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Em meados dos anos 1990 a juventude emergiu como alvo de intervenção pública, processo que se intensificou no final da década e ganhou institucionalidade no aparelho do Estado, em nível federal, em 2005, com a criação da Secretaria Nacional de Juventude e do Conselho Nacional de Juventude, na gestão do presidente Lula.

A visibilidade da categoria juventude como alvo da ação pública é recente no país, concorrendo, para tanto, os desdobramentos da conjuntura econômica e social e episódios de natureza violenta envolvendo jovens. Mas os segmentos juvenis adquiriram relevância no debate, por outro lado, em função da intervenção na cena pública de agências multilaterais ao lado de organizações não governamentais que elegeram o jovem como alvo de suas ações nos últimos anos (SPOSITO, 2009, p. 7).

O envolvimento do poder público e da sociedade civil na implementação de ações voltadas aos jovens insere-se num contexto de explosão demográfica (“onda jovem”), recrudescimento das taxas de homicídio juvenil e aumento do desemprego entre os jovens. Apesar da expansão escolar, o cenário era de desesperança diante da ameaça do direito à vida e ao trabalho para parcelas expressivas da nova geração.

A compreensão dos jovens como um “problema social” não era nova,13 mas ganhou

novos contornos diante do aumento sem precedentes das mortes violentas entre os jovens, associadas ao narcotráfico e ao crime organizado.

Nos anos 90 as figuras juvenis mais em evidência são os jovens pobres que aparecem nas ruas, divididos entre o hedonismo e a violência: meninos de rua, jovens infratores, gangues, galeras, tribos; principalmente, jovens “em situação de risco” (risco para si próprios e para a ordem social), dos quais aqueles envolvidos no tráfico, matando e morrendo muito cedo, são uma das imagens mais dramáticas e ameaçadoras de nossos tempos. (ABRAMO, 1997, p. 33)

Nesse sentido, o campo de ações voltadas à juventude apresentava uma faceta importante de contenção e controle, visando minimizar os problemas de integração social dos jovens. De certa forma, foi um caminho parecido com aquele trilhado pelas políticas voltadas

13 Segundo Abramo, a tematização da juventude como problema social é histórica e remonta à ênfase em analisar

essa etapa da vida como uma transição para a vida adulta, um processo que pode apresentar disfunções ou fissuras em termos de integração à ordem social (ABRAMO, 1997).

à infância e à adolescência no Brasil, que antes do Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA estavam pautadas na atenção aos “menores em situação irregular”: os abandonados, carentes e infratores. Fruto de um intenso processo de mobilização social em torno dos direitos das crianças e dos adolescentes, o ECA, aprovado em 1990, modificou o paradigma que orientava o tratamento da infância e da adolescência no país, consolidando o enfoque dos direitos e da proteção integral.

A afirmação dos jovens como sujeitos de direitos e a defesa de políticas públicas universais, que incidissem no processo de desenvolvimento dos jovens e no suporte às suas necessidades – fossem elas materiais, físicas, expressivas, culturais – e não apenas nos aspectos problemáticos da transição à vida adulta, foi uma bandeira de diversos grupos e instituições, que visavam ampliar sua influência na definição conceitual das políticas públicas de juventude. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - Unesco teve forte protagonismo nesse processo. O estudo de Macedo e Castro analisa a atuação da Unesco-Brasil a partir do final dos anos 1990, sobretudo com a criação de seu setor de pesquisas, em 1996, e com o início de suas publicações sobre juventude, em 1998. A primeira publicação, intitulada “Juventude, Violência e Cidadania: os jovens de Brasília”, foi desencadeada em razão do assassinato do índio Galdino por jovens brasilienses de classe média, no ano de 1997.

Segundo o autor, a construção, pela Unesco, do trinômio “juventude, violência e cidadania” teve grande repercussão no agendamento público do tema juventude. A combinação entre pesquisa e intervenção social possibilitou à Unesco parcerias com o governo federal e com governos estaduais na criação, implementação e avaliação de programas. O autor mostra como a agência participou de um processo de constituição de enunciados e de práticas acerca da juventude, exercendo uma hábil articulação de agentes que já tinham uma produção na área de juventude e de violência (MACEDO E CASTRO, 2005). A visibilidade alcançada pela Unesco e sua articulação com os governos permitiu que ela ganhasse destaque num campo multifacetado, em que diversos agentes disputavam conceitos, propostas e recursos.

A constituição de uma agenda pública sobre juventude no Brasil revela a dimensão reflexiva das sociedades atuais, caracterizadas pela interação contínua entre a divulgação de conhecimento científico e a realidade social: “A reflexividade da vida social moderna reside no fato de que as práticas sociais são constantemente examinadas e reformadas à luz de

informação renovada sobre estas próprias práticas, alterando assim constitutivamente seu caráter” (GIDDENS, 1991, p. 45).

