1.1 Stres ve Tükenmişliğin Tanımı
1.1.2 Tükenmişlik
propício para a enunciação ou para apagamento das identidades.
A literatura, enquanto meio de representar a realidade humana, a recria por meio dos seres ficcionais e demais elementos constitutivos da narrativa e/ou do eu poético. Mas, para melhor situar isso, se torna necessário efetivar elucidações no campo da teoria literária e, dela, extrair noções que embasem as análises a serem feitas. Entrecuzaremos, desse modo, alguns caminhos teóricos.
2.1 REALIDADE E FICÇAO: ENTRECRUZANDO CAMINHOS
No livro O demônio da teoria, Compagnon (2006, p. 23) reconhece que “[...] há teorias particulares, opostas, divergentes, conflitantes [...]”, e são estas os objetos de instigações em seu percurso reflexivo que vai desde a “tradição aristotélica” à “moderna”. As considerações giram em torno de dois delicados campos da teoria literária, visto que “segundo a tradição aristotélica, humanista, clássica, realista, naturalista e mesmo marxista, a literatura tem por finalidade representar a realidade [...]”. No entanto, para a “tradição moderna e a teoria literária, a referência é uma ilusão, e a literatura não fala de outra coisa senão de literatura (cit., p. 114).”
A primeira tradição resulta da reinterpretação da Arte Poética de Aristóteles, e configura-se pela noção de que a literatura, pautada na noção de mimesis, representa a realidade. A segunda compreende a produção artística dissociada do contexto social, voltando-se para a imanência textual, a sua composição meramente artística, e tem origem nos estudos dos formalistas russos, no século XX, condensando-se no
estruturalismo.
Compagnon (cit., p. 114) detém-se sobre as duas perspectivas, destaca as limitações, faz ponderações, por compreendê-las como “alternativas traiçoeiras”, como tradições “do binarismo que quer forçar-nos a escolher entre duas posições tão insustentáveis uma quanto a outra”. Partindo de tal princípio as refuta e critica, assinalando que “[...] o dilema se baseia numa concepção algo limitado, ou caduca, da referência”. Essa asserção muito se aproxima do nosso ponto de vista, à medida que primamos por “[...] reatar o elo entre a literatura e a realidade”, conforme proposto pelo referido edtudioso.
É a partir dos dois pontos de vista aludidos por Compagnon (“tradição aristotélica e tradição moderna”) que são geradas as polêmicas no tocante à teoria como instrumento de análise literária (interna/externa), abrangendo a relação e distinção entre a obra literária e a realidade humana e, por conseguinte, personagem e pessoa.
Noa (2002, p. 23) também traz elucidações sobre o foco de nossa discussão ao afirmar que “[...] qualquer tipologia implica uma determinada visão do mundo ancorada num aglomerado de experiências, crenças ou convicções”. Diante disso, complementa: “[...] ao adjetivar uma literatura [...] há, quase sempre, uma delimitação conceptual intrínseca que, neste caso, tem implicações que transcendem, ou mesmo põem em causa a própria noção de literatura enquanto sistema semiótico particular”.
A asserção de Noa nos leva a repensar o pensamento foucaultiano no que se refere à sociedade de discursos, visto que, se levarmos em conta o papel de tal sociedade ficaremos mais instigados face ao predomínio de uma vertente teórica, histórica, enfim, ideológica, em detrimento das demais73. A literatura, sabemos, não fica alheia às injunções do tempo e das instituições que as disseminam.
No que se refere às teorias literárias observamos aproximações entre o pensamento de Eagleton (1983), Compagnon (2002) e, de certa forma, o de Noa (2002), ao situá-las enquanto campos constitutivos de transmutações, dependendo das influências vigentes, ideológicas, não naturais nem exatas, tampouco distanciadas das valorações acadêmicas. Assim, se colocam em xeque a noção de uma “essência literária”, ou da pretensa “especificidade” de tal texto, conforme entendido pelos
formalistas russos e, posteriormente, pelos estruturalistas. Nos dias atuais por Segolin
(1978), em sua perspectiva de “anti-personagem” e também por Palo e Oliveira (2006). Revisitando, então, noções antigas e outras mais recentes, vamos tateando algumas pistas oriundas do delicado campo teórico literário, a fim de desanuviar uma das faces dos personagens pouco aludidos na Arte Poética aristotélica, conceitualmente, embora imerso ali, nas considerações acerca da mimese.
