O estudo comparativo dos resultados mostra a evolução do item no decorrer dos 200 (duzentos) anos que separam uma sincronia da outra. O gráfico 3, a seguir, ressalta esse aspecto:
Gráfico 6 Uso de mesmo no presente e no passado
Do ponto de vista evolutivo, as diferenças representadas no gráfico 3 demonstram que o item mesmo evoluiu tanto sintática quanto semanticamente, deixando de ser um item preferencialmente referencial (dêitico/fórica) para se constituir um item relacional na estrutura sintática.
Referencial > relacional
Essa trajetória envolve um movimento cada vez mais crescente de abstratização na evolução do item, na qual sua noção original de espaço vai sendo paulatinamente diluída e superposta pela noção de texto, confirmando a proposta de Heine et al (1991):
Espaço > (tempo) > texto
Os percentuais das categorias “referência nominal” e “referencia adnominal”, de maiores projeções no passado, não deixam dúvidas sobre esse fato. A categoria “referência adnominal”, como ressaltam os números, destaca-se nos dois períodos do passado, com 69.6% do total dos dados, seguida, imediatamente, da “categoria nominal” com 16.8% das ocorrências. Isso significa que, até aqueles momentos, a anaforicidade do item prevalecia no
seu conteúdo semântico, favorecido pelas condições sociohistóricas, mantendo suas características funcionais de uso. Embora se considere a ampliação gradual do conteúdo fórico do item flagrada em contextos comparativos, o ritmo evolutivo da língua não favorecia a circulação ativa do item no português do Brasil como hoje se verifica.
No panorama atual da língua, o quadro se inverte. Os usos tipicamente anafóricos da palavra estão representados, predominantemente, com 15.22%, pela categoria referência “adnominal” e com 2.13% pela categoria “nominal”, ou seja, com apenas o total de 17.35% dos dados. Apesar de menos recorrentes do ponto de vista estatístico, como ressaltam os dados, essas diferentes categorias ainda se apresentam eficazes em situações de uso onde a função referencial do item justifica-se.
Entretanto, comparado com os períodos anteriores, aparentemente, poder-se-ia cogitar que esses valores vêm se tornando opacos, deixando de serem usados no contexto atual da língua, na medida em que outros usos foram aflorando. No entanto, o percentual atual de ocorrências do item nas referidas categorias analisadas mostra-se, a meu ver, proporcional ao desdobramento funcional do item no seu movimento evolutivo entre um período e outro.
Inserida na dinâmica da língua, a complexidade dos movimentos estabilidade e evolução constatada nesse uso particular do item está prevista no seu quadro evolutivo, podendo ser alterado, de um período para outro, como revelou a análise, em conseqüência das condições sociohistoricas vivenciadas nos períodos. Segundo Du Bois (1985), forças externas e internas interagem na produção dos fatos da língua determinando, ou não, sua funcionalidade.
Por hipótese, suspeito que o processo inverso ocorreu com o item mesmo na sua ação como reforço no sistema linguístico do português nos períodos passados. De uso inexpressivo, como revelaram as cartas oficiais, passa a competir com as outras categorias na preferência do usuário, como item intensificador na sincronia atual da língua, constituindo-se hoje um uso ativo e disseminado. Contudo, apesar de insuficientes, os percentuais revelados pelas respectivas categorias de reforço nos períodos passados referidos representam o elo dessa propriedade no continuum evolutivo do item entre os períodos investigados na língua portuguesa no Brasil.
Contrastando com sua ação limitada atestada no passado da língua (corpus 2), o item é flagrado, repetidamente, reforçando palavras ou informações na frase no português atual, função que lhe assegura, confortavelmente, 42.22% dos enunciados (“reforço contextual” com
29.95% dos dados e “reforço enfático” com 12.27% dos dados), restaurando a autenticidade funcional do item como expressão de reforço.
O gráfico 3 revela, ainda, outras divergências no comportamento do item entre os dois períodos, destacando-se, nesse confronto, sua evolução fora dos seus focos representacionais no português contemporâneo.
