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2.1. Türkiye’de Finansal Kiralama ve Dağılımı

2.1.1. Türkiye’de Finansal Kiralama

p. 27-47)6, o psicanalista brasileiro Joel Birman examina o atual projeto de

felicidade, que incide sob as classes médias e elites brasileiras. Na análise de Birman (Ibid.), o sujeito deve, acima de tudo, ser feliz. A condição de felicidade tornou-se mandatória e imperativa:

Numa sociedade supostamente democrática, que transformou a igualdade num de seus ideais primordiais e num dos alicerces da cidadania, a aspiração à felicidade passou a ser pleiteada como algo da ordem do direito. Com efeito, mesmo que seja de ordem formal e não necessariamente real, delineado que foi como possibilidade para o usufruto legítimo da cidadania, o direito à felicidade passou a poder se inscrever na cena contemporânea ao lado de outros direitos, como o direito à saúde, por exemplo (BIRMAN, 2010, p. 28).

Consequentemente, todos aqueles que não conseguiram realizar tais aspirações, passaram a se sentir vítimas da injustiça social. Nesse contexto, Birman (2010, p. 28) afirma que essas transformações contemporâneas são desdobramentos de impasses que foram tecidos no projeto da modernidade.

Na leitura do psicanalista, as palavras “feliz” e “felicidade” estão etimologicamente relacionadas a três registros semânticos. O primeiro deles é a satisfação, ou seja, o prazer como afeto e sentimento, assim como o estado de plenitude e sua consequente ausência de falta. O segundo é da ordem do imprevisível e diz respeito à sorte, mesmo que momentânea: como não se pode controlar o mundo, faz-se com que o indivíduo sinta-se afortunado em seu

CAPÍTULO 2 - A Mãe Elástico: suas origens e contradições

destino. E o terceiro deles está relacionado à realização de algo concreto, como um empreendimento exitoso ou um bom negócio.

Para o indivíduo atingir a condição de afortunado e ser efetivamente venturoso em sua plenitude, necessário se faz que possa contar com a sorte, para a realização de um feito e de um bom negócio, isto é, é preciso que o destino possa ir ao encontro da pretensão do indivíduo para possibilitar que este realize um feito na sua materialidade (BIRMAN, 2010, p. 30).

Estes três registros (satisfação, sorte e feito), tal como a experiência da satisfação, adquirem significados distintos em momentos históricos diferentes. A análise de Birman (2010, p. 27-47) percorre diferentes temporalidades, concentrando-se nos seguintes tópicos: corpo e prazer, estratégia e cálculo, individualismo e perfectibilidade, narcisismo e espaço privado, autonomia e eu ideal, autoestima e qualidade de vida e signos da infelicidade.

Na modernidade, o registro da alma perde seu lugar de autonomia e superioridade, o hedonismo alça o corpo à condição de bem supremo e a felicidade é situada no registro do corpo, o qual é regulado pela oposição entre prazer e desprazer (BIRMAN, 2010, p. 31). Com a organização teórica da psicanálise, Freud funda o aparelho psíquico na experiência de satisfação, na qual o sujeito busca o prazer e evita o desprazer. Nessa perspectiva, a afirmação do desejo dita a experiência de satisfação e afasta o desprazer como possibilidade (Ibid, p. 31).

Na análise de Birman (2010, p. 32-34), a possibilidade de o indivíduo controlar o imprevisível, em vez de submeter-se a ele, é uma ideia derivada do discurso científico e da calculabilidade na leitura dos acontecimentos do mundo, que emergiu no Iluminismo, a partir do século XVIII. Segundo o autor, o discurso da ciência possibilitou que uma perspectiva estratégica fosse traçada, pensando-se na busca de realizações individuais e no engendramento concreto da felicidade. Ocorreu, assim, uma transição da racionalidade qualitativa para a racionalidade quantitativa, que é matemática e precisa.

No século XVIII, o ideário da felicidade e seu imperativo inscreveram-se no projeto filosófico, ético e político iluminista de modo amplo. Com a

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Revolução Francesa, os ideais de igualdade, liberdade e fraternidade delinearam um campo formal para a busca de felicidade a todos os cidadãos (BIRMAN, 2010, p. 34). Apesar disso, “foi o discurso do individualismo como valor o que se constituiu efetivamente neste contexto histórico e social” (Ibid, p.34). Consequentemente, “o projeto de construção da felicidade começou a se caracterizar, desde então, pelo culto do indivíduo, que passou a ser considerado como valor em si e para si” (Ibid, p. 35).

A partir do século XIX, “a desigualdade efetiva entre cidadãos tornava apenas formal o ideário da igualdade, que era então muito mais algo da ordem da possibilidade do que da realidade” (BIRMAN, 2010, p.35). Nesse momento histórico, o liberalismo político e econômico ascendeu; surgiram conflitos sociais que se desdobraram no projeto político do socialismo e ocorreram revoluções em diferentes países buscando-se estabelecer a igualdade entre os cidadãos (Ibid, p. 35).

