II. Tüzel KiĢilik Perdesinin Kaldırılması Teorisi
1. Tüzel KiĢilik Perdesinin Kaldırılması Kavramı
Outro tema gidiano desenvolvido a posteriori por Valéry é a questão da ideia que se sobrepõe a todas as outras. Em 1931, o poeta publica mais um diálogo, no qual um homem do qual não se sabe a profissão e um médico discutem sobre a existência de ideias às quais não se consegue abandonar. Intitulado “L'Idée fixe ou deux hommes à la mer”, o diálogo é descosturado e pouco coeso, os assuntos vêm e vão sem ordem, mas convergem todos para as ideias obsessivas. De maneira geral, a temática do diálogo seria o fato de o homem ser assaltado por ideias inúteis, que o levariam a agir sem objetivo. Esses pensamentos continuariam sempre, sem descanso para o homem que, ao invés de se distrair, formaria projetos sem qualquer sentido até o fim de sua vida.
O tom do diálogo é parecido com o de Paludes, e certos trechos lembram muito algumas conversas presentes na sotie:
̶ Tiens! dit-il. Eh! Bonjour!
̶ C’est moi-même... Vous peignez, vous pêchez ? Vous peignez et pêchez ?
̶ Rien du tout... J’ai là de quoi peindre. Et de quoi pêcher. Mais le poisson ni le paysage n’ont pas grand chose à craindre. Ils me sont des prétextes... Je simule, mon cher !314
314 VALERY, P. L’Idée fixe. Paris: Gallimard, 1934. p. 21. “ – Ah! Disse. Eh! Bom dia!
– Sou eu mesmo... O senhor está pintando? Pescando? Pintando e pescando?
144 A definição apresentada pelo narrador do texto poderia muito bem ser enunciada pelo narrador de Paludes, se este pudesse ver com mais clareza seu próprio estado – mas, se assim fosse, grande parte da ironia do texto seria perdida... O tratamento dado por Valéry à ideia fixa é, no entanto, menos irônico e, embora não seja objeto de uma real discussão, ela é exposta de modo claro, como para incitar uma análise intelectual:
J’étais en proie à des grands tourments, quelques pensées très actives et très aigües me gâtaient tout le reste de l’esprit et du monde. Rien ne pouvait me distraire de mon mal que je n’y revinssse plus éperdument. Il s’y ajoutait l’amertume et l’humiliation de me sentir vaincu par des choses mentales, c’est-à-dire, faites pour l’oubli. L’espèce de douleur qui a une pensée pour une cause apparente entretient cette pensée même; et par là, s’engendre, s’éternise, se renforce elle-même. Davantage : elle se perfectionne en quelque manière ; se fait toujours plus subtile, plus habile, plus puissante, plus inventive, plus inattaquable. Une pensée qui torture un homme échappe aux conditions de la pensée ; devient un autre, un parasite.315
A presença de um médico no diálogo de Valéry é notável porque um pensamento obsessivo pode ser considerado uma enfermidade da mente. Essa é a teoria desenvolvida no livro de A. Kleefeld, L’idée fixe chez les aliénés. O autor explica que uma ideia fixa é um problema quando o excesso de atenção a um pensamento surge ligado à perda da vontade do indivíduo. A associação de ideias é feita segundo a vontade de cada um e, por conta dessa reunião de determinados temas, o cérebro passa por uma verdadeira orientação cujo resultado é o retorno sistemático e constante de alguns pensamentos: esse seria o mecanismo da ideia fixa em doentes mentais. Todos têm ideias mais ou menos dominantes, condicionadas pelas tendências pessoais de cada um, e basta nossa vontade para romper essa associação:
Il nous est déjà arrivé à tous de mettre la main en poche, puis de tirer
nada têm a temer. São para mim pretextos... Estou simulando, meu caro!”
315 Ibid., p. 13. Grifos do autor. “Estava às voltas com grandes tormentos, alguns pensamentos muito
ativos e agudos estragavam-me o resto da mente e do mundo. Se algo me distraia de minha dor eu retornava a ela com maior força. A isso se juntaram a amargura e humilhação de me sentir derrotado por coisas mentais, ou seja, feitas para ser esquecidas. O tipo de dor causado por um pensamento mantém esse mesmo pensamento que, dessa forma, renasce, se eterniza, se fortifica. Mais: ele se aperfeiçoa de alguma forma, torna-se mais sutil, mais hábil, mais poderoso, mais inventivo, mais inatacável. Um pensamento que tortura um homem deixa de ser um pensamento; torna-se outro, um parasita.”