Embasada nos resultados quantitativos e na análise dos dados, acredito que esse impulso evolutivo coincide com a política de difusão linguística implantada no Brasil no período imperial (1757)41, visando incentivar a circulação da língua portuguesa no espaço brasileiro.
Afetado pelas necessidades comunicativas oriundas das transformações ocorridas na estrutura social como um todo, após a instalação do Império no Brasil, o uso da língua expande-se, refletindo-se nas expressões linguísticas. Fatores de natureza pragmática forçam adaptações e mudanças no uso do item ao longo dos anos.
Merece destaque, nesse particular, pelo percentual elevado dos dados 31.92%, a categoria de circunstância, indicando a ampliação funcional de reforço do item em situações, sintaticamente, divergentes. Em outras palavras, a intenção de reforço, antes função desempenhada pelo item como pronome demonstrativo, passa, também, a ser manifestada por ele como valor adverbial no eixo sintagmático, disseminando-se, posteriormente, para outros contextos de uso ainda mais abstratos. É o que ocorre com o item ao assumir o valor de inclusão(até) numa situação hierárquica.
No português atual, esse valor aparece retraído com 4.42% em relação ao passado (8.8%). Provavelmente, essa retração tenha a ver com contexto de uso atual, favorável ao aparecimento do item ora com valor concessivo, opondo informações, e ora com valor enfático de inclusão.
Nesse mecanismo, o item mesmo vai perdendo progressivamente sua transparência semântica em relação ao significado original (dêitico/fórico) e associando nuanças mais abstratas ao seu inventário, caracterizando-se, por conseguinte, como um processo de gramaticalização pleno no estágio atual da língua. Em determinados contextos de usos, esse processo de mudança mostra-se ainda mais avançado, chegando o item a desempenhar um papel discursivo, modalizando o texto, isto é, completamente, livre das restrições gramaticais.
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O Marquês de Pombal, através do documento “ Proposta do Diretório” (1757) traça Diretrizes da política lingüística visando a implantação e implementação da Língua Portuguesa no Brasil.
Esse distanciamento acentua-se, quando o item mesmo unindo-se a que ou assim, desempenha uma função relacional, como conector concessivo, fazendo oposição entre segmentos no texto. Semanticamente, esse processo envolve mudança de sentido, passando o item a expressar concessividade com o mesmo valor de “embora” ou “apesar de” no texto. Sintaticamente, ele afasta-se ainda mais de seu valor pronominal (mostrativo) para se instalar entre as conjunções. Ou seja, evolui para uma função relacional, conectando partes contrastivas de uma proposição. Em termos funcionais, essa evolução crescente caracteriza-se pela perda completa de suas referências originais, indicando abstratização.
Entretanto, de acordo com os percentuais revelados no português atual (4.09% das ocorrências) e 0.08% no português de outrora, pode-se questionar a estabilidade desse processo, especificamente, no momento atual da língua. Comparados com os percentuais das demais categorias, o uso do item com valor “concessivo” deve ser interpretado como opção de uso “emergente” no contexto atual e não como um processo consolidado, como acontece com a categoria de circunstância.
Em síntese, a análise comparativa dos dados emanados das diferentes sincronias constituintes dos corpora 1 e 2 da pesquisa assinalou diferentes comportamentos de uso do item no português de João Pessoa, como já era esperado. No português de outrora, condicionado pela inatividade social da língua, o comportamento do item caracteriza-se pela estabilidade de uso em funções anafóricas, provavelmente, preservando os traços do português lusitano e pela retração de suas possibilidades de reforço. No português atual, naturalmente, afetado pelas influências socioculturais e pragmáticas atuantes na esfera inter- comunicativa no decorrer desses 200 anos, seu comportamento destaca-se pela sua disseminação em diversas opções de uso, evidenciando sucessivas mudanças, via gramaticalização, no seu trajeto evolutivo na língua.
Concluída essa correlação, apresento, na sequência, uma síntese desses processos correlacionando com o princípio de unidirecionalidade.