Embora não se referindo aos personagens especificamente, mas ao estudo morfológico de Vladmir Propp (1984), Eagleton traz contribuições pontuais para nossa
73Em A ordem do discurso, Foucault (2005, p. 39) esclarece que, no passado, tais sociedades tinham a
função de “conservar ou produzir discursos” restringindo-o entre si, “segundo regras estritas” e, embora “não mais existam tais sociedade de discurso, com esse jogo de ambíguo de segredo e de divulgação”, pondera Foucault, “que ninguém se deixe enganar pois, “mesmo na ordem do discurso verdadeiro, mesmo na ordem do discurso publicado e livre de qualquer ritual, se exercem ainda formas de apropriação de segredo e de não-permutabilidade”.
trajetória, quando problematiza o campo da teoria literária em determinados espaços sociais, ao abordar as ideologias vigentes e a associação entre tal teoria e a política.
Eagleton (1983, p. 119) adentra os campos da filosofia e da linguística para evidenciar a correlação com a teoria literária em determinados contextos sociais, elucidando os diálogos entre esta e a ciência. Além de outras vertentes teóricas, o pesquisador aborda as vertentes dos formalistas russos e dos estruturalistas. Ele as critica por não levarem em conta o papel social da linguagem, encerrando-a em um viés predominantemente estrutural, sob a pretensão da ciência literária.
A Linguagem literária, salienta Eagleton, naquele momento, seguia o viés da arte pela arte, consubstanciando a imersão na estrutura do texto, a despeito das questões sociais. Então, se antes predominava a relação sociológica da arte literária, esta se volta para si mesma, única e exclusivamente; daí o extremismo aludido também por Compagnon (2002, p. 29), que parte da premissa de que o “estruturalismo” correspondeu às “oposições binárias”, através dos quais se definiram o “texto literário” e o “não literário” e, a partir daí, demarcaram a distinção entre literatura e realidade.
Eagleton (1983, p. 140) detém-se, ainda, no pós-estruturalismo que, segundo seu ponto de vista, traz inovações acerca da linguagem literária, redimensionando-a esteticamente. Para o estudioso, a linguagem é o campo da instabilidade, não exprimível por si só, configurando-se como uma “[...] teia que se estende sem limites, onde há intercâmbio e circulação constante de elementos, onde nenhum dos elementos é definível de maneira absoluta e onde tudo está relacionado com tudo”. Afinal, salienta: “Cada signo na cadeia de significação está, de alguma forma, marcado e influenciado por todos os outros, vindo a formar um emaranhado complexo que nunca se esgota; e nesse sentido, nenhum signo jamais é “puro” ou de “significação completa” (cit., p. 139).
Podemos observar que Eagleton (cit, p. 140) contesta algumas teses cujas formulações teóricas compreendem a linguagem como espelho da realidade. Para ele, a linguagem é inapreensível em sua totalidade, situando-se em um terreno movediço, multifacetado histórica e ideologicamente. Além do mais, até mesmo nos dicionários os significados abrem-se em uma rede diversa de significantes, ampliando o leque de significações a partir dos sentidos que lhes são atribuídos, argumenta.
A partir das contribuições de Eagleton (cit., p. 142), frisamos: “Não há conceito que não seja enredado em um jogo de significações, impregnado de vestígios e
fragmento de outras ideias”. Há, aqui, a noção de intertextualidade enquanto intrincada rede de significações, já que dinâmicas historicamente.
Eagleton (cit, p. 144), então, semelhante a Compagnon (2006), procura abrir caminhos menos “bipolares” da literatura, principalmente ao deter-se sobre o “pós- estruturalismo”. Esta vertente teórica, para ele, engloba um viés mais amplo, saindo do “binarismo” e rejeitando, desse modo, “qualquer distinção absoluta”, a saber, a leitura intrínseca ou extrínseca.
Nosso intuito não é minimizar a contribuição das correntes estéticas oriundas dos formalistas russos nem dos estruturalistas. São, sem sombras de dúvida, perspectivas teóricas que, em seu tempo e até os dias de hoje, trazem significativas possibilidades de análises, dentro dos ditames da arte da palavra. No entanto, para além de tais perspectivas, precisamos considerar o contexto social das produções em foco, em uma leitura dialógica entre o texto e o contexto social.
A acepção de arte literária que abordamos parte da contribuição dos formalistas
e estruturalistas, no que se refere à pluralidade discursiva, e dos elementos internos da
narrativa, mas não se encerra nestes, nem naquela pretensa aliança com a ciência, como salientou Propp, em sua Morfologia dos contos maravilhosos, e os demais formalistas. Situamo-nos em uma “encruzilhada” teórica, nesse limiar do século XXI, pois tivemos o papel crucial de selecionar livros distintos textualmente, e analisá-los, exercendo a função de crítica literária, e o termo “negro”, adjetivando as personagens, requer um olhar abrangente da literatura, levando em conta a contextura social.
