3.3. Finansal Kiralama Sözleşmesinin Hükümleri
3.3.1. Finansal Kiralama Sözleşmesinde Kiracının Hak ve Borçları
família nuclear e o lar burguês criaram “um padrão de feminilidade que sobrevive ainda hoje”, cuja função foi “promover o casamento, não entre a mulher o homem, mas entre a mulher e o lar (Ibid, p. 44, grifo da autora)”. Portanto, a modernidade produziu uma posição feminina que visava a sustentar a virilidade do homem burguês. E, para que as mulheres se adequassem a esta posição, uma enorme produção discursiva foi construída na Europa, ao longo dos séculos XVIII e XIX.
A cultura europeia dos séculos XVIII e XIX produziu uma quantidade inédita de discursos cujo sentido geral foi o de promover uma perfeita adequação entre as mulheres e o conjunto de atributos, funções, predicados e restrições denominado feminilidade. A ideia de que as mulheres formariam um conjunto de sujeitos definidos a partir de sua natureza, ou seja, da anatomia e suas vicissitudes, aparece nesses discursos em aparente contradição como outra ideia, bastante corrente, de que a “natureza feminina” precisaria ser domada pela sociedade e pela educação para que as mulheres pudessem cumprir o destino ao qual estariam naturalmente designadas. A feminilidade aparece aqui como o conjunto de atributos próprios a todas as mulheres, em função das particularidades de seus corpos e de sua capacidade procriadora; a partir daí, atribui- se às mulheres um pendor definido para ocupar um único lugar social – a família e o espaço doméstico –, a partir do qual se traça um único destino para todas: a maternidade. A fim de melhor corresponder ao que se espera delas (que é, ao mesmo tempo, sua única vocação natural), pede-se que ostentem as virtudes próprias da feminilidade: o recato, a docilidade, uma receptividade passiva em relação aos desejos e necessidades dos homens e, a seguir, dos filhos. A dialética entre o que é natural e o que deve ser cultivado, nas mulheres, a fim de que elas correspondessem aos ideais da feminilidade, fica bastante evidente no discurso de Rousseau (KEHL, 2008, p. 47-48).
E, assim: “Os casamentos por amor e sua contrapartida, a busca do amor e da felicidade através do casamento, tornaram-se exigências comuns na segunda metade do século XIX” (KEHL, 2008, p. 80). Nessa época, o casamento passou a
33 Para informações mais detalhadas, consultar: Deslocamentos do Feminino: A Mulher Freudiana na
Passagem para a Modernidade. Editora Imago, 2008. Este livro resultou da pesquisa de doutorado de Maria Rita Kehl, defendida em 1997, na PUC-SP, na área de psicanálise.
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simbolizar o destino e todo horizonte de realização pessoal para as mulheres, como esposas, mães e donas de casa. (Ibid, p.80-81).
Entretanto, mesmo as mulheres europeias oitocentistas vivenciaram conflitos, pois os ideais de domesticidade chocavam-se com os ideais de liberdade. Da mesma maneira, destinar a vida ao casamento e à maternidade contrastava-se com a ideia, também moderna, de que cada sujeito tinha o direito de traçar o seu próprio destino, conforme bem entendesse (KEHL, 2008, p. 44). Se por um lado, as mulheres garantiam seu reinado na esfera familiar, por outro, tornavam-se escravas dentro de seus próprios reinos (Ibid, p. 175).
Nessa linha de pensamento, ao escrever o artigo As práticas amorosas na contemporaneidade, o psicanalista brasileiro Jurandir Freire Costa (1999)34 leu o
romantismo amoroso como uma invenção cultural europeia, que embasou a formação da família burguesa, a conversão das mulheres em mães e dos homens em pais; tendo a sua mais aguçada expressão no pensamento de Rousseau, estendendo-se, em seguida, para o romantismo filosófico e literário alemão, inglês e francês. Nas palavras de Costa:
O romantismo amoroso é um tipo de interação emocional ou uma regra de construção de identidade psicológica que nos foi proposto, basicamente, por três motivos: 1) porque favoreceu a formação da família nuclear e suas consequências socioafetivas como o cuidado das crianças, a conversão das mulheres em mães, a conversão dos homens em pais, a divisão dos humanos em heterossexuais e homossexuais, etc.; 2) porque incentivou o aprendizado da autonomia e da independência burguesa e utilitaristas, diante dos interesses grupais das linhagens e casas aristocráticas e 3) porque ofereceu ao burguês recém-nascido uma experiência de êxtase físico-sentimental que veio a substituir outras experiências culturais extáticas, como o êxtase religioso, os êxtases da violência das guerras, os êxtases dos rituais orgiásticos, etc. O amor-paixão romântico é o êxtase próprio à cultura da contenção burguesa, à qual veio se somar certas injunções cristãs, sobretudo as de origem puritana. [...] O amor nem sempre foi concebido com as características do amor paixão romântico, isto é, como qualquer coisa que está “dentro de nós”, que é “intrínseco” à vida mental de todo
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sujeito. O amor é uma emoção, ou melhor, um complexo emocional feito de crenças, julgamentos, sensações e sentimentos.
