BÖLÜM 1: GÖÇ KAVRAMI VE KAPSAMI
1.3. Göç Türleri
Conforme discutido na seção 3.3, os seres humanos estão mais dispostos à caminhada quando o percurso máximo até o destino final está em torno de 500 a 800 metros. Segundo Gehl (2013), para que o passeio seja atrativo ao pedestre, é necessário que o percurso que o conecta de um ponto a outro apresente estímulos dinâmicos e aprazíveis aos seus sentidos. A possibilidade de interação com
estabelecimentos comerciais e de serviços diversificados, seja através de mera observação ou por contato tátil e verbal, agrega valor à percepção do percurso pelo pedestre, pois, além atribuir-lhe dinamismo de estímulos, contribui para uma sensação maior de segurança.
Torna-se importante garantir, portanto, a existência de comércio e serviços de atendimento local dentro desta distância de até 800 m em relação às zonas residenciais. Entretanto, não foi desenvolvido um Master Plan para o Porto Maravilha que estipulasse a indução de diferentes tipos de uso por setor16. Master
Plans costumam ser o instrumento mais importante em projetos urbanísticos, já que norteiam as ações, tanto de desenvolvimento do projeto, como de formulação de Leis.
Embora não tenha sido feito um Master Plan para o Porto Maravilha, alguns fatos podem contribuir para que o uso misto se estabeleça de forma espontânea ao longo dos anos no bairro. Além de a região já apresentar uma diversidade significativa de usos antes da implementação da OUC, a LC 101 atribuiu como Zona de Uso Misto (ZUM) todo o perímetro da OUC (exceto ao perímetro de SAGAS), garantindo a possibilidade de implantação de atividades residenciais, comerciais, de serviços e industriais (Do tipo I - cujo processo seja compatível com os demais usos urbanos), sem a predominância necessária de qualquer uma delas. Além disso, o Art. 22 da LC 101 determina que os pavimentos do embasamento deverão ser ocupados parcialmente por unidades residenciais ou comerciais nas áreas voltadas para o logradouro, admitindo-se o estacionamento de veículos somente no interior do pavimento. A interpretação desse artigo não parece tão óbvia, mas sugere-se que ele é o responsável pelos novos empreendimentos do Porto Maravilha possuírem o conceito de Fachada Ativa.
16 Alberto Silva, Presidente da CDURP, explicou em entrevista concedida à autora, no escritório da CDURP em 17/08/2015, que não foi desenvolvido um Master Plan para a região porque a cidade já estava consolidada, além de possuir uma série de entraves de ocupação, como por exemplo a questão do uso das docas.
Figura 72 – Perspectiva do térreo do empreendimento Porto Atlântico. Fonte: Porto Atlântico Institucional... (s.d.).
No bulevar proposto da Avenida Rodrigues Alves, do lado da baía, apresentam-se os galpões fechados para as atividades portuárias e, do lado do continente, encontram-se grandes lotes, que não necessariamente serão ocupados por comércio e serviços que contribuam para a qualidade urbana do passeio (como mostra a figura 72). A testada dos lotes, que hoje possui em média 200 m, pode tornar-se ainda mais larga pelo fato da LC101 estimular o remembramento de lotes, sem estipular um limite máximo de área. Essa ação foi justificada pelo EIV do projeto como forma de possibilitar a implementação de uma variedade maior de empreendimentos e otimizar a venda de potencial construtivo. Entretanto, sem a garantia de que esses empreendimentos promovam no térreo usos interativos dos lotes com as calçadas, torna-se difícil visualizar esse bulevar como efetivamente atrativo para a circulação de pedestres.
Figura 73 – Obra do Bulevar da Rodrigues Alves. Fonte: Fotografado pela autora em 17/08/2015.
Figura 74 – Perspectiva ilustrativa do Bulevar da Rodrigues Alves 2. Fonte: Porto Maravilha – Feira (s.d.)
Outro fator importante de ser analisado na discussão acerca da garantia do uso misto é a preservação de calçadas preexistentes na região portuária que já possuem esse atributo. A Av. Venezuela é um exemplo de rua que possui em alguns trechos características interessantes do ponto de vista da urbanidade17. Além de
apresentar comércios e serviços diversificados, a rua contém equipamentos institucionais, como escola e hospital, que contribuem para que a rua esteja sempre habitada.
A presença de árvores de grande porte muitas vezes restringe os pedestres em caminhos muito estreitos, mas o sombreamento produzido alivia o desconforto térmico em dias muito quentes. Enquanto via coletora, a Av. Venezuela não apresentava muito ruído antes da implementação da OUC Porto Maravilha e não havia ônibus em número significativo para obstruir a visualização do outro lado da rua. Entretanto, a nova estruturação viária proposta pelo Projeto atribuiu a ela o caráter de Via Arterial secundária através da sua continuidade com a Via Binária que, juntamente com a Via Expressa, atendem o intenso fluxo de veículos antes suportado pelo Viaduto da Perimetral e pela Av. Rodrigues Alves.
Entretanto, foram previstos semáforos e travessias de pedestres em todos os cruzamentos da Av. Venezuela, conforme ilustrado na planta a seguir (figura 75), possibilitando a fluidez de pedestres entre os seus dois lados e a manutenção do comércio de bairro existente.
17 Segundo o Dicionário Aurélio, urbanidade é o caráter do urbano. [...] Entenda-se como caráter, seguindo a mesma fonte, como o conjunto de qualidades, boas ou más, que distinguem algo ou pessoa. Urbanidade, portanto, por esse encadeamento conceitual, seria o conjunto de qualidades,
boas ou más, que distinguem uma cidade. O termo urbanidade tem, no entanto, em paralelo, uma
definição em sentido figurado, que é aplicável à conduta das pessoas, referindo-se a atributos tais como cortesia, delicadeza, polidez, civilidade. [...] Esse modo de utilizar o termo é certamente mais conhecido e mais utilizado que aquele relacionado aos estudos urbanos, que se refere, como visto acima, às qualidades ou ao caráter do urbano ou da(s) cidade(s). A definição urbanística não prescinde, no entanto, das especificações dadas na definição em sentido figurado. Falar de urbanidade ao referir à cidade significa falar de uma cidade ou de um lugar que acolhe, ou recebe, as pessoas com civilidade, com polidez, com cortesia. (AGUIAR, 2012)
Figura 75 – Planta de Interseções semafóricas e tipos de pavimento asfáltico Fonte: Porto Maravilha (s.d.)