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O processo de modernização educacional dos anos 1990, no Brasil, caracterizou-se pela implementação de reformas, apoiadas em parâmetros internacionais, destacando-se a organização de avaliações nacionais de larga escala11 centradas no desempenho dos estudantes e a focalização dos investimentos no ensino fundamental. Di Pierro sintetizou bem, em texto de 2001, o quadro das políticas educacionais nos anos 1990:

A literatura recente sobre políticas educacionais na América Latina e no Brasil caracteriza os anos 1990 como um período de reformas nos sistemas públicos de ensino, reformas estas estreitamente vinculadas à conjuntura mais geral de redefinição do papel do Estado e ajuste macroeconômico implementado sob orientação de organismos financeiros internacionais e inspiração do pensamento neoliberal. Nesse contexto, as reformas foram regidas por premissas econômicas e procuraram sobretudo dotar os sistemas educativos de maior eficácia com o menor impacto possível nos gastos do setor público, de modo a cooperar com as metas de estabilidade monetária, controle inflacionário e equilíbrio fiscal. (...) Para atingir esses fins, a reforma educacional obedeceu aos vetores comuns às demais políticas sociais públicas, como saúde e previdência social: descentralização da gestão e do financiamento; focalização dos programas e populações beneficiárias; privatização seletiva dos serviços; e desregulamentação, que, nesse âmbito, implica a supressão ou flexibilização de direitos legais e a permissão de ingresso do setor privado em âmbitos antes monopolizados pelo Estado (DI PIERRO, 2001, p. 323).

Não cabe aqui discutir detalhadamente a história da educação brasileira nesse período, mas apenas indicar o cenário mais amplo no qual o ensino médio se desenvolveu.

Os indicadores educacionais vinham evoluindo desde a década de 1980 e encontraram novo impulso e intensidade nos anos 1990. A média de anos de estudo da população aumentou, as taxas de escolarização líquidas melhoraram, o ensino fundamental foi estendido à quase totalidade das crianças, o ensino médio expandiu vertiginosamente suas matrículas, e cresceu de forma significativa o acesso ao ensino superior. A taxa de analfabetismo diminuiu,

11 Apesar de ter sido antecedido por outras avaliações, desde 1987, apenas em 1995 o Sistema de Avaliação da

Educação Básica - Saeb foi regulamentado e ganhou os contornos atuais. O Exame Nacional do Ensino Médio - Enem foi criado em 1998, e em 2002, o Exame Nacional de Certificação de Competências de Jovens e Adultos - ENCCEJA. O Exame Nacional de Cursos (“Provão”), voltado ao ensino superior, foi criado em 1996 e reorganizado em 2004, tornando-se o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes - Enade. O Brasil integra o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes - Pisa, organizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico - OCDE desde sua primeira edição, em 2000. Em 2005 foi criada a Prova Brasil, de caráter censitário.

bem como a distorção idade-série, tanto para o ensino fundamental quanto para o ensino médio

Entretanto, as desigualdades regionais, raciais e de renda no acesso à educação brasileira permaneceram. As mulheres continuaram a apresentar indicadores mais favoráveis do que os homens, tanto em relação às matrículas, quanto ao rendimento e ao fluxo escolar. As disparidades entre brancos e negros mantiveram-se estáveis. Segundo Henriques (2001), a escolaridade média de ambos os grupos cresceu, mas o padrão de discriminação racial manteve-se em padrões análogos às gerações anteriores:

[...] um jovem branco de 25 anos tem (em 1999), em média, mais 2,3 anos de estudo que um jovem negro da mesma idade, e essa intensidade da discriminação racial é a mesma vivida pelos pais desses jovens — a mesma observada entre seus avós (ibid., p. 27).

A desigualdade racial acentuava-se nos níveis escolares mais altos. Em 1999, 63% dos jovens brancos entre 18 e 23 anos não haviam concluído o ensino médio, contra 84% dos negros. Já em relação ao ensino superior, 89% dos jovens brancos entre 18 e 25 anos não haviam ingressado, enquanto esse percentual era de 98% para os jovens negros.

Tabela 2 - Taxa de analfabetismo de pessoas de 10 anos ou mais, Brasil, 1992-2003

Ano Taxa

1992 16,44

1998 12,86

2003 10,6

Fonte: IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios. Elaboração própria.

Tabela 3 - Número médio de anos de estudo, pessoas de 15 anos ou mais, Brasil, 1980-2000

Período Média anos estudo

1980 4,0

1991 5,09

2000 6,20

Tabela 4 - Taxa líquida de escolarização por níveis de ensino, Brasil, 1980-2000 Ano Ensino Fundamental Ensino Médio 1980 80,1 14,3 1991 83,8 17,6 1994 87,5 20,8 1998 95,3 30,8 1999 95,4 32,6 2000 94,3 33,3

Fonte: MEC/INEP/Censo Escolar 1980/2000. Edudata Brasil; IBGE, Censo Demográfico. Elaboração própria.

Tabela 5 - Número médio de anos de estudo dos jovens, Brasil, 1991-2000

Grupo etário 1991 2000

15 a 17 4,7 6,3

18 a 19 5,6 7,3

20 a 24 6,1 7,4

Total 5,5 7

Retirado e adaptado de Sposito (2003b)

Saboia (1998) analisou a situação educacional dos jovens com base na PNAD 1995, verificando que dentre os que tinham entre 15 e 17 anos, idade ideal para cursar o ensino médio, 65,2% estavam no ensino fundamental e apenas 33,8% no ensino médio. No mesmo ano, o índice de alfabetização dos jovens entre 15 e 24 anos era de 92,9%. Entretanto, novas metodologias foram sendo criadas para estabelecer com maior precisão o nível de letramento da população, pois o indicador anos de escolaridade não parecia mais suficiente diante da massificação escolar. Foi assim que surgiu o Indicador de Alfabetismo Funcional - Inaf, criado em 2001. Seus resultados apontaram que apenas 47% dos jovens entre 15 e 24 anos demonstraram pleno domínio das habilidades ligadas à leitura de textos longos, enquanto 35% só conseguiam localizar informações em textos curtos, demonstrando um nível básico de alfabetismo. Na população geral os dados são ainda piores, pois apenas 26% da população alcançou o nível satisfatório (que nos jovens foi de 47%) (AÇÃO EDUCATIVA, INSTITUTO PAULO MONTENEGRO, 2001).