Assim, percebe-se uma tênue fronteira entre o campo teórico e prático, entre a pesquisa e a intervenção social sobre juventude, sendo possível perceber a emergência do tema a partir do desenvolvimento entrelaçado dessas duas dimensões. Em relação à ação do Estado propriamente dita, Sposito e Carrano mostram que, no período entre 1995 e 2002, que abarca as duas gestões do presidente Fernando Henrique Cardoso, foram contabilizados 30 projetos e programas desenvolvidos pelo governo federal e que incidiam sobre o público juvenil e/ou adolescente. Destes, apenas três eram anteriores ao governo FHC, enquanto seis haviam sido instituídos entre 1995 e 1998 e 18 no período entre 1999 a 2002, revelando progressivo crescimento ao longo da década e intensificação das iniciativas nos anos 2000. Segundo os autores, as iniciativas refletiam uma compreensão ainda incipiente sobre a juventude como uma fase da vida com características próprias, e apresentavam dispersão e fragmentação no interior da máquina pública.

Em relação à produção de conhecimento acadêmico sobre juventude, os estados da arte coordenados por Sposito são elucidativos.14 Foram dois levantamentos que, somados, abrangem o período de 1980 a 2006. Na primeira pesquisa, que compreende o período de 1980 a 1998, de um total de 8.667 trabalhos foram identificados 385 sobre o tema juventude, perfazendo 4,4% do total (SPOSITO, 2002). Na segunda, para o período de 1999 a 2006, mesmo considerando um intervalo de tempo menor do que o da primeira pesquisa, verificou- se uma explosão da produção acadêmica, que saltou para 15.984 trabalhos, dos quais 971 eram sobre juventude, aumentando a participação do tema para 6% do total. Nota-se um aumento absoluto dos trabalhos sobre juventude nos programas de pós-graduação em educação, mas também crescimento relativo do tema. Um aspecto interessante é que, dentre as palavras-chave utilizadas pelos autores, aumentou o número de menções aos jovens e à juventude, e diminuíram as citações de adolescentes e adolescência, como resultado da predominância de enfoques sociológicos nas pesquisas (SPOSITO, 2009).

Segundo Eisenstadt (1976), todas as sociedades defrontam-se com o fenômeno da idade, e o processo de crescimento e envelhecimento está sujeito a definições culturais extremamente variadas. Para o autor, “As expectativas que se voltam para os indivíduos, no

14 O primeiro estado da arte investigou a produção discente nos programas de pós-graduação em educação (mestrados e doutorados) em âmbito nacional no período entre 1980 e 1998; o segundo incorporou, além dos programas de educação, os programas de pós-graduação em serviço social e ciências sociais.

que se refere à sua idade, constituem-se num dos mais fortes e mais essenciais elos entre o sistema da personalidade do indivíduo e os sistemas sociais dos quais participa” (ibid., p. 12).

A acepção moderna de juventude, entendida como uma fase própria do ciclo de vida, caracterizada pela postergação das responsabilidades da vida adulta, teve como um elemento- chave a emergência do processo de escolarização (ARIÈS, 1991). Como o aumento da influência do Estado nos processos de regulação social, a definição da juventude torna-se também uma categoria administrativa, que estabelece os direitos e deveres de cidadania a partir dos quais as expectativas sociais são produzidas (PERALVA, 1997). Como afirma Debert: “(...) o processo de individualização, próprio da modernidade, teve na institucionalização do curso da vida uma de suas dimensões fundamentais” (DEBERT, 2012, p. 50).

Tornava-se adulto, em sentido pleno, aquele que tivesse percorrido o trajeto que previa, em uma sucessão rápida, etapas como a conclusão dos estudos, a inserção no mundo do trabalho, o abandono da casa dos pais para morar independentemente, a construção de um núcleo familiar autônomo e o nascimento dos filhos. [...] A juventude concebida como fase de transição, em uma palavra, permitia pensar a relação entre identidade individual e identidade social como uma relação entre duas dimensões não apenas complementares, mas superpostas de modo praticamente perfeito (LECCARDI, 2005, p. 48).

É importante ressaltar que, nos anos 1990, não apenas a juventude ganhou destaque nas políticas públicas, mas isso ocorreu também com a velhice e, além do reforço das idades cronológicas, houve também a emergência de etapas intermediárias entre a juventude e a vida adulta (pré-adolescente, adolescente, jovem-adulto) e entre a vida adulta e a velhice (meia- idade, terceira idade, aposentadoria ativa).15 Isso significa que houve, no período recente de nossa história, um aprofundamento na institucionalização das fases da vida e não apenas da juventude.

