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2. TÜRKİYE’DE YEREL YÖNETİMLER

2.2. Türkiye’de Büyükşehir Belediye Yapılanma Süreci

Sem pretender esgotar o tema, é importante consignar que a influência da common law no direito americano trouxe da Inglaterra o instituto do stare decisis (também chamado de precedentes vinculantes).

Oriundo de um direito baseado nos costumes, os americanos trouxeram e adaptaram este instituto típico do direito consuetudinário inglês no qual uma decisão judicial de instância superior deve obrigatoriamente ser respeitada pelos órgãos judiciários das instâncias inferiores ao julgarem casos semelhantes.104

104 Sério Resende de Barros explica o conceito do stare decisis, ao dispor que [...]é o stare dicisis uma condição jurisprudencial natural ao common law. Nasceu com ele espontaneamente. Estendeu-se até onde ele se impôs. Assim chegou aos Estados Unidos. Originário de um tempo em que o latim ainda era a língua em que se comunicavam as ciências, inclusive o Direito, sua expressão completa é „stare decisis et non quieta movere‟. Tradução literal: estar com as coisas decididas e não mover as coisas quietas. Vale dizer: juízes e tribunais inferiores devem estar com as decisões da Corte superior e não mover as decisões pacificadas. Ou seja: a jurisprudência pacífica tem um efeito vinculante. Mas, embora o juiz deva ser fiel às decisões precedentes, não alterando o que já é „a solução‟ para o caso, em princípio – em virtude de sua própria natureza jurisprudencial, está sujeito à evolução histórica e até a contingências mais circunstanciais.”. As vertentes do direito

Destarte, uma vez que pelo controle difuso cabe a qualquer membro do Judiciário o controle de constitucionalidade, a doutrina do stare dicisis tornou-se uma necessidade, como imperativo de garantir a segurança jurídica dos jurisdicionados, evitando que diversos juízes ou tribunais tivessem interpretações distintas, trazendo insegurança aos indivíduos.

De fato, a razão de ser dos chamados “precedentes vinculantes” reside na necessidade de se garantir segurança jurídica às relações jurídicas e tem muito a ver com a reiteração dos costumes que acabam por se tornar, ainda que tacitamente, verdadeiras leis, normas de conduta que orientam a sociedade.

No afã de conferir maior segurança jurídica tanto às relações jurídicas como às decisões emanadas do Judiciário, os tribunais, sobretudo os superiores, decidem determinada situação e seus julgados deverão ser observados e seguidos pelos juízes e tribunais inferiores, não podendo os mesmos decidir de maneira contrária.

De fato, em um direito baseado nos costumes, seria normal que a jurisprudência fosse respeitada em todas as esferas, já que a função do Judiciário reside não somente na interpretação das leis, mas também, na “positivação da prática de determinados costumes”.

Isso porque na common law o direito é formado por meio de decisões judiciais, ou melhor, por meio dos citados “precedentes”. Assim, a partir da utilização de normas processuais predeterminadas o direito se desenvolve de maneira casuística, pela interpretação conferida pelo Poder Judiciário ao caso concreto. Em outras palavras, o direito consuetudinário parte de decisões que servirão de paradigma para situações análogas futuras.105

105 A doutrina traz diversos sinônimos para os dois sistemas jurídicos citados. Assim, são sinônimos da tradição

Já nos sistemas romano-germânicos é diferente: toma-se por base a lei (norma geral e abstrata) para se alcançar a decisão judicial (“norma” específica e concreta), exatamente o inverso do que ocorre na common law, onde a lei não ocupa um espaço de tanta importância, favorecendo desta forma a atuação do Poder Judiciário.

Tratando da importância dos precedentes vinculantes, a exemplo do que se afirmou com relação ao poder conferido ao Judiciário, tal sistema sofreu mudanças quando implantado nos Estados Unidos, se comparado ao alcance deste instituto no direito inglês.

Nesse sentido, Maurice Hauriou analisa de que maneira a common law influenciou o direito americano a ponto de a interpretação jurisprudencial ocupar um importante espaço, apontando que:

De plus, à raison de la survivance de la coutume, on peut dire que le droit américain est judge maid, fait par le juge. Il l‟est dans sa partie coutumière, car il ne faut pas oublier le common law qui est la base coutumière des principes généraux du droit, et il est aussie dans sa partie légale en ce qui concerne le statute law, parce que, par entraînement, les juges américains traitent la loi écrite avec la même liberté que la coutume et l‟interprètent par les principes coutumiers. Non seulement, la loi écrite n‟est pas défendue par un pouvoir exécutif appuyé sur un régime administratif, mais elle n‟a même jamais été consolidée par une codification, les textes épars sont submergés et engloutis rapidement par l‟interprétation jurisprudentielle constructive.106

Com efeito, o stare decisis, tal como era aplicado na Inglaterra, não teria lugar nos Estados Unidos, haja vista a estrutura do federalismo implantado quando da Constituição de 1787.

germânica”, entre outras. Por sua vez, são sinônimos da tradição anglo-americana as expressões “direito consuetudinário”, “direito costumeiro” e “common law”, entre outras.