Uma marca da educação dos anos 1990 foi a explosão das matrículas no ensino médio, um movimento expansionista que já poderia ser observado nos primeiros anos da década. A expansão foi tão expressiva que passou de 3.772.698 matrículas em 1991, para 9.169.357 em 2004, ano em que atingiu seu ápice, começando a declinar a partir daí. As matrículas mais que dobraram ao longo do decênio, a despeito da frágil política educacional direcionada a essa etapa, da diminuição do gasto com educação, observada nos primeiros anos da década, e da

focalização no ensino fundamental, na segunda metade. Tratava-se da entrada de um novo contingente de mais de 5 milhões de jovens ao longo de 14 anos. A expansão foi basicamente absorvida pelas redes estaduais, enquanto houve diminuição da rede privada, tradicionalmente importante na oferta dessa etapa educacional.

Tabela 6 - Evolução das matrículas do ensino médio, Brasil, 1991-2005

Ano NoTotal

Matrículas Tx. Crescimento anual (%)

1991 3.772.698 7,8 1992 4.104.643 8,8 1993 4.478.631 8,5 1994 4.932.552 10,1 1995 5.374.831 9 Variação 1995-1991 +44,2% 1996 5.739.077 6,8 1997 6.405.057 11,6 1998 6.968.531 8,8 1999 7.769.199 11,5 2000 8.192.948 5,5 Variação 2000-1996 +44,2% 2001 8.398.008 2,5 2002 8.710.584 3,7 2003 9.072.942 4,2 2004 9.169.357 1,1 2005 9.031.302 -1,5 Variação 2005-2001 +10%

Fonte: Censo Escolar. Elaboração própria.

Outro traço marcante foi a enorme expansão do ensino superior. Em termos relativos, o crescimento foi maior do que no ensino médio, chegando, no ano 2000, ao patamar de mais de 2,5 milhões de alunos. Diferente do ensino médio, nesse caso a expansão ocorreu sobretudo nas instituições privadas, que foram responsáveis no ano 2000 por 67%, das matrículas, enquanto em 1994 atendiam a 58,4%.12

12 Este crescimento se intensificou nos anos seguintes: entre 2003 e 2012 as matrículas cresceram 83%. O ensino

superior foi crescentemente ocupado pelas instituições privadas que, em 2012, foram responsáveis por 73% do total das matrículas na graduação, conforme dados do Censo Escolar.

Tabela 7 - Matrículas na graduação, ensino superior, Brasil, 1994-2000

Tipo de instituição 1994 2000 Crescimento 1994-2000

Instituições públicas 690.480 887.026 29%

Instituições Federais 363.543 482.750 33%

Instituições Privadas 970.584 1.806.072 86%

Total 1.661.034 2.693.098 62%

Fonte: Vieira (2003)

Ao analisar o processo de expansão educacional brasileiro na década de 1990 até 2004, Haddad o classifica como um processo de “exclusão pela inserção precária”. Ele enfatiza um novo processo de exclusão gerado com a ampliação do acesso à escola, que continuou sendo bastante desigual.

Que fatores contribuíram para este quadro? A resposta é simples: mais vagas com menos recursos por vaga, o que transformou a escola pública em uma escola pobre para pobres. Os estudantes e os grupos mais vulneráveis que a frequentam – os pobres, os negros e as populações indígenas – estão em desvantagem. Contraditoriamente, as escolas de Ensino Superior de melhor qualidade são públicas, mas aí a maioria das vagas é ocupada por alunos com maior poder aquisitivo, com condições de serem aprovados no vestibular porque fizeram, na maioria dos casos, escolas privadas ou cursos preparatórios privados (HADDAD, 2008, p. 3).

Diante de um cenário econômico adverso, com estagnação econômica, manutenção das disparidades de renda e aumento do desemprego, os avanços no acesso à educação não diminuíram desigualdades sociais, como seria esperado, e criaram novas formas de exclusão inesperadas, como a incapacidade de ler e escrever mesmo após concluir as primeiras séries do ensino fundamental. Isso revela que a educação não caminha sozinha, apartada do contexto econômico mais geral e das políticas sociais. Foi um período de avanço educacional com desesperança, principalmente para os jovens, o que esvaziava em grande parte o próprio sentido positivo do avanço conquistado.

Mas há contradições criadas no processo de expansão das oportunidades educacionais que dificilmente podem ser reduzidas aos dados estatísticos: histórias de vida, fracassos e sucessos, percursos múltiplos que aqui não nos cabe analisar, mas que tornam esse processo multifacetado. Para muitos, o maior acesso à escola criou novas possibilidades de trajetórias de vida, alterou padrões ocupacionais, inseriu parcelas dos segmentos mais empobrecidos na instituição escolar, que foi se tornando ponto de convergência de outras políticas sociais. Para outros, foram criadas novas expectativas ocupacionais não satisfeitas, produzindo frustração e aumentando o sentimento de fracasso. Os efeitos da ampliação do acesso escolar continuam a gerar frutos diversos e contraditórios na estrutura social brasileira.