III. Kaynakların Değerlendirilmesi:
2.2. ÂLEMİN YARATILIŞI
2.2.7. Rüzgâr, Bulut ve Yağmurların Yaratılışı
A viagem de Ferreira de Castro ao Iraque-Mesopotâmia na década de quarenta foi difícil, emotiva e reveladora. O cronista teve vários contratempos para conhecer os pontos mais significativos das cidades, tanto com a burocracia quanto com a saúde. O Iraque se revelou hostil ao cronista e às vezes, gentil. Saltou das páginas da literatura de Mil e uma
Noites para mostrar a sua realidade. Ferreira de Castro inicia o contato com o Médio Oriente pela Síria, antes o autor contextualiza a história daquela época, e lembra que:
Quando da Primeira Grande Guerra, a Síria e a Palestina viviam sob o poderio otomano. Conquistadas, depois, pelos Aliados, a Inglaterra, finda a mundial contenda, tentou guardar só para si esses dois territórios. Em vista dos acordos feitos, a França considerou-se lesada. E desembarcou tropas em Beirute e travou combates sobre combates com os árabes do emir Faiçal, que os Ingleses inspiravam, até ocupar a Síria inteira. A Sociedade das Nações legalizou, mais tarde, com um mandato, a situação criada assim. Desde essa época, os Sírios lutam pela sua independência. Todos eles, porém, concordam em que, a terem de suportar jugo estrangeiro, é preferível o do Ocidente ao da Turquia. A lembrança, mui dolorosa ainda, das crueldades turcas, no tempo sultanato, justifica essa unanimidade. (Castro,1986:164,165,VM,vol.I)
Castro chega ao país de comboio vindo da Turquia, e observa que: “ É preciso sair da Turquia e entrar na Síria ou em outro país islâmico, para avaliar quanto o Ocidente representa na revolução turca. Modifica-se, imediatamente, o panorama humano.” (Castro,1986:163, VM, vol. I). No percurso pelo Médio Oriente, o escritor visitou os seguintes lugares: Alepo (Síria), Mossul (Iraque), Kuyunjik (Nínive), Kirkuk, Arbela, Erbil, Altun Kupri, Curdistão, Samarra, Bagdá, (Babilônia), (Ur), Baçora, Qurna.
Ferreira de Castro irá descortinar a arqueologia viva dentro e fora dos museus, a história antiga das cidades, os modos de vida de algumas etnias do Iraque. A paisagem desértica, a pobreza dos que vivem à margem da sociedade, os rituais fúnebres, indo além do pitoresco. Castro também teve a possibilidade de conhecer um acampamento de
83 Este título se refere ao título da crónica de Ferreira de Castro, pois o viajante narra sobre as civilizações
antigas, como também visita alguns lugares emblemáticos sobre a história antiga desses povos e viaja pela região da Mesopotâmia.
105 beduínos e escrever sobre seus costumes como um etnógrafo. Como também marcou a presença da Europa nos seus textos como influenciadora na economia e na política local, no trabalho com os emigrantes e na extração de petróleo.
O discurso de Castro é composto de várias imagens guardadas pelo escritor sobre o Oriente, numa forma dialógica que se fez através das referências bíblicas: “O próprio
Génesis atribuía ao Eufrates o privilégio de ser um dos quatro rios que atravessavam o Paraíso.” (Castro,1986:211,VM,vol. I); Das referências sobre a Antiguidade: “Vamos caminhando entre ruínas de um palácio hitita e de um palácio árabe, de admiráveis portas esculpidas que se mantêm de pé isoladamente, de salas onde luzem restos de sumptuosíssimas decorações […].” (Castro,1986:166,VM, vol. I). Da literatura e com os autores que escreveram sobre história do Oriente: “Lorde Byron, no drama que escreveu sobre Assurbanipal, fá-lo morrer, espectaculosamente, entre as chamas do seu palácio, ao que ele próprio teria lançado fogo.” (Castro,1986:182,VM, vol. I); nos contos: “ Baçora orgulha-se de ser pátria de Simbad, o Marítimo, que daqui teria partido para a sua viagem, conforme se lê nas Mil e Uma Noites.” (Castro,1986:232,VM, vol. I)
Todavia, é na representação do Oriente produzido pelas imagens dos contos literários que Castro tem maior descontentamento, pois encontra diferenças entre o que leu e a realidade que observou. Onde não encontra os espetáculos grandiosos descritos pelos autores. Quanto a isso o viajante comenta: “Jamais o real correspondeu menos ao imaginado. Bagdade das Mil e Uma Noites, centro de todas as maravilhas orientais, que deslumbra as imaginações infantis, não existe e em vão procuramos no burgo de hoje algo que recorde o seu passado.” (Castro, 1986:194, VM, vol. I)
