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İndirilecek Giderler

ALINAC AK TUTAR

8. İndirilecek Giderler

Entre todas as formas de opressão, de acordo com Toledo (2008), exercidas contra a mulher na sociedade capitalista, a de gênero tem um caráter distinto das demais porque atinge mais da metade de toda a espécie humana (52% da população mundial era feminina). Apesar de sê-lo em graus e intensidades diferentes, a opressão de gênero atinge burguesas e trabalhadoras, e, no caso destas últimas, combina-se com a exploração, agravando ambas, ressalta. E, na classe trabalhadora, é a mulher negra que concentra o mais alto grau de opressão: por ser negra, mulher e trabalhadora. E é com base nessa afirmação que desenvolvemos este tópico.

A distribuição ocupacional entre brancos e negros no mercado de trabalho de acordo IPEA16 traz os setores com piores condições de remuneração, de estabilidade, de proteção e com a maior participação de negros, como se vê: na agricultura (60,3% dos ocupados são negros), na construção civil (57,9%) e nos serviços domésticos, foco dessa tese, 59,1%.

Já a população branca se concentra em setores com maior remuneração e melhor estabilidade, como por exemplo: a indústria de transformação (56,5% dos ocupados são brancos), o comércio e os serviços não-financeiros (54,5%), os serviços financeiros (62,5%), a administração pública, os serviços sociais e de utilidade pública (57,2%).

A população negra está representada nas posições mais precárias da estrutura laboral: trabalhadores não remunerados (55,0% deles são negros), assalariados sem carteira (55,4%) e trabalhadores domésticos (59,1%). Posto isso, a população branca tem maior representação nas posições mais estruturadas: assalariados com carteira assinada (57,2% deles são brancos) e empregadores (71,7%).

Assim, com base nos dados do IPEA, vemos a assimetria de poder expressa no acesso aos postos de trabalho, ficando os negros com as ocupações de menor remuneração.

Segundo Benedito (2008), nas regiões Norte e Nordeste as mulheres negras, além de estarem submetidas a todos os mecanismos discriminatórios, estão expostas à

16 Disponível em: http://www.ipea.gov.br/sites/002/pdf/08_05_13_120anosAbolicaoVcoletiva.pdf.

exploração sexual desde a mais tenra idade. As demais regiões do país persistem em oferecer às negras somente o subemprego, tais como os serviços domésticos, pelos quais recebem baixos salários. Os direitos trabalhistas não são respeitados, mantendo as trabalhadoras negras em condição de desigualdade.

Desta forma, para Benedito (2008), apesar do número de vagas de trabalho para mulheres ter crescido consideravelmente na última década no mercado de trabalho brasileiro, isso não significou necessariamente novos padrões de inserção das mulheres negras.

A propósito, o relatório A participação das mulheres negras nos espaços de poder, publicado pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, (BRASIL, 2011), afirma que a parcela da população afastada dos espaços de poder tem cor, sexo e classe definidos. Haja vista que a maioria dos ocupantes de cargos no Executivo e no Legislativo é constituída por homens, brancos, heterossexuais e proprietários de diversos bens, o que evidencia a herança colonialista ainda longe de ser superada.

Isso contribui, segundo o relatório supracitado, para que as mulheres sejam tradicionalmente encarregadas das tarefas domésticas e do cuidado com as(os) filhas(os), acarretando o acúmulo de duas jornadas de trabalho (trabalho remunerado e trabalho doméstico/familiar), o que torna mais difícil seu envolvimento com atividades partidárias. Em geral, as poucas mulheres que buscam atuar na política tendem a acumular menos encargos domésticos, por conta de seu estado civil ou posição social e, sobretudo, por contarem com a assistência de outra mulher (trabalhadora doméstica, babá, cuidadora), geralmente negra, para administrar o trabalho do lar e o cuidado da família. (BRASIL, 2011, p. 12)

Esse mesmo relatório destaca, ainda, que as mulheres negras compõem o grupo com piores condições de vida, uma vez que incidem sobre elas dois diferentes eixos de opressão: sexo e cor, gerando estereótipos e condições sociais idiossincráticas.

Durante o período da pós-escravatura, de acordo com Davis (2013)17, a maior parte das mulheres negras trabalhadoras que não estava na lida dos campos foi forçada a torna -se criada doméstica. Enquanto as mulheres negras trabalhavam como cozinheiras, amas, criadas de quarto e todas as propostas domésticas. As mulheres brancas que

trabalhavam como domésticas eram geralmente imigrantes europeias que, como as ex- escravas, eram forçadas a aceitar qualquer trabalho que encontrassem.

Os salários recebidos pelas mulheres brancas domésticas eram sempre fixados pelo critério racista usado para calcular os salários das criadas negras, como aponta Davis (2013). As mulheres imigrantes ganhavam mais. Em termos salariais, elas estavam mais próximas das mulheres negras do que de homens brancos que trabalhavam para viver. De acordo com autora, se as mulheres brancas aceitavam o trabalho doméstico, apenas se não encontrassem nada melhor, as mulheres negras ficaram aprisionadas nessa ocupação até a II Guerra Mundial.

