MEDEIA É o que serei. AMA És mãe. MEDEIA Vê quem é o pai.32 AMA Hesitas em fugir? MEDEIA
Fugirei, mas antes me vingarei. AMA
Um justiceiro te seguirá.
MEDEIA
Talvez eu imponha obstáculos. AMA
Louca! Contém as palavras, poupa já essas ameaças
e domina teu espírito: convém adaptar-se aos tempos. 175 MEDEIA
A Fortuna pode me roubar a riqueza, não meu espírito.
MEDEIA – CREONTE (177-300) MEDEIA (à parte)
Mas quem faz ranger as portas do palácio? É ele mesmo, inflado do poder pelasgo: Creonte. CREONTE (à parte)
Medeia! A cria nociva do rei Eeta da Cólquida
ainda não tirou os pés do meu reino? 180 Planeja algo: é notória sua ardileza, notória sua mão.
Quem ela poupará? Quem deixará a salvo?
40 De fato, eu estava prestes a eliminar com a espada essa peste terrível. Meu genro dissuadiu-me com apelos.
A vida lhe foi concedida, que ela, então, libere do medo 185 nossas fronteiras e parta em segurança.
Como uma fera, avança e, ameaçadora, busca me falar. Criados, não deixeis que me toque ou se aproxime.
Ordenai que se cale. Que aprenda afinal a aceitar o poder régio.
Vai por uma via veloz! 190 Leva já embora um monstro horrível e cruel! MEDEIA
Que crime, qual culpa é punida com esse exílio? CREONTE
Qual causa a expulsa, pergunta a mulher inocente. MEDEIA
Se me julgas, informa-te. Se reinas, só ordena. CREONTE
Justo ou injusto, deves acatar o poder do rei. 195 MEDEIA
Reinos injustos jamais duram para sempre. CREONTE
Vai e faz tua queixa na Cólquida! MEDEIA
Eu vou: quem me trouxe, me leve! CREONTE
Teu protesto vem tarde, um decreto está em vigor. MEDEIA
Quem decide sem ter ouvido a outra parte,
ainda que decida o que é justo, justo não é. 200 CREONTE
Ouviste Pélias33 antes que ele fosse sacrificado?
Mas fala! É o momento da tua egrégia causa.
41 MEDEIA
Como é difícil desviar um espírito tomado pela ira e como julga próprio da realeza manter-se nessa via
qualquer um que, com mãos soberbas, tomou o poder. 205 Isso aprendi no meu palácio.
Pois, embora oprimida por lamentável desdita, expulsa, suplicante, só e abandonada, de todo lado acossada, já tive o brilho do meu nobre pai
e, de meu avô Sol, herdei origem ilustre. 210 Tudo que o Fásis irriga em suas plácidas curvas
e tudo que o Ponto34 dos citas enxerga atrás de si, por onde mares se adoçam com águas pantanosas, tudo que a coorte armada com escudos, sem varões,35
limitada pela encosta do Thermodonte,36 atemoriza, 215 isso tudo meu pai tem sob seu poder.
Nobre, próspera, poderosa com a glória da realeza, eu brilhei. Então, demandavam o enlace pretendentes, que agora são demandados. A rápida Fortuna, volúvel
e precipitada, me privou do reino, me rendeu ao exílio. 220 Confia nos reinos, embora o volúvel acaso distribua
grandes benesses ora aqui, ora ali. Isso os reis têm de magnífico e grandioso que jamais lhes pode ser furtado:
ajudar infelizes, proteger suplicantes num lar confiável. Isto foi só o que eu trouxe do reino da Cólquida: 225 a grandiosa glória da Grécia e sua famosa elite,
proteção do povo aqueu e prole dos deuses, que eu mesma salvei. Meu presente é Orfeu,
que seduz as pedras com seu canto e atrai os bosques.
Meu duplo presente são Cástor e Pólux. 230 E os filhos de Bóreas. E Linceu, que lança o olhar
e, através do Ponto, vê também o que está longe.