[…] O amor romântico, portanto, é um complexo emocional profundamente enraizado em nossa cultura. Mas não é uma “obrigação da natureza” nem uma modalidade de sentimento que está
inscrita a-historicamente na estrutura do psiquismo. O amor do romantismo é o amor do individualismo cultural, e não uma expressão transhistórica do narcisismo egoico. Se assim fosse, teríamos testemunhos do amor romântico em todas as culturas, o que não é verdade! (COSTA, 1999).
No livro The Myths of Motherhood35 (1994), a psicóloga norte-americana
Shari Thurer dedicou um capítulo sobre a exaltação da figura materna nos séculos XVIII e XIX, no mundo anglo-saxão. O período conhecido como Era Vitoriana (1837-1901) caracterizou-se pela expansão territorial e um significativo crescimento demográfico, tecnológico e econômico do Império Britânico. Nesta época, o Reino Unido destacou-se mundialmente como potência industrial em diversos setores (têxtil, siderúrgico e de transportes). E a industrialização consolidou o poder sociocultural e econômico da burguesia inglesa, marcada por um estilo de vida urbano e um conjunto de valores morais específicos. A sociedade vitoriana seguia uma disciplina rígida, constituída por valores puritanos, pela dedicação ao trabalho e, como já vimos, pela distinção entre os espaços público/ masculino e o privado/ feminino.
De acordo com Thurer (1994, p. 182-183), a ideia do lar como um paraíso seguro, em oposição ao mundo externo cruel, teve seu ápice na Era Vitoriana. A domesticidade foi sentimentalizada. A figura materna encarnou tudo o que havia de bom e mais digno. A mulher, anteriormente considerada moralmente vulnerável, sexualmente voraz, emocionalmente inconsistente e intelectualmente inferior, converteu-se na verdadeira mulher, que era virtuosa, terna, gentil, devotada e assexual, além de dedicada a cuidar do refúgio familiar e da educação dos filhos; transformando-se em uma nova versão da Virgem Maria ou no “Anjo
35 Este livro não foi traduzido para o português, mas seu título poderia ser traduzido como: Os
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da Casa”. Todas essas transformações sociais coincidiram também com a passagem da família de uma unidade economicamente produtiva para uma unidade de consumo, na qual o pai tinha de passar o dia fora para ganhar dinheiro, trabalhando duramente em fábricas distantes, enquanto a mãe permanecia enclausurada dentro de casa. Afinal, os rendimentos precisavam ser obtidos fora de casa, no mundo frio e cruel (THURER, 1994, p. 182-183).
Quando as famílias se mudaram dos pequenos vilarejos e propriedades rurais para as cidades, deixaram de se relacionar com suas comunidades e tornaram-se entidades privadas independentes. O lar, por sua vez, tornou-se o lugar da paz, da intimidade e da espontaneidade, assumindo o posto de refúgio ideal, no qual os burgueses poderiam relaxar e renovar as energias para enfrentar o mundo externo, que era competitivo e sem coração. Até hoje, este ideal doméstico integra sonhos burgueses no mundo ocidental. E, dentro deste novo refúgio familiar, foi criado um novo modelo romântico de criança, pautado pelos poetas e filósofos. Ao contrário da era pré-industrial, na qual as crianças e os adolescentes eram treinados para ajudar no sustento familiar; as crianças vitorianas eram consideradas economicamente inúteis, mas emocionalmente valorosas (THURER, 1994, p. 184).
A divisão da sociedade burguesa em duas esferas (pública e privada) também desvalorizou a contribuição feminina na economia familiar e mascarou a importância do trabalho materno para a família, posto que se tratava de uma atividade não remunerada. Frente a isso, a mulher tornou-se totalmente dependente do marido para garantir a sua sobrevivência econômica (THURER, 1994, p. 187).36
36 Citações indiretas, baseadas em nossas interpretações dos trechos abaixo, originalmente
escritos em inglês:
“The idea of a home as a safe haven in a heartless world had its quintessential moment during the Victorian era. Domesticity was sentimentalized, assigned redemptive qualities [...]. A mother – who presided of all that was decent and good. Previously considered morally vulnerable, sexually voracious, emotionally inconsistent, and intellectually inferior, she metamorphosed into the True Woman – virtuous, gentle, devoted, assexual, limited in interests to creating a proper refuge for her family and to tenderly guiding her children along appointed ways. [...] Indeed, she became a secular version of the Virgin [...] the Angel of the House. [...]This extraordinary social
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2.2.3. Século XX: a descoberta da psicanálise e a popularização dos