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notre montre et de regarder l’heure, alors que nous n’en avions pas la moindre envie ; en arrivant devant la porte de notre maison nous tirons inconsciemment la clef de notre poche et nous l’introduisons sans hésiter dans le trou de la serrure.316
Curiosamente, o narrador de Paludes diz algo muito parecido durante a soirée na casa de Angèle:
"Si, Messieurs, si! Tityre a sa maladie!!! Tous ! tous, nous sommes, et durant toute notre vie, comme durant ces périodes détériorées où nous prend la manie du doute : – a-t-on fermé sa porte à clef, cette nuit ? on va revoir ; a-t-on mis sa cravate ce matin ? on tâte ; boutonné sa culotte, ce soir ? on s’assure. Tenez ! regardez donc Madruce qui n’était pas encore rassuré ! Et Borace ! – Vous voyez bien. Et remarquez que nous savions la chose parfaitement faite; - on la refait par maladie – la maladie de la rétrospection."317
Nesse trecho, Títiro é apresentado como símbolo de uma enfermidade geral, definida pelo narrador como a doença da retrospecção, isto é, da repetição contínua e mecânica de gestos e ações. O problema é que ele está perfeitamente feliz nesse circulo vicioso e não pretende sair dele...
Certos atos, realizados sem que saibamos seu sentido, são para Kleefeld comandados justamente pela orientação do pensamento. Como poderíamos realizar movimentos por vezes complexos – e sem a intervenção de nossa vontade – se não existisse uma orientação anterior de nossas ideias? Esses atos poderiam, de certa forma, ser considerados “livres”, pois não atendem a nenhuma motivação por parte de quem os realiza. Assim sendo, o “ato livre” esboçado na sotie seria, considerando-se as hipóteses de Kleefeld, toda ação imotivada, realizada por todo ser humano.
A ideia fixa se torna problemática quando o indivíduo não tem uma vontade suficientemente forte para abandonar a associação obsessiva de ideias por conta própria. Quando isso acontece, ele ainda não pode ser considerado alienado, pois sabe que se trata de um produto de sua
316“Já aconteceu com todos nós colocar a mão no bolso, de retirar nosso relógio e ver a hora quando não
tínhamos a menor vontade de fazê-lo; chegando à porta de nossa casa retiramos inconscientemente a chave de nosso bolso e a introduzimos sem hesitar na fechadura.” KLEEFELD, A. Essai de
psychologie physiologique. L’idée fixe chez les aliénés. Bruxelles: Imprimerie de T. Rein, 1899. p. 5. 317 GIDE, Paludes, op. cit., p. 84-5. “Sim, meus senhores, sim! Títiro tem sua doença! Todos! Somos
todos, e durante toda a nossa vida, como durante esses períodos doentios em que se apodera de nós a mania da dúvida: será que fechamos a porta à chave, esta noite? Voltamos para ver; pusemos a gravata hoje de manhã? Apalpamos; abotoamos a calça esta tarde? Verificamos. Olhem! Vejam aí Madruce que ainda não tinha certeza! E Borace! Vocês estão vendo. E notem que sabíamos perfeitamente que a coisa havia sido feita; nós a refazemos por doença, a doença da retrospecção.” Trad., p. 70.
146 imaginação, mas não consegue reagir. É possível pensar em outras coisas, mas se algum objeto exterior ou outra ideia se aproximar do pensamento obsessivo, a orientação não pode mais ser alterada.
