Após a metade do século XX, com a descoberta das leis da hereditariedade por Mendel, e da ênfase do estudo celular, a biologia moderna já não poderia ser mais a mesma. A teoria Darwiniana da evolução passa a possuir, agora, bases empíricas e matemáticas. Tem início a tendência de se trabalhar a hereditariedade, concentrando-se os estudos no núcleo das células:
no espaço da célula que devem se situar as reações químicas que dão
especificidade ao organismo que vai nascer” (Jacob, 1984, p.215) .
A análise biológica converge para o funcionamento da célula e de sua divisão. E no final de século surgem elementos para a engenharia genética, como a citologia, que revela o núcleo da célula e atribui a hereditariedade aos cromossomos. O destaque dado ao ADN marcou o início da era da biologia molecular, o material genético como vetor da hereditariedade e a descoberta de sua estrutura em dupla hélice, por Watson e Crik, em 1953, foi o alicerce para esta nova era, muito embora existam outras instâncias genéticas nas células, como as mitocôndrias e a membrana.
“Agora sabemos que a vida é apenas uma molécula de ADN, manipulável. A
partir dessa constatação o estudo da vida toma novos significados... O antigo
conceito de biologia tornou-se obsoleto, pois passa a idéia de estático, pronto e
acabado... Não deixa evidente que todo o dia é dia de criação ... Agora que
conhecemos as moléculas e os átomos da vida precisamos formular um novo
conceito de biologia, capaz de incluir e compreender que a criação exige
momentos de intensa cooperação e múltiplas interações”( Watson apud
Oliveira, 1995, p.10-11).
A partir de 1950 começou a ser possível descrever e explicar, de forma mecanicista, o comportamento dos órgãos do corpo do indivíduo em termos de propriedade e intercâmbio das moléculas. O todo podia ser explicado pelas partes por meio do código genético.
acrescentado um quarto conceito: o de informação. Esse foi o grande passo para o direcionamento da biologia molecular.
A compreensão de que os sistemas pudessem ser considerados não apenas em termos de molécula e energia, mas também em termos de traço de informações, tornou possível a Watson e Crick inferir que a estrutura da dupla hélice da molécula de ADN também poderia transmitir instruções genéticas ao longo das gerações. Criou-se o que Crick denominou, naquele momento, de “dogma central” da biologia molecular: ADN-ARN-Proteína. Para Crick, a informação se concretiza sob a forma de uma proteína e não pode desaparecer. É interessante ressaltar que embora descobertas tenham atenuado a força desta assertiva, tal como a dos genes “ultra-conservadores”4 e os “genes modificadores5”, seu valor simbólico é ainda de uma grande força e serve inúmeras vezes a naturalização e a simplificação de acontecimentos físicos e sociais.
Na segunda metade do século passado, precisamente na década de 70, ocorre uma explosão no acúmulo de conhecimentos dessa área. Em 1971, Paul Berg produz pela primeira vez na história da humanidade uma recombinação genética, a do fago Lambda (Oliveira, 1995, p.29). Em 1988, o primeiro gene humano é clonado: o beta- hemoglobina. Esta técnica foi rapidamente refeita com outros genes. A aplicação clínica destas técnicas se desenvolveu rapidamente, e os primeiros diagnósticos pré-natais baseados na análise do material gênico foram praticados (Jordam, 1996, p.1). Nove anos depois, em 1997, foi clonado o primeiro mamífero, a ovelha
Dolly, pelo grupo de cientistas do Instituto Roslin, na Escócia. Após a descoberta da estrutura do ADN, a genética se divide em duas vertentes, a biologia clássica e a biologia molecular:
“A grande diferença entre a genética clássica e a molecular não está no objeto
de estudo, pois ambas se ocupam dos genes. A diferença está localizada na
abordagem do objeto de estudo. Enquanto a vertente clássica mantém uma
atitude de expectante e dos fenômenos hereditários e de seu processamento na
natureza, a molecular é invasiva, não se limitando a observar. Ela interfere no
mecanismo, em um primeiro momento, para conhece-lo ao máximo e,
posteriormente, para reproduzi-lo e modificá-lo conscientemente. Pode até
transformar o mundo no que a imaginação quiser” (Oliveira, 1996, p.51) .
