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ġirket Toplulukları Bakımından Perdeyi Kaldırma Teorisinin

II. Tüzel KiĢilik Perdesinin Kaldırılması Teorisi

5. ġirket Toplulukları Bakımından Perdeyi Kaldırma Teorisinin

Teócrito é considerado o pai do gênero bucólico, não por tê-lo criado e sim por ter dado forma a um tipo particular de composição a partir do qual se criou um modelo, o idílio. A palavra eidyllion é um diminutivo cujo sentido pode ser “pequeno quadro” ou “pequeno poema”, e é atribuído a uma concepção de poesia à qual era adepto igualmente Calímaco, o oligostichia, a obra breve. A palavra “idílio” indica, portanto, a elocução e não a matéria do poema que pode ser bastante variada, indo de pequenos hinos e mimos curtos a um fragmento épico, ou uma cena da vida comum.

Era bastante evidente todo o convencionalismo desse gênero poético já na época de Teócrito, mas a poesia bucólica servia como pretexto para a reflexão sobre a criação poética. O campo é apenas “un cadre qui assure l'oitium des protagonistes; le vrai sujet, c'est l'atmosphère poétique, le poète et l'oeuvre en train de naître”.374 Virgílio teria então aclimatado a poesia de

Teócrito ao latim e ao gosto romano.

O ambiente na corte dos Ptolomeus era, de acordo com G. B. Onelley, pouco propício para o livre desenvolvimento cultural. Os intelectuais se viam na obrigação de louvar as qualidades de seus soberanos e de compor obras que os agradassem. Apesar disso, foi uma época de avanços em ciências como a matemática, a medicina e a astronomia. Segundo Onelley:

O predomínio da técnica em detrimento da especulação tornou- se extensivo à literatura. Foram elaborados vários dicionários e gramáticas, bem como houve a preocupação pelo estabelecimento crítico de textos clássicos. A criatividade dava lugar à erudição. A profundidade do conteúdo, ao virtuosismo da forma. Muitas vezes, os textos são mais do que ornados. São trabalhados ao extremo, chegando às raias de um obscurecimento barroco. Todavia, deve ser observado que Teócrito, com raras exceções, não incorpora a prática de burilar os versos, pois não tem a preocupação em mostrar sageza (...).

374“um cenário que assegura o oitium dos protagonistas; o verdadeiro assunto é a atmosfera poética, o

poeta e a obra a ser escrita.” ZEHNACKER, H. & FREDOUILLE, J-.C. Littérature latine. Paris: PUF, 1993. p. 139.

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Na poesia bucólica, o virtuosismo assume novas roupagens. O cientificismo da cultura alexandrina criou a necessidade de analisar- se a realidade exterior com precisão. Daí ter a literatura bucólica assumido o caráter de inventário. Há uma listagem e uma enumeração detalhada dos mais diversos itens atinentes ao universo pastoril, uma verdadeira pesquisa de minudências.375

Muitos comentadores consideram Teócrito um experimentador. O poeta siracusano compôs poemas sobre temas bastante variados fazendo uso de estilos diferentes, algo que não acontecia na poesia grega do século V a.C. Como ele, também o fez Calímaco, cujo poema mais conhecido, Aitia (Origens) constitui uma espécie de coletânea de estórias divinas e heroicas. Essa mudança estilística era parte de uma nova concepção de poesia, que não desejava imitar Homero. A intenção dos adeptos dessa “nova poesia” era a de inovar através da transposição do epos a um modo de expressão diferente na qual a tradição é vista “de fora”, de modo crítico, e integrada a visão particular do poeta. Continuam sendo mitos, mas sob uma ótica diferente, mais pessoal e voltada aos eventos menores e prosaicos.

Embora apresentem vários temas, os Idílios são mais conhecidos pelas composições pastorais, nas quais predominaria a temática do amor infeliz. Basicamente, dois pastores realizam cantos amebeus, isto é, alternados. O primeiro pastor define o assunto e apresenta uma variação deste; o segundo aceita o desafio e reinterpreta o tema proposto. Eventualmente um terceiro pastor serve de árbitro e o vencedor ganha um prêmio rústico, ou ninguém vence a disputa e os dois competidores trocam presentes.

