III. Kaynakların Değerlendirilmesi:
2.2. ÂLEMİN YARATILIŞI
2.2.2. Göklerin Yaratılışı
2.2.2.2. Göğün Genişlemesi
“Estamos no porto de Nova Iorque, sobre o navio que nos vai levar à Europa. […] Vamos fazer a última travessia da nossa longa viagem. Dentro de sete dias chegaremos a Lisboa […]”. (Castro, 1986:302, VM, vol. III). Ferreira de Castro terminou a obra A volta
ao mundo escrevendo sobre os Estados Unidos da América, em 1944. Com o olhar europeu, intelectual, o cronista já havia atravessado metade do globo, conhecido outras culturas e escrito sobre elas, e se preparava para voltar a Portugal. O autor nesta viagem à América descortina aos leitores, um mundo novo, a diversidade cultural, a gastronomia, o cinema, as paisagens urbanas e rurais, a história e a vida dos americanos.
E em 1949, a escritora Natália Correia, partira de Lisboa de avião, para conhecer a América que afirmou ser uma: “ […] ambição comum de todos os portugueses”. (Correia, 1951:13). Viagem de deslumbramento cuja experiência se direcionara ao reconhecimento de suas raízes europeias. A romancista partilha isso na obra Descobri que
era Europeia Impressões duma viagem à América, publicada em 1951.
Ferreira de Castro e Natália Correia iniciam os percursos de formas diferentes, mas o impulso da viagem dos dois autores foi o conhecimento — aliás, é uma característica também que foi encontrada em Brandão e em Nemésio—. Os autores relatam uma certa maneira de ser dos americanos e o caráter da América, de forma particular, a partir de microcosmos, tendo em consideração a heterogeneidade do povo fortemente marcada e o extenso território não percorrido.
Os viajantes tentam alcançar e compreender a realidade que leram sobre a América em confronto com a realidade que viram, como por exemplo, “o culto ao dólar”, o preconceito racial, as desigualdades sociais, a forma livre dos americanos viverem. Os escritores submergem na cultura americana, na política; no cotidiano de uma simples viagem de comboio ou do lazer num parque no domingo; e utilizam suas observações esbarrando nas fronteiras da etnografia.
Emergem destas viagens as características da atuação de Castro e Natália em serem escritores, criadores de personagens e paisagens, pois encontram formas abundantes e diferentes na América. Como também histórias diversas nos diálogos com outros intelectuais, da poesia a política.
81 Os dois relatos de viagens têm variedades de temas e cidades, e para esta comparação entre os dois viajantes, pretende-se realizar o recorte sobre as semelhanças e as diferenças no olhar de cada autor; sobre os americanos e a América, dando relevância à cidade de Nova Iorque, pela sua importância no cenário mundial e como microcosmo visitado por ambos.
Os Estados Unidos na ocasião das visitas de Castro e Natália, passaram por importantes ações políticas, causando instabilidades sociais, as quais foram sentidas pelos dois viajantes. Destaca-se, em Ferreira de Castro a visita à base naval de Pearl Harbor, no Havai, que sofreu ataque do Japão, em 1941. Castro, anteriormente, evidencia o aspetos da estrutura e a compara com: “[…] um imensurável cemitério naval” (Castro, 1986:208,VM, vol. III). O autor escreve sobre os gastos na construção da base e do seu poder de abrigar numerosos contingentes. Quando chega à base, Castro declara que:
A princípio mal distinguimos as formas desta célebre base naval americana. O aço dos numerosos barcos de guerra nela fundeados refulge ao sol, como um espelho e ofusca-nos. […] Estamos perante aquilo que os Americanos chamam “ o punho da América no Pacífico” — o punho armado que os Japoneses odiavam e odeiam.” (Castro, 1986: 207,208, VM, vol. III)
As questões políticas, que permeiam o discurso de Natália Correia, são variadas e constantes. Demonstram a atitude engajada da autora que viajara à América marcando posicionamentos políticos sobre os problemas da sua época. Destaca-se, neste recorte, dois momentos marcantes, primeiro, a participação da escritora na conferência de imprensa, na Casa Branca, quando ouvira o discurso do ex-Presidente Harry S. Truman (1884-1972), que teve seu mandato presidencial no período de 1945 à 1953. Natália revela na forma de jornalismo documental o que presenciou:
Finalmente Truman chegou, precedido duma corte que tomou assento à volta da sua secretária. Era o mesmo rosto conhecidíssimo das fotografias: os lábios finos, cortados à navalha, que um sorriso permanentemente higiénico pretendia humanizar numa expressão infantil. No entanto, aquele sorriso político não conseguia apagar uma sombra de crueldade incipiente distribuída pelo rosto.