Com a queda da União Soviética, o projeto socialista fracassou e, a partir dos anos 1980, o neoliberalismo foi consolidado nos países do Ocidente. O Estado perdeu a posição de mediador e regulador da ordem sociopolítica. As estruturas de previdência e bem-estar social foram frequentemente criticadas pela nova ordem neoliberal, até que a lógica de mercado desmobilizou o Estado e passou a regular a sua própria gestão. Além disso, o mercado estendeu-se a dimensões internacionais. Todas essas transformações resultaram no processo de globalização e, dentre suas principais consequências, tivemos o enfraquecimento das instituições políticas e a fragmentação do espaço social em um conjunto de indivíduos em busca da realização de seus feitos e empreendimentos, numa dimensão jamais vista:

Como os indivíduos não podiam contar mais com a proteção do Estado, deveriam então se voltar freneticamente para a realização dos seus empreendimentos e negócios, num clima geral de “salve-se quem puder”. A guerra de todos contra todos estava assim instituída, numa ordem social em que a ideia de pertencimento a uma totalidade se perdera inteiramente (BIRMAN, 2010, p. 36).

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Birman cita duas importantes leituras sobre a emergência do individualismo na contemporaneidade. A primeira foi realizada por Christopher Lasch em A cultura do narcisismo (2006).7 Já a segunda foi elaborada por Richard

Sennett em O declínio do homem público (1988) e em A corrosão do caráter (1999). A partir dos anos 1990, o discurso sobre a felicidade foi disseminado no Ocidente, tendo como foco a ideia de que cada indivíduo pode buscar seus objetivos particulares, sem se inscrever como participante de uma ordem social englobante. Cada indivíduo passa a agir e a se representar “como uma pequena empresa neoliberal, na busca pela sobrevivência, sem poder mais contar com a proteção de ninguém” (BIRMAN, 2010, p. 37). Nesta concepção de felicidade, a autonomia inscreve-se como valor supremo, aliando-se intimamente à valorização da autoestima e ao cultivo da qualidade de vida. (Ibid, p. 37).

Os três elementos em pauta [autonomia, autoestima e qualidade de vida] se encontram sempre em destaque, de diferentes maneiras, em todos os discursos sobre a felicidade na atualidade. [...] sem poder mais contar nem com o outro nem tampouco com a proteção do Estado, o indivíduo teria que travar uma batalha diária pela sobrevivência, uma batalha que seria nua e crua (BIRMAN, 2010, p. 37).

Consequentemente, a competitividade aumenta no mercado de trabalho e, em vez de solidariedade ou amizade entre trabalhadores, observa-se a constituição de associações esporádicas e parcerias pontuais. Neste ponto, Birman (2010, p. 38) cita Sennett, que desenvolveu a análise da corrosão do caráter em 1999 como marca do trabalhador contemporâneo, que se esforça para adaptar-se às exigências e à instabilidade do mercado de trabalho em nome de sua sobrevivência.

É na promoção da autonomia que se fundamenta a exaltação do eu. “O outro desaparece do horizonte psíquico do sujeito” (BIRMAN, 2010, p. 39). O imperativo da qualidade de vida passa a prescrever práticas de alimentação saudável e atividades físicas para reforçar a autoestima e a autonomia individual. A

7 Birman cita a edição publicada em 2006, mas o livro A Cultura do Narcisismo, de autoria de

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mídia impressa e os programas de televisão incorporam esta agenda, promovendo um estilo de vida saudável e equilibrado. Todavia, o medo da morte e a possibilidade de adoecer entram em cena como preços a serem pagos por aqueles que não seguirem as recomendações midiáticas, nem adotarem essas práticas preventivas. O discurso científico mostra a sua força, apoiando-se em estatísticas ameaçadoras, sedimentando a medicalização e a psiquiatrização do espaço social. Além disso, as ideias de saúde e beleza passam a caminhar juntas, de modo que o sentir-se belo alinha-se à manutenção da autoestima em alta (Ibid, p. 39-41).

Por outro lado, manutenção da autoestima torna-se diretamente vinculada à condição do indivíduo em ser vencedor ou perdedor. Entretanto, a condição de vencedor é excludente, pois está subordinada à autonomia do sujeito:

Com efeito, estariam no campo dos vencedores todos aqueles indivíduos que pudessem sustentar a sua autoestima em alta, assim como no dos perdedores todos os que a mantivessem em baixa.

Porém, não se pode esquecer que a manutenção da autoestima e da condição de vencedor se articula diretamente com a autonomia do sujeito. Em contrapartida, a perda de autonomia deste se evidencia pela baixa autoestima, e anuncia assim, em ato, a condição de perdedor do indivíduo (BIRMAN, 2010, p.41).