Também em Teócrito, como era costume na poesia grega, as releituras existem, inclusive nos nomes de alguns pastores. Esses personagens faziam parte de um universo cujas dimensões já se encontravam mais ou menos estabelecidas, isto é, eles tinham algumas características definidas. Inserindo em seus poemas um grupo de figuras conhecidas e a ele atribuindo elementos do mundo real, Teócrito conseguiu criar uma atmosfera semimítica, muito distante da corte de Ptolomeu Filadelfo, público ao qual seus escritos se destinavam.

Para B. Snell, a descrição ficcional dos pastores de sua terra feita por Teócrito apresenta, além de aspectos da realidade, um toque de ironia. Embora

375 ONELLEY, G. B. “Teócrito e Virgílio: um diálogo bucólico”. In Fénix. Revista de História e Estudos Culturais. Volume 4, ano IV, nº 2, 2007. p. 5.

177 sua vida e seus hábitos sejam descritos com realismo, os pastores dos Idílios seriam máscaras para alguns poetas do círculo de Teócrito, e a ironia estaria justamente na dissonância entre a rusticidade bucólica e o refinamento literário dos poetas urbanos “travestidos”.

O grande mérito atribuído a Teócrito está na reprodução mimética do mundo no qual está inserido, não como mero retratista e sim como parte integrante. Entretanto, é preciso dizer que o mundo real dos Idílios nada tem a ver com o que será representado nas Bucólicas, pois aqueles não se preocupam de fato com o contexto social e político do momento em que foram escritos, algo bastante diferente do que veremos em Virgílio, embora tratem de temas universais e discutam o papel da poesia.376 E o melhor exemplo dessa preocupação artística aparece no sétimo idílio, no qual a crítica em geral vê uma espécie de poética do gênero bucólico e, ao mesmo tempo, uma metapoesia.

Nesse idílio, cujo cenário é a ilha de Cós, um poeta de nome Simíquidas se dirige à casa de conhecidos para celebrar as Talísias, acompanhado por dois amigos. No caminho encontram um pastor, Lícidas, com quem o poeta troca elogios, algumas provocações amigáveis, e demonstrações de seus talentos poéticos. Mais tarde, tendo chegado a seu destino, Simíquidas se regozija pelo dia agradável e deseja que essa sensação se repita no futuro.

Para Teócrito, como também para Calímaco e outros poetas do mesmo período, o poema não precisava ter milhares de versos nem seguir um único modelo. E as referencias à poesia (anterior e contemporânea ao poeta) sugerem que o poeta possa ter escrito uma breve história literária em poesia. Para provar essa hipótese R. Hunter organizou cronologicamente uma lista dos poetas citados no sétimo idílio: Homero, Hesíodo, Arquíloco, Hiponate, Simônides e Fílidas.377

Segundo os críticos, Teócrito utilizaria vários gêneros literários para compor seus Idílios, utilizando experiências poéticas contemporâneas e obras tradicionais do mesmo modo. Mas o gênero bucólico parece ser seu favorito –

376 As Bucólicas já foram lidas como documento histórico, algo que os comentadores não pensam em

fazer com os Idílios. É sabido que Teócrito escreveu poemas a fim de angariar as boas graças de Hierão de Siracusa e de Ptolomeu Filadelfo mas não é possível, através apenas de sua leitura, saber como era a situação social da época.

377Cf SERRAO, G. “Teocrito: poetica e poesia”. In Seminari Romani di Cultura Greca I: la letteratura ellenistica. Roma: Quasur, 2007.

178 dos 32 idílios, 10 são bucólicos, embora não se saiba se todos foram realmente escritos por ele –, talvez por apresentar menor grau de codificação se comparado aos outros e, por isso mesmo, permitir mais inserções de outros tipos de poesia. Quando um poeta escolhia um gênero deveria se submeter às suas leis, o que limitava sua liberdade e impunha um modo particular de tratar o assunto; pensemos na tragédia e nas regras codificadas por Aristóteles (tom elevado, personagens nobres etc). Assim sendo, o gênero criava expectativas no público, que esperava poder julgar o talento do poeta a partir de reelaboração por ele realizada.