[…] Truman mostrava-se optimista quanto à reeleição do senador democrático de Ohio, apesar do governador de Ohio (democrático) ter declarado que apoiava a candidatura de Taft por ser de opinião que ele servia melhor os interesses da nação. […] Em seguida o Presidente reiterou a sua oposição ao aumento para setenta divisões das Forças Armadas. (Correia, 1951:231,232)
82 O segundo momento é a preocupação da autora quanto à iminência da Guerra da Coreia (1951-1953), quase que demonstrando no texto uma previsão daquilo que iria se suceder e a hipótese dos motivos da América preferir estar envolvida no conflito. A autora comenta:
A América […] A visão dum império vem-lhe amadurando no sub- consciente. Expandir-se é a condição de continuar a existir. […] O caso da Coreia pôs na boca dos americanos esta expressão fatalista: “se tem de ser, que seja já”. As vibrantes canções patrióticas entoadas em conjunto, os aplausos aos herois nacionais, são esgares dum grito de guerra que ainda não soou.
Na última guerra, a América foi simples participante. Não teve o lugar de relevo que o seu orgulho lhe impõe. Ela quer comprometer-se num conflito, a título de salvadora do mundo, porque o messianismo é a eterna máscara do domínio. Ela quer, em última análise, crucificar-se, para seguir a rota infalível da auto-destruição. (Natália, 1951: 296)
A viagem de Ferreira de Castro pela América iniciou-se pelo arquipélago do Havai, em Honolulu, de navio, depois de ter conhecido o Japão. O autor afirma ter feito — junto da esposa Elena Muriel — “ […] a maior travessia marítima da nossa viagem à volta do Mundo – a travessia do maior de todos os oceanos.” (Castro, 1986:199, VM, vol. I). Castro pôde testemunhar o início da prática do surfe na Praia Waikiki79, tendo o desporto se popularizado em Portugal nos finais dos anos oitenta80.
O relato de viagem do cronista é uma combinação de comentários sobre a história da cidade, principalmente, sobre o início das colônias açorianas e madeirenses, com as observações sobre o cosmopolitismo presente na ilha. Uma das marcas nas crónicas do autor de Emigrantes é realçar o trabalho das minorias dos locais que visita. Demonstrando humanismo e crítica social sobre o mal estado das classes trabalhadoras no Mundo e as desigualdades sociais, marca da consciência política, como Nelly Novaes Coelho refere que: “ É evidente que o nervo vital de toda a obra de Ferreira de Castro é de natureza sócio-económico-política.” (Coelho, 2007:210)
No caso de Honolulu, o autor escreve sobre os trabalhadores das plantações de ananases e das condições de vida e afirma que: “ Aqui se encontram os que ganham o pão com o suor do seu rosto, os pobres, aqueles cuja vida Honolulu, com suas luxuosas casas- jardins, parece querer ocultar.” (Castro, 1986:213, VM, vol. III)
79 Cf. Castro,1986:210, VM, vol. III
80Cf.História,FederaçãoPortuguesadeSurf.Disponível:https://www.surfingportugal.com/?page_id=1144
83 Castro se direciona ao conhecimento mais amplo sobre a América ao chegar à Califórnia. Atravessara o continente americano numa viagem de comboio, com várias interrupções para conhecer as cidades, finalizando-a em Nova Iorque. O interesse é dedicado ao panorama que se metamorfoseia em algumas paragens ou pela contemplação das cidades pela janela. O itinerário foi baseado pelas seguintes cidades: Los Angeles (Hollywood), Arizona (Grand Canyon), Novo México, Texas, Oklahoma, Kansas, Missouri, Iowa, Illinois, Chicago, Niagara Falls (Cataratas do Niágara), Nova Iorque.
O escritor criou um roteiro com vestígios de romance literário na forma da narração e observou os pontos mais significativos dessas cidades em conjunto com a sua história. Da América primitiva à presença da Europa na construção dela, com o trabalho dos imigrantes de várias nacionalidades, especialmente, os da colônia portuguesa na Califórnia, madeirenses, açorianos e luso-americanos. Castro pôde conviver com alguns deles e observou seus costumes em comunidade, o trabalho árduo, a saudade do país e as modificações culturais ocorridas na vida deles e nos próprios nomes, assim como os neologismos criados.
