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Chamado de “Estado Intermediário de Realidade” ou “Estado Intermediário do Esplendor Interno” por Coleman & Jinpa (2010); “Estado de Transição da Vivência ou Vislumbre da Realidade”, por Evans-Wentz (2013) e “Bardo da Natureza em Si” por Rimpoche (1997), este bardo é a continuação do anterior (Chikhai) quando ainda não se alcançou a libertação. No Chönyid bardo é onde despontam as aparições ou ilusões kármicas, por isso, é fundamentalmente importante que seja realizada a leitura da Grande introdução ao estado intermediário de realidade, pois a esta é atribuída muito poder, eficácia e benefícios. Estima-se que este estado tenha a duração simbólica de quatorze dias, sendo os sete primeiros dias manifestos pelas divindades pacíficas e os sete restantes pelas divindades furiosas.

No início deste bardo, o falecido se apercebe de sons, luzes e raios de luz. De imediato estes vislumbres lhe causam medo, terror e espanto, fazendo com que ele entre num estado de desespero e com isso queira se afastar. Nesse momento é indicada a aplicação da Grande introdução. As visões terrificantes que aparecem neste bardo são reflexos da própria consciência do falecido, assim também a manifestação das divindades pacíficas e furiosas que se apresentam diante dele, todas são frutos das suas formas de pensamento (cf. COLEMAN & JINPA, 2010, p. 207-208).

Abaixo, um pequeno trecho do Thödol que retrata essa confrontação entre o falecido e sua própria consciência.

Ó Filho (a) da Natureza de Buda, quando se separarem teu corpo e tua mente, as puras manifestações [luminosas] da própria realidade surgirão diante de ti: sutis e claras, radiantes e deslumbrantes, naturalmente brilhantes e espantosas, tremeluzentes como miragens numa planície no verão. Não as temas! Não te aterrorizes! Não te espantes! Elas são as luminosidades naturais de tua própria verdadeira realidade. Reconhece-as, portanto, [pelo que elas realmente são]! (cf. COLEMAN & JINPA, 2010, p. 208).

Agora o falecido possui um corpo chamado “corpo mental” que é produto de inclinações sutis. As luzes e sons que surgem são manifestações naturais de sua própria mente. Nesse momento inicial, durante os sete primeiros dias, ele começa a se confrontar com as divindades pacíficas. A primeira divindade a se manifestar é Vairocana, abraçado asua consorte Akasadhatvisvari, surgirá na forma de uma luz azul radiante, que se chama cognição pura da imensidão da realidade. Juntamente com essa luz, aparecerá outra de cor branca fosca, que indica o domínio dos deuses.

Nesse momento, movido pelas ações negativas do passado, o falecido desejará fugir da luz radiante e tenderá a se aproximar da luz opaca, isto ocorrerá pelas próprias tendências habituais que o leva a ilusão profunda, gerada por ele mesmo. Com isso, o falecido estará fadado a vagar pelo domínio dos deuses, ficando condicionado à existência cíclica das seis classes de seres (deuses, titãs, humanos, animais, espíritos famintos e infernos). Por isso, ele será exortado pelo lama a reconhecer a luz da compaixão do senhor transcendente Vairocana e a fazer, com devoção, uma prece de aspiração, que o levará a alcançar o estado búdico como Corpo Búdico de Riqueza Perfeita. (Ver anexos p. 227), a “introdução e a prece de aspiração referente ao primeiro dia” (cf. COLEMAN & JINPA, 2010, p. 208- 210).

Contudo, se falecido sentir pavor das luzes e dos raios, em consequência da aversão e dos obscurecimentos negativos, a segunda divindade se manifestará, é Aksobhya-Vajrasattva abraçado a sua consorte Buddhalocana. Ele surgirá na forma de uma luz branca, radiante e clara, como cognição pura. Também surgirá uma luz opaca e esfumaçada que indica o domínio dos infernos. Todavia, movido pelo impulso da aversão, o falecido desejará se esquivar da luz branca radiante e se inclinará para a luz opaca, que é o caminho dos obscurecimentos negativos, criados pela aversão profunda, gerada por ele mesmo. Neste domínio infernal, ele experimentará um sofrimento insuportável, sem chance imediata de fuga. Mais uma

vez o falecido é exortado a reconhecer a luz radiante e a fazer outra prece de aspiração, almejando alcançar o Corpo Búdico de Riqueza Perfeita. (Ver anexos p. 228), a “introdução e a prece de aspiração referente ao segundo dia” (cf. COLEMAN & JINPA, 2010, p. 211).