As dificuldades encontradas pelo cronista no país que o comoveu, são inúmeras, desde o visto no passaporte, à paisagem desértica, ao clima, à violência praticada pelos nativos aos estrangeiros e o movimentar-se pela cidade. Porém, a que custou a vida do escritor, foi a febre, avisada pelos outros viajantes: “As febres que os nossos amigos turcos haviam previsto não deixaram de surgir.” (Castro,1986:172,VM,vol. I). E descreve em vários momentos em que viajou doente: “ Metemos o termómetro sob o braço: temos novamente febre. […] Nós ardíamos, num suplício enorme. […] Quando retomámos os sentidos, um árabe dava-nos uma injeção no braço esquerdo.” (Castro,1986:221,VM, vol. I)
Ferreira de Castro ao interpretar o Outro-nativo observa-o e descreve suas características e comportamentos. Usa a forma do discurso indireto e também escreve em
106 discurso direto alguns diálogos, como o do seu amigo Kehela que o informa sobre os perigos do país. Nas observações de Castro permanece o seu olhar humanista sobre a pobreza dos habitantes misturados com os animais, a sujeira e a exploração dos trabalhadores. Também descreve o árabe de uma forma geral, de acordo com às suas primeiras impressões, como estrangeiro-viajante e jornalista, que tenta a imparcialidade ao se abrir para o que vê sem preconceitos, mas que não esconde a realidade negativa. O escritor comenta com exemplos, em várias situações, que os habitantes são cobiçosos, gentis, hospitaleiros, violentos, persistentes, mas lembra que o Iraque é:
Terra de tribos nómadas e de outras famílias sem pão e sem instrução, as pessoas ilustradas do Iraque constituem pequeníssima minoria. Mas há, entre esta, poetas, professores e estudantes com curiosidade universalista e que amam interrogar-nos sobre Portugal. Do país distante eles sabem apenas o nome de Albuquerque e das suas pelejas no golfo Pérsico – e querem saber mais. (Castro, 1986:219,VM, vol. I)
O viajante tenta o contato com os habitantes e numa entrevista a um líder de um clã de beduínos, Castro percebe como é a personalidade de alguém com posicionamento político entre as etnias no Iraque.
O xeque fala sempre. Ele tem uma ilustração geral, pouco profunda a o que se sente, mas que chega para aflorar temas sem conta. Como quase todos os árabes habituados ao mando, adquire, frequentemente, um vago ar de mistério. Parece que nunca diz tudo quanto pensa e que está sempre a pensar numa coisa diferente daquela que diz. Parece que a sua fisionomia pode modificar-se com rapidez, tomando estes lábios grossos, de sorriso amável, e estes olhos indolentes uma súbita e terrível expressão colérica. (Castro, 1986:216, VM, vol. I)
O diálogo que Castro deixa expresso, são poucos, mas há uma referência que marca a relação fraterna entre Castro e um habitante do local. Quando este sente saudade das suas origens. O escritor relata:
O nosso mais recente amigo iraquiano, discreto propagandista de nova doutrina sobre a transmigração das almas, nascida nesse canteiro de religiões que tem sido a Pérsia, diz-nos:
— Quando, há pouco, estive em Istambul, sentia uma enorme saudade de tudo isto. Eu olhava, muitas vezes, o Bósforo e o Mármara, mas nenhum deles conseguia distrair-me da minha ânsia de voltar para aqui.
As palavras caem no silêncio. Deambulamos, os dois, à alpardinha, à beira do Tigre, em Bagdade. Olhamos as sórdidas águas do rio, as margens sujas, o velho casaredo da cidade a diluir-se na noite próxima, enquanto as palavras ouvidas continuam a ecoar no nosso cérebro. Durante um momento, chega aparecer-nos absurdo que haja alguém que
107 ame viver aqui. Mas não, mas não; para quem nasceu na Mesopotâmia, a terra brava, árida, calcinada, pode ser tão amável como, para nós, as verdes terras do Ocidente. (Castro,1986:221,VM, vol. I)
A paisagem fere o nativo que também é marcado com uma cicatriz, que Castro diz que: “ […] faz parte de todos os rostos iraquianos.” (Castro,1986:179,VM, vol. I). Também é vista no rosto do estrangeiro, caso este permaneça mais tempo no país tornar- se-á semelhante aos habitantes, como aponta o viajante que: “Nos dois primeiros anos, o estrangeiro escapa, geralmente, à sorte do nativo; mas se, por isto ou por aquilo, demora mais tempo no Iraque, receberá também a cicatriz inexorável.” (Castro,1986:180, VM, vol. I). Castro informa que esta cicatriz pode vir de “[…] um mosquito que se cria nas tamareiras, lá para o delta do Eufrates e do Tigre; afirmam outros que se trata de bacilo abdominal. Até hoje, a ciência não descobriu a causa exacta.” (Castro, 1986:179, VM, vol. I)