Nota-se que neste roteiro Castro buscou o que estava guardado na memória a cerca da imagem que criara dos Estados Unidos através do contato com a cultura geral. Visto isso em alguns momentos que se sentiu surpreendido com a cidade de Hollywood, o Rio Mississípi, as Cataratas do Niágara.
As impressões colhidas pelo escritor, sobre algumas peculiaridades dos Estados Unidos são: o progresso, o conforto, a organização, a grandiosidade, o trabalho, as desigualdades sociais, o capitalismo. A América vista por Castro mostrou-se excecional com tendências na narrativa para o adjetivo “grande”, tanto aos olhos do autor, como aos olhos de quem entrevistara. Grandes terras cultiváveis, arranha-céus, enormes cinemas, enormes hotéis, quantias avultas de dinheiro. A cidade vista por algarismos ao invés de adjetivos, a guerra informada nos jornais através dos enormes valores perdidos; grandes avenidas (boulevard), “o túnel mais largo do mundo, a maior ponte, o mais fundo pilar do mundo”.
Destaca-se na paisagem natural esta grandiosidade, quando Castro se refere às sequoias, em São Francisco: “ […] as famosas árvores de madeira vermelha da Califórnia. […] Estamos perante as mais altas e, provavelmente, as mais velhas árvores que existem sobre o planeta. Na nossa frente levantam-se, imponentemente, gigantescos troncos, […].” (Castro, 1986:233, VM, vol. III). O assombro causado pela paisagem do Grand
84 Canyon, “ Tudo se apresenta tão inverosímil, tão majestoso, tão extraordinário, que tal como perante certos monumentos religiosos do Oriente, é necessário algum tempo para nos convencermos de que não somos vítimas de uma miragem.” (Castro, 1986:251, VM, vol. III).
O progresso e a organização são lembrados em várias passagens, como nas descrições do comboio DayLight, no turismo, na agricultura, especialmente, no impacto causado no viajante ao ver a extração do petróleo:
Ficamos surpreendidos: o mar está cheio de torres iguais. Os Americanos descobriram que o veio do líquido precioso se distendia por debaixo do oceano – e não hesitaram. Foram-se ao mar, perfuraram o seu fundo e de lá, das entranhas do Pacífico, começaram, também, a extrair petróleo! (Castro, 1986:237, VM, vol. III)
Apesar do progresso e das riquezas, Castro percebeu a desigualdade social como problemas que desafiam o país ao passar pelo Texas: “ A outra América, a do progresso, a do conforto, não chegou ainda aqui. Vários destes povoados têm nomes espanhóis e parece conservarem o aspecto que possuíam nos já remotos tempos […]”. (Castro,1986: 255, VM, vol. III). E constata as dificuldades do trabalho dos imigrantes e as desigualdades entre eles e os senhores da terra, na Califórnia: “ As instalações de muitos destes camponeses são bastante elementares, repetindo-se, aqui, o mesmo drama que se vê noutras latitudes, o mesmo violento contraste entre o nível de vida dos grandes senhores da terra e o dos que a terra amanham.” (Castro, 1986:229, VM, vol. III).