Após o segundo dia, se o falecido ainda fugir das luzes por estar aprisionado pelo orgulho e por obscurecimentos negativos, aparecerá neste terceiro dia, Ratnasambhava abraçado a sua consorte Mamaki manifestados por uma luz amarela indicando a cognição pura de igualdade. Concomitantemente, surgirá uma luz azul opaca, indicando o domínio dos seres humanos. Contudo, o apego e o impulso do orgulho que move o falecido tende a desviá-lo da luz amarela radiante. A luz opaca encaminhará ao domínio humano onde lá haverá sofrimento para nascer e para morrer, sofrimento na doença e na velhice, causando, portanto, o retorno à existência cíclica e o afastamento da libertação. (Ver anexos p. 230), a “introdução e a prece de aspiração referente ao terceiro dia” (cf. COLEMAN & JINPA, 2010, p.212- 213).

Ainda que o falecido continue se esquivando das luzes por haver grande negatividade proveniente de suas ações passadas, neutralizando assim as oportunidades positivas e também pela violação dos pactos espirituais102, uma nova

luminosidade surgirá. Neste quarto dia, Amithaba virá escoltá-lo juntamente com sua consorte, Pandaravasini, sob a forma de uma luz vermelha brilhante, que representa a cognição pura de discernimento. Também surgirá outra luz, opaca e amarela, indicando o domínio dos espíritos famintos, que atrairá o falecido a se deleitar nessa opacidade, movido pelo impulso do desejo. No domínio dos espíritos famintos se experimenta muito sofrimento de fome e de sede. (Ver anexos p. 231), a “introdução e a prece de aspiração referente ao quarto dia” (cf. COLEMAN & JINPA, 2010, p. 213-214).

Partindo para o quinto dia, mesmo que o falecido não tenha feito um reconhecimento bem sucedido da introdução, por incapacidade de renunciar suas inclinações por hábitos há muito tempo formados, e com isso não alcançou ainda o estado búdico, então novamente surgirá outra divindade. Desta vez será Amoghasiddhi, abraçado a sua consorte Samayatara, que resplandecente se

102 Os pactos se constituem como um pré-requisito para a prática dos tantras, e cada classe destes,

possui um conjunto de pactos que se dividem em pactos fundamentais e auxiliares. Essa violação acontece quando um pacto ou um juramento sagrado é rompido pelo praticante.

apresentará dentro de uma luz verde radiante, indicando a cognição pura de realização. Mas também aparecerá uma luz vermelha opaca, indicando o domínio dos titãs. Porém, movido pela inveja, ele sentirá medo da luz brilhante e se apegará á luz opaca, a qual o conduzirá a experimentar insuportáveis sofrimentos de conflitos e disputas. (Ver anexos p. 233), a “introdução e a prece de aspiração referente ao quinto dia” (cf. COLEMAN & JINPA, 2010, p. 215-216).

Depois de repetidas vezes a introdução, e acaso ainda não haja o reconhecimento da realidade pelo falecido, então, neste sexto dia, resplandecerá simultaneamente a assembleia de divindades masculinas e femininas das cinco famílias iluminadas acompanhadas de seus cortejos, bem como, as seis luzes opacas que representam os seis domínios. O falecido é exortado a reconhecer essa visão pacífica que surge através da assembleia de quarenta e duas divindades, a qual é denominada de “visão das quatro cognições puras combinadas” (cf. COLEMAN & JINPA, 2010, p. 216-217).

Após a introdução e a prece, aquele devoto de capacidade espiritual superior, reconhecerá a introdução e verá a luminosidade como manifestação natural, alcançando imediatamente o estado búdico. Aquele de capacidade mediana, por sua fervorosa devoção, poderá reconhecer a instrução, alcançando também a libertação. Já aquele de capacidade inferior, pelo poder da aspiração, poderá fechar as portas dos ventres que o leva a renascimentos nas seis classes de seres ou domínios. Porém, se for realizada a natureza das “quatro cognições puras combinadas”, então, todos aqueles, quer sejam, os de capacidade espiritual superior, mediana ou inferior, chegarão ao reconhecimento e muitos podem conseguir se libertar pela passagem vazia de Vajrasattva (cf. COLEMAN & JINPA, 2010, p. 221).