Isso porque decorre da própria estrutura federal um enfraquecimento da importância atribuída ao Poder Legislativo central, uma vez que a autonomia dos Estados presume a possibilidade de os juízes e tribunais estaduais proferirem decisões em desconformidade com o poder central.

Ademais, outro aspecto deve ser exposto: no exemplo americano, ainda que as decisões da Suprema Corte vinculem o julgado de todas as instâncias inferiores a ela, é possível que a própria Suprema Corte modifique o seu entendimento.

Em outras palavras, é dizer que, nos Estados Unidos, a Suprema Corte e os Tribunais dos Estados, se por um lado vinculam as instâncias judiciais inferiores, por outro não estão vinculados às suas próprias decisões, sendo-lhes permitido decidir em sentido contrário às suas próprias jurisprudências, gerando novos e diferentes precedentes para as instâncias inferiores.

Essa, por assim dizer, “interpretação mais flexível” dos órgãos de cúpula do Judiciário americano tem sido, pelo menos no que se refere à Suprema Corte americana, de fundamental importância para manter a interpretação da Constituição dos Estados Unidos da América permanentemente atualizada, em sintonia constante com as diferentes realidades sociais e econômicas que o país tem enfrentado ao longo de mais de duzentos anos.

René David trata da importância dessa flexibilidade nas decisões da Suprema Corte, ao afirmar que:

A possibilidade que teve o Supremo Tribunal dos Estados Unidos de efetuar mudanças de jurisprudência revelou-se fundamental. Permitiu ao Supremo Tribunal adaptar a sua interpretação da Constituição às correntes de pensamento e às necessidades econômicas do mundo moderno; assegurou, por isso mesmo, a estabilidade das instituições políticas americanas, permitindo aos Estados Unidos viver sob o domínio de uma Constituição que só pode ser modificada com extrema dificuldade. O Supremo pôde, graças à possibilidade que lhe era conferida, desarmar a corrente de hostilidade que tinham provocado, antes de 1936, o seu conservantismo exagerado e a sua estreita ligação aos princípios de um liberalismo superado; surge atualmente, de um modo que seria surpreendente há cinqüenta anos, como um elemento de progresso da nação.107

O desenvolvimento do stare decisis no direito americano tem grande importância em relação ao controle de constitucionalidade, uma vez que, conferindo às decisões dos tribunais (sobretudo da Suprema Corte) efeitos vinculantes, trouxe grande poder ao Judiciário para ter suas decisões respeitadas e para modificar as suas decisões.

A matriz estadunidense de controle difuso conferiu ao controle de constitucionalidade uma amplitude somente alcançada por outros ordenamentos mais de cem anos depois com o desenvolvimento do controle concentrado de constitucionalidade na Europa, do qual se passa a tratar.108

107 Os grandes sistemas de direito contemporâneo, p. 392.

108 Acerca do papel do judiciário nos Estados Unidos e da importância que ele teve para o controle de

constitucionalidade, Bernard Schwartz traça uma comparação entre o direito americano e o direito inglês, apontando que “[...] contudo, mesmo admitindo essas limitações ao poder judiciário nos Estados Unidos, não se pode negar que os tribunais federais desempenham um papel muito mais importante no campo do Direito Constitucional do que os tribunais da Inglaterra. Os juízes americanos possuem, indiscutivelmente, autoridade para rever a constitucionalidade dos atos governamentais e, a menos que um caso submetido a eles seja caracterizado como envolvendo uma questão política, essa autoridade será exercida por eles, toda vez que for necessário, para a solução de um litígio. Até tempos relativamente recentes, na verdade, o poder da Corte Suprema federal sobre a constitucionalidade das leis era exercido de modo tão amplo que os estudiosos do sistema americano poderiam considerá-lo como um „Governo dos Juízes‟.” Direito constitucional americano,

3.3 O modelo europeu de controle concentrado de constitucionalidade e a influência