O capitalismo visto como artéria principal desse organismo não oculta a consciência política dos trabalhadores. Castro, em Chicago, observa isso nestes dois momentos: “Estamos numa das principais fortalezas do capitalismo, não só da América, mas mundo inteiro. […] Chicago cheira a notas de banco, lembrando-nos, a todo o momento, a existência do dólar.” (Castro,1986: 210,VM, vol. III). E evoca o Primeiro de Maio, numa visita às fábricas da cidade que foram reconstruídas no local onde ocorreu a tragédia. O jornalista verificou que as instalações e as condições do trabalho são melhores em comparações com alguns países da Europa, apesar de haver crises económicas e lutas entre as classes. Ferreira de Castro lembra que apesar dos trabalhadores discordarem da “organização social em que vivem e rebelarem-se contra ela; “[…] todos crêem que não existe outra nação com tantas possibilidades materiais como esta para oferecer aos seres humanos um melhor destino”. (Castro,1986:266, VM, vol. III)
85 A crença no país faz parte de algumas das características inferidas por Castro observadas nos americanos daquela década, como também: o nacionalismo, a consciência política, um “à-vontade” nas conversas, o gosto peculiar por jardins, obsessões por automóveis e na construção de postos de gasolinas, o modo de vida sem importância com a alimentação, o sentido prático de viver. Sabe-se, portanto, que este conhecimento é uma parte mínima de algo maior, e são características fragmentadas da fotografia de um povo, porque o viajante também lembra que o americano é “[…] um amálgama de muitos povos […]”. (Castro,1986:294,VM,vol.III). Todavia o autor confirma expressamente na narrativa que:
Uma das principais características do povo americano é não saber olhar para as coisas passivamente. Ele pensa sempre que tudo quanto vê pode ser melhor do que é, mais perfeito, mais completo, mais útil, mais prático. Ele é, pela sua própria natureza, pela sua própria vitalidade, um intervencionista. O acto de contemplar é, para ele, um acto de intervenção. Pela sua psicologia, o Americano não aceita o imutável.” (Castro,1986: 290, VM, vol. III)
É a forma que o americano tem de transformar a cultura do mundo na sua própria cultura. O contato para conhecer o americano se dá por muitas vezes de forma direta (em formas de diálogos expressos no texto) em forma indireta (o próprio autor reproduzindo a fala) ou apenas através de descrições que dominam grande parte da crónica. Para isso, Castro visita museus (de arte, ciência e história) teatros, restaurantes, a Universidade de Stanford, a agência Associated Press, diretores e pessoas da área do cinema em Hollywood, um lar de uma família em Nova Iorque. Teve a companhia de um amigo médico em São Francisco, e por um anónimo em Beverly Hills. Também utiliza o autocarro e metro (subway), tudo serve para os olhos aguçados do autor e matérias de exaustivas descrições e testemunhos.
Castro em Nova Iorque descreveu a primeira impressão da cidade como uma “asfixia”, mas com o tempo a cidade “vai-se tornando mais simpática”81. O autor descreve seu roteiro a partir da caminhada que faz pelas ruas, apontando os lugares mais significativos, como Wall Street, o Empire State, a Radio City Music-Hall, a Quinta Avenida, Chinatown, o Times Square, o Rockefeller Center, a Broadway, os parques da cidade, a vida no Harlém e no Brooklyn.
86 Castro observa a arte nos Museus Metropolitano e de Arte Moderna, e comenta que: “ Há, aqui, todos os «neos» e todos os «ismos» ”82. O viajante percebe a importância dos museus da cidade não somente por expor obras “notabilíssimas” como também serem centros de culturas com conferência, cinemas, concertos que “dão vida” aos museus.
No périplo pela cidade, o cronista, registra os movimentos desde como é intercetado pelos pedintes nas ruas à música do jazz, tocada livremente nas ruas e as orquestras de jazz à noite no Harlém como comenta: “Vemos loucos sapateados levantarem os pós das frinchas dos palcos. As orquestras de jazz alucinam a noite. Raparigas de ébano entoam melancólicas canções […].” (Castro,1986:295, VM, vol. III). Tenta compreender o preconceito racial nos Estados Unidos e se movimenta pelos locais que poderiam ocorrer algum conflito. Mas somente os jornais informam sobre essas ocorrências em lugares rurais. Como se fosse uma mentalidade já passada ou contada apenas nas histórias do Harlém.
Nos Estados Unidos, o olhar de Castro sobre as mulheres, restringe-se à beleza e à mulher-esposa-doméstica, diferentemente do que é encontrado em outros locais que o escritor visitara. Num encontro que realiza com um amigo para conhecer um exemplo de lar americano o escritor relata sobre isso: “A mulher daqui encontra-se, assim, menos sacrificada do que a sua irmã da Europa [...] De uma maneira geral, os Americanos tratam as mulheres com extrema consideração.” (Castro,1986:298, VM, vol. III). Apesar de saber que há famílias que exercem à censura de alguns atos da sociedade. O que prevalece entre os americanos é a manutenção da liberdade, tanto para os filhos, como para a mulher.
