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10. Takdim Yazıları
São Gregório7 os seguintes: Antonio Bernerio8 de Milão, Vigário Papal, um homem
6 A palavra latina honestas, bem como seus derivados (honestum, honesti, honestus), aqui pode ser entendida como o conceito atual de “virtude”. No entanto, como pretendia muitas vezes Valla, para diferenciá-la da
virtus, a qual traduzimos como “virtude”, optamos por empregar nesta versão a palavra correspondente ao seu radical latino em português: “honestidade”. Opção diferente da versão inglesa da De Panizza Lorch (De
Voluptate. On Pleasure, Abaris Book, USA, 1977), que traduziu todas as ocorrências da palavra honestas
como “virtue” (“virtude” em inglês). Aconselho a ver o verbete honestas, em vez de honestum, que aparece nesta passagem, in L&SLD: Honorableness of character, honorable feeling, honor, honesty, probity, integrity, virtue (class.): Cic. Att. 7, 11, 1: “ubi est autem dignitas, nisi ubi honestas?”; id. Off. 1, 2, 5 and 6: “(qui
summum bonum) suis commodis, non honestate metitur ... honestatem propter se expetere”; id. Fin. 2, 15, 48: “habes undique expletam et perfectam formam honestatis, quae tota his quatuor virtutibus continetur”; Quint. 3, 8, 26: “et in laude justitia utilitasque tractantur, et in consiliis honestas”.
62 nascido para grandes feitos e que desfruta de uma grande reputação; Antonio Raudense9, monge franciscano e teólogo que é verdadeiramente comparável ao famoso Isócrates no ensino da arte da oratória; Candido Decembrio10, de quem eu suspeito seja mais amado pelo príncipe por sua lealdade e indústria do que pelas pessoas por sua bondade e
8 Antonio Bernerio ou Bernieri (1437-1456), de nobre família de Parma, designado escritor apostólico por Inocêncio VII na Bula de 1405, foi canônico de Parma e pároco da Igreja de Borgo San Donnino. Neste cargo, manteve um áspero conflito jurídico-eclesiástico com o bispo de Parma. Em 1416, participou da reforma do estatuto do Colégio de Juízes de Parma (cf. A. Pezzana, Storia della città di Parma, T.II, Parma, 1842, pp. 165-66). Por volta de 1418, assumiu o posto de Vigário Geral do Arcebispo de Milão, Bartolomeo Capra, e neste cargo restou até 1433, ano da morte de Capra. Em 1435 foi nomeado bispo de Lodi e efetivado na cátedra em 1437. Foi sepultado em Parma, onde sempre residiu após a elevação episcopal. Sua fama parece ter se dado devido à sua função eclesiástica e jurídica, como ricordava Ughelli: “Parmensem sui
saeculi celeberrimum Jurisconsultum”. Cf. Gams, Series episcoporum, 794; Eubel-Gauchat, Hierarchia
catholica Medii Aevi, vol. II, p. 173; P. M. Campi, Dell‟historica eclesiastica di Piacenza, Piacenza, 1662, p.
214; F. Ughelli, Laudensium episcoporum series, Mediolani, 1763, pp. 307-08; A. Pezzana, op. cit., T. II e III, passim; R. Sabbadini, Cronologia documentata della vita di Ant. Beccadelli detto il Panormita, Firenze, 1891, p. 31; Ireneo Affò, Memorie degli scrittori e letterari parmigiani, T.II, Parma, 1789, pp. 180-84 (NE, G. Radetti, De voluptate, in: Classici della Filosofia (VI), Firenza, 1953, p.7)
9 Importante humanista da Lombardia, Antonio Raudense ou da Rho, contemporâneo de P.C. Decembrio, provavelmente nasceu nos últimos anos do século XIV (cf. Sabbadini, Cronologia del Panormita, op.cit., p. 11). Estudou em Pádova com Giacomo da Torre de Forlì. Entrou para a Ordem dos Franciscanos e uniu à cultura teológica e à filosofia escolástica o interesse pelos estudos humanísticos, sobretudo gramaticais. Manteve contato com os principais representantes da cultura humanística de seu tempo. Sobre sua polêmica com o Panomita, ver Sabbadini, op. cit., pp. 2-15 e G. Mercati, Miscellanea di note storico-critiche, in Studi e
documenti di storia e diritto, XV, 1894, pp. 11-13. Prestou, por longo tempo, serviços à Filippo Maria
Visconti, mas de pouca fortuna, segundo comentário de Decembrio: “Antonium Raudensem ordinis minorum