De acordo com Kleefeld, o sono é um momento propício para a ideia fixa. Ela se manifesta com força durante os sonhos, sem que nenhum mecanismo de inibição possa ser acionado. E assim acontece com o narrador após a noite agitada na casa de Angèle:
... Mon dieu, mon Dieu! Avant de m’endormir, il y a un petit point que je voudrais scruter encore. On tient une petite idée – on aurait aussi bien pu la laisser tranquille (...)... Ah, j’allais m’endormir... – non, je voulais encore penser á cette petite idée qui grandit ; – je ne saisis pas bien la progression ; – maintenant elle est énorme – et qui m’a pris – pour en vivre ; oui, je suis son moyen d’existence ; – elle est lourde – il faut que je la présente, que je la représente dans le monde. – Elle m’a pris pour la trimbaler dans le monde ; – Elle est pesante comme Dieu...318
O psicólogo sugere alguns elementos que, para ele, levariam uma pessoa a conceber uma ideia fixa: hereditariedade, precariedade das condições de vida ou doenças físicas – relacionadas, sobretudo, a “fièvres intermittentes ou paludéennes”.319 O segundo fator faz pensar na situação de
Richard e sua família, para quem a resignação seria, segundo o narrador, obsessiva (“Moi, cela m’est égal; je suis vieux; j’ai pris mon parti de ces choses”).320 Já as febres levariam a crer que o conformismo de Títiro é
resultado do contato com os miasmas do pântano, uma metáfora para o ambiente estagnado no qual o narrador se encontra. Entretanto, a felicidade de Títiro e a tranquilidade de Richard, entre outros elementos, conduzem o leitor a duvidar da pertinência do que diz o narrador. A noção de ideia fixa se volta ironicamente contra aquele que a reivindica. E o leitor de Paludes termina por
318 Ibid., p. 94. “Meu Deus, meu Deus! Antes de adormecer, há ainda um pequeno ponto que gostaria de
escrutar... A gente pega uma pequena ideia – também poderia tê-la deixado em paz... hein!... O quê?... Nada, sou eu que estou falando; eu dizia que também poderia tê-la deixado em paz... hein?... O quê?... Ah! Ia adormecer... não, ainda queria pensar nessa pequena ideia que cresce; não percebo bem a progressão; agora a ideia está enorme – e me pegou – para viver; sim, eu sou seu meio de existência; ela está pesada – é preciso que eu a apresente, a represente no mundo. Pegou-me para eu a carrega no mundo. Está pesada como Deus...” Trad., p. 77.
319 “febres intermitentes ou palúdicas”. KLEENFELD, op. cit., p. 20.
320 GIDE, op. cit., p. 39. “Para mim tanto faz; estou velho; já me conformei com essas coisas”. Trad., p.
34-5. É curioso o fato de o início da frase de Richard ser igual a “máxima” repetida incessantemente pelo narrador. Isso poderia sugerir que ambos possuem em comum a aceitação, e a única diferença entre ambos seria a agitação do narrador, agitação essa sem grandes resultados.
147 concluir que o “doente” em toda a estória é, de fato, o pobre narrador...
Pode-se ter a impressão de que Gide tenta expor as falhas de determinadas ideias para apresentar outras ao leitor. Entretanto, seu objetivo é o de conduzir à reflexão constante e, mais do que isso, à flexibilidade do pensamento, à capacidade de mudar de opinião e de abandonar alguns conceitos. Para isso, o escritor mostra os perigos da ideia fixa. No capítulo do banquete, vemos o quanto o narrador está em um estado quase neurastênico por conta de sua angústia:
– Alors de quoi vous plaignez-vous ? s’exclamèrent Tancrède et Gaspard.
– Mais précisément de ce que personne ne se plaigne ! l’acceptation du mal l’aggrave, – cela devient du vice, Messieurs, puisque l’on finit par s’y plaire. Ce dont je me plains, Monsieur – c’est qu’on ne regimbe pas ; c’est qu’on ait l’air de bien dîner quand on mange des ratatouilles et qu’on ait belle mine après un repas de quarante sous. C’est qu’on ne se révolte pas contre…321
Incapaz de definir claramente a razão de seu mal-estar, o narrador não mantém nem mesmo a coerência de seu discurso. Embora esteja plenamente consciente de sua “doença”, continua repetindo as mesmas coisas e não consegue romper o círculo vicioso criado por suas próprias ideias. Ele está preso às palavras (e à escritura) que deveriam, em princípio, salvá-lo de sua obsessão:
Tout est à recommencer, encore. Ah ! je suis éreinté ! Et dire que c’est justement ça que je voudrais leur faire comprendre, qu’il faut recommencer – toujours – à faire comprendre; on s’y perd; je n’en peux plus; ah ! je l’ai déjà dit…322
Se o narrador não chega a uma definição sobre seu próprio estado, o "Posface pour la deuxième édition de Paludes et pour annoncer Les Nourritures terrestres", de 1897 o faz, mostrando claramente o princípio de retroação reivindicado por Gide em seus textos:
321 Ibid., p. 87. “– Então de que está se queixando? – exclamaram Tancrède e Gaspard.
– Precisamente de que ninguém se queixe! A aceitação do mal o agrava... isso se torna vício, meus senhores, já que acabamos nos comprazendo. Aquilo de que me queixo é que ninguém se insurja; que as pessoas pareçam ter jantado bem quando ingeriram péssima comida, e que tenham uma fisionomia satisfeita depois de uma refeição barata. É que ninguém se revolte contra...” Trad., p. 72.
