No Brasil, são poucas as pesquisas publicadas em periódicos nacionais que abordam as conseqüências da separação conjugal para os filhos, a maioria deles pautados no relato destes últimos (ver, por exemplo, RAMIRES, 2004; RIBEIRO, 1989; SOUZA, 2000).
O trabalho de Ribeiro (1989) é um deles e investigou as conseqüências do divórcio segundo a percepção de 23 adolescentes. Embora a autora tenha observado o relato predominante de sentimentos de tristeza e de aspectos negativos, como as mudanças na rotina e a ausência paterna, fatores positivos e sentimentos de satisfação em decorrência da separação conjugal também foram mencionados, principalmente, o fim das brigas entre os pais. O estudo confirma os achados da literatura que sugerem que os filhos reagem de diferentes maneiras à separação em função de fatores como a existência de conflitos, alterações na rotina e o relacionamento que se estabelece com a figura parental que sai de casa. A autora acredita que as conseqüências negativas da separação podem ser minimizadas se aspectos como estes forem considerados.
Souza (2000) também verificou dados semelhantes sobre como os filhos se sentem frente à separação dos pais em outra pesquisa com adolescentes, os quais tinham entre quatro e 11 anos na época em que os pais se separaram. A autora observou que as maiores dificuldades estiveram relacionadas à pouca previsibilidade dos filhos sobre os eventos cotidianos e às mudanças na rotina e no relacionamento familiar. Uma das principais
mudanças relatadas pelos adolescentes referiu-se à redução do contato com o pai, embora também tenham mencionado alterações no relacionamento com a mãe, irmãos e amigos, afastamento da família paterna e aproximação da família materna, especialmente dos avós. Sobre o papel dos avós na vida dos netos após a separação, Araújo e Dias (2002) consideram que eles podem desempenhar um importante papel devido ao apoio emocional oferecido às famílias.
Em um estudo mais recente, Ramires (2004) entrevistou 11 crianças e pré- adolescentes, filhos de pais separados, com idades entre cinco e 13 anos, encaminhados para atendimento psicológico. Assim como nas pesquisas anteriores, a autora observou dificuldades dos filhos em lidar com a separação, principalmente os mais novos, e verificou a existência de fantasias e desejos de reunir a família e sentimentos de perda e tristeza. Apesar das dificuldades inerentes aos processos de transição presentes no ciclo de vida, a autora chama a atenção para a não-vitimização das crianças em função da separação, dado que essa tendência gera sentimentos de culpa nos pais e pode levar à tentativa de compensar o filho por meio da flexibilização dos limites.
Atentos às mudanças que a separação conjugal produz no relacionamento entre pais e filhos, Almeida et al. (2000) desenvolveram um estudo com três pais e seus filhos, após a separação, com o objetivo de investigar as dificuldades existentes e promover a interação entre eles através de uma intervenção em grupo. O estudo mostrou dificuldades dos filhos em lidar com a ausência da figura parental não detentora da guarda, e dos pais, que apresentaram agressividade no relacionamento social, problemas em relação ao contato com o ex-cônjuge e na relação com os filhos. Segundo os autores, a intervenção contribuiu para que os pais buscassem manter relações mais amigáveis com os ex-cônjuges e mantivessem mais diálogos e interações positivas com os filhos, o que, conseqüentemente, possibilitou um relacionamento mais satisfatório entre eles.
Como é possível perceber, são poucos os estudos publicados no Brasil e a literatura nacional ainda é incipiente, o que também foi constatado por Souza (2000). Pouco se sabe a respeito de famílias brasileiras de pais separados, haja vista que a maioria dos estudos é internacional e, portanto, refere-se a populações distintas. Tendo em vista que, quando os pais se separam, a maioria das crianças vive com suas mães, é de se esperar que com o aumento nas taxas de separação conjugal (IBGE, 2005), um número cada vez maior de crianças viverá em local diferente dos seus pais (DUNN, 2005). Assim, para os interessados no desenvolvimento infantil, é importante ter informações a respeito da relação que se estabelece
com o pai da criança após a separação conjugal, apesar de o papel do pai que não reside com o filho após a separação ainda ser ambíguo (AMATO, 2000). Ainda que muitos trabalhos tenham sido conduzidos em outros países, principalmente nos Estados Unidos, diferenças culturais podem produzir dados diferentes de uma cultura para outra, o que justifica a necessidade da realização de pesquisas em âmbito nacional.
Em suma, os estudos sobre a relação entre a separação conjugal e problemas de comportamento dos filhos mostram que as habilidades sociais educativas parentais e as práticas educativas podem funcionar como mediadores dos efeitos da separação para as crianças. Pesquisadores (WOLCHIK et al., 2000; WOOD; REPETTI; ROESCH, 2002) têm reportado que crianças que mantêm um bom relacionamento com suas mães apresentam menos problemas, o que significa que mães com mais habilidades sociais educativas podem prevenir o surgimento e a manutenção de problemas de comportamento. Os achados sobre a relação entre a disciplina parental e o comportamento dos filhos corroboram o modelo de Patterson, Reid e Dishion (2002), o qual indica que a disciplina inconsistente é o primeiro passo de uma seqüência desenvolvimentista que pode levar aos problemas de comportamento. Entretanto, como mostrou a pesquisa de Wolchik et al. (2000), não só a disciplina consistente, mas também habilidades de conversação e a interação positiva com a criança podem contribuir para menores taxas de problemas.
De acordo com Clarke-Stewart et al. (2000), embora muitos pesquisadores tenham investigado os efeitos da separação para escolares e adolescentes e haja cada vez mais interesse em jovens adultos, estudos sobre as conseqüências da separação para crianças mais novas ainda são escassos. Essa visão é corroborada por Pruett et al. (2003), segundo os quais, apesar de se saber relativamente pouco sobre famílias de crianças muito jovens, estas representam um dos subgrupos mais vulneráveis em se tratando de famílias separadas. Para esses últimos autores, os desafios do desenvolvimento infantil nessa faixa etária são maiores diante da separação conjugal, uma vez que as necessidades da criança quanto à segurança, confiança, autonomia e paciência, que caracterizariam esse período do desenvolvimento, são confrontadas com a exaustão e o estresse que acompanham a separação.
Portanto, investigar o repertório comportamental de pré-escolares filhos de pais separados, as habilidades sociais educativas parentais e o relacionamento entre os pais, após a separação, pode oferecer informações relevantes sobre o contexto de desenvolvimento das crianças e ajudar a compreender a relação entre a separação e o comportamento dos filhos. Tal conhecimento teria não só implicações teóricas, mas práticas, uma vez que poderia auxiliar na
elaboração de propostas de intervenção na medida em que ajudaria a identificar os fatores que maximizem as chances de a criança lidar de maneira satisfatória com a separação. Nas palavras de Amato (2000), a prioridade das pesquisas é continuar a investigar as contingências que determinam se a separação terá conseqüências positivas, negativas ou neutras para adultos e crianças.
São perguntas deste estudo: a) qual o repertório comportamental de pré-escolares, filhos de pais separados, no que se refere aos problemas de comportamento e às habilidades sociais? b) quais habilidades sociais educativas parentais são apresentadas por mães separadas? c) existe relação entre as habilidades sociais educativas das mães e o comportamento dos filhos? d) qual a relação entre mãe e filho com o pai da criança, após a separação?