virum praeclari ingenii magnaeque virtutis et a quo pleraque in materno sermone traducta habuit, nulla ferme gratia dignatus est” (cf. Vita Phil. Mariae Ducis Mediol., cap. 43). Em 1431, após a morte de Gasparino Barzizza, foi “primeiro leitor público de eloquência de Milão” (“Mediolani publicus ac primarius
lector eloquentiae”). Segundo G. Radetti, Scritti Filosofici e Religiosi, p. 8, na época do diálogo de Valla, ele
residia em Milão (De voluptate, III, 25, 16), e não em Pávia, como congecturou Mancini (Vita di L. Valla, Firenze, 1891, p. 33). Amigo de Cosma Raimondi, o defensor de Epicuro, foi por este incitado a escrever o
De imitatione eloquentiae liber, o qual, publicado após a trágica morte de Raimondi, levou o frade a acusar
Valla de plágio e sua longa refutação nas Adnotationes in errores Antonii Raudensis. Porém, a polêmica não impediu a posterior reconciliação entre os dois (cf. Panormita, epist. 105). É famoso o dilacerante juízo de Filelfo sobre outro importante escrito do frade: o Dialogi tres de Lactantii erratis (cf. Filelfo, Epist. 20, 5). Faleceu entre 1450 e 1455 (cf. F. Argelati, Bibliotheca scriptorum mediolanensium etc; Mediolani, 1745, T. II, P. I, 1213-15 e Sbaralea, Supplem. Ad Sciptores trium ordinum S. Francisci a Waddingo aliisve descriptos
etc; Romae, 1908, P. I, pp. 93-94 (NE, G. Radetti, p.7-8)
10 Sobre Pier Candido Decembrio é fundamental a monografia de M. Borsa (P. C. Decembri e l‟Umanesimo
in Lombardia, in Arch. Storico lombardo, XX, 1893, pp. 5-75, 358-441) e de E. Ditt (Pier Candido Decembrio. Contributo alla storia dell‟Umanesimo italiano, in Memorie del R. Istituto lombardo di scienze e lettere, XXIV, f. 2, pp. 21-106). É provável que efetivamente Decembrio tenha estado em Pávia no momento
em que Valla ali ensinava, pois ele o nomeara junto a outros companheiros pavenses no livro IV do seu
Antidota in Pogium (Opp. 1543, p. 351). A escolha de Valla em incluir o humanista e diplomata lombardo no
diálogo advém em boa parte da sua hostilidade contra Panormita. Há pouco tempo, contra o siciliano Raudense, havia endreçado a sua Philipica (Cf. Sabbadini, Cronologia, p. 3). Aproximadamente na mesma época, Decembrio endereçava sua inventiva contra o mesmo alvo e polemizava com Guarino (cf. Sabbadini, op. cit., p. 16). (NE, G. Radetti, p. 8)
63 comportamento aprazíveis; Giovanni Marco11, conhecido como Esculápio12 por sua maravilhosa habilidade como médico e, coisa rara, não alheio ao estudo humanístico; e Mafeo Vegio13, quem, embora eu não ouse colocar na frente de todos os nossos poetas, não conheço melhor poeta atualmente. Também estava presente Antonio Bossio14, meu aluno, filho do famoso Ambrosio, quem, se eu não me deixar levar pela afeição, miraculosamente ultrapassa sua jovialidade em caráter e erudição. À nossa companhia aproximou-se Catone Sacco15 de Pávia, junto com Guarino16 de Verona, o qual havia chegado no dia anterior de
11 Giovanni Marchi ou di Marco, de Rimini, foi um renomado médico. Segundo as palavras de Raudense neste diálogo (De voluptate, III, 25, 16), Marco desenvolvia sua atividade em Pávia no momento em que Valla imaginava ocorrer o encontro no pórtico gregoriano. Muito mais tarde, foi chamado para Cesena para tratar de Malatesta Novello, e ali restou até a sua morte em 1465. De volta a Rimini, foi chamado a Roma para tratar de Sisto IV, e ali mesmo faleceu em fevereiro de 1474. Deixou uma biblioteca de 119 volumes ao frade do convento de São Francisco de Cesena (cf. inventario deste manuscrito no Appendice di documenti, in: L. Tonini, Storia civile e sacra riminese, vol. V, Rimini, 1882, pp. 262-69). Benedetto de Cesena o louva no poema de honore mulierum:
Et quando quinci riguardando vegno Giohanne trovo el physico gentile Che tien de medicina el dricto segno
(in: R. Zazzeri, Sui codici e libri a stampa della Bibl. Malatestiana, Cesena, 1887, p. 180). Ver também: A. Battaglini, Della corte letteraria di Sigismondo Pandolfo Malatesta, pp. 187-88, 241-42; L. Tonini, Rimini
nella signoria dei Malatesti, P.te II, Rimini, 1882, pp. 566-69; R. Sabbadini, Epistolario di Guarino Veronese, III, Venezia, 1919, p. 389. (NE, G. Radetti, p. 9)
