalhadoras de
care? [...] Então, é importante estudar o que é o trabalho doméstico remunerado e o que é a relação social de cuidado, quando ele se profissionaliza (HIRATA, 2010, p.48).
O cuidado não é apenas uma atitude de atenção, é um trabalho que abrange um conjunto de atividades materiais e de relações que consistem em oferecer uma resposta concreta às necessidades dos outros. Assim, podemos defini-lo como uma relação de serviço, apoio e assistência, remunerada ou não, que implica um sentido de responsabilidade em relação à vida e ao bem estar de outra pessoa, como afirma Kergoat (2016) com base no Colóquio Internacional “Teorias e práticas do cuidado”, realizado em Paris em Junho de 2013.
Complementando o argumento acima, Marcondes (2013) salienta que o cuidado de pessoas é elemento estrutural sob o qual construiu socialmente como trabalho feminino. Segundo ela, seja em casa, nos hospitais ou nas escolas, as mulheres cuidam das pessoas. Desde a infância até se tornarem idosas, as mulheres cuidam de crianças, idosos, deficientes e, até mesmo, de homens adultos. A existência social feminina, de acordo com a autora, ficaria restrita a realizar-se à medida que elas cuidam das pessoas. E, apesar de ser uma atividade essencial para a sustentabilidade da vida humana, quem cuida é desvalorizado.
Para Hirata (2016), a análise do trabalho de cuidado confirma a ideia da centralidade do trabalho das mulheres nas instituições ou em domicílio, realizado gratuitamente, ou, como uma atividade remunerada. Apesar das diferenças societais, ela também confirma a ideia de que este constitui uma das múltiplas facetas do trabalho precário: mal remunerado, pouco reconhecido e pouco valorizado. Em domicílio, ele é muitas vezes realizado, na Europa, por imigrantes e sem documentos e, no Brasil, por empregadas domésticas ou faxineiras sem relações formais de emprego.
Também Abramo e Valenzuela (2016) ressaltam que o cuidado está baseado quase inteiramente sobre o trabalho das mulheres. Nesse contexto, as trabalhadoras
domésticas desempenham um papel de suma importância, à medida que o ofício dessa categoria é estratégico para que outras mulheres possam se inserir no mercado de trabalho.
Entretanto, de acordo com as autoras citadas acima, se por um lado o trabalho doméstico está na ponta da cadeia de cuidado, por outro representa o elo mais fraco dessa cadeia, pois essa ocupação carece de proteção social e de condições de exercício adequadas. Com efeito, em vários países as trabalhadoras não têm acesso legal à aposentadoria, e mesmo naqueles em que elas estão protegidas pela legislação o nível de não cumprimento é elevado. São poucos os países Latino-americanos (Brasil, Costa Rica e Panamá) em que a quantidade de trabalhadoras domésticas com contrato formal de trabalho e que contribuem à Previdência Social ultrapassa 25% do total; e, em apenas dois (Chile e Uruguai) essa porcentagem é superior a 40%.
A propósito, a Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (2009) corrobora as informações anteriores. Segundo esse grupo, as profissões femininas ligadas às atividades do cuidar são, de certo modo, decorrentes das atividades relacionadas à vida familiar. Daí a predominância de mulheres em cursos que as levam às atividades ligadas ao Magistério, à Enfermagem, à Nutrição, ao Serviço Social, à Psicologia e mesmo à Medicina, por exemplo. Observamos, pois, que se especializam, sobretudo, em áreas ligadas aos problemas enfrentados por elas, como ginecologia, obstetrícia ou pediatria.
Por outro lado, tem ocorrido, segundo Silva (2010), crescente redução do hiato salarial existente entre trabalhadoras e trabalhadores nos últimos anos e uma incorporação, cada vez maior, das mulheres no mercado de trabalho, bem como, elevação do seu nível de escolaridade a patamares superiores aos dos homens. Baseando-se na tese de que a feminização do mundo do trabalho leva pouco apouco à precariedade de toda a classe trabalhadora em geral. A autora questionasse, a tendência atual é, de fato, o aumento dos rendimentos reais das mulheres ou a redução acentuada dos salários dos homens.
Apesar da importância em termos numéricos (as mulheres já representam mais de 50% da população – como mostram dados do IBGE de 2010), e da maior escolaridade e da crescente inserção no mercado de trabalho, as mulheres brasileiras, além de receberem salários inferiores aos dos homens, desempenham atividades de menor status social, ainda têm uma expressão consideravelmente menor que a dos homens em cargos de prestígio e poder, seja na esfera política seja à frente de grandes organizações e, até mesmo, na mídia.
A diferença de renda existente entre homens e mulheres é bastante expressiva. Tal desigualdade traz consequências negativas durante a vida produtiva da população feminina e depois dela, já no momento da aposentadoria, como apontou Benedito (2008). Essa autora mostra que, à medida que as mulheres contribuem em menor número para a Previdência Social durante a vida produtiva, haverá um significativo número de mulheres idosas sem condições de obter a aposentadoria, dependendo do Estado para sobreviver.
Tais fatos, ainda de acordo com a mesma autora, ocasionam à trabalhadora negra uma velhice cercada de dificuldades para obter aposentadoria por tempo de trabalho ou um Fundo de Previdência Privada Complementar, já que a contribuição precisa ocorrer ao longo do período ativo da vida do indivíduo. Logo, quando idosas não possuem mais condições de trabalho e nem de sustento. Vemos, por exemplo, a nossa entrevistada Rose dos Anjos, como veremos mais detalhadamente no decorrer dessa tese, afirma que se precavê, pois paga seu INSS como autônoma. Entretanto, ela se constitui exceção no grupo dos sujeitos entrevistados.