Além de misturar elementos dos outros gêneros, como a elegia e mesmo a épica, Teócrito integra temas populares a sua poesia, tal como os cantos dos pastores sicilianos, e introduz igualmente aspectos da realidade desses pastores, sem falar na mistura de dialetos. Teócrito insere o real ao código e representa o campo, segundo S. D’Elia, como “una squisita 'arte della realtà, che non è realismo (…) ricreato com simpatia e fantasia, filtrato da uma stilizzazione elegante”.378 Podemos dizer que o poeta reinterpreta a realidade e

a insere em um gênero codificado, transformando-o em algo mais abrangente. A presença do real nos Idílios se dá de muitas formas: pela introdução do canto alternado (que é praticado até hoje na ilha de Malta, segundo W. G. Arnott379), a quantidade de detalhes geográficos e naturais, além dos nomes dos personagens e da maneira como são introduzidos nos poemas – alguns de modo bastante breve, outros por um algo particular e que lhes confere interesse momentâneo. Também as descrições dos personagens, bem como as de suas vestimentas, contribuem para a criação de um “real” ilusório.

Voltemos ao sétimo idílio e aos “efeitos de realidade” nele presentes, como sua localização em uma paisagem real e conhecida por Teócrito, além da presença de dois amigos reais do poeta, Frasidamos e Antígenes. A presença desses elementos faz com que muitos comentadores vejam esse idílio como uma autobiografia; mas se Simíquidas é uma referência ao real, Lícidas remete totalmente à ficção, pois descreve uma espécie de teoria sobre as técnicas poéticas e canta sobre os poetas do passado. Misturando detalhes da biografia

378 “uma delicada arte da realidade, que não é o realismo (...) recriado com simpatia e fantasia, filtrado por

uma estilização elegante.” D'ELIA, S. Da Plauto a Virgilio. Napoli: Loffredo Editore, 1993. p. 126.

379ARNOTT, W.G. “The preoccupations of Theocritus: structure, illusive realism, allusive learning”. In Hellenistica Groningnana: Theocritus. Groningen: Egbert Forsten, 1996.

179 do autor – como as referências a Cós e a presença de poetas reais – e a menção a alguns dos poetas mais importantes do mundo grego, esse idílio pode ser visto como o resumo de uma experiência de leitura que, para os antigos comentadores, seria a do próprio Teócrito. Ele teria, então, descrito seu próprio envolvimento com a poesia, e mais especificamente com a bucólica, por meio de um encontro com um personagem do mundo bucólico e que o encarna de modo particular. Em outros idílios, o mundo bucólico é um universo fechado em si mesmo, embora apresente aspectos do mundo real, mas no sétimo idílio o pastor Lícidas inspira Simíquidas a trazer o universo pastoril para sua própria vida.

Uma boa introdução para esse idílio seria o Leontion, um poema de Hermesíanax, que consiste em biografias resumidas de poetas gregos. Esse texto seria, para M. Payne, a aplicação de um princípio defendido por Longino de que os poemas eram descrições ficcionais da experiência de cada poeta. O canto de Lícidas poderia, para o crítico, ser colocado nessa categoria:

E o aulo soarão para mim dois pastores, um deles de Acarnas, licópita o outro, e Títiro logo ao meu pé, cantará

como outrora gamou em Xenea Dáfnis vaqueiro,

e como o monte penou, e os carvalhos como o choraram

– aqueles que crescem juntinho de ambas as margens do Himeras – quando, qual neve, ele então derretia no alto do Hemo,

ou no Atos, o Ródope, ou o longinquíssimo Cáucaso até; e como a larga urna outrora acolheu o pastor

ainda com vida – malvada maldade daquele seu amo – , e como nutriram o mesmo pastor as aduncas abelhas do prado com tenras florinhas voltando ao cedro oloroso

pois lhe vertera a Musa na boca dulcíssimo néctar. (VII, v. 71-82)380

Payne sugere que o conceito de heteronímia seja aplicado à interação entre Simíquidas e Lícidas porque com ele é possível compreender o poema como o encontro de uma versão ficcional do poeta e sua criação “pura”. Vale a pena retomar brevemente o princípio desenvolvido e empregado por Fernando Pessoa. Segundo ele, os poetas exprimem a si mesmos em suas obras, mas é possível que tenham sentimentos muito diversos uns dos outros. Assim sendo precisarão, para externá-los, de vários personagens com estilos e emoções

380 TEÓCRITO. “Idílio 7”. In NOGUEIRA, E. Verdade contenda e poesia nos Idílios. 2012. Tese

(Doutorado em Letras Clássicas e Vernáculas). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012. Todas as traduções dos Idílios foram retiradas desse trabalho.

