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A última das peças atribuídas a Shakespeare acaba com o vingador retrocedendo e perdoando o irmão usurpador do trono. Personagem principal, Próspero, duque de Milão, é destronado e colocado à deriva no mar, com uma filha pequena e seus livros, incluindo os de magia. Instalados em uma ilha de figuras fantásticas, após doze anos, Próspero conjura as forças da natureza, provoca uma tempestade e consegue fazer naufragar o navio do irmão e acompanhantes, que vão parar na ilha onde se consumaria a vingança. Mas,

51 “Shakespeare, junto com a maior parte da Europa instruída, assimilou a retórica, a convenção e a

configuração senequianas como fontes essenciais da tragédia, como modelos arquetípicos de discurso, ação e comportamento. Como resultado, Seneca dá forma à estrutura de Hamlet, sua lógica interna e delineamento ao invés da superfície”.

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decorridas várias peripécias, Próspero liberta seus prisioneiros e abjura da magia, regressando com a filha, o futuro genro e os demais para a Itália.

Uma possível leitura da peça, classificada como tragicomédia (MIOLA 2001: 208), é a da “inversão” do mito de Medeia: a princesa e maga foge da inóspita e bárbara Cólquida na nau Argo, alcançando a Grécia civilizada. A vingança, motivada pelo rompimento do voto de fidelidade de Jasão, é consumada com o conjuro de forças da natureza, mas pela participação de Medeia no divino e não a partir de uma cultura livresca. No fim, enquanto a princesa e maga parte para o etéreo e inalcançável ao homem, Próspero abandona a esfera do fantástico de volta à Corte para contemplar a velhice e a morte, um desfecho que opta pelos valores humanísticos do Renascimento.52 Próspero não é Medeia, não é Hamlet e, muito menos, o autodenominado canalha Ricardo III:53

PRÓSPERO - Embora os altos crimes por eles perpetrados tenham me deixado em carne viva, ainda assim tomo o partido de minha razão, porquanto mais nobre, contra minha fúria. A ação mostra-se mais rara na virtude que na vingança. (Trad. Beatriz Viégas-Faria, 2002: 102; referente aos vv.29-32 do Ato V, cena I, da edição RSC)

Essa fala se insere num simulacro da cena domina-nutrix, a última de outras nesta peça, quando finalmente o protagonista cede ao aconselhamento do espírito denominado Ariel, seu servo, que, como observa Miola (2001: 212), “challenges Prospero to moderate his affectio, to put aside wrath for mercy and forgiveness”.54 Logo em seguida, o mago faz uma invocação que tem a marca da repetição do vocativo que se verifica nos versos iniciais da Medeia senequiana, que é, no entanto, uma construção formular, convenção das preces religiosas. Estabelecer paralelos entre invocações a deuses e outras divindades em Sêneca e em Shakespeare seria trabalho por demais extenso. Menções a Hécate, por exemplo, a divindade triforme à qual tantas vezes Medeia é associada, aparecem nos dramas ingleses com frequência, como em Macbeth, em que ela é até personagem com fala. Em Hamlet, ela é invocada pela personagem Lucianus na peça dentro da peça concebida pelo príncipe.

Na última invocação de Próspero antes de abandonar a magia em The Tempest, se a elocutio deixa transparecer Sêneca, a inuentio evoca tópicos ovidianos, que remontam à

52 Ver BOYLE (1997: 181).

53 Sugiro comparar as duas falas: esta de Próspero e a de Ricardo, à p.138 deste volume. 54 “Desafia Próspero a moderar sua affectio, a deixar de lado a ira pela misericórdia e o perdão”.

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Medeia das Metamorfoses VII, vv.192-206 (BATE e RASMUSSEN 2008: 6). E o texto de Shakespeare é ainda mais próximo da tradução de 1567 do poema de Ovídio para o inglês, de Arthur Golding (1536-1606): “Ye elves of hills, of brooks, of woods alone, / of standing lakes, and of the night”. Em Shakespeare (Ato V, cena 1, vv.38-62, da edição RSC), lê-se:

PROSPERO

Ye elves of hills, brooks, standing lakes, and groves, And ye that on the sands with printless foot