Mesmo com o contínuo crescimento da presença feminina no mercado de trabalho, e o destacado aumento de presença de mulheres na área de educação e o seu consequente acesso a ocupações e profissões antes consideradas masculinas e de maior prestígio, segundo as estatísticas oficiais, a participação das mesmas nos espaços de trabalho, poder e decisão continua sendo um desafio para a sociedade brasileira (QUIRINO, 2012, p. 12). Nesse sentido, Silva (2010) mostra que, no Brasil, mesmo possuindo maior escolaridade, a proporção de mulheres dirigentes (4,4%) ainda é inferior à dos homens (5,9%).
As mulheres, de acordo com Lavinas, Cordilha e Cruz (2016), têm mais facilidade de ingressar no mercado de trabalho quando a proporção de empregos de até dois salários mínimos é maior. As autoras observam que a predominância de baixas remunerações acentua as assimetrias, pois as mulheres tendem a ocupar as vagas de pior remuneração.
Posto isso, voltamos a Silva (2010) que conclui que o capitalismo usa a divisão sexual e as diferenças de gênero no mundo do trabalho para estimular a competição entre os/as trabalhadores/as, baixar o nível de salários e não lhes atribuir os rendimentos devidos. A mulher é sinônimo de trabalho barato e, como lembra Marx, embora teoricamente o valor da força de trabalho seja, em média, o mesmo para todos os trabalhadores, na prática a força de trabalho pode ter diferentes valores de troca.
Contudo, a mesma autora também compreende o trabalho doméstico como fundamental para a manutenção da vida em sociedade, pois este está intimamente relacionado à família que se configura como uma importante instituição social em todas as sociedades conhecidas até hoje. No entanto, a SILVA (2010) argumenta que, somente com a industrialização o trabalho feminino ganhou visibilidade. Assim, por exemplo, o trabalho fabril, fora do ambiente doméstico levou as mulheres a ocuparem outros espaços, fazendo-as transitarem cada vez mais pelos espaços públicos.
Adverte-nos, porém, essa mesma autora, que é necessário nos desvencilharmos da ideia do modelo de trabalho feminino como fenômeno novo na sociedade brasileira, pois, há muito tempo as mulheres brasileiras já estão exercendo atividades produtivas, não apenas nos espaços públicos, mas principalmente, nos espaços domésticos. Notadamente no Brasil desde o séc. XVIII.
Entretanto, recorremos novamente a Kergoat (2009) para avançar mais além na análise da hierarquização das ocupações femininas. A autora aponta que a dualização interna ao emprego feminino, ou seja, ao lado da precariedade e da pobreza de um número crescente de mulheres, assistimos ao aumento dos capitais econômicos, culturais e sociais de uma proporção de mulheres ativas e isso não pode ser desconsiderado. Assim, vemos surgir, pela primeira vez na história do capitalismo, uma camada de mulheres cujos interesses diretos (não mediados como antes pelos homens: pais, esposos, amantes, etc.) se opõem, frontalmente, aos interesses de outras mulheres abrangidas pela generalização do tempo parcial, dos empregos muito mal remunerados e não reconhecidos socialmente e, em geral, mais atingidas pela precariedade, como as empregadas domésticas.
Conforme destaca Saffioti (2013)11,a concentração de mulheres em certas áreas dos empreendimentos econômicos variou segundo a estrutura econômica da nação e a plena constituição da formação econômico-social capitalista no Brasil expeliu força de trabalho feminina. Segundo os dados oferecidos pelo primeiro recenseamento efetuado no Brasil, em 1872, e excluindo-se as pessoas categorizadas como sem profissão, as mulheres representavam 45,5% da força de trabalho efetiva da nação, sendo que 33% desse total se ocupava no setor de serviços domésticos. Da totalidade da população
11Em 1967, Saffioti defendeu sua tese de livre-docência na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de
Araraquara da Universidade Estadual de São Paulo (UNESP), sendo orientada pelo professor Florestan Fernandes. Este trabalho gerou uma obra-prima – um livro publicado em 1976 sob o título: A Mulher na Sociedade de Classes: Mito e Realidade. Nesta tese, trabalhamos com a edição de 2013 deste mesmo livro.
empregada nesse setor, as mulheres representavam nada menos que 81,2%. É preciso, segundo a autora, considerar que a estrutura da economia brasileira de então, por ser muito pouco diferenciada, concentrava os maiores contingentes masculinos e femininos na agricultura, vindo em seguida os serviços domésticos para as mulheres.
Do total de homens ocupados nessa época, 68% dedicava-se à agricultura. Das mulheres ocupadas, 35% estavam empregadas na agricultura, 33% nos serviços domésticos, 20% como costureiras, 5,3% nas indústrias de tecidos e 6,7% em outras atividades.
Em 1900, 52,6% da totalidade das mulheres economicamente ativas se dedicavam aos serviços domésticos. O restante dedicava-se, principalmente, à agricultura, indústrias manufatureiras, artes ou comércio.
Ainda de acordo com Saffioti (2013), por volta de 1950 o número de mulheres dedicando-se a atividades domésticas aumentou consideravelmente. Na categoria de atividades domésticas não remuneradas e atividades escolares discentes, dentre a população de 10 anos e mais, as mulheres representavam 90,3%, caindo sua participação nas atividades diretamente econômicas para 14,7% em relação ao total de