Na relação liturgia, espaço e sagrado12, a liturgia pode agir na mente humana para trazer conhecimento e propor transformações, quando necessárias, na experiência vivida pela humanidade, por isso ela: ―precisa ser urgentemente descoberta (...) como uma aventura espiritual que engaje o eu em uma experiência rica de vida, inteligência e emoções.‖ (Cf. COELHO, 2006, p. 32)
Possibilita, assim, examinar a formação do espaço, da identidade do ser humano no contato com o sagrado e no reencontro consigo mesmo, desde sua natureza física, emocional e espiritual. Mircea Eliade define o sagrado a partir do homem e da divindade:
O sagrado é um elemento na estrutura da consciência, e não um estágio na história desta consciência. E pela imitação dos modelos revelados por Seres Sobrenaturais que a vida humana toma sentido. A imitação de modelos transumanos, constitui uma das características primeiras da vida «religiosa», uma característica estrutural que é indiferente à cultura e à época. A partir dos documentos religiosos mais arcaicos que nos sejam acessíveis até ao cristianismo e ao Islã, a imitatio dei, como norma e linha diretriz da existência humana, jamais foi interrompida; na realidade, não poderia ter sido de outra forma. Em níveis mais arcaicos de cultura, viver enquanto ser humano é em si um ato religioso, pois a alimentação, a vida sexual e o trabalho têm um valor sacramental. Em outros termos, ser, ou melhor, tornar-se um homem significa ser religioso. (ELIADE, 2001, p 18-30)
Quando se lida com a liturgia se lida com tudo que é transcendente, incognoscível, inonimável, divino, tem-se a experiência pessoal de um domínio existente, não limitado à esfera do mundo físico, o sagrado.
Rudolf Otto designa a experiência com o sagrado como numinoso13, ―é o totalmente outro‖ o que vai além da razão. É a experiência com o transcendente, que gera no homem uma relação de dependência, um ―algo mais‖ que ele define: ―... o sentimento do estado de criatura, o sentimento da criatura que se abisma no seu próprio nada e desaparece perante o que está acima de toda a criatura. A sedução que o sagrado provoca é resultado dessa experiência que vai além do racional, contudo a reação por ela provocada faz com que o homem deseje resolvê-la ou, até mesmo, refutá-la.‖ (OTTO, 2005, p. 19)
É inegável que o sagrado está inserido na liturgia e que influencia as pessoas em seu cotidiano. Trata-se de um mistério que não se compreende em um universo palpável, mas declara ―concretamente‖ sua existência por meio das reações e sentimentos vividos pelo ser humano em sua identidade e sentido de vida.
Mediante essa relação entre o divino e o humano, é preciso adotar posturas contextualizadas da realidade na liturgia. Para Galimberti, essa relação do sagrado é definida como:
Sagrado, é palavra indo-européia que significa ‗separado‘. A sacralidade, portanto, não é uma condição espiritual ou moral, mas uma qualidade inerente ao que tem relação e contato com potências que o homem, não podendo dominar, percebe como superiores a si mesmo, e como tais atribuíveis a uma dimensão, em seguida denominada ‗divina‘, considerada ‗separada‘ e ‗outra‘ com relação ao mundo humano. (GALIMBERTI, 2003, p.12.)
Eliade, diz que ―hierofania‖ 14, é a manifestação do sagrado em objetos, formas naturais ou pessoas, revela a beleza da transformação do caos no cosmos. Os antigos elementos que formavam o caos podem e continuam a ser os mesmos e, ainda assim, mostram algo novo a partir do sagrado na experiência religiosa litúrgica. Assim acredito que a ecoliturgia pode contribuir na experiência religiosa do ser humano, produzindo novas formas de rituais e serviço nas igrejas. (2001, p. 18)
13 Por numinoso, Otto entende a característica essencial e exclusiva da religião “e sem ele, a religião perderia as suas “características”. É o totalmente outro (p.12-19). Rudolf Otto teólogo de religiões comparadas. Autor de The Idea of the Holy, em 1917 criador do termo numinous, um conceito religioso e filosófico da atualidade. 14 Hierofanias é a manifestação do sagrado no mundo, algo que se revela do mistério. (ELÍADE, 2001, p. 18).