Ao analisar a ciência dos séculos XIX e XX, Hermínio Martins, relaciona às duas figuras míticas de Prometeu e Fausto.
Fausto é um dos mitos ocidentais mais poderosos, capaz de refletir de modo muito especial a nossa sociedade moderna. Segundo Ian Watt, Fausto foi inspirado em uma pessoa real e histórica, Jörg Faust, nascido por volta de 1480 na Alemanha e, nos últimos séculos sua saga foi contada e recontada inúmeras vezes, sendo consagrada a versão de Goethe. Nessa o conflito básico apresentado é a do “desejo de ultrapassar as fronteiras vigentes do conhecimento” o que leva o personagem a compactuar com o Diabo e transformar todo o mundo físico, moral e social que ele vive, o que, por fim, resulta num altíssimo custo para o ser humano (cf. Watt,
“A força vital que anima Fausto goetiano, que o distingue dos antecessores e
gera muita riqueza e dinamismo é um impulso que vou designar como desejo de
desenvolvimento...diz respeito à afinidade entre o ideal cultural do
autodesenvolvimento e o efetivo movimento social na direção do
desenvolvimento econômico” (Berman, 2000, p.41).
Para Martins, a ciência moderna, diferente da ciência contemporânea, de tendência fáustica, tem sua característica marcadamente associada ao mito prometeico. Estaria comprometida com o domínio técnico da natureza, tendo em vista o bem do homem e a emancipação da espécie, principalmente dos mais “oprimidos”, observando sempre um limite do conhecimento que seria do domínio “dos instintos da alma”. Este tipo de saber almeja melhorar a condição de vida dos homens através da tecnologia, graças à dominação racional da natureza. De vocação fáustica a ciência contemporânea estaria empenhada em ultrapassar os parâmetros básicos da condição humana: finitude, contingência, mortalidade, corporalidade e animalidade. As tecnologias reprodutivas, as biotecnologias e o modelo computacional da mente estariam em concordância com estas tendências de ultrapassagem da condição humana. Esse processo foi denominado por Victor Ferkiss (1980) de “gnosticismo tecnológico”, e deve ser entendido como envolvendo horror ao orgânico, repugnância pelo corpo, aversão pelo natural. Essa ciência que rejeita a organicidade do corpo humano procura na sua superação um ideal ascético, artificial, virtual e imortal (Martins, 1996, p.210).
“... o gnosticismo é usualmente entendido como envolvendo horror ao orgânico,
repugnância pelo corpo, aversão ao natural – um phatos metafísico por via da
qual a ‘viscosidade’ das coisas é sentida como radicalmente inimiga do espírito.
A tecnologia implica na manipulação do mundo material e, por aí, parece
intrinsecamente contra-gnóstica. Todavia pela expressão superficialmente
paradoxal ‘gnosticismo tecnológico’ quer-se significar o casamento das
realizações, projetos e aspirações tecnológicos com os sonhos
caracteristicamente gnósticos de se transcender radicalmente a condição
humana (e não simplesmente de melhorar e habilitar os seres humanos a
triunfarem sobre forças naturais hostis)” (Martins, 1996, p.172).
A dissolução do orgânico pode ser percebida por meio do investimento tecnológico da atualidade, tal como a transgenia que proporciona a criação de formas de vida artificiais e substitui um tempo natural e “lento” por um tempo adaptado às “necessidades” da contemporaneidade e do mercado.
Projetos da Inteligência Artificial nos prometem que dentro de quarenta anos, todos os traços da vida mental de uma dada pessoa possam ser inteiramente simulados por programas de computador, substituindo nossos cérebros (computadores de carne) por mentes sem cérebro (software inorgânico). Em conseqüência, poderia-se-ia supor a existência de uma mente sem o suporte cerebral, o que seria inimaginável na visão prometeica da técnica. Esta passagem da ciência de uma tendência prometeica para faustica pode ser evidenciada na transição da
metáfora homem-máquina para a metáfora homem-informação. Um novo ethos parece estar se estabelecendo a partir do impulso de domínio e superação da natureza.