Do chase the ebbing Neptune, and do fly him When he comes back; you demi-puppets that By moonshine do the green sour ringlets make Whereof the ewe not bites; and you whose pastime Is to make midnight-mushrooms that rejoice To hear the solemn curfew, by whose aid -- Weak masters though ye be -- I have bedimmed The noontide sun, called forth the mutinous winds, And 'twixt the green sea and the azured vault Set roaring war; to the dread-rattling thunder Have I given fire, and rifted Jove's stout oak With his own bolt! The strong-based promontory Have I made shake, and by the spurs plucked up The pine and cedar. Graves at my command Have waked their sleepers, ope'd, and let 'em forth By my so potent art. But this rough magic

I here abjure, and when I have required Some heavenly music, which even now I do, To work mine end upon their senses that This ayrie charm is for, I'll break my staff, Bury it certain fathoms in the earth; And deeper than did ever plummet sound, I'll drown my book.55

55 Trad. Barbara Heliodora (2011: 91-2): “Oh, elfos das colinas, rios, vales, / que sem jamais deixar marcas

na areia / a fuga de Netuno perseguis / e cavalgais a glória do refluxo! / Oh, vós, semidemônios que talhais / o leite que não bebem as ovelhas, / e vós, cuja alegria à meia-noite / é fazer cogumelos que jubilam / se a noite chega; por cuja arte - / embora fosseis vós bem fracos mestres - / escureci o sol do meio-dia, / o tumulto dos ventos conclamei, / entre o verde do mar e o azul do céu / criei a guerra, e ainda incendiei / o trovão que alucina, estraçalhando / de Júpiter o tronco do carvalho / com o próprio raio – e o vasto promontório / sacudi;

150 Compare-se com excerto do texto de Ovídio:

‘Nox’ ait ‘arcanis fidissima, quaeque diurnis aurea cum luna succeditis ignibus astra,

tuque, triceps Hecate, quae coeptis conscia nostris adiutrixque venis cantusque artisque magorum, 195 quaeque magos, Tellus, pollentibus instruis herbis, auraeque et venti montesque amnesque lacusque, dique omnes nemorum, dique omnes noctis adeste, quorum ope, cum volui, ripis mirantibus amnes

in fontes rediere suos, concussaque sisto, 200 stantia concutio cantu freta, nubila pello

nubilaque induco, ventos abigoque vocoque, vipereas rumpo verbis et carmine fauces, vivaque saxa sua convulsaque robora terra

et silvas moveo iubeoque tremescere montis 205 et mugire solum manesque exire sepulcris!56

Nota-se mais uma vez a “inversão”, porque os poderosos deuses dos poetas latinos ficam resumidos a divindades menores – elfos e duendes – no blend shakespeariano. É uma teia extensa, tecida a muitas mãos, a literatura. Não é pelo passatempo de rastrear indícios de outros autores que se debruçam tantos pesquisadores sobre a obra de Shakespeare, mas porque ela foi – e é ainda – poderoso veículo de transmissão de procedimentos literários. Quando um dramaturgo como o alemão Heiner Müller recria Hamlet na peça Hamlet-máquina e faz o mesmo com Medeia em Margem abandonada Medeamaterial Paisagem com argonautas, reafirma que algumas fontes aparentam ser inesgotáveis, talvez porque sejam inalcançáveis, mas que é sempre preciso tentar.

e das bases arranquei / o pinho e o cedro; sob meu comando / as tumbas libertaram seus defuntos, / graças à minha arte. Mas tal mágica / aqui renego; e quando houver pedido / divina música – como ora faço – / para alcançar meus fins pelos sentidos / que tal encanto toca, eu quebro a vara, / a enfio muitas braças dentro à terra, / e mais profundo que a mais funda sonda, / enterrarei meu livro”.

56 “Ela diz: ‘Noite fidelíssima aos mistérios e astros que com a lua dourada sucedeis aos fogos diurnos e tu,

tríplice Hécate, cúmplice de nossos intentos e que vens em auxílio dos feitiços e artes mágicas, e Terra, que provês os magos com ervas potentes, comparecei! E também as brisas e os ventos e as colinas e os rios e os lagos, todos os deuses dos bosques, todos os deuses da noite, com a ajuda dos quais, quando desejei, volveram às suas fontes os rios, admirando-se suas margens. Com um feitiço, detenho o mar convulso e o parado, agito, disperso nuvens e nuvens ajunto, ventos enxoto e convoco, rasgo gargantas de víboras com palavras e com meu canto. Movimento rochas vivas, carvalhos subtraídos à própria terra e bosques, e ordeno que tremam montanhas e que retumbe o solo e que os manes deixem seus sepulcros!’.

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