34 Ver n.9.
35 As amazonas.
42
E todos os mínias.37 Calo-me quanto ao mais nobre, pelo qual nada me devem, não cobro ninguém.
Para vós, trouxe os outros. Ele, unicamente para mim. 235 Acusa-me agora e cumula-me de todos os ilícitos.
Confessarei. Só este crime me pode ser imputado: o retorno da Argo. Se a virgem prefere o pudor, prefere o pai, junto com seus nobres rui todo
território pelasgo, morre primeiro este teu genro 240 pelo hálito flamejante do touro feroz.
Que a Fortuna prejudique minha causa à vontade, não me arrependo de salvar a glória de tantos reis. De toda essa culpa obtive algum prêmio,
está em tuas mãos: se preferes, condena a ré, 245 mas restitui o crime. Sou culpada, confesso, Creonte. E tu o sabias quando toquei teus joelhos e
com a destra, suplicante, roguei a confiança do protetor. Nesta terra, peço um canto, morada para os infortúnios,
simples refúgio. Se preferes me ver expulsa da cidade, 250 um lugar remoto em algum ponto do reino servirá.
CREONTE
De que eu não exerço o poder com violência, nem, soberbo, espezinho infortúnios,
já dei provas, parece, com muita clareza,
ao escolher como genro um exilado acossado 255 e pávido de terror porque o demanda, para puni-lo
e matá-lo, Acasto, o líder dos reinos tessálios: queixa-se que o pai,38 trêmulo pela frágil velhice e curvado pela idade, foi morto e o velho corpo
desmembrado quando, enredadas no teu dolo, 260 suas piedosas irmãs ousaram ato impiedoso.
37 Os argonautas, tripulantes da nau Argo.
43 Se retiras a tua, Jasão é capaz de defender a própria causa: incólume, o sangue derramado não o contaminou, sua mão se absteve da espada
e puro se manteve longe do vosso convívio. 265 Tu, tu, machinatrix de malévolos delitos,
que tens a vilania da mulher e, para ousar tudo, a robustez viril, mas descuidas da perene fama, parte! Purga meu reino! Tuas ervas letais leva
contigo! Liberta estes cidadãos do medo! 270 Assedia os deuses assentada em outras terras!
MEDEIA
Tu me forças a fugir? Restitui à fugitiva a nau
ou restitui o parceiro. Por que mandas que eu fuja só? Não vim só. Se temes enfrentar guerras,
expulsa ambos do reino. Por que distingues dois culpados? 275 É no interesse dele que Pélias jaz morto, não no meu.
Adiciona minha fuga, rapinas, um pai abandonado e um irmão dilacerado. O que mais o marido ainda ensine a novas esposas não é assunto meu.
Fui muitas vezes culpada, mas nunca no meu interesse. 280 CREONTE
Já devias ter ido. Por que plantas obstáculos falando? MEDEIA
Suplicante, ao me retirar, tenho um pedido final: que a culpa da mãe não arraste os filhos inocentes. CREONTE
Vai! Como um pai, os receberei em meus braços. MEDEIA
Por leitos auspiciosos de um tálamo régio, 285 por esperanças futuras e pelo status da realeza
que a indecisa Fortuna agita com revezes vários, eu rogo: permite à fugitiva um breve momento
44 enquanto cravo nos filhos os últimos beijos de uma mãe talvez a morrer.
CREONTE
É para ardis que pedes tempo. 290 MEDEIA
Que ardil se pode temer num tempo exíguo? CREONTE
O tempo nunca é escasso para os maus serem nocivos. MEDEIA
Um pouco de tempo para lágrimas negas a esta infeliz? CREONTE
Um temor cravado em mim resiste a teus apelos,
mas só um dia te será dado para preparares o exílio. 295 MEDEIA
Já é demais ainda que retires uma parte disso, e eu mesma tenho pressa.
CREONTE Serás morta se, antes que Febo erga claro o dia, não deixares o Istmo.39 Os rituais do tálamo me chamam,
me chama a orar este dia festivo de Himeneu. 300