12 Esculápio, na mitologia romana, é o deus da medicina.
13 Sobre a vida em geral de Maffeo Vegio, ver: M. Minoia, La vita di Maffeo Vegio: umanista lodigiano, in
Arch. Storico della città e comune di Lodi, 1896; L. Raffaele, Maffeo Vegio. Elenco delle opere. Scritti inediti, Bologna, 1909. Sobre o seu tratado De liberorum educatione e seu pensamento pedagógico, ver: A.
Franzoni, L‟opera pedagogica di εaffeo Vegio, Lodi, 1907; G. Saitta, L‟educazione dell‟Umanesimo in Italia, Venezia, 1928, pp. 73-89 (reelaborado em Il pensiero italiano nell‟Umanesimo e nel Rinascimento,
vol. I, L‟Umanesimo, Bologna, 1949, pp. 273-80). Sobre a sua estadia em Pávia, ver: A. Corbellini, Note di vita cittadina e universitaria pavese del Quattrocento, in Boll. Della Società pavese di storia patria, XXX
(1930), Pavia, 1931, pp. 253-82. (NE, G. Radetti, p. 9)
14 Corbellini, op. cit., p. 229, identifica Antonio Bossi como Bossiolo, nomeado pelo Panormita em uma carta endereçada a Valla: “Vale litterarum spes et bossio pontifici et Bossiolo tuo meo nomine salutem pluriman
imparitas...” (Epist. Gall. III, 36; R. Sabbadini, Cronologia dell Valla, p. 60). (NE, G. Radetti, p. 9)
15 Catone Sacco provavelmente nascido em Pávia entre 1394 e 1397, iniciou cedo sua carreira acadêmica de jurista na Universidade pavese. Em 1417 já era “leitor extraordinário” de direito civil. Os documentos diplomáticos do Studio pavese testemunham emolumentos sempre muito ricos sobre o jurista, quem não se limitou apenas à lucrosa atividade profissional e à disciplina tradicional, mas foi também aberto à nova cultura umanística. Valla endereçou a ele seu opúsculo contra Bartolo, onde incitava este à expulsão de Pávia; e mais tarde, nas suas Recriminationes in Facium, Valla recordava Catone como grande amigo (Opp. 1543, p. 629). Lecionou sempre em Pávia, salvo por dois anos, entre 1447 e 1449, em Bologna onde foi leitor do
Digesto Nuovo e Inforziato [compêndios de ensino jurídico do quattrocento]. Em Pávia faleceu em 1463,
destinando boa parte de seu rico patrimônio à fundação de um colégio para estudantes oltremontani (transmontanos, pois vindos do outro lado dos Alpes). (NE, G. Radetti, p.10)
16 É provável que Guarino, o veronese, jamais tenha estado em Pávia (cf. A. Corbellini, op. cit., p. 231). Parece certo, entretanto, que Valla dirigiu-se de Pávia a Ferrara só para conhecer pessoalmente o grande humanista e educador veronese, e tenha lhe presenteado com o próprio De voluptate (cf. R. Sabbadini,
Cronologia del Valla, cit., pp. 67-69). Sobre a vida e obra de Guarino é sempre fundamental os trabalhos
64 Ferrara para auxiliar uma prima num assunto judicial envolvendo uma grande herança. Ele estava de hóspede na casa de Catone, o defensor de seu caso, com quem tinha uma amizade de muito tempo. (2) Se posso dizer algo sobre eles, Catone é realmente um homem que não se deve hesitar em colocá-lo na mesma sala junto daqueles mais antigos e eloqüentes homens das leis. Também é um orador suave, adundante e solene. E quando se ouve Guarino, não se sabe se ele fala melhor o grego ou o latim. Ele é certamente um grande retórico, excelente orador e, ao mesmo tempo, professor de muitos grandes retóricos e oradores. Quando esses dois chegaram e nos cumprimentaram, nós nos levantamos e retribuímos o cumprimento. Então, um momento de silêncio se fez (3) e Catone disse:
- Por que não continuais com a conversa já iniciada? É o caso do lobo da fábula? - Na realidade, não um lobo, mas um gato - retrucou Bernerio17. E nem uma fábula, porque nós não estamos narrando fábulas. Na realidade, nós acabamos de chegar e, quando tu chegaste, tínhamos acabado de nos sentar.