Conforme Eliade isto se confirma: ‖Nunca será demais insistir no paradoxo que constitui toda hierofania, até a mais elementar. Manifestando o sagrado, um objeto qualquer torna-se outra coisa e, contudo, continua a ser ele mesmo, porque continua a participar do meio cósmico envolvente‖. (ELIADE, 2001, p. 18)
Não é possível, pois, recusar a importância dessa experiência na formação da identidade, uma vez que toca a realidade humana e contribui para a formação da consciência própria. Eliade afirma: ―... O sagrado equivale ao poder e, em última análise, à realidade por excelência. O sagrado está saturado de ser. Potência sagrada quer dizer ao mesmo tempo realidade, perenidade e eficácia (...) é, portanto, fácil de compreender que o homem religioso deseje profundamente ser, participar da realidade, saturar-se de poder.‖ (ELIADE, 2001, p. 18)
Para Floristan é neste encontro que acontece às experiências produzindo um meio eficaz para estimular uma práxis15, uma ação libertadora que gere transformações e mudanças sociais, políticas e religiosas para o bem do povo. Conclui-se então, a própria necessidade de se criar e lutar por uma disciplina ecoliturgica, apartir da teologia prática no campo do estudo teológico formal, para recuperar esta dimensão essencial da teologia litúrgica do serviço (cf. 2002, p. 180)
Os espaços litúrgicos cristãos destinam-se a acolher todos os tipos de pessoas sem distinção de etnia ou classe social, para que o ser religioso tenha uma experiência libertadora e passe por um processo educativo de uma práxis litúrgica pastoral. Mas este espaço litúrgico, nem sempre é popular, isso nem sempre acontece na realidade. Maraschin reflete diante da realidade complexa em torno do lugar dos pobres e oprimidos na celebração litúrgica:
De que maneira esse povo pobre estaria no processo de elaboração da nossa liturgia popular? Terá ele lugar privilegiado em nossos espaços litúrgicos, ou será apenas tema de nossas orações, referências feitas na ausência? Que celebramos em nossas liturgias? Estaremos celebrando, realmente, a esperança dos famintos e injustiçados, ou, pelo contrário, a gratidão da classe média alta pelo bem-estar e pela abundância conseguida? (MARASCHIN, 1996, p. 162)
Por que não dizer do espaço dos elementos da natureza, de uma ecoliturgia e das hirofanias na celebração litúrgica ou no serviço da espiritualidade?
Todo espaço de celebração tem que refletir ―a espiritualidade da comunidade e ser um sinal do reino que essa comunidade quer anunciar‖. (MACHADO, 2001, p. 9) Nisto pode-se ressaltar que na liturgia popular deve estar inserida a ecoliturgia que envolve a natureza, o meio ambiente e sua relação com o corpo e outras diversas alternativas de celebração ao Criador.
Conforme Maraschin diz, que existe uma crise, desde a elaboração da liturgia, do significado do espaço como sentido de vida, das causas e objetivos defendidos em nossas liturgias. Diz que o tipo de espaço que temos é refletido nas liturgias e nas igrejas, um espelho da sociedade capitalista voltada para o poder e o domínio, para o consumo e interesses políticos. (cf. MARASCHIN, 1996, p. 162- 163),
Eliade afirma que: ―se os espaços não criarem identidade e sentido da existência, o ser humano perde o seu referencial.‖ Assim, a crise do espaço da liturgia, é uma crise do respeito com a vida humana, com o próximo e seus problemas, com a natureza. A ecologia, o meio ambiente é o espaço da criação de Deus e da vida? ―O que é a pessoa humana diante do seu espaço? O espaço vazio não nos toca?... Para a pessoa... o espaço não é homogêneo‖. (cf.1997, p.18-20)
Neste conceito de espaço são sempre espaços de vida e bem-estar, do nascimento, da identidade, da relação, do outro, da proximidade, é a sua habitação, é a sua casa.
É na experiência do espaço que se cria o meio ambiente habitável, este espaço identifica, reflete a espiritualidade da comunidade, sua forma de crer e enxergar o mundo, de encontrar a paz e, sentir-se em ―casa‖. Onde estamos é o lugar do encontro, do relacionamento e da comunhão, da convivência e do perdão.
Um espaço de liturgia integral se faz com o envolvimento e a participação. Ressaltamos a importância que o espaço sagrado, litúrgico, tem função soteriológica, isto é, salvífica.
Eliade diz que o espaço cria identidade e segurança. Quando o homem encontra-se no cosmos, ―nesse espaço, ele encontra sua identidade, sente-se na realidade e, por conseguinte, protegido do caos e da escuridão das incertezas, fato que justifica a busca pelo espaço sagrado, sendo, na verdade, a busca por si mesmo; um ponto fixo central que forma e resgata o interior estimulando a busca sempre crescente por segurança.‖ (cf.. ELIADE, 2001, p. 19-30)
James F.White diz que é o lugar da tradição, da memória, da fé e da prática da história do povo que: ―A ciência litúrgica não parou no tempo... O calendário litúrgico da igreja centrava naquilo que Deus fizera e continua a fazer por intermédio do Espírito Santo... Onde ela proclama e dá graças a Deus pelas suas maravilhosas ações... No uso do tempo e (espaço), a igreja revela prioridades de fé e prática.‖ (cf. WHITE, 1997, p 5-40)
Deste modo, desde cedo, o cotidiano se mistura com a espiritualidade envolvendo cada indivíduo de forma integral na comunidade como um todo, seu relacionamento com a vida e com o Criador. A humanidade sempre esteve muito condicionada pelos ciclos da natureza e do tempo.