Nessa direção, ressaltamos, com base em dados da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (2009), que o emprego doméstico no Brasil se consolida com a Revolução Industrial, no início do século XX. Como citado por outros autores, originou-se dos trabalhos desenvolvidos na casa grande pelas mucamas, amas de leite, ama-seca, entre outras denominações usadas pelos colonizadores escravistas às cuidadoras da casa grande.

De acordo com dados da Articulação anteriormente citada, datam, também, desse período as diferentes formas de organização, de resistência e de luta das mulheres negras para garantia do sustento familiar e da preservação da cultura de matriz africana. Desse modo, analisando as raízes históricas do trabalho doméstico, verificamos que as meninas negras, em decorrência da pobreza familiar e das comunidades onde residem, são introduzidas ao trabalho doméstico familiar nos primeiros anos de vida. Como já evidenciamos anteriormente, essa situação é naturalizada como prática cotidiana das famílias em situação de pobreza. Assim, a passagem para o trabalho doméstico remunerado,em muitos casos somente em troca de casa e comida, torna-se um desdobramento tomado como natural na vida para mulheres negras em situação de vulnerabilidade social.

Ainda de acordo com a Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (2009), o estudo do serviço doméstico é, portanto, indispensável para compreendermos a situação de milhões de mulheres negras no Brasil. Por apresentar características muito específicas em termos socioeconômicos, o trabalho doméstico é o principal meio de sustento e de manutenção de muitas famílias, principalmente as chefiadas por mulheres. Ele ilustra a subordinação que ainda recai sobre as mulheres negras, pois não apenas define um lugar na estrutura ocupacional, mas também marca uma diferença – ou

desigualdade – pela relação que se estabelece no trabalho em virtude das diferenças de raça/cor, de classe social, de escolarização e de origem regional.

Segundo Kofes (2001), a palavra escravidão é constante no discurso das empregadas domésticas, seja se referindo à explicação de sua própria existência como empregada doméstica em um sentido histórico propriamente dito (antes era escrava, agora é empregada doméstica); ou se referindo à situação presente, expressando a ausência de tempo e espaço livres, e de liberdade, causado, principalmente, pela alta carga de trabalho (“trabalho de escravo”). Nesse último sentido, a alusão à escravidão também é encontrada no discurso das patroas para se referir ao trabalho doméstico.

A população negra ainda enfrenta uma série de preconceitos quanto às ocupações por ela exercida, por serem, em geral, as menos qualificadas e menos reconhecidas socialmente. Como afirma Kofes (2001), ainda é comum, no Brasil, o uso de expressões que relacionam “serviços menos qualificados” e “serviços mal- feitos” como sendo “serviços de negros”. Somado a isso, ainda é muito comum a associação entre empregada doméstica e negra; e “ser da cozinha”, com negritude e escravidão, apesar de já haver se passado mais de um século desde a Abolição da Escravatura no Brasil.

Além das desigualdades socioeconômicas, a opressão de gênero e raça produz também a violência simbólica. De acordo com o Plano Nacional de Políticas para as Mulheres, as mulheres negras são consideradas feias, sujas, preguiçosas, hipersexualizadas, burras, resistentes à dor e ao cansaço físico. Essa definição social degradante torna a figura da mulher negra pouco atraente para os partidos políticos, uma vez que a vitória nas eleições depende, entre outros fatores, da capacidade de cativar eleitora(es). Assim, elas estão no último degrau da escala de valor social na qual, no topo estão os homens brancos. Estes se beneficiam de representações positivas como competência, inteligência, racionalidade e capacidade. (BRASIL, 2011, p. 16)

As condições de vida da maioria dessa população e a violência simbólica que as acomete não impedem sua atuação em movimentos sociais, associações de bairro e religiosas ou campanhas eleitorais. Entretanto, as desigualdades de gênero e raça também influenciam as dinâmicas no interior desses grupos, cujas atividades atribuídas são consideradas menos importantes e não são remuneradas. Por exemplo: podemos citar as atividades relacionadas ao cuidado, as que exigem menos qualificação técnica e elaboração mental, e as que não exigem dedicação em tempo integral. Tais atividades

permitem que elas continuem desempenhando as funções de cuidado junto da família. (BRASIL, 2011, p. 17)

Quanto às condições de vida da população negra no Brasil, segundo o texto da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (2009) estas eram significativamente piores se comparadas às da população branca, em qualquer que seja a variável e em todas as áreas sociais observadas. O estudo mostrou os seguintes dados: o percentual da população negra abaixo da linha da indigência é quase três vezes maior que o da população branca; a população negra representa 68% dos pobres e 71% dos indigentes do país; o percentual de analfabetismo entre os negros é de 13,6% contra 6,2% da população branca; em média um trabalhador negro ganha pouco mais da metade do que ganha um trabalhador branco.

