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função de mesmo nesse contexto é, sobretudo, de reforçar a palavra, promovendo um efeito além do fato, mas não está ligado a esse pronome do ponto de vista sintático. É visto, assim, como anafórico uma vez que faz referência a “índios” (Apothéloz e Chanet 2003, p.56).

Em (110), por que só procuraõ por si mesmo abaterem-se em todas as suas aSsons, o item mesmo aparece posposto ao pronome “si”, ligando-se à ele como reflexivo, referindo- se aos índios do ponto de vista sintático.

Constituindo usos peculiares do termo, esperava, do ponto de vista da frequência, uma recorrência acentuada do item mesmo nessas funções, confirmando sua afinidade funcional com a forma latina metipse38. Não é o que ocorre no corpus 2.

Nos contextos históricos analisados, a comunicação linguística não se fazia em português39, o que pode ter influenciado a baixa recorrência do item como reforço. Além disso, o material linguístico analisado, apesar de apresentar características coloquiais, pertence à modalidade escrita da língua. E como se sabe, o reforço é caracteristicamente um uso da oralidade.

No português atual, os usos do item como reforço são motivados pelo contexto interativo oral como ficou comprovado na pesquisa do corpus 1.

Creio que a insuficiência de dados do item com intenção de reforço nas referidas cartas pode estar relacionada com o contexto histórico de produção da época, indicando, portanto, “retração” temporária dessas funções, nunca, porém, o seu apagamento.

Não pretendo no espaço deste trabalho contemplar essa hipótese. No entanto, conhecer esses detalhes mostram que o dinamismo da língua comporta diferentes processos de estabilidade e evolução das formas linguísticas. Ora mostra-se circunscrita e limitada, ora, expande-se e avança em novas direções, determinadas pelas circunstâncias socioculturais.

4.2.3.2 MESMO: AS MOTIVAÇÕES SOCIOHISTÓRICAS E CULTURAIS

38

Retomando o quadro teórico. Salum (op.cit.) explica que a partícula met foi reforço do pronome pessoal e ao seu lado usou-se também, ipse dando origem a metipse e metipsimu (latim) indicando identidade e ênfase nas línguas românicas. Portanto, o reforço é uma questão que se insere no âmbito da evolução dos demonstrativos, dos dêiticos, anafóricos, e catafóricos, relacionados por origem. (cf. Salum, 1981 p. 90).

39

Croft (1990, p.103) afirma que “a estrutura da língua reflete de algum modo a experiência”. Documentos históricos sobre o Brasil coloniaal e imperial mostram que o século XIX, particularmente, apresenta-se, do ponto de vista da língua, como um período extremamente dividido entre o português brasileiro vernáculo e o português brasileiro normativo que se tentava instaurar. Ambos estavam em formação naquele período. Segundo Pagotto (2005, p. 68), “os falantes da elite social se debatiam entre uma norma em construção e um português popular que se desejava evitar, mas cuja força fazia subir do porão para a sala hábitos linguísticos ‘corrompidos’”.

Em outras palavras, na medida em que a língua se ajustava aos padrões socioculturais trazidos com a mudança do reino para o Brasil, diferentes fatores conjugados podem ter incentivado o desenvolvimento de usos especiais do item no território brasileiro ou contribuído para a permanência dos velhos hábitos linguísticos europeus, confirmando a premissa de Croft, referida acima. Segundo Gonçalves et al (2007, p.65), “a estabilidade de uso de certos padrões linguísticos são determinados não só por fatores intralinguísticos, mas também sociais".

A estabilização da vocação original do item nos referidos períodos pode estar relacionada a fatores socioculturais inerentes àqueles períodos. Como se sabe, a língua portuguesa não era usada pelos habitantes da colônia40. Por conseguinte, estando a língua circunscrita a certos contextos sociais e sendo preferencialmente usada na modalidade escrita, a tendência a estabilização das suas formas linguísticas era inevitável.

Na linguística funcional, o dinamismo da gramática é gerado (motivado) no discurso através da interatividade cotidiana entre falantes e ouvintes pelas pressões de uso. Assim, se, naqueles momentos históricos, o português não circulava entre os habitantes da colônia, aliás, era até desconhecido pela maioria da população, não havia como o português e suas formas linguísticas evoluírem.

40

Informações históricas asseguram que o português só era usado em documentos oficiais, isto é, na sua forma escrita, em situações administrativas. No convívio diário das pessoas, rivalizando com o português, reinava inconteste, a “língua geral”, por todas as camadas sociais. Trouche, discutindo o Diretório de 1757 no qual o Marques de Pombal traça as Diretrizes para a implantação da Língua Portuguesa no Brasil, afirma que “ se houve necessidade de uma legislação sobre as formas de implantação da língua portuguesa, é porque esta não era a língua corrente no Brasil (Trouche, (UFF), internet, texto acessado em 30/04/08).

Tomada ao pé da letra, essa realidade confirma o slogan de Givón (1979, p.208-209) “a sintaxe de hoje é o discurso pragmático de ontem”, no qual ele defende que a linguagem humana teria evoluído do modo pragmático para o sintático, destacando o papel do discurso na evolução da linguagem humana.

Do ponto de vista icônico, a alta recorrência do item com valor anafórico demonstra que a correlação entre forma e significado (função) original era marcante naqueles períodos, correspondendo ao princípio Bolingeriano (1977) em sua versão forte: a condição natural de uma forma é preservar uma forma para um significado e um significado para uma forma.

O uso confinado do português no Brasil, nos períodos visitados, pode ter contribuído com o traço conservador observado no uso do item no recorte sincrônico em estudo.

Outras variáveis também podem ter contribuído com essa questão. O nível cultural dos escritores das cartas, muitos deles pessoas, simples sem ou com pouca instrução, pode ser apontado como responsável tanto pelo caráter conservador como pelo tom coloquial registrado nas cartas, como ressaltou Fonseca (2005).

Concluindo, a análise dos documentos investigados revelou-se importante por diferentes razões:

i) esclareceu questões relacionadas à funcionalidade do item em pauta no português do Brasil, salientando suas peculiaridades e apontando suas possibilidades na língua.

ii) evidenciou detalhes da realidade linguística vivenciada naqueles períodos no Brasil, destacando, em especial, o caráter conservador do português brasileiro.

iv) ressaltou as influências histórico-sociais daqueles períodos na estrutura da língua e, principalmente, na continuidade e/ou retração dos usos originais do item no território brasileiro.

Sem dúvida, valeu a viagem até o passado. De volta, prossigo o capítulo, destacando os processos evolutivos de mesmo, correlacionando os resultados dos corpora constituintes da pesquisa.