Entretanto, muitos autores argumentam que a sociedade pós-industrial teria rompido com essa tendência e colocado em curso um processo de descronologização e desinstitucionalização das idades, que consiste no apagamento das especificidades de cada uma das etapas do ciclo de vida, na medida em que as fronteiras tornam-se embaçadas, as transições complexas e reversíveis, e a juventude torna-se um modelo cultural acessível a qualquer segmento etário por meio do consumo e das novas tecnologias do corpo. É

15 Uma profusão de termos surge atualmente e revela o hibridismo entre diferentes idades da vida, conforme mostra Debert (2010): adultescentes, geração bumerangue (refere-se ao número crescente de adultos que continuam morando com os pais ou retornam para a casa deles após uma separação) e kidults (adultos que se interessam por programas, brinquedos e objetos infantis).

importante ressaltar que essas análises estão referenciadas, sobretudo, no contexto europeu dos anos 1980 e 1990, num cenário de envelhecimento populacional, retração do Welfare State e de crise das políticas sociais.

De qualquer forma, a opacidade das fronteiras entre as diferentes idades é facilmente observada também entre nós, quando nos deparamos com o fraco peso da idade cronológica na definição das identidades, que passam muito mais por uma construção individual calcada em múltiplas referências. Ser jovem ou ser velho são definições culturais que acionam símbolos, representações e objetos, algo construído e não naturalmente dado. Giddens nos mostra que este fenômeno ocorre também com a sexualidade, que passa a ser uma construção, uma faceta da individualidade a ser reflexivamente alcançada e desenvolvida, caracterizando- se como um aspecto maleável do eu, desvinculado do corpo biológico (GIDDENS,1993).

Entretanto, a aparente contradição entre, de um lado, a crescente institucionalização das fases da vida, e de outro, a opacidade das fronteiras entre elas, é interpretada por Debert como aspectos de um mesmo processo social que objetivamente tem transformado as idades em mecanismo de criação de novos atores políticos e novos mercados de consumo. É justamente porque são elásticas, relativamente independentes e neutras em relação aos estágios de maturidade física e intelectual, que as idades podem ser acionadas como poderosos mecanismos na constituição de novas demandas, sejam elas públicas ou privadas, sociais ou mercadológicas.

Dessa forma, a autora relativiza as análises que apontam para uma dissolução entre as etapas cronológicas:

As idades ainda são uma dimensão fundamental na organização social: a incorporação de mudanças dificilmente se faria sem uma nova cronologização da vida; seria um exagero supor que a idade deixou de ser um elemento fundamental na definição do status de uma pessoa. Essa flexibilização dos parâmetros anteriores do que seriam os comportamentos adequados e direitos e deveres próprios a cada faixa etária é, contudo, acompanhada da transformação das idades num laço simbólico privilegiado para a constituição de atores políticos e redefinição de mercados de consumo (DEBERT, 2010, p. 61).

Nesse sentido, é interessante perceber que em relação às políticas educacionais, observamos uma tendência à cronologização, tanto nos esforços para corrigir as distorções idade-série, quanto na legislação consagrada pela Emenda Constitucional 19 de 2009 que reconfigura a escolaridade obrigatória por meio de definições etárias, sendo a obrigatoriedade definida para aqueles entre 4 e 17 anos de idade.

A necessidade de correspondência entre as etapas escolares e as etapas cronológicas é reforçada sob o argumento econômico e administrativo, pois permite eficiência e eficácia na aplicação dos recursos financeiros, e também sob o prisma do discurso científico – seja ele pedagógico, psicológico ou sociológico –, que cria e recria argumentos para sustentar a importância dessa correspondência para um melhor aprendizado e desenvolvimento.

No caso do ensino médio, isso pode ser observado no rejuvenescimento dos alunos, cada vez mais “adequados” para a série cursada; na crítica crescente à atividade do trabalho pelos jovens, que deveriam dedicar-se unicamente aos estudos, e na condenação do ensino noturno e propostas de seu fechamento. A visão subjacente é de que o tempo de juventude é o tempo dos estudos, e quanto mais o Estado puder garantir este “encaixe” perfeito, ou seja, uma cronologização rigorosa, mais os jovens serão sujeitos de direitos.

Num cenário de explosão demográfica de jovens, crise econômica com aumento do desemprego juvenil, escalada dos homicídios de jovens, os anos 1990 testemunharam uma corrida ao ensino médio e aos cursos de qualificação profissional. Acirrava-se a crise na integração entre formação educacional e inserção profissional. A maior escolaridade das pessoas não se revertia em melhoria em seus níveis de renda, e as taxas de retorno da educação diminuíam. A transição da escola ao trabalho tornou-se mais problemática.

Ao lado disso, as transformações intensas no mundo da economia e da produção, que tiveram impactos profundos na estrutura do emprego e na sua oferta, ao longo da década de 1990, deram novo impulso ao discurso em defesa de uma escolaridade mais longa e acessível aos jovens brasileiros de ambos os sexos, como um requisito para encontrar um lugar no concorrido mercado de trabalho.

Foi num contexto de forte desestruturação do mercado de trabalho, de crescimento da violência urbana e de questionamento da capacidade socializadora da escola que o Brasil chegou ao final do século XX com uma escola média massificada.

CAPÍTULO 2 – ANTECEDENTES HISTÓRICOS DA EXPANSÃO DO ENSINO