que pega? Ou então, onde será que essa coisa enrosca? O que elas nos dizem é da insatisfação de ter que se alimentar com pressa ou de não poder se alimentar, com os alimentos estando todos ali, sendo manuseados por quem quer comê-los, como era o caso de Teresa na lanchonete.
Com efeito, essas vivências nos remetem ao plano da dignidade: de poder se alimentar, de ter um tempo para tal, uma tranqüilidade mínima, sem ter que engolir a comida (ou será que nos esquecemos das lições da anátomo-fisiologia, que nos dizem que a digestão é de responsabilidade do sistema nervoso central parassimpático, ou seja, ele não pode estar sob estresse para desempenhar sua função com eficácia); ou, ainda anteriormente, de ver todos aqueles alimentos dispostos na sua frente, sem que se possa apreciá-los, porque você é funcionário e os produtos são para os clientes, são destinados a quem possa pagá-los.
Quando as duas entrevistadas nos trazem a alimentação como terreno em que recaem os diferentes modos de produzir (fábrica e cooperativa), podemos ter uma noção dos efeitos da subordinação, dos efeitos do poder sobre um corpo. Corpo que tem fome, que tem necessidade de se alimentar – o que é diferente de engolir apressadamente sua refeição para ter que voltar ao trabalho. Através da paranóia de produção, não se permite que outros sentidos sejam possíveis, que outras práticas sejam realizadas; é descartada a possibilidade de que um outro tempo seja vivido nas fábricas, em que não se sobreponha a economia de tempo sobre a (economia de) alimentação, ou que o ato de se alimentar não seja esmagado pela produção.
Retornando à temporalidade propriamente dita, um importante aspecto recorrente na fala das entrevistada é a questão do horário: sua rigidez ou sua flexibilidade. Sua vivência era a de que na cooperativa Maria podia combinar o horário em que chegaria (com um certo bom senso), de modo a poder organizar sua vida, seu dia:
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imprevistos cotidianos poderiam se compor com sua atividade principal, seguindo uma lógica inclusiva, em que se pode articular as atividades que a vida nos coloca. De outro modo, ela nos fala da falta de maleabilidade dos horários em uma fábrica
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Pode-se dizer que não élevada em conta a realidade dos imprevistos, pois não se dá ao funcionário a possibilidade de manejar seus horários. Sem a preocupação de dar conta tanto dos imprevistos quanto das oportunidades da vida, estabelece-se um horário fixo, ao qual necessariamente é preciso se adequar.
Podemos pensar que o modelo “bate-cartão”, rígido com horários, pressupõe uma vida sem variâncias, homogênea, engessada, ordenada; e que todos os dias são passíveis de previsibilidade e planejamento dos acontecimentos: uma vida que se repete, que não varia; ou então, uma vida que é dedicada exclusivamente ao trabalho.
Inversamente, na cooperativa, a possibilidade de se ter horários flexíveis, acordados em consenso permite, além de poder responder com tranqüilidade às intercorrências (como ir ao médico, por exemplo), também permite articular o trabalho com outras potências, como por exemplo, os estudos). A flexibilidade do manejo do tempo num acordo mútuo abre possibilidades para os trabalhadores atuarem de modo mais próprio, de responderem a uma vida heterogênea que se modifica a cada instante, que não é de maneira alguma estática ou universal, no sentido de todos termos que lidar com as mesmas coisas.
Desse modo, a cooperativa talvez seja uma maneira mais interessante de se tentar dar conta do eterno diferenciar-se da vida, do devir que todo dia carrega.