É óbvio que não reduzimos o texto literário a um determinado contexto hsitórico, até porque, muitas obras continuam transcendendo o limite cronológico e os respectivos espaços sociais. Prosseguem desafiantes, instigando-nos às releituras. Nas análises fica, pois, sempre algo a ser dito, complementado, dadas as amplitudes interpretativas que sugerem e os ângulos, os novos olhares e mantê-las atuais. Eis um dos papéis da crítica e dos estudiosos da arte literária em suas vertentes diversas e, às vezes, divergentes.
2.1.2 Crítica e teoria literária: intrincadas redes
A crítica literária tem um papel crucial em seus critérios de valoração atribuídos às obras artísticas. Nesse sentido, salienta Eagleton (cit, p. 210), política e teoria literária
são campos indissociáveis, pois “política” corresponde à “maneira pela qual organizamos conjuntamente nossa vida social, e as relações de poder que isso implica”.
Diante da associação “política e teoria literária”, Eagleton (cit., p. 210) destaca em seu livro que “a história da moderna teoria literária é parte da história política e ideológica de nossa época”, e, argumenta,
[...] qualquer teoria relacionada com a significação, valor, linguagem, sentimento e experiência humanos, inevitavelmente envolverá crenças mais amplas e profundas sobre a natureza do ser e da sociedade humanos, problemas de poder e sexualidade, interpretação da história à passada, versões do presente e esperanças para o futuro. Não se trata de
lamentar que assim seja – de culpar a teoria literária por envolver-se
com essas questões, contrapondo-a a uma espécie de teoria literária “pura” que poderia se abster delas. Essa teoria literária “pura” é um mito acadêmico [...]
Eagleton complementa, ainda, que as teorias literárias por ele analisadas – sendo algumas destas aludidas aqui -, a exemplo do Formalismo Russo, Estruturalismo, por exemplo-, “são claramente ideológicas em suas tentativas de desconhecer totalmente a história e a política”. Sua crítica não é por haver relação entre a teoria literária e a política, mas por não se reconhecer isso, como se ambas estivessem dissociadas ideologicamente. Ou seja, tais teorias, a seu ver, “devem ser criticadas pela cegueira com que oferecem como verdades supostamente “técnicas”, “auto-evidentes”, “científicas” ou “universais”, mas, na realidade, correspondem aos “interesses específicos de grupos específicos de pessoas, em momentos específicos” (cit., p. 210).
No que se refere à crítica literária, esta “seleciona, processa, corrige e reescreve os textos de acordo com certas formas institucionalizadas do “literário” – normas que são, num dado momento, defensáveis, e sempre historicamente variáveis” (EAGLETON, 1987, p. 218).
Em outras palavras, mas se aproximando das idéias de Eagleton, Compagnon (2002) faz ressalvas importantes no que tange à valoração atribuída a determinadas obras em detrimento de outras, constituindo-se, assim, o canône. Cabe compreender, então, o critério de valor estabelecido, as preferências e a (re)formulação dos respectivos respaldos teóricos para instrumentalizar a imersão na obra em foco. Afinal, “Toda teoria, pode-se dizer, envolve uma preferência, ainda que seja pelos textos que seus conceitos descrevem melhor, textos pelos quais ela foi provavelmente instigada” (COMPAGNON, 2002, p. 226).
Na mesma esteira de pensamento de Compagnon (2002, p. 226) compreendemos, pois, que “Todo estudo literário depende de um sistema de preferências”, estejamos ou não conscientes disso. O estudo que estamos fazendo visa à valorização e ressignificação dos personagens negros. No entanto, não reivindicamos, com isso, a inversão de papéis. Em outras palavras, não é a revanche que pleiteamos, nem a imposição via Lei Federal 10.639/03. Tampouco a idealização dos papéis atribuídos aos referidas personagens, mas tão somente, a diversidade de ações e sensações que podem enredar sem se incorrer na estereotipia e recorrentes inferiorizações.
Ao entendermos que a literatura não está alheia às injunções do tempo, queremos pontuar que através da sua composição artística é possível identificar indícios que remetem às relações étnico-raciais, quer seja idealizando, quer seja denunciando, reforçando preconceitos e estereótipos, desconstruindo-os, fabulando, etc. E os personagens são fundamentais ante a arte de se (re)criar a existência humana em suas idiossincrasias. Reler o texto literário é, sem sombra de dúvidas, um meio de experienciar alegrias, tristezas, dúvidas, anseios, carências e crenças.
Vale elucidar ainda que, por ser plurissignificante, o texto literário permite “leituras diversas [...] por seu aspecto aberto” (BORDINI, 1993, p.15), pois, “[...] todo texto é resultado de uma leitura” (SAMUEL, 1992, p. 32). E é essa “leitura” que importa nas trilhas que seguiremos, de modo a vislumbrarmos algumas faces dos personagens negros.