- Uma vez que vós estais em uma hora de lazer, como eu vejo - respondeu Catone -, por que não consideramos rigorosamente algum assunto, conforme o costume dos antigos, e debatemos acerca da honestidade [honestas] e do bem? Vós sabeis muito bem que não há assunto melhor ou mais útil ao homem do que este, nem mais valioso - especialmente quando Guarino, o mais erudito dos homens, está presente em nosso debate.
Então Bernerio respondeu:
- De fato, nós não estamos fazendo nada, como tu dizes, Catone. E estamos prontos para a discussão. Assim, conferimos a ti, quem começara o diálogo, a tarefa de discutir o assunto que quiseres. Também estará presente Giuseppe Bripi18, o qual vejo se
Guarino veronese, Catania, 1896; notas ao Epistolario di Guarino veronese, vol. III, Venezia, 1919; e Documenti guariniani, in Atti dell‟Accad. di Agricoltura, Scienze e Lettere di Verona, 1916, pp. 221-86).
17 Bernerio diz que ele não se parece com um lupus (lobo), mas com um catus (gato), que também se refere, no latim pós-clássico, a uma pessoa sagaz. Trata-se de um jogo de palavras com o nome de Catone Sacco (Catus). (NE, G. Radetti, p. 10)
18 Giuseppe Bripi ou Bripio, canônico milanese, teólogo e jurista, obteve em 1432, em idade já avançada, a licença e o doutoramento em sacra pagina (estudo amplo do texto das escrituras, levando em consideração uma abordagem gramatical, retórica, dialética e filosófica). Endereçou versos latinos ao papa Alessandro V, a Martino V, ao imperador Sigismondo, a Niccoli, a Francesco Barbavara, a Uberto Decembrio, etc. O próprio Vegio dedicou-lhe uma poesia (cf. L. Raffaele, op. cit., p. 18). Cunhado de Antonio Loschi, foi provavelmente auxiliado por este a entrar na Cúria romana, no Arquivo Pontifício. Morre aos 79 anos, em Roma, em 1457, poucos dias depois de Valla. (cf. Arch. della Società romana di storia patria, 1879, III, 3, 84.). Sobre sua atividade literária, ver: F. Argelati, Biblioth. script. mediol. cit., T. I, p.te. II, 230-31; G. Voigt,
65 aproximando. Este que vem para encontrar-me é o homem mais esperto sobre os assuntos divinos e humanos, e se distingue pela dignidade de sua vida e o poder de sua eloqüência.
(4) E então Giovanni Marchi disse:
- Deixe-nos escutar-te, Catone, pois que nunca estás despreparado para um discurso. Mas, ao contrário, sempre me pareces mais do que preparado. Como Quintiliano dizia: “aos homens honestos nunca faltarão as palavras honestas, nunca a capacidade de encontrar os melhores argumentos”19.
Todos nós, cada um por si, dissemos-lhe que nos agradaria escutá-lo. E então Bernerio disse a Bripi, que entrava pelo pórtico:
- Caro Bripi, felizmente interrompeste nossa discussão. Se tu não tivesses vindo só para encontrar-me, eu teria dito que fora a própria Sibila20 quem te inspirara a vires ouvir as palavras de Catone e dos demais. Por esta razão, não é necessário que eu rogue a ti para que te sentes conosco neste encontro dos mais sábios homens das letras.
- (5) Eu, de minha parte - respondeu Bripi - não preciso de nenhum encorajamento, já que, caso te agrade saber, não vim aqui para encontrar-te, mas fui inspirado por Sibila e Minerva, como escreveu Homero sobre Diomedes21. Logo, esperamos que algo grandioso será tratado nesta discussão. Mas, por que detemos Catone, quem, como ouvi, será o primeiro a falar?
Em seguida, todos nos sentamos na mesma ordem em que estávamos antes de nos levantarmos e voltarmos nossa atenção para Catone.