Nesse contexto, Birman destaca a ideia de performance como critério distintivo da individualidade e um aspecto evidenciado no imperativo da autonomia:

Pela performance o sujeito poderia evidenciar a sua autonomia e ordenar, ao mesmo tempo, a alta de sua autoestima – signos indiscutíveis da felicidade e da condição de vencedor. Porém, a dita performance implicaria sempre a economia narcísica do eu ideal, que deve ocupar o centro da cena psíquica do sujeito. Anteriormente a Sennett e a Lasch, Debord (1992) anteviu e fez a antecipação fulgurante da transformação da cena social na contemporaneidade quando enunciou a constituição da sociedade do espetáculo, na qual a performance e a autonomia seriam as condições concretas de possibilidade do indivíduo para a promoção do espetáculo na cena social. Portanto, promover nesta o espetáculo e poder estar à altura dele, sustentando performaticamente a sua autonomia, seria uma das

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autoestima presente no sujeito, em grande voltagem (BIRMAN, 2010, p. 41-42).

Ao longo de sua análise, Birman (2010, p. 42-43) também discute os signos da infelicidade, encarnados na depressão, na síndrome do pânico e no uso de drogas estimulantes, que visam a manter a alta performance e a autoestima do sujeito. O psicanalista aponta a depressão como uma das maiores modalidades de sofrimento atual, por provocar um retraimento subjetivo e uma diminuição significativa da mobilidade psicossocial. Ao se desvalorizar, o depressivo sente seu fracasso performático, o que resulta em baixa autoestima e infelicidade. Já a síndrome do pânico é um sofrimento que transforma a angústia no terror da morte. Isto ocorre quando o sujeito é incapaz de sustentar a sua autonomia e sua consequente performance: ao sentir-se impossibilitado de corresponder à expectativa do outro, fracassa na cena social do espetáculo. O uso sistemático e regular de drogas estimulantes funciona, por sua vez, para manter em alta a performance e a autoestima do sujeito, visando à expansão de si sem que haja o enfrentamento de percalços (Ibid, p.43).

Ao final de sua reflexão, Birman (2010, p.43-44) reafirma que o modelo antropológico da subjetividade contemporânea concebe o sujeito com base nos eixos do corpo, ação e intensidade, nos quais a performance e a autonomia sustentam a autoestima individual, visando a promover a felicidade, a qualidade de vida e a autoestima por meio de receituários práticos.

Tomando-se as reflexões de Fernandes (2006) e Birman (2010) como base, podemos inferir que antes de serem mães, os ideais individualistas centrados no imperativo de ser feliz eclipsam os ideais maternos entre as mulheres jovens (urbanas, de classe média). Estas tendem a se concentrar no desenho de planos e conquistas individuais relacionadas a: qualificação, carreira profissional, independência financeira, condição física, saúde, beleza, vida social e expansão do eu (por meio de viagens, aprendizados culturais e vivências sexuais, capazes de ampliar as experiências de vida).

Em determinado momento, essas mulheres engravidam e se tornam mães. Mas isso nem sempre ocorre de forma planejada. Nesta etapa, vivenciam

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transformações rápidas e profundas, que afetam suas vidas cotidianas, envolvendo novas rotinas de trabalho e de sono; além de mudanças no convívio social; autoimagem, relação com o corpo e sexualidade; identidade e psiquismo (cf. NELSON, 2009, p. 12). É neste momento que as mães, sobretudo as de primeira viagem, passam a sofrer as consequências do acúmulo de ideais (cf. FERNANDES, 2006).

O que veremos a seguir é que boa parte dos ideais maternos vigentes na cultura americana contemporânea permanecem fundamentados em ideologias difundidas no século XVIII, na França iluminista, quando Jean-Jacques Rousseau escreveu Émile (1762) e propagou o modelo materno da esposa e mãe burguesa, dedicada ao cuidado da casa e à educação dos filhos. Em seguida, veremos como, ao longo dos séculos XVIII e XIX, a família nuclear e o lar burguês promoveram “o casamento não entre a mulher e o homem, mas entre a mulher e o lar” (KEHL, 2008, p. 44). Finalmente, ao chegarmos ao século XX, pontuaremos os impactos das grandes guerras, da emancipação feminina e de outras transformações socioculturais, tecnológicas e econômicas na construção dos ideais maternos. Ao tecer esta breve retrospectiva história, procuraremos abordar tensões e contrastes que, até hoje, incidem nas publicidades analisadas nesta pesquisa e nas vidas cotidianas das mães entrevistadas, no Brasil e Canadá.

2.1.3 Da elasticidade à exautão: intensive mothering, new momism e