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permanece até hoje. Por isso, optamos por nos concentrar no período da idade média passando pela moderna até os dias de hoje, porque esse período se destacou (quanto à postura diante da morte), tanto sobre a antiguidade como sobre os nossos dias.

Este período da história foi fundamentalmente importante para uma compreensão mais aprofundada sobre os comportamentos contemporâneos relativos à morte. Isto fica evidenciado nos escritos de autores renomados como Ariès, Vovelle, Morin, dentre outros. Estes autores optaram por estudar a morte no medievo por esse período representar um cenário fértil para o enriquecimento de suas pesquisas. Diante do acima exposto, achamos importante nos referirmos à morte só a partir da idade média, tanto para nos situarmos melhor na história como porque em decorrência disto, poderemos ter uma boa compreensão das posturas adotadas pelo cristão contemporâneo.

Visando dar pleno sentido à morte, os ritos católicos procuram cumprir uma função social através de seus funerais. Veremos logo a seguir, os ritos fúnebres desenvolvidos atualmente pela igreja católica, ritos estes que exprimem toda a crença e fé numa eternidade.

1.3. Ritos fúnebres: uma celebração da esperança

Segundo o catecismo (2000, p. 459), o funeral cristão se caracteriza por ser uma celebração litúrgica da igreja. Este ritual visa exprimir a comunhão eficaz com o defunto, ao mesmo tempo em que, através da presença da comunidade eclesial26, se anuncia a vida eterna, ressaltando a provisoriedade da vida humana. As exéquias demonstram a dimensão pascal da morte cristã, baseadas na crença e na fé quanto à ressurreição de Cristo.

Com a morte, o corpo corruptível se transforma em corpo incorruptível, assim como a mortalidade se converte em imortalidade pela ressurreição dos mortos. Apesar da crença na ressurreição, o cristão percebe a tragicidade da morte, isso faz

com que ele sinta dor e temor ao mesmo tempo, não somente pela dissolução do corpo, mas principalmente pela destruição perpétua. “Esta ambiguidade de um já e ainda não, tão fortemente evidenciada na morte de um cristão, celebra-se nas exéquias” (cf. CNBB, 2003, p. 7-9).

O livro das exéquias (2003, p.12,18) é composto por sete celebrações, estas realizadas no velório, no enterro, no sepultamento e na cremação, podendo acontecer em capelas mortuárias, em igrejas, em cemitérios ou em crematórios. No rito constam três celebrações diferentes que são direcionadas para o momento do velório, são elas: a Celebração da Palavra; o Ofício Divino das Comunidades; e a Vigília Pascal (ver anexos p. 188-212). Quanto à encomendação do corpo, há uma celebração própria para isso que acontece antes do enterro (ver anexos p.212). Também existe uma celebração prevista para a hora em que se deposita o corpo na sepultura no cemitério (ver anexos p. 220). Por fim, duas celebrações são destinadas àqueles que optaram pela cremação. Neste caso, uma cerimônia de encomendação é realizada na presença do corpo no crematório, e outra é realizada quando da deposição das cinzas na urna (ver anexos p. 222-226).

Com relação às exéquias de crianças, batizadas ou não, este livro também oferece um ritual específico. Este rito possui uma estrutura similar ao rito dos adultos, com uma celebração dirigida a cada fase do funeral. Configura-se pelos mesmos moldes das exéquias dos adultos quanto ao conteúdo de esperança numa nova vida. Independentemente de a criança possuir ou não o sacramento do batismo, o ritual é realizado da mesma forma, nada é alterado pelo celebrante.

Esta nova versão do rito das exéquias (2003, p.12-13), veio atendendo um apelo do Concílio Vaticano II, em conceder as exéquias cristãs aos que desejarem cremar seus corpos. Apesar de preferir a inumação (enterro) como prática funerária - por estar mais em conformidade com a fé professada na ressurreição - a igreja católica não vê a cremação como ato que vai contra a fé cristã. Ela se manifestou contrária a este ato, quando no período da Revolução Francesa (séc. XVIII), os intelectuais fizeram uso da cremação visando hostilizar a igreja católica. Em decorrência disso, a igreja passou um longo período sem oferecer exéquias aos que cremavam seus corpos.