Mas há aqueles que apesar de terem recebido a introdução, continuam caminhando para baixo, sem obter o reconhecimento. Isto se dá pela ausência de prática espiritual, quando os pactos espirituais foram rompidos, entre outros fatores. Desse modo, eles permanecerão sem rumo em consequência do peso de suas ações negativas passadas. (Ver anexos p. 235), a “introdução e a prece de aspiração referente ao sexto dia” (cf.COLEMAN & JINPA, 2010, p. 221).

É justamente por todos esses fatores reunidos que o sétimo dia se apresenta como uma valiosa oportunidade de libertação para o falecido. Neste último dia de manifestação das divindades pacíficas, surgirá do domínio puro, a divina assembleia

dos Detentores do Conhecimento103,sob a forma de uma luz de cinco cores.

Paralelamente, gerado pelo estado mental dissonante104 da ilusão, surgirá uma luz

verde opaca que o conduzirá ao domínio dos animais. Mais uma vez é feita a introdução e a prece de aspiração, na qual o falecido é chamado ao reconhecimento da fulgurante luz. (Ver anexos p. 239), a “introdução e a prece de aspiração referente ao sétimo dia” (cf. COLEMAN & JINPA, 2010, p. 221-223).

Cada vez que o falecido se esquiva da luz radiante e se compraz na luz opaca, uma nova divindade aparecerá como oportunidade de encaminhá-lo ao estado búdico. Deste modo, vimos que as luzes opacas se tornam atrativas justamente pelos obscurecimentos negativos do falecido, arrastando-o a existência cíclica. Assim sendo, essa opacidade vislumbrada na sua consciência, se configura como obstáculo para a sua libertação, apesar de ele ser a todo o momento evocado a ter devoção pelas luzes radiantes, que são as manifestações naturais da verdadeira realidade.

Nesta primeira parte da Grande libertação pela auscultação, se as introduções forem dadas de forma sequenciada e correta, em algum momento deste bardo, o falecido conseguirá se libertar. Contudo, devemos levar em conta suas ações negativas, que pelo seu poder, o confunde e o direciona aos caminhos do ciclo de existência.

Coleman & Jinpa (2010), quando se refere a tudo isso, diz que:

Ainda assim, embora sejam muitos os que foram libertos por meio de tais [introduções à natureza da realidade], os seres sencientes são em número incontável. As ações passadas maléficas são muito potentes. Os obscurecimentos negativos são densos. As tendências habituais são duradouras. O ciclo de ignorância e confusão é inesgotável e não cede jamais. Apesar de terem recebido as instruções em todos os seus detalhes, resta ainda um grande número de seres que continuam sua marcha

103 São eles: detentor do conhecimento da maturação; detentor do conhecimento que habita os graus;

detentor do conhecimento com poder sobre a duração da vida; detentor do conhecimento do grande selo e detentor do conhecimento da presença espontânea (cf. COLEMAN & JINPA, 2010, p. 221- 222).

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Estado mental dissonante é quando “a mente, cuja natureza é essencialmente pura, é obscurecida e afligida pelas diversas impurezas psicológicas”. De acordo com o Abhidharma*, existem seis estados mentais primários (ignorância fundamental, apego, aversão, orgulho, dúvida e pontos de vista doentios ou dissonantes), e vinte estados mentais secundários (ira, malícia, dissimulação, fúria, inveja, mesquinhez, desonestidade, impostura, arrogância, malignidade, falta de modéstia, indecência, obnubilação, agitação, desconfiança, preguiça, descaso, esquecimento, distração e desatenção) (cf. COLEMAN & JINPA, 2010, p. 401). *Abhidharma “designa toda a literatura budista clássica sobre fenomenologia, psicologia, epistemologia e cosmologia” (cf. COLEMAN & JINPA, 2010, p. 365).

descendente, sem alcançar a libertação (cf. COLEMAN & JINPA, 2010, p. 225).