322 Ibid., p. 89. “Tudo está por recomeçar, de novo. Ah! Estou extenuado! Quando penso que é justamente
isso que eu gostaria de fazê-los compreender, que é preciso recomeçar – sempre – a fazer compreender; a gente se perde; não aguento mais. Ah! Já disse...” Trad. ,p. 73.
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Et voilà le sujet de mon livre. C’est l’histoire d’une idée plus que l’histoire de quoi que ce soit d’autre ; c’est l’histoire de la maladie qu’elle cause dans tel esprit. Elément de vie, une idée? Non, de fiévre – d’apparence de vie ; elle est dévoratrice et se nourrit de nous ; nous ne sommes ici que pour la permettre de vivre.323
A ideia é vista por Gide como uma espécie de parasita que devora o homem. Ainda assim, é preciso desenvolvê-la, a fim de superá-la. Tal como “le petit grain dont nous parlait l’Evangile”324, quando desenvolvida, a ideia se
transforma em uma grande árvore, e se enraíza no cérebro do homem. É preciso deixar a ideia crescer para poder para poder abandoná-la, por mais dolorosa que ela seja. Afinal, a ideia fornece os elementos para a criação literária, e através da literatura podem ser realizadas – como é o caso do ato livre ou gratuito, apresentado em Paludes e representado no Prométhée mal enchaîné e no Caves du Vatican:
J’aime aussi que chaque livre porte en lui, mais cachée, sa propre réfutation et ne s’associe pas sur l’idée, de peur qu’on n’en voie l’autre face. J’aime qu’il porte en lui de quoi se nier, se supprimer lui- même.325
Em outras palavras, Gide apresenta, ao mesmo tempo, a aflição do narrador às voltas com sua ideia fixa e, ao mesmo tempo, exibe o absurdo de tal desespero. O autor nos mostra a impossibilidade de escapar totalmente à mesmice. A única saída possível é a consciência de tal estado de coisas, a qual se chega através da reflexão. Suscitá-la através da literatura, este é um dos objetivos mais importantes dos textos gidianos.
A ideia de ato gratuito também é refutada através da agenda do narrador, na qual o imprevisto é classificado como negativo:
Dans mon agenda je puise le sentiment du devoir ; j’écris huit jours à l’avance, pour avoir le temps d’oublier et pour me créer des surprises, indispensables dans ma manière de vivre; chaque soir ainsi je m’endors devant un lendemain inconnu et pourtant déjà décidé par
323 “E aqui está o assunto de meu livro. É mais a estória de uma ideia que de qualquer outra coisa; é a
estória da enfermidade que ela causa em determinado cérebro. Elemento de vida, uma ideia? Não, de febre – de aparência de vida; ela é devoradora e se alimenta de nós; estamos aqui apenas para propiciar sua existência.” GIDE, A. "Postface pour la deuxième édition de Paludes...". In BERTRAND, op. cit., p. 175.
324 “a pequena semente da qual fala o Evangelho”. Idem, ibidem.
325“Também me agrada que cada livro traga em si, mas escondida, sua própria refutação e que não se
associe à ideia que transmite, a fim de não revelar sua outra face. Gosto que traga algo para negar a si mesmo, suprimir-se.” Ibid., p. 176.
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moi-même.326
O ato totalmente indeterminado é visto por Gide como algo possível apenas em literatura, um “ato livro”. Sua sugestão em Paludes – e sua encenação nas duas outras soties – é mostrada pelo escritor como uma das possibilidades e dos privilégios da literatura. Através de sua obra, Gide põe em prática ideias e vontades de difícil realização na vida real, como se vivesse por meio de seus personagens:
Il est tellement impossible d'imaginer un homme complètement échappé de toutes les influences naturelles et humaines que, lorsqu'il s'est présenté des héros qui paraissent ne rien devoir à l'extérieur, dont on ne pouvait expliquer la demarche, dont les actions, subites et incompréhénsibles aux profanes, étaient telles qu'aucun mobile humain ne les semblait déterminer – on préférait (…) croire à l'influence des astres, tant il est impossible d'imaginer quelque chose d'humain qui soit complètement, profondement, foncièrement spontané.327
A liberdade reivindicada por uma ação completamente imotivada se realiza apenas na literatura. Através dela, Gide abandona ideias que o perseguem, obtendo um efeito catártico a partir de seus escritos. Tal como para o narrador de Paludes, escrever equivale a agir, a deixar de lado certas obsessões pessoais. Se há uma verdade no texto para Gide, ela reside na realização de experiências, em uma vida “por procuração”, e que permite ao escritor abandonar interdições autoimpostas e ideias obsessivas.