Desde a época dos cristãos primitivos até os dias atuais, que a prática funerária comumente utilizada entre os cristãos é a inumação (ato de enterrar o cadáver). Veremos mais adiante que os corpos eram enterrados dentro das igrejas e nos seus pátios e em cemitérios pagãos à beira das estradas. Este tipo de prática compartilha com a prática utilizada para sepultar Jesus, como também e principalmente, pela crença e fé na ressurreição dos corpos. Todavia, a cremação, que é a incineração do corpo, constitui também uma prática funerária cristã.

Após uma reflexão teológica, a Congregação do Santo Ofício27 determinou em 1963, a permissão para a cremação dos corpos, desde que esse ato não fosse contrário aos dogmas da fé católica. O simbolismo atribuído pela igreja quanto à incineração do corpo remonta ao antigo testamento, onde o fogo tinha um sentido purificador, ele purificava os pecados dos homens. Com relação às cinzas, a igreja aconselha depositá-las numa urna funerária, onde se tem uma cerimônia própria para este fim. A igreja não recomenda a prática de espalhar as cinzas do corpo, seja no jardim, no mar ou nas montanhas, pois esta prática não se concilia com a índole cristã (cf. CNBB, 2003, p. 13,14).

Quanto ao celebrante dos rituais de exéquias, estes podem ser presididos por um presbítero, um diácono ou um leigo, onde atuarão como “ministros da consolação”. Todas estas celebrações carregam um forte apelo de esperança, sem, contudo, desprezar a dor da família. O objetivo central desse ritual é despertar a esperança e fortalecer a fé dos que ali estão, pois deste modo, a igreja cumpre um de seus papéis, que é evangelizar. Os celebrantes são orientados para ter a devida atenção e cuidado ao se tratar de funeral onde a ocorrência da morte tenha se dado em circunstâncias de violência, a exemplo de chacina, suicídio, sequestro, vingança, etc.(cf. CNBB, 2003, p. 13,15).

A celebração deverá ser preparada levando em consideração a linguagem de quem a presidirá. Qualquer gesto, atitude ou palavra, é de extrema importância no ritual. Abaixo segue algumas orientações destinadas aos celebrantes.

27 A Congregação do Santo Ofício procura salvaguardar e proteger a fé cristã. É formada por um

colegiado de cardeais e bispos da igreja, conforme informações extraídas do sítio oficial do Vaticano. Ver no link: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/doc_dottrinali_index_po.htm

Na preparação e organização das exéquias, os sacerdotes devem ter diante dos olhos, não só a pessoa de cada morto e as circunstâncias de sua morte, como também, afável e compreensivamente, devem considerar a dor e as necessidades da vida cristã dos familiares. Especial atenção tenham para aqueles que, presentes às celebrações litúrgicas e à Leitura do Evangelho por ocasião das exéquias, não são católicos ou, se católicos, raramente ou jamais participam da Eucaristia, ou, simplesmente, parecem ter perdido a fé: os sacerdotes são ministros do Evangelho para todos (cf. CNBB, 2003, p. 16).

As exéquias cristãs trazem no seu cerne, a promessa da ressurreição da carne. Este rito procura não camuflar a dor dos familiares nem tampouco esvaziar o mistério da morte, apenas fortalece as convicções dos que creem quanto à transformação do ser após sua morte. Os primeiros cristãos enterravam seus mortos em cemitérios pagãos e agiam quanto às exéquias de uma maneira muito simples. Com o devir, esse comportamento foi sendo modificado e os funerais passaram a exigir algumas atitudes como a escolha da sepultura, pompas no enterro, etc. Com relação a isso, Santo Agostinho disse que “as exéquias são mais úteis aos vivos do que aos mortos” (cf. CNBB, 2003, p. 10-11).

Segue um trecho que esclarece bem o que foi dito.

No início, as exéquias cristãs caracterizavam-se por sua forte dimensão pascal. No entanto, com o passar do tempo, os cristãos foram se deixando influenciar por outras ideias e sentimentos. Perderam a certeza da salvação e passaram a ver a morte como acontecimento trágico e amedrontador. Esta situação perdurou até o século XX quando, de novo, a Igreja, por meio do Concílio Vaticano II, prescreveu que “o rito das exéquias deve exprimir mais claramente a índole pascal da morte cristã” (cf. CNBB, 2003, p.11).