As desigualdades raciais e de gênero no Brasil apontadas, em resumo, são persistentes e expressivas ao longo dos anos, e a dimensão dessas desigualdades não pode ser explicitada unicamente pela condição socioeconômica. Parte significativa dessas desigualdades decorre da existência de mecanismos discriminatórios associados à raça/cor e ao gênero.

Diante das contribuições apresentadas e com base no estudo de Neves (2009), afirmamos que as discriminações de gênero e raça, entre outros fatores, funcionam ideologicamente estruturando os padrões de desigualdade e exclusão social. Criam a ilusão de contingência, o que se reflete no mercado de trabalho, no qual as mulheres,especialmente as mulheres negras, vivenciam as situações mais desfavoráveis. Segundo os dados da PNAD de 2011, apresentados pela autora, o emprego doméstico em Belo Horizonte, representava 24,7% do total da ocupação das mulheres negras e 12,3% do total da ocupação das mulheres não negras. Ou seja, o dobro na comparação entre elas.

Ainda de acordo com dados da PNAD de 2011, existiam naquele ano 6,6 milhões de pessoas trabalhando em serviços domésticos no Brasil, e destas, 92,6% eram mulheres. O trabalho doméstico correspondia, em Belo Horizonte, a 16,8% da ocupação feminina. Os 84% restante encontravam-se, principalmente em profissões como, por exemplo: enfermeiras, professoras, médicas, recepcionistas, dentre outras.

Complementando os dados da PNAD de 2011, conforme afirmação de Girard- Nunes e Silva (2013) houve, mesmo antes da promulgação da PEC das Domésticas, progressiva melhoria das condições de trabalho e situação de proteção social das empregadas domésticas. No entanto, quando comparado com outras profissões,

podemos perceber que o índice de formalização entre as trabalhadoras domésticas é ainda muito baixo.

Também conforme os dados da PNAD (2011)18, enquanto a proporção média nacional de trabalhadores empregados com carteira de trabalho assinada foi de 59,8%, entre as empregadas domésticas esse índice foi de 24,5%. A explicação desse resultado, na visão de Girard-Nunes e Silva (2013), é que, na hora de assinar o contrato, há uma aceitação da injustiça social. Acreditamos, porém, com base nos depoimentos coletados nesta pesquisa, que não se trata de aceitação, mas sim de desconhecimento de direitos.

Posto isso, também Santana (2003) ressaltou que o trabalho doméstico reforça a teia mantenedora do espaço privado reservado à figura feminina, reproduzindo relações de gêneros. De mesmo modo, Silva (2008) acrescenta que o trabalho doméstico é fundamental para compreendermos a situação das mulheres negras no Brasil, pois a categoria sócio-ocupacional maciçamente feminina e majoritariamente negra apresenta características muito específicas em termos socioeconômicos. Essas mulheres não só contribuem para o sustento e a manutenção de muitas famílias, mas, na maioria das vezes, elas são as únicas provedoras do lar. “Esse tipo de relação de trabalho ilustra a desvantagem, a marginalização e a exclusão dessas mulheres, pois define um lugar na estrutura ocupacional marcado por desigualdades em virtude das diferenças étnico- raciais, de classe social e de origem regional”. (SILVA, 2008, p. 121).

Informa-nos, também, essa autora que, à época, a maior parte das trabalhadoras domésticas era constituída por mensalistas com carteira e/ou sem carteira de trabalho assinada, havendo diferenças entre negras e brancas. Com relação às empregadas domésticas mensalistas, segundo a autora, a proporção é menor entre as negras do que entre as brancas. As empregadas mensalistas com carteira de trabalho assinada são as que, em tese, se encontram na melhor situação comparativamente às outras trabalhadoras domésticas, em razão do reconhecimento formal de seu vínculo de trabalho. A autora mostra que, no ano de 2004, enquanto entre as trabalhadoras domésticas brancas, 28,6% possuíam carteira de trabalho assinada, apenas 22% entre das negras possuíam.

Quanto à educação formal, Silva (2008) referindo-se aos dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), mostra que a escolaridade da maioria das trabalhadoras domésticas estava concentrada no Ensino Fundamental incompleto. O que

18Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/trabalhoerendimento/pnad2011,

significa menos de oito anos de estudo. Mesmo assim, as trabalhadoras domésticas brancas apresentam um nível ligeiramente superior ao das mulheres negras. Além disso, as informações sobre o rendimento das empregadas domésticas indicam que as mulheres negras continuam ganhando menos do que as mulheres brancas.

Diante de todo exposto acima, citamos ainda Almeida Neto (2014), que afirma que para ele, parece claro que a atividade de empregado(a) doméstico(a) foi há bastante tempo “definida” em três categorias principais: sexo, classe social e cor. Antes na figura dos escravos e, principalmente, mulheres; hoje, mulheres de classes sociais inferiores e, principalmente, negras.

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Benzer Belgeler