Assim termina, portanto, a primeira parte da Grande libertação pela auscultação, contida no livro dos mortos por Coleman & Jinpa (2010, p. 224), que inclui a introdução ao esplendor interno do estado intermediário do momento da morte e a introdução às divindades pacíficas do estado intermediário de realidade.

No livro dos mortos por Evans-Wentz, o Bardo da Vivência da Realidade que é o mesmo Estado Intermediário de Realidade, se encontra na parte dois do livro um. Nele, cada confrontação no bardo aparece como uma oportunidade para por fim a uma condição kármica previamente determinada. Este bardo, o Chönyid, se torna um momento propício de se por frente a frente com as diversas divindades existentes. Estas divindades se apresentam como visões simbólicas geradas pelos reflexos kármicos de ações realizadas no corpo no plano terreno. Estas visões fantasmáticas não são visões da realidade, são produtos do conteúdo mental do sujeito, ou seja, “trata-se de impulsos intelectuais que assumiram forma personificada no estado de sonho do pós-morte” (cf. EVANS-WENTZ, 2013, p. 20- 21).

Neste bardo, a consciência do falecido se depara com várias divindades pacíficas e furiosas. Primeiramente, se apresentam as divindades pacíficas por serem personificações de sentimentos provenientes do coração, e tão logo surgem as divindades furiosas que são provenientes do cérebro. Os impulsos do coração, representados pelas divindades pacíficas, aparecem como mecanismo de controle logo após o desligamento do falecido com o plano terreno (cf. EVANS-WENTZ, 2013, p. 21). O trecho que segue enfatiza bem o que acima foi dito.

Como tais, eles são representados como os primeiros a surgirem, pois, psicologicamente falando, os impulsos originários do coração precedem os originários do cérebro. Eles se apresentam com aspecto pacífico para controlar e influenciar o falecido, cujos laços com o mundo humano acabam de ser cortados; o falecido deixou parentes e amigos, trabalhos inacabados, desejos insatisfeitos e, na maioria dos casos, possui uma forte aspiração do sentido de recuperar a oportunidade perdida proporcionada pela encarnação humana para a iluminação espiritual. Em todos os seus impulsos e aspirações, o karma é que prepondera e, a menos que seja o seu desígnio kármico obter libertação nos primeiros estágios, o morto perambulará para baixo nos estágios onde os impulsos do coração cedem lugar aos do cérebro (cf. EVANS-WENTZ, 2013, p. 21).

Desse modo, durante os primeiros sete dias deste bardo, o falecido ficará exposto a constantes confrontações, provações e perigos, os quais tentará vencê- los. Após ter passado por um período de desmaio que equivale a três dias e meio ou quatro dias depois de sua morte, o falecido finalmente despertará para sua condição de morto. Nesse momento, ele precisará se acostumar a essa nova condição que se apresenta no pós-morte da mesma forma que um recém-nascido deve se acostumar a um novo mundo após seu nascimento. Aqui, as divindades pacíficas despontam como encarnações de forças divinas universais (cf. EVANS-WENTZ, 2013, p. 74).

Sobre estas divindades, o Lama Kazi Dawa-Sandup evidencia seu entendimento a respeito.

Estas divindades estão em nós mesmos. Não são algo fora de nós. Somos um todo com tudo o que existe, em cada estado da existência sensível, desde os mais inferiores mundos de sofrimento aos mais elevados estados de beatitude e Perfeita Iluminação. [...] a Ordem do Loto das Divindades representa em nós o princípio divinizado das funções vocais; as Pacíficas representam o princípio divinizado do coração e dos sentimentos; as Iradas representam, da mesma forma, as funções de nossa mentalidade – tais como pensamento ou raciocínio, imaginação ou memória, funções centradas no cérebro (cf. EVANS-WENTZ, 2013, p. 59).

A partir de agora iniciaremos a segunda parte da Grande libertação pela auscultação, que é constituída pela introdução às divindades furiosas do estado intermediário de realidade. A Grande libertação pela auscultação é um ensinamento sagrado que promove o reconhecimento da verdadeira natureza da realidade pelo simples ato de auscultar. Geralmente é associada a outras recitações ou textos sagrados que intensificam e canalizam o propósito de reconhecimento para o alcance da libertação.