180 diferentes, e que não necessariamente correspondem aos sentimentos e ideias do poeta empírico. “Cada grupo de estados de alma (…) se tornará uma personagem, com estilo próprio, com sentimentos porventura diferentes, até opostos, aos típicos do poeta na sua poesia.”381 O uso da heteronímia para

compreender a relação entre Lícidas e Símíquidas propõe uma certa ambiguidade. Por um lado, a presença de elementos do mundo real convida o leitor a procurar o lado autobiográfico da poesia – o fato de os críticos antigos e modernos identificarem Simíquidas a Teócrito ou, como veremos, Títiro a Virgílio na primeira bucólica é prova disso. A partir daí, podemos encarar os pastores como projeções dos poetas; é como se esses vivessem em um mundo ideal “por procuração”, através de seus personagens. Entretanto, embora se dediquem ao exercício poético, esses personagens são pastores, o que seus autores não são, e isso nos obriga a vê-los como projeções ficcionais. Para M. Payne:

by staging his characters desire to belong to the bucolic world that, from the reader's point of view, they already inhabit, he demonstrates the recursive effect of literary fiction, the desire that is creates in its readership to belong to the worlds that it invents. This desire is thematized with particular clarity in Idyll 7, where the narrator Simichidas, himself a bucolic poet, concludes his autobiographical narration by attempting the imaginative gestures on the fictional shepherd Lycidas.382

A canção “potencial” de Títiro, reproduzida por Lícidas, é na verdade dupla. A primeira trata do amor de Dafnis por Xenea, e é um “reflexo” do amor de Lícidas por Ageanax; a segunda fala de outro pastor mítico, Comatas, que pode ser comparado ao próprio Lícidas enquanto símbolo da poesia bucólica. E qual seria a ligação entre as duas canções? Para S. Goldhill, sua composição en abyme explicitaria o princípio composicional do próprio Teócrito, no qual cada poema “encaixado” conteria a forma do próximo:

The description of Comatas' boxed-in existence is also a network of

381 PESSOA, F. O Eu profundo e os outros Eus. São Paulo: Nova Fronteira, 1980. p. 131.

382“Além disso, encenando através de seus personagens o desejo de pertencer ao mundo bucólico que, do

ponto do leitor de vista, eles já habitam, Teócrito demonstra o efeito recursivo de ficção literária, o desejo criado em seus leitores de pertencer aos mundos que inventa. Este desejo é claramente o tema do sétimo idílio, no qual o narrador Simíquidas, um poeta bucólico, conclui sua narração autobiográfica imitando os gestos imaginários do pastor ficcional Lícidas.” PAYNE, M. Theocritus

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images of poetic composition, as once again the programmatic poem brings the language of poetics to the fore.383

Podemos dizer também que a primeira parte da canção de Títiro fala do poder destrutivo do amor, e a segunda se interessa pela ação benéfica do canto, simbolizada pelo néctar dos lábios de Comatas. Embora pareçam desconexas, as duas partes se complementam na afirmação da poesia como a cura para os males sentimentais.

Segundo Goldhill, a canção de Simíquidas pode ser comparada à de Lícidas no que diz respeito à oposição homem da cidade-pastor, e no meio dessa equação se encontraria o epítome do gênero bucólico. As duas canções pertenceriam ao boukoliasdōmesthai, o desejo de fazer canções pastorais, embora apresentando diferenças. Elas representariam a maleabilidade do gênero e as possibilidades de variação nele existentes, e seriam ao mesmo tempo uma “amostra” do método de criação de Teócrito, e nesse sentido constituiriam uma espécie de metatexto.

