F. MADDÎ HUKUK BAKIMINDAN BORCUN TAKSİTLE ÖDENMESİ
IV. Taksitle Ödeme Taahhüdünün Hüküm ve Sonuçları
A obra Essai de phonétique et de phonologie de la langue portugaise, d’après le
dialecte actuel de Lisbonne (1883) inaugura uma nova fase nos estudos de fonética e de fonologia em Portugal. Referindo-se a esta obra, Maria Helena Mira Mateus (2001, p.1) diz: “A primeira descrição de conjunto do sistema fonético do português surge em 1883, no estudo de Aniceto dos Reis Gonçalves Viana com um título que inclui já o termo fonologia [...]”.
Essa inclusão dos termos intitulares fonologia, fonética e dialeto por Gonçalves Viana é realmente importante pelo seu pioneirismo e porque evidencia o seu objeto de estudo: o dialeto atual de Lisboa; e a sua metodologia principal: Fonética e Fonologia.
O uso desses termos, no entanto, não era inovador, mas sim, o significado peculiar que eles tinham para a ciência produzida no século XIX. Neste momento, havia um novo olhar sobre o significado da língua e da linguagem, fazendo com que esses termos peculiares se harmonizassem com a Linguística do século XIX.
Essai de phonétique et de phonologie... (1883), por exemplo, emerge no contexto em que a língua é entendida como uma “totalidade organizada”92, podendo ser estudada em si mesma e sistematicamente, sem se preocupar com a sua filiação no
91 Gonçalves Viana insere, na obra, diversos comentários e exemplos da origem e transformação
de palavras portuguesas (e de diferentes dialetos), colocando comentários que envolvem exemplos literários ou não literários.
79 quadro da origem das línguas, como ocorria no estudo do indo-europeu; ou em conjunção com os estudos da retórica, da lógica, da poética etc. como era antes do comparativismo. Portanto, a obra é inovadora em seus termos Fonética e Fonologia, que estão em conformidade com as ideias linguísticas de seu tempo. O destaque para o termo dialeto, já no título, também integra o quadro renovador desses estudos em Portugal.
Nesse tempo, houve, ainda, a preocupação de se criar métodos específicos para investigar dados de fala em suas diversas variedades (não só a fala padrão), o que ajudou a desenvolver novos ramos nos estudos linguísticos. O campo da dialetologia e o da Geografia Linguística, por exemplo, desenvolveram técnicas e direcionaram-se à Sociolinguística, posteriormente.
Na Fonética europeia do século XIX, os aspectos: físico, fisiológico, acústico e auditivo, envolvidos no processo da fala dialetal, também tiveram grandes progressos. Houve, ainda, a criação de laboratórios de fonética a partir do surgimento e/ou da sofisticação de equipamentos para a análise da fala, como as imagens radiográficas de E. A. Meyer, o simulador da fala humana de Wolf von Kempelen, o cilindro de Erasmus Darwin, o fonoautógrafo de L. Scott (e aperfeiçoado por Koenig), o quimógrafo, bastante difundido por Abbé Pierre Rousselot etc.
Tudo isso fez com que a Fonética se orientasse para bases científicas mais sólidas no final do século XIX e início do século XX, fato que contribuiu muito com a linguística, sobretudo com a dialetologia e com a fonologia que puderam compreender mais de perto os dados de fala em sua relação com o sistema da língua.
Foi nesse contexto que grandes foneticistas, como Eduard Sievers (1850-1932), por exemplo, conseguiram delimitar a Fonética e a Linguística fora do domínio da Biologia e da Fisiologia, o que significou um passo importante para a Linguística, enquanto uma ciência. Não é por acaso que o Círculo de Praga, no início do século XX, definiu os rumos da Linguística, que se tornou uma ciência autônoma, uma vez que, na virada do século XIX para o XX a reflexão linguística já estava madura para isso.
Para Henry Sweet, ilustre foneticista do século XIX e colega de Gonçalves Viana, a fonética é o fundamento dos estudos da linguagem de todos os tempos. Ele diz: “The importance of phonetics as the indispensable foundation of all study of language, whether that study be purely theoretical, or practical as well, is now generally
80 admitted”93 (SWEET, 1877), demonstrando a visão dos foneticistas em relação à Fonética (e a Fonologia), como uma área definida na epistemologia linguística, mas com o diferencial da influência da moda positivista, “a positivist fashion”, nos termos de K. Kohler (1981, p.168) — e conforme expusemos nos subitens 1.4 e 2.3.
Nessa perspectiva positivista, o trabalho com os dados deveria seguir grande rigor científico empírico. Esse rigor científico é basilar nos trabalhos de Gonçalves Viana, inclusive na obra Ortografia Nacional (1904), em que ele afirma, várias vezes, que a sua proposta ortográfica é “cientificamente regularizada”.
A obra Essai de phonétique et de phonologie... (1883) baseia-se, ainda, no método indutivo, em que os dados singulares são devidamente coletados e enumerados e a sua avaliação particular leva a uma conclusão geral. Em outras palavras, faz-se o levantamento de dados específicos da fala do português normal, cuja análise traz a conclusão de como o dialeto de Lisboa se diferencia de outros.
Em consequência disso, apresenta-se a identidade dialetal da fala de um povo na variedade culta da língua, ou seja, o português normal (relativo à norma), no caso de
Essai de phonétique et de phonologie... (1883) e também na Exposição da pronúncia
normal portuguesa para uso de nacionais e estrangeiros (1892), com alguns diferenciais nos critérios de análise. E, assim, ambas as obras sintetizam toda a investigação fonética e fonológica do autor, conforme já observado por outros estudiosos, como José A. Peral Ribeiro que diz: “reflectem bastante bem as ideias do seu autor sobre tais assuntos. As restantes, ainda que relativamente numerosas, nada acrescentam às qualidades que se encontram nas primeiras, à parte de um ou outro pormenor.” (RIBEIRO, 1973, p.11).
Essa descrição do dialeto de Lisboa mostra, ainda, o grande destaque que se deu ao dinamismo da língua portuguesa, detalhadamente registrado pelo foneticista do século XIX. Embora antiga, as suas obras permanecem atuais no que diz respeito à visualização do sistema fonológico português94.
93 A importância da fonética como a indispensável fundadora de todo o estudo da linguagem,
quer esse estudo seja puramente teórico, quer prático, também, está, agora, amplamente admitido.
94 Observando o sistema fonológico do século XIX em comparação com o atual, não
identificamos grandes mudanças. No entanto, a confirmação dessa realidade linguística exigiria um tratamento detalhado dos muitos dados apresentados por Viana, somados aos dados da atualidade para fazermos um confronto pontual de cada caso. Esse tipo de pesquisa merece especial atenção em um trabalho à parte. Por isso, nesta tese, não serão divulgadas comparações específicas, uma vez que exigem mais tempo para serem concluídas.
81 Para Maria H. Mira Mateus, Essai de phonétique et de phonologie... (1883) é um marco na história da fonologia portuguesa: “esta e as obras que se seguem do mesmo autor são ainda hoje de importância indiscutível para o conhecimento do sistema fonológico português.” (MATEUS, 2001, p.1).
Contudo, a leitura das obras de Viana não é fácil porque, na prática, havia instabilidades nas ciências e nos critérios metodológicos no século XIX, além do fato de o leitor atual não estar habituado com os procedimentos científicos mais antigos, como mostraremos a seguir.