5.3 Coletividade e Solidariedade
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MariaAqui encontramos uma importante característica do modo subjetivo de produção das cooperativas, e que é facilitado pela sua forma de organização econômica e política. Podemos dizer que há um forte propulsor relacional inerente à organização política das
cooperativas que convoca constantemente o sujeito a falar, a dar a sua opinião, a se colocar. A diversidade de pessoas que convivem em torno da mesma questão, com um objetivo em comum, cria uma superfície de contato, o facilitador, para que um grupo se constitua. Isso se torna possível graças às condições de convivência sob um outro domínio, não mais “castrador” ou sancionador, e que permite uma grande abertura para trocas. O próprio fato de não haver nenhum chefe já é algo que faz com que os fluxos circulem de modo mais livre e amplo por todo o campo grupal, sem se depositar e concentrar em tal ou qual figura de saber, poder ou autoridade.
Num trecho de Teresa, ela fala sobre a união e solidariedade do grupo
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”.
Esse é um aspecto muito importante para fortalecer o grupo, para tornar-se realmente um grupo e não um agrupamento de pessoas. O fato de eles terem vivido todo o processo de transição (de empresa para cooperativa) juntos, de terem se mantido unidos, contribui para formar vínculos, fazendo com que todos se sintam membros do mesmo grupo. Nisso as relações ganham qualidades, cores. Desse modo, é possível que a confiança apareça, a tensão se dissipe e a leveza possa voltar à superfície.É dessa maneira que este relato nos chega: “Não pensar só em mim, pensar em todo mundo, quando vai tomar uma decisão (...) Era coisas que eu nem parava para pensar e lá eu tinha que fazer isso”. Podemos pensar que a interdependência que existe na cooperativa possa ser o operador para produzir tais mudanças que, como ela diz, faz com que ela fazer isso. Configura-se aí algo novo, algo que não era praticado por Maria:
“
3
(...)”.
Essa necessidade de trocas earticulações existente na cooperativa, será que pode, no dia-a-dia, operar no sentido de limar o muro do autocentrismo?
Novamente temos presente a sutileza de elementos que vão sendo engendrados na subjetividade. Através de mínimas manifestações, de dizeres que se remetem a posturas, podemos tentar captar a produção de subjetividade capitalística. Em um trecho,
temos a seguinte frase
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A densidadedessa frase parece se perder com seu final abrupto: “e pronto”! “Você faz, você tem que fazer e pronto”. Nessa frase, em que se revela o processo, configura-se um campo fechado. A interioridade do processo é a interioridade da subjetividade, seu traço de individualidade. Mas voltemos ao processo circunscrito ao âmbito do trabalho: o que “pronto” parece conter? “Pronto” é exatamente o momento do corte, da não implicação. Corte da extensão que tal processo poderia ter, os desdobramentos do fluxo. O termo “pronto”, empregado na frase como aparece, designa o limite de cumprir com funções. “Você faz, você tem que fazer e pronto”: a sua utilidade se limita à realização das funções. Não existe nada mais, nem ninguém, para além disso. Outro corte aqui implícito é do âmbito da ordem, do mando, da função que lhe é imposta
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e pronto),não se discute. Toda a sujeição está contida aqui, a uma ordem inquestionável.
Em seguida, Maria faz a diferenciação:
“#0
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- (...)”.
Asensação é de duas atmosferas distintas, um outro processo em andamento. Sem dúvida, a participação ativa de colaborar já é efeito não de uma estrutura, mas de um campo de forças que permite outras posturas. Em vez da interioridade e da individualidade, a abertura presente nesse outro domínio de forças, sem os cortes impostos extrinsecamente, é capaz de permitir que outras intensidades sejam ativadas, que outras conexões sejam possíveis, capazes, também, de gerar uma outra fluidez ao desejo. Fluidez essa que pode maquinar, levar a cabo outras ações: “Eu comecei a ver lá, a participação do coletivo, das pessoas querendo ajudar o outro”. O envolvimento coletivo não é algo natural, há de ser conquistado e produzido. Somente outras atmosferas, livres da pressão e repressão, podem despertar tal sentimento e traduzir-se em ações – é aí onde se pode “ver” a subjetividade, desfazendo os limites entre o dentro e o fora, sendo o próprio “limite de um movimento contínuo” (Deleuze, 1992, p. 218).