2.3. TÜRKİYE’DE ÇEVRE VE KİRLİLİK SIĞINAKLARI ÜZERİNE
2.3.1. Türkiye’nin Serbestleşme Sürecinde Çevresel Göstergeler
O sítio arqueológico Morro da Formiga (RS-S-61) está situado na cidade de Taquara, em uma zona da sua periferia. Este local encontra-se na encosta inferior da porção nordeste do planalto sul-brasileiro (na área da Depressão Central Gaúcha) e no vale do rio Paranhana -um dos maiores afluentes do rio dos Sinos 34 (figuras 1 e 2). Trata-se de um assentamento do tipo a céu aberto em um topo de morro, em uma área mais baixa e quente do que as encontradas na região do planalto, nas quais estão presentes a maioria dos sítios associados à ocupação feita pelos grupos pré-coloniais do planalto (figura 3).
As pesquisas neste local, realizadas na década de 1960 e coordenadas pelo arqueólogo Eurico Miller, confirmaram com mais subsídios a presença remota de grupos não-guaranis em território do Rio Grande do Sul, o que já havia sido revelado por trabalhos realizados em outras localidades. Foi encontrada uma densidade muito grande de artefatos cerâmicos e líticos em superfície e na camada arqueológica35, que não apresentava-se muito espessa. As características identificadas nos artefatos cerâmicos descobertos neste sítio foram utilizados pelos investigadores do Pronapa como os principais parâmetros para a definição da Tradição Taquara.
34 Descrevo com maiores detalhes as características ambientais da região na qual o sítio Morro da Formiga está
inserido no último capítulo desta dissertação.
35 Apresento mais informações sobre a camada arqueológica escavada e sobre influência de processos pós-
deposicionais no sítio Morro da Formiga no capítulo três deste estudo, que é quando busco analisar a distribuição espacial dos vestígios materiais encontrados.
Figura 1: Mapa de localização do sítio Morro da Formiga (elaborado por João Saldanha)
Figura 2: Mapa de localização do sítio Morro da Formiga, com o Vale do Rio dos Sinos em detalhe (elaborado por João Saldanha)
Figura 3: Planta topográfica do sítio Morro da Formiga (original de Eurico Miller)
De acordo com a documentação elaborada por Miller36 - estudioso que procedeu com as investigações empíricas - o lugar já era conhecido desde 1955 pela comunidade, quando a sua área estava ocupada por plantações de acácia e eucalipto. Em razão disto eram impraticáveis as atividades arqueológicas neste momento. Somente em fins de 1964, quando houve o abate destas árvores, foram iniciados os primeiros testes estratigráficos no local e em 15 de julho de 1965 começou a escavação sistemática da área que delimitava o sítio.
A escavação arqueológica resultou em uma enorme área trabalhada, pois foram abertas 281 quadrículas de 2X2m (4m² cada), as quais foram divididas em sub-quadrículas de 1X1m, resultando num total de 1124m² de área escavada. Dentro do grande espaço que circundava o sítio, Miller delimitou quinze áreas principais e em cada uma delas selecionou grande parte das quadrículas para serem abertas (figura 4). As quadrículas que não foram escavadas estão localizadas principalmente nas zonas que apresentaram menor densidade de materiais. Estes dados revelam o desenvolvimento de um trabalho de campo muito intenso no local – o que o configura como um dos maiores sítios já escavado em superfície ampla (em quase toda sua totalidade) no sul do Brasil.
36 Documentação referente aos manuscritos de trabalho de campo, que estão localizados no acervo do Museu
Arqueológico do Rio Grande do Sul (Marsul), e ao relatório das pesquisas efetuadas na área na qual o sítio está inserido produzido por Miller (MILLER, 1967). Utilizo estes materiais para descrever o sítio e as atividades efetuadas nele.
Figura 4: Planta da escavação do sítio Morro da Formiga (original de E. Miller) OBS: As quadrículas marcadas com X não foram escavadas
As evidências encontradas, como já coloquei, referem-se basicamente a artefatos cerâmicos e líticos em grande quantidade. A coleta destes artefatos se deu de forma controlada nas porções selecionadas. Entretanto, apesar da escavação ter sido planejada e executada desta forma, alguns fatores posteriores acabaram por alterar os dados que tinham sido obtidos inicialmente.
Primeiramente, no local onde foram depositados os artefatos depois de serem trazidos de campo - o Marsul - não se procedeu de forma adequada com o seu registro. As peças não foram catalogadas e numeradas, tendo sido apenas acondicionadas em caixas de papel com identificação por quadrícula. Assim, devido ao precário acondicionamento do material, às más condições de conservação e à própria ação do tempo, algumas informações de procedência das quadrículas foram perdidas. Em razão destes problemas, há artefatos líticos sem nenhuma informação espacial, com materiais sem referência e também com informações misturadas.
Além disso, ao estudar os artefatos cerâmicos, Miller procurou reconstituir suas formas colando os cacos que se encaixavam, fato que resultou na perda da informação espacial destes vestígios registrada durante toda a escavação. Portanto, existe uma parte dos artefatos líticos e a maioria dos cerâmicos sem as informações espaciais de origem.
De uma forma bastante breve e descritiva, estas são as informações existentes sobre o sítio arqueológico em questão, resultantes dos trabalhos desempenhados no sítio e posteriormente no Marsul. Tendo em vista a caracterização que fiz anteriormente do período relacionado com este trabalho, torna-se possível consequentemente examinar a maneira como este conhecimento foi constituído principalmente por Eurico Miller.
Em primeiro lugar, gostaria de destacar a atividade de escavação realizada no sítio arqueológico. Os trabalhos foram iniciados em dezembro de 1964, período anterior ao começo das primeiras investigações efetuadas pelo Pronapa nesta área, em novembro de 1965. No relatório escrito por este profissional sobre as pesquisas referentes ao primeiro ano do programa, as características deste sítio e de sua cultura material são incluídas na descrição da Fase Taquara, apesar de estar claro no texto que estavam sendo abarcados os estudos efetuados nos períodos anteriores ao início do programa, os quais resultaram na identificação de 365 sítios arqueológicos no vale do rio dos Sinos e, em especial, na cidade de Taquara. Além disso, Evans acrescenta na introdução do relatório destas pesquisas as mesmas colocações, ressaltando que em algumas áreas selecionadas para estudo já havia informações prévias e até mesmo sítios escavados (Evans, 1967). Pude concluir, desta forma, que o sítio
em questão foi trabalhado em momento anterior à realização das pesquisas vinculadas a este projeto, embora tenha ele sido abarcado na descrição dos trabalhos efetuados na área do vale do rio dos Sinos e Maquine.
Assim, foi possível compreender porque a metodologia empregada neste local não condiz em parte com a aplicada pelos arqueólogos do Pronapa. Uma escavação em área ampla, como a que foi realizada neste local, não era prevista, e sim apenas prospecções com coletas superficiais e poucos cortes estratigráficos, conforme já destaquei. Ao perceber que o sítio já era conhecido pela comunidade desde 1955 e que Miller provavelmente encontrava-se em fase inicial de carreira, acredito que a escavação nesta área tenha servido como uma experiência, uma das suas primeiras práticas de campo. Logo, tal lugar representa uma exceção no padrão de desenvolvimento da arqueologia nesta época, pois se trata de um dos poucos exemplos de uma área arqueológica trabalhada em superfície ampla.
A respeito da cultura material obtida na escavação, saliento a preferência pelo estudo da cerâmica sobre os outros tipos de vestígios materiais, pois em razão do que comentei, principalmente através destes fragmentos é que eram estabelecidas as seqüências seriadas na época. Miller, pelo que se pode deduzir, ao analisar os objetos em laboratório, deixou os artefatos líticos de lado e partiu para o estudo da cerâmica, reconstituindo algumas de suas formas ao colar os cacos. Muito provavelmente este investigador tinha como objetivo elaborar uma seqüência seriada a partir destes fragmentos e dos encontrados nos outros locais da região, mas não conseguiu alcançá-lo pois como ele mesmo afirma “devido ao número reduzido de cacos por sítio, não foi possível estabelecer uma seqüência seriada” (MILLER, 1967:20).
Digo isto para esclarecer que, embora este sítio não tenha sido escavado de acordo com a metodologia de campo usualmente aplicada pelo Pronapa, a cultura material encontrada neste local, por sua vez, parece ter sido tratada a partir da adoção do método de seriação. Este fato é ressaltado devido a Miller ter reconstituído alguns potes cerâmicos, embora não tenha conseguido levar a cabo o emprego desta técnica. A explicação para tal acontecimento foi porque em outros assentamentos identificados na área não havia quantidade suficiente de fragmentos cerâmicos.
Apenas para finalizar esta tentativa de contextualização da formação dos dados referentes a este sítio, destaco que a informação espacial referente ao local de procedência de cada objeto certamente não tinha grande relevância nesta época, uma vez que as atenções estavam voltadas para outras abordagens. Assim torna-se perfeitamente compreensível que este pesquisador não tenha conferido importância a este tipo de dado, pois acabou por perdê-
lo ao juntar os fragmentos cerâmicos que não foram numerados. Hoje em dia a abordagem contextual espacial é de grande valia para os arqueólogos, mas no período em questão não deveria possuir sentido algum nas investigações.
Tendo estes apontamentos em vista, percebi que o assentamento em questão foi investigado em grande parte de acordo com as orientações teóricas e metodológicas adotadas pelo Pronapa. Logo, mostrou-se muito importante, para dar prosseguimento à minha pesquisa, situar esta produção de conhecimento em relação ao seu contexto de realização, levando em consideração os aspectos históricos, sociais e até mesmo políticos relacionados ao seu desenvolvimento. Pude compreender, portanto, a partir de que preocupações e interesses ela foi gerada.
Estas informações elaboradas por outro pesquisador são, desta forma, o meu ponto de partida para estudar a ocupação remota no Morro da Formiga.
Acreditando que na arqueologia a escrita seja uma prática muito importante, propus- me a avaliar como se dá a sua construção pelos investigadores. Inicialmente coloco alguns comentários teóricos acerca da forma de pensamento que defende a escrita dos textos como um processo de constituição de discursos arqueológicos. Procuro identificar quais interpretações foram geradas, a partir dos dados obtidos com as pesquisas realizadas, sobretudo pelos estudiosos vinculados ao Pronapa. Finalmente situo a minha proposta de estudo nas problemáticas de pesquisa existentes sobre os grupos ceramistas do planalto. Ao fazer isto manifesto algumas insatisfações de minha parte a respeito das formações discursivas resultantes de tais investigações e apresento alguns dos objetivos que pretendo atingir para contribuir para o conhecimento acerca destas populações no período pré-colonial.