Num primeiro momento neste estado, por ser assolado pelo pavor e espanto, a consciência do falecido entrará num constante e incontrolável desfalecimento. No estado anterior, no momento da introdução ao esplendor interno do caminho, a mente se tornara desperta e lúcida, porém susceptível a distrações. Aqui, ela não poderá vacilar, deverá estar atenta, concentrada e procurar não se dissipar nem se distrair, visto que, estará ainda mais aterrorizada com as visões, pois que surgirá uma assembleia de cinquenta e oito divindades furiosas bebedoras de sangue

(Heruka). Sem nenhuma dúvida, é considerado um estado de difícil reconhecimento. (cf. COLEMAN & JINPA, 2010, p. 225-226,410).

O procedimento ritual continuará o mesmo, apenas a introdução se referirá agora às divindades furiosas, e não mais pacíficas. O falecido continuará sendo evocado a reconhecer as manifestações visionárias como expressão natural da consciência pura. Portanto, se houver receptividade quanto à introdução, estas manifestações serão reconhecidas como suas próprias divindades de meditação (Os Cinco Dhyani Budas - ver gravura abaixo). Então ele se dissolverá nestas divindades de modo indivisível, assim sendo, o reconhecimento e a libertação ocorrerão simultaneamente, alcançando o estado búdico no Corpo Búdico de Riqueza Perfeita. (Ver anexos p. 242-252) “todas as introduções” juntamente com o“surgimento das divindades furiosas femininas” e a única “prece de aspiração” referente ao estado de manifestação das divindades furiosas (cf. COLEMAN & JINPA, 2010, p. 228-232).

Figura 2: Os Cinco Dhyani Budas Fonte: http://yoniversum.nl/guidemap.html

Do mesmo modo como ocorreu nos primeiros sete dias, ocorrerá também nos próximos. Nos cinco primeiros dias, ou seja, do oitavo ao décimo segundo dia, emergirá do cérebro do falecido e se manifestará diante dele uma divindade furiosa masculina em união com sua consorte, proveniente da família das divindades bebedoras de sangue. Acaso a cada dia não haja o reconhecimento e tomado pelo pavor, o falecido perderá a consciência e experimentará um desmaio de até quatro dias e meio. Ao despertar, sua consciência ficará clara novamente, e ele (o falecido), continuará seu percurso até atingir a libertação. A todo o momento, ele será exortado a reconhecer as visões das divindades como manifestações naturais da luminosidade da própria consciência pura (cf. COLEMAN & JINPA, 2010, p. 228- 232,241).

Neste estado onde há visões das divindades furiosas, Coleman & Jinpa (2010), especifica os cinco primeiros dias (do oitavo ao décimo segundo dias) de manifestações com suas respectivas introduções. Todavia, depois do décimo segundo dia, não mais se refere aos dias que se segue neste estado, como faz Evans-Wentz (2013, p.101), que estipula todo o estado intermediário de realidade em quatorze dias. Já Rimpoche (1997, p. 30), diz que esse estado tem a duração aproximada de três semanas. Coleman & Jinpa (2010, p. 209,244) se refere a uma estimativa de tempo total de até quarenta e nove dias, que engloba desde a morte até o renascimento. Vale alertar para o fato de que esse tempo não é fixo, ele varia de acordo com o tempo que leva para alcançar a libertação.

Podemos considerar esse tempo como sendo um tempo simbólico, haja vista que representa todo o trajeto a ser percorrido pela consciência do falecido durante os três estados intermediários. Quando se fala em dias, na realidade devemos ter em mente que essa é uma noção ou ponto de vista dos que estão vivos, para o falecido, não há mais essa noção de tempo. Tsele Natsok Rangdol diz que “Poucas pessoas consideram que esses dias sejam dias solares normais. Uma vez que os ‘dias’ são... somente dias de meditação, compreenda que para as pessoas comuns eles podem parecer tão fugazes quanto um breve momento” (cf. COLEMAN & JINPA, 2010, p. 209).

Voltando as manifestações visionárias das divindades furiosas, caso ainda o falecido não tenha se libertado, surgirá diante dele as divindades furiosas femininas, as oito Gaurí e as oito Pisácí com cabeças de animais. Surgirão também outras divindades, conforme citado na introdução, perfazendo um total de cinquenta e oito

divindades furiosas. Se mesmo assim estas visões não forem reconhecidas, então o falecido será encaminhado para o próximo bardo, que é o estado intermediário de