Esse novo aspecto do rito, a partir do concílio, procura não somente se deter nas orações, nas leituras e nos símbolos, mas principalmente na dimensão pastoral e evangélica do ato. Para tanto, foram adotadas algumas mudanças visando atingir esse objetivo. Os ritos adquiriram uma maior dimensão comunitária pela própria participação da comunidade cristã no ato em si. Não se reza somente pelo defunto, mas também pelos vivos, que são provados pela dor. Algumas orações foram abandonadas dando lugar a outras. As preces que pediam para as almas serem libertadas das “penas infernais”, do “abismo impenetrável”, e das “regiões tártaras”, foram substituídas pelas preces que afirmam que “na casa do Pai há muitas

moradas”, e por preces que pedem para “celebrar a festa do novo céu e da nova terra” (cf. CNBB, 2003, p. 16-17).

Quanto à composição do ritual, cada símbolo possui um significado dentro do contexto fúnebre. A cruz (considerada o maior símbolo cristão) indica que a morte de Cristo é exemplo para a morte do cristão; as flores, por sua vez, transmitem o sentimento dos familiares, a participação na dor e no luto, ao mesmo tempo em que indica esperança de vida; Já o incenso, traduz o respeito ao corpo, enquanto templo do Espírito Santo consagrado pelo batismo, como também denota um sentido sacrificial; O círio pascal28 lembra a todos que Cristo ressuscitado é a luz que ilumina o cristão desde o batismo até a morte.

Continuando com os símbolos, temos também a água benta que é aspergida no defunto. Ela remete ao batismo que faz com que o cristão entre na dinâmica pascal, participando do sofrimento, da morte e da ressurreição de Cristo. A procissão do enterro também se configura como símbolo cristão, pois ela tanto indica o caráter provisório da vida como também representa o caminhar para a eternidade. Embora todos os símbolos acima citados tenham suas significações e importância dentro do rito das exéquias, a Bíblia, que é a Palavra de Deus, está acima de todos os símbolos. É a Palavra de Deus, transmitida através da bíblia, que assegura a dimensão pascal das exéquias (cf. CNBB, 2003, p. 17-18).

As sete celebrações que fazem parte do funeral cristão, citadas anteriormente e dispostas nos anexos, possuem peculiaridades quanto à intenção e o sentido. Todas elas são celebrações da Palavra de Deus29, contudo, são dirigidas especificamente a cada parte do funeral. A homilia30 é um ponto central nesse tipo

de celebração, onde o celebrante tem a oportunidade de despertar nos presentes, um sentimento de esperança e de respeito aos mortos. Também é permitido no ritual fazer uma breve alusão à pessoa do morto, destacando suas qualidades em vida, porém os excessos devem ser evitados, pois em nenhuma celebração cristã é permitido fazer acepção de pessoas ou de classes sociais (cf. CNBB, 2003, p.18).

28 O Círio Pascal é um símbolo cristão, aceso na vigília pascal e que representa a luz de Cristo (Cristo

ressuscitado). Constitui-se por ser uma vela grande de cera, incrustada com algumas inscrições cristãs.

29 A celebração da Palavra de Deus é um ato litúrgico, faz parte da tradição da igreja. Na falta de um

padre, ela pode ser celebrada por diáconos (são servos que auxiliam o padre nos serviços litúrgicos) ou leigos (cf. CNBB, 1994, p. 1-2).

Pudemos através do acima exposto conhecer um pouco dos ritos e práticas funerárias adotadas pela igreja católica. Vimos a importância de suas celebrações no momento das exéquias, como também o sentido de cada um dos símbolos utilizados no funeral. Deste modo, esta exposição sobre os ritos fúnebres completa as duas primeiras acima. Com isso, esperamos ter uma noção clara e definida quanto ao pensamento e pressupostos da doutrina e fé católica. Pretendemos a partir de agora, através de um recorte histórico, conhecermos um pouco das atitudes do homem (cristão) perante a morte, como ela “foi” e como ela “é” encarada pela civilização ocidental.

2. As transformações histórico-antropológicas da morte ocidental: da