A liberdade é o mote utilizado por Ferreira de Castro e Natália Correia em suas observações à cidade e aos habitantes. Natália Correia discorre sobre a liberdade desde o início da obra. E a própria escritora encarna o sentido de ser livre, ao viver uma viagem boémia pela cidade e conhecer clubes noturnos, em muitos momentos, sozinha. A escritora sente nos Estados Unidos uma atmosfera desprendida até ao se referir aos trajes utilizados pelas mulheres que poderiam ser interpretados como impróprios em outras sociedades, e comenta que: “ […] resume um dos tópicos fundamentais do espírito dum povo: vive e deixa viver. […] afinal de contas, sendo pequenas, elas são a expressão
87 menor de coisas muito grandes em que se expande o respeito pela liberdade de cada um.” (Correia, 1941: 238)
O olhar da autora de Sonetos Românticos sobre as mulheres americanas é crítico e mordaz. A viajante percebe em minúcias a estética, o trabalho, o casamento. É um relato de viagem que contém reflexos das experiências sobre o feminino que decorrerão em outras obras de Natália. Foi especialmente gerado antes da obra que lhe custara quase a liberdade a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica: dos cancioneiros
medievais à actualidade, 1966. Apesar do estado de censura em Portugal, é nítido, nestas crónicas de viagem aos Estados Unidos, que Natália Correia não se priva de escrever com liberdade e há vestígios de erotismo e da sensualidade ao descrever corpos femininos e masculinos nas suas observações pela cidade.
A autora percebe a mulher despolitizada e politizada, a mulher-solteira, a mulher-casada, a mulher-adolescente, a mulher-mãe-doméstica-profissional, a mulher- intelectual-artista. Como também os contrastes entre a mulher americana e a europeia, feitos através de diálogos polêmicos. As análises da escritora foram produzidas numa perspetiva feminina, porém, não feminista, como a própria escritora argumenta:“Não me interessa o feminismo como caricatura das qualidades femininas. […]. Eu defendo um regime feminista de cultura.” (Correia, 1982 apud Furlan, 2017:2)
Este “regime feminista de cultura” é percebido como a simbologia da mulher criadora, libertária, sensual, aquela que esta preocupada em se realizar como mulher desprendida dos valores e da figura patriarcal. Visto isso também na denominação Matrista criada pela escritora para refletir sobre a feminilidade:
Acho que não vale a pena a mulher libertar-se para imitar os padrões patristas que nos têm regido até hoje. Ou valerá a pena, no aspecto da realização pessoal, mas não é isso que vem modificar o mundo, que vem dar um novo rumo às sociedades, que vem revitalizar a vida. Ora bem, a mulher deve seguir as suas próprias tendências culturais, que estão intimamente ligadas ao paradigma da Grande Mãe, que é a grande reserva, a eterna reserva da Natureza, precisamente para os impor ao mundo ou pelo menos para os introduzir no ritmo das sociedades como uma saída indispensável para os graves problemas que temos e que foram criados pelas racionalidades masculinas. É no paradigma da Grande Mãe que vejo a fonte cultural da mulher; por isso lhe chamo matrismo e não feminismo. (Correia, 2004: 65 apud Furlan, 2017:3)
É neste sentido de feminilidade que Natália analisa a mulher do modo particular para o geral. Como exemplo particular a escritora argumenta:
88 Quem olhar persistentemente os olhos de Margaret Chase Smith, abstraindo das restantes irregularidades do seu rosto, convence-se de que está na frente da mulher mais sedutora do mundo. […] Veste-se com distinção […] Há nela um todo de menina amimada, uma impercetível volúpia de colher os frutos duma carreira ascensional, que promete desentranhar-se em mais frutos.” (Correia, 1951:241).
E de forma geral a autora comenta que: “A americana impõe a sua personalidade a golpes de atitudes viris. Em vez de a situar num clima diferente da órbita masculina, procura usurpar os sucessos do homem.” (Correia, 1951:298)
Além da posição política da autora, vista anteriormente, na obra Descobri que era
Europeia – Impressões duma viagem à América a escritora Natália Correia se direciona
ao conhecimento sobre “o que será a América”. Escreve passionalmente, como num diário, e também de forma jornalística, como na crónica literária, misturando fatos históricos com a sua opinião. Com a poesia surgindo em vários momentos em formato de micro textos ou em referências aos escritores em seus encontros. Também usa algumas palavras em inglês, marcando o estrangeirismo na língua portuguesa, que neste caso, sugere-se que Natália reforce, através da palavra, a presença na América e o estilo americano de nomear objetos e costumes.
O ponto vital da sua jornada é conhecer-se a si própria como a escritora afirma: