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Türkiye’nin Ruhu: Türk Toplumunun Sosyolojik Tahlili

III. OĞUZ ATAY’IN DÜŞÜNCESİNDE TÜRKİYE MODERNLEŞMESİNİN

5. Türkiye’nin Ruhu: Türk Toplumunun Sosyolojik Tahlili

Como já foi indicado acima, a iniciativa da proposta de criação de um programa de Previdência Rural partiu do Executivo e foi encaminhado ao legislativo pelo Presidente da República no início do ano legislativo de 1971. O presidente Medici, na mensagem presidencial anexada ao encaminhamento do projeto de lei, apontou como uma das razões para criação do Prorural a importância da reparação de uma injustiça social existente, visto que os trabalhadores urbanos eram contemplados, desde finais da década de 1920, com a elaboração de um sistema previdenciário, enquanto a população rural desde então permanecia excluída.

“(...) Por outro lado, reconhecia que desde os anos de 50, nosso esforço desenvolvimentista vem sendo predominantemente industrial e de forma desequilibrada em relação ao setor agrícola. Para a correção dessa anomalia, era e é necessário considerar o homem, inclusive e primordialmente o homem do campo, a primeira de nossas infra-estruturas básicas. (...) não menos explícitas foram minhas palavras em 1970: ‘Meu governo continuará fiel ao espontâneo compromisso de realizar a revolução no campo, para que possa suprir as necessidades de nosso imenso contingente humano e ajudar a

28 A leitura da mensagem presidencial foi feita pelo líder do governo no Congresso, senador Petrônio Portella, no dia

14 de abril, mas o projeto de lei e sua mensagem foram enviados dia 5 de abril. (Diários do Congresso nacional, 1971, 14 abr., p.4)

humanidade sempre mais faminta’(...)” (Medici, Diário do Congresso Nacional, 1º abril, p. 4, 1971)

O órgão que realizou os estudos, estatísticas e análises para a elaboração do Projeto de Lei (PL) foi o Ministério do Trabalho e Previdência social (MTPS) cujo ministro, Júlio Barata, havia se comprometido publicamente quando assumiu o cargo em 1969, com a criação de um programa previdenciário para área rural como uma de suas metas. (DHBB, 2002, pp.1-2, cd-rom)

A principal justificativa apontada para implantação de um programa de previdência para os trabalhadores rurais era a necessidade de contenção do êxodo rural e conseqüentemente do inchaço urbano. O crescimento da população urbana acarretava por sua vez, queda na qualidade de vida dos grandes centros devido à saturação da infra- estrutura. Líbero Massari, burocrata do Ministério do Trabalho e futuro presidente do Funrural, proferiu na Associação de Diplomados da Escola Superior de Guerra (Adesg) do Rio de Janeiro, uma palestra sobre Previdência Rural em que apontou este aspecto como justificativa para a criação do Prorural e a sua importância para a sociedade brasileira.

“(...) a melhoria dos fatores de sobrevivência, na mesologia campestre, seja por efeito da reforma agrária, seja através dos benefícios do seguro social, evitará a deserção de braços do meio rural e o conseqüente entumecimento das cidades, do qual advém o desemprego, com a revolta e a criminalidade, pela oferta excessiva de mão de obra não especializada. (...)” (Massari, 1970, p.8)

Líbero Massari também destacou a criação da previdência rural como um meio de fortalecer a economia, pois promoveria a ampliação do poder aquisitivo de grupos menos favorecidos, ou seja, um meio de redistribuição de renda.

“(...) A maior capacidade e pagamento converterá os trabalhadores agrários em consumidores mais expressivos, de manufaturados, reforçando-se em decorrência o mercado interno, enquanto se busca, igualmente, maior exportação de nossos produtos, na competição internacional; é inegável que a ampliação do mercado interno, tanto quanto o incremento das exportações, conduz à criação de novos empregos para os habitantes da cidade, além de maiores lucros para as empresas e aumento da receita tributária nacional. (...)” (Massari, 1970, p.8)

A própria mensagem presidencial encaminhada com o projeto de lei ao Congresso Nacional enfatizava essa interpretação:

“(...) Para que, mediante uma decisão corajosa, a cidade ajuda o campo, como o campo vem ajudando a cidade, é que se deve implantar um programa de assistência, ainda que com algum sacrifício das camadas sociais, até agora menos desafortunadas que a grande massa dos trabalhadores rurais, fazendo com que estes se radiquem na gleba que cultivam, elevem sua produtividade

em proveito, também, do consumidor citadino, e desfrutem dos elementares recursos indispensáveis a uma vida melhor, mais sadia e mais tranqüila. (...) ” (Medici, op cit,1971)

Essa linha de argumentação se aproximava também dos princípios definidos pela Doutrina de Segurança Nacional – já comentada no capítulo anterior – cuja diretriz norteava a atuação do regime na promoção de políticas, auxiliando, neste caso, na manutenção do povoamento do interior e na segurança das áreas de fronteiras.

Tendo assim justificada sua apresentação, a partir da sua entrada no Congresso Nacional, o Projeto de Lei (PL) do Prorural integrou a pauta de discussão ao longo de seis meses – de abril a novembro de 1971.

Apresentado em abril com a leitura da mensagem presidencial, foi encaminhado para votação e sancionado ainda no mês de maio. A votação do projeto de lei (PL) ocorreu no dia treze de maio e a sua sanção no dia vinte e cinco de maio. O prazo de tramitação foi curto, pois foi votado em regime de urgência29, ou seja, em quarenta e cinco dias. Apesar do prazo exíguo, o projeto de lei recebeu 116 emendas provenientes do legislativo, das quais menos de vinte foram incorporadas. (Diários do Congresso Nacional, 13 mai 1971: 7) Entretanto após a sanção permaneceu no Congresso até o mês de novembro, quando se fez ajustes legais no Estatuto do Trabalhador Rural e foi feita a divulgação da sua alocação orçamentária.

Contudo, vale reforçar que o dia mais importante desse período foi o dia treze de maio de 1971 quando se deu a votação do projeto de Lei Complementar nº1 que instituiu o Programa de Assistência ao Trabalhador Rural (Prorural). Vale lembrar o simbolismo da data, visto que, este projeto era comparado com a Lei Áurea instituída em 13 de maio de 1888. Ou seja, a previdência rural que seria supostamente a “Segunda Lei Áurea” foi votada no mesmo dia para reforçar essa associação elaborada em torno da medida. Depois dessa data, as menções ao Prorural são com a medida já votada e sancionada.

O projeto sofreu uma modificação em sua redação final, devido à votação conjunta de um substitutivo elaborado pelo relator deputado Ildélio Martins a pedido do Presidente da República. O objetivo do substitutivo era retirar da base de financiamento uma contribuição sindical de 20%. O executivo tomou essa iniciativa de alterar o projeto de lei devido à mobilização dos sindicatos de trabalhadores urbanos e rurais em

29 Prazo de urgência significa o menor prazo estabelecido para revisão e votação (ocorre em único turno) de um

prol da remoção desta contribuição, alegando que ela prejudicaria o orçamento dos mesmos. Esta mobilização se deu através de missivas e telegramas a todos os parlamentares, ao MTPS e ao próprio presidente Medici.

Anteriormente a essa movimentação política, entretanto, o senador Franco Montoro, do MDB, já havia proposto uma emenda que retirava essa contribuição.30 Contudo, ela foi reprovada pela comissão mista.

Quanto à votação propriamente dita, o seu procedimento ocorreu em três etapas, a saber: a votação do texto do projeto de lei propriamente dito, seguida da votação do substitutivo e, por último, a votação das emendas propostas que o relator aceitou previamente em análise anterior ao dia da votação. (Diários do Congresso Nacional, 1971, 14 mai., p.7-8)

Devido à pequena quantidade de legisladores que se encontravam presentes no Congresso após os discursos em tribuna, dois parlamentares discursaram para definir qual seria o procedimento adotado para organizar o processo de votação. Isso se fez necessário, pois um projeto de lei podia ser aprovado com base na maioria partidária, ou a partir de alianças entre partidos, ou por maioria simples, independente dos partidos. (Ibid, p.36)

Neste caso a votação e aprovação do Prorural transcorreram por maioria simples, pois tanto a Arena quanto o MDB eram favoráveis a sua aprovação e implementação. No processo de debates sobre a questão, o deputado Cantídio Sampaio (Arena - SP) afirmava:

“(...) Sr. Presidente, de acordo com a jurisprudência firmada por V. Exa., tratando-se de projeto de lei complementar a matéria sobre a qual nos devemos manifestar, quero levar ao alto conhecimento de V. Exa., que existe identidade de ponto de vista da maioria e a minoria para esta votação. De modo que o problema do quorum, pela unanimidade que desta maneira se alcança, fica superado.” (Sampaio, Diários do Congresso Nacional, 14 mai. 1971:30)

Em seguida, o senador Nelson Carneiro (MDB - RJ), em consonância com a fala de Sampaio e como líder da minoria no Senado, afirmou:

“(...) Sr. Presidente, o nobre líder da maioria interpretou o pensamento dessa casa. Ainda que houvesse divergência, como há, entre nossas bancadas, no que se refere, a alguns textos do projeto, acredito que devemos cumprir, patrioticamente, o nosso dever, não retardando a aprovação de proposição que pode abrir horizontes ao homem do campo. (Carneiro, Diários do Congresso Nacional, 14 mai. 1971:31)

30 Essa situação foi divulgada pela imprensa de grande circulação como revista Veja e o jornal O Globo, o que será

Por fim, vale ressaltar que a concordância entre o MDB e a Arena em torno do projeto era aparente, visto que o MDB via essa proposta previdenciária como uma conquista de um direito social para os trabalhadores. Contudo, ressalvava ao longo do processo as diversas falhas e restrições ao projeto de lei encaminhado pelo Executivo. Ainda mais pelas condições impostas como a dificuldade de aceitação de emendas e o curto prazo de tramitação, que era o menor prazo legal, o regime de urgência.

Finalizado esse processo no dia 13 de maio, o Prorural só seria tema de debate nos meses de outubro e novembro.

No dia 23 de outubro de 1971, quando ocorreu a divulgação do I Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), o Prorural foi mencionado na sessão referente à agricultura e pecuária:

“(...) No que respeita ao atendimento social ao agricultor, já se deu grande passo com o Prorural, nos termos da lei Complementar nº 11, que estendeu ao trabalhador rural os benefícios da aposentadoria, pensão e serviços de saúde e social. (...)” (Diários do Congresso Nacional, 23 out. 1971:9)

No mês seguinte o Prorural foi mencionado duas vezes. A primeira delas no dia cinco de novembro, devido à votação da aprovação de crédito suplementar no qual a Previdência Rural foi alocada. Nesse momento, o Prorural era apontado como um desafio a ser enfrentado, diante do contexto socioeconômico do período:

“(...) Nesse sentido, entretanto, não nos será lícito esquecer a complexidade da situação enfrentada pelo governo. De um lado, os riscos inerentes a um processo inflacionário debelado: de outro, as múltiplas e acumuladas transformações que o país experimenta, por força da própria política econômica-financeira ora em vitoriosa execução : e, paralelamente, as dificuldades naturalmente decorrentes da implantação simultânea – em que se empenham as autoridades – de um plano nacional de desenvolvimento, do orçamento plurianual e das substanciais reformas socioeconômicas, objeto de projetos especiais: PIN, PROTERRA, PIS, PRORURAL.” (Diários do Congresso Nacional, 05 nov.1971: 32)

A segunda menção ocorreu no dia vinte e cinco, devido à necessidade de ajuste nos textos legais do Estatuto do Trabalhador Rural de 1963 e à legislação do Prorural, para evitar o conflito entre eles, pelo fato de estipularem atribuições legais distintas como, por exemplo, a mudança de definição do Funrural, no ETR, que funcionava como o programa de previdência que seria administrado pelo IAPI e em 1971, o Funrural passou a ser autarquia administrativa e o programa de previdência foi denominado de Prorural. Para isso se compôs uma subcomissão dentro da Comissão de Agricultura e política rural.

A seguir, no próximo ítem apresentaremos os debates parlamentares que permearam o processo de tramitação do Projeto de Lei no Congresso. Destacamos alguns temas como relevantes para reflexão e entendimento acerca da elaboração do projeto de lei e do próprio programa devido exatamente a esse clima de tensão e crítica em torno da proposta presidencial.

2.2 Apresentação dos temas debatidos em discussões parlamentares ao longo