Uma particularidade a ser destacada é a constante referência feita pelo poeta siracusano ao trabalho por ele realizado junto a seus hipotextos, e um bom exemplo é o décimo primeiro idílio, que narra o amor não correspondido do ciclope Polifemo pela ninfa Galatéia. Quando o monstro comedor de humanos da Odisséia é transformado em um jovem e ingênuo pastor384 e diz a

sua amada que esta pode queimar seu único olho, ou que algum estranho aparecerá em sua ilha, Teócrito apela não apenas para a memória de seu leitor, mas estabelece com o texto homérico um contraponto que dá ao hipotexto um novo sentido – talvez o ciclope tenha ficado mau após uma desilusão amorosa... A ninfa Galatéia também pode ser reinterpretada intertextualmente, dessa vez em Virgílio. Ela é a causa dos dissabores tanto de Polifemo quanto de um dos protagonistas da primeira bucólica, o pastor Títiro, que nada pôde economizar enquanto a amava. Tal como ele, escravo de um senhor e de uma mulher, Polifemo estava preso a Galatéia por seus sentimentos. E podemos continuar citando o ciclope como exemplo de reaproveitamento intertextual,

383“A descrição ‘en abyme’ da existência de Comatas é também uma rede de imagens de composição

poética, e mais uma vez o poema programático traz a linguagem da poética à tona.” GOLDHILL, S.

The poet's voice: essays on poetics and Greek literature. Cambridge: Cambridge University Press,

1999. p. 235.

384 Polifemo é mostrado como pastor já na Odisséia, mas sem qualquer alusão a algum romance com

182 pois a partir dele surge também o Córidon da segunda bucólica, ou o ciclope mencionado por Aquemênides no terceiro livro da Eneida, ao qual se refere como “pastor Polifemo” (III, v. 657).

Payne acredita que seja possível aproximar a transformação sofrida por Polifemo nos Idílios ao tipo de releitura praticada pelos romances pós- modernos. Nestes, a retomada de eventos presentes em outras obras e sua subsequente reinterpretação ou acréscimo de novos elementos confirma a ficcionalidade tanto da releitura quanto de seu hipotexto. A intenção da maioria desses textos não é invalidar os textos bases e sim acrescentar a eles facetas novas e, desse modo, enriquecê-los. E esse parece ser também o objetivo de tal prática nos poetas antigos.

Já no sexto idílio, dois pastores, Dáfnis e Dametas, resolvem fazer um desafio de canções bucólicas. Dáfnis começa a cantar e o nome de Polifemo é citado: o pastor afirma que Galatéia, agora aparentemente interessada no ciclope, tenta chamar sua atenção sem sucesso, visto que Polifemo toca sua flauta sem dar atenção à garota. O pastor estaria “relendo” o poema do próprio Teócrito, e o ciclope surge em outro nível ficcional dentro do mesmo livro. Portanto, o sexto idílio seria “a poem (...) about the malleability of characters in a fictionalized literary tradition”.385

Através da sua menção de Polifemo, Teócrito evoca toda uma tradição literária que se inicia com a Odisséia. Depois do poema de Homero, o ciclope se tornaria personagem de comédia em Epicarmo, de drama satírico em Eurípedes e de ditirambo em Hermesíanax de Colofão e em Filoxeno de Citera, cuja obra foi parodiada por Aristófanes em Pluto. O tema amoroso envolvendo Polifemo e Galatéia não é, segundo F. Frazer, uma criação de Teócrito, e sim de Filoxeno:

Auteur d’un dithyrambe vengeur contre Denys de Syracuse (...) dont la maîtresse s’appelle Galatée, où le cyclope figurait le tyran, tandis que le poète était Ulysse. Et non seulement Philoxène introduisait dans l’histoire du Cyclope le thème amoureux, mais il l’avait déjà associé au thème de la poésie, puisque (...) le Cyclope, dans son poème, se consolait en jouant de la cithare, dépêchant des dauphins à sa belle pour lui annoncer qu’il guérissait son amour grâce aux Muses.386

385 “um poema sobre a maleabilidade dos personagens em uma tradição literária ficcional.” Idem, p. 97.

386

183 O empréstimo feito por Teócrito à obra de Filoxeno é, portanto, mais literal que o uso virgiliano dos Idílios. No entanto, a transposição se apresenta como uma espécie de diálogo crítico com relação aos vários contextos nos quais o ciclope aparece nas obras anteriores. A imagem de apaixonado infeliz e a comicidade, presentes no poema de Filoxeno, aparecem também no décimo primeiro idílio. Teócrito acrescenta a essas características a consciência da