O escritor percebe a presença das misturas das culturas do Ocidente e do Oriente, no trabalho, nas ruas; com o sentido, às vezes de modernidade e às vezes como marca de poder sobre os nativos. Quanto a isso Castro comenta a mistura de costumes ao observar as mulheres numa caminhada nas ruas: “ Pode-se avaliar da graça do seu corpo somente pelos pés, cujos dedos, nos sapatos com janelas, se mostram envernizados, que nem os de parisiense em época estival.” (Castro, 1986:179, VM, vol. I). Sobre os homens, o escritor descreve: “Da população masculina, os que se julgam superiores, vestem à europeia […].” (Castro, 1986:179, VM, vol. I)
O cronista também percebe a presença da Europa na arquitetura da cidade de Alepo, comenta que: “ […] o bairro novo, em estilo colonial francês que os dominadores construíram. São três ou quatro ruas de edifícios claros, alegres e higiénicos, que contrastam, violentamente, com todos os demais”. (Castro,1986:165,VM, vol. I). E a presença da Europa nos nomes das ruas:
Saindo-se do Museu de Alepo, logo se entra na Rue de France —a principal artéria da cidade, onde estão os hotéis, os cafés e as casas de comércio no género das da Europa. É um ambiente colonial francês, os homens com chapéu de cortiça e as mulheres de Marselha com os dedos dos pés envernizados brilhando nos sapatos abertos à frente. (Castro, 1986:171, VM, vol. I)
108 Além disso, o viajante mostra a influência do Ocidente na extração do petróleo, explorado pela França e pela Inglaterra, sendo os países beneficiários dessa riqueza em detrimento dos habitantes. Na visita a Kirkut, o cronista comenta que:
Visitamos os poços e as refinações. Milhares de pobres árabes e curdos trabalham aqui, sujos e mal pagos, no país em que a mão-de-obra não tem valor algum. Visitamos, também, a parte inicial do pipe-line. É a maior epopeia do esforço humano, na sua luta pelo petróleo. […] A França queria, para os seus vinte e três por cento de petróleo, um tubo especial, que fosse ter à Síria, sob o seu domínio, enquanto os Ingleses, pela mesma razão de soberania na terra que o cano atravessasse, batiam-se por um porto da Palestina. Assim, o pipe-line, bifurcado a certa altura do seu trajecto, passaria a ter mil e oitocentos e quarenta e cinco quilómetros de extensão. Apesar disso, decidiu-se realizar a obra. (Castro,1986:191,VM,vol. I).
Ferreira de Castro evoca o passado da Humanidade no sentido de que não há divisões quando se pensa que a civilização Ocidental nasceu a partir das civilizações do Oriente, nas ideias, na religião, na ciência. O autor declara sobre isso que:
Foi nesta terra dramática, torturada, que se gerou a nossa própria civilização. Aqui, o Homem criou alguns dos primeiros deuses, aqui ele exteriorizou algumas das suas primeiras inquietações ante o mistério da vida que o cercava, aqui ele deixou, com o seu espírito, alguns dos primeiros trabalhos de arte de que nos orgulhamos. […] Olhando-a, assim, bravia, assim inóspita, quem não conhecer a sua história e, sobretudo, as descobertas arqueológicas feitas nos últimos anos, dificilmente acreditará que ela tenho podido servir outrora, tão agreste como é hoje, a ninho de civilizações e a lar de tantos e tão variados povos. A Mesopotâmia demonstra bem que o drama da existência humana é tanto maior quanto mais nos aproximamos da sua origem. (Castro, 1986:176, VM, vol. I)
Ferreira de Castro termina a crónica com enfoque em Portugal, demonstrando nostalgia, com isso marca a sua posição de viajante-europeu-português que irá se preocupar com as impressões deixadas pelo seu país naquela parte do globo. O autor relata que: “Estamos, finalmente, no golfo Pérsico, o das lendas sem conta e o dos episódios navais, por onde os Portugueses andaram em épicas pelejas.” (Castro, 1986:234, VM, vol. I). E evoca Camões, “ Barém queda cerca do litoral arábico, e já Camões a ela se referia nos Lusíadas, no tempo em que somente a conheciam pelas pérolas das suas ostras.” (Castro,1986:235,VM, vol. I)
Portanto, Castro descreve o Iraque-Mesopotâmia com seu olhar humanista e fraterno, evocando dessa região o passado das civilizações, utilizando-o em comparação
109 com a atualidade. A realidade transborda de momentos positivos e negativos, nada escapa à crítica. O autor cria na crónica um itinerário “arriscado” para os viajantes. Com isso Castro demonstra que foi além da “linha do horizonte”, ou seja, dos seus limites, como o de enfrentar doenças e a violência praticada aos estrangeiros no deserto. A fim de retratar o Médio Oriente, diferentemente da ilusão que mantinha dos contos literários que conhecia.
O escritor sente a influência da Europa no país, nas marcas deixadas pelo colonialismo e pelas guerras, na exploração do petróleo, e nas escavações arqueológicas, assim como na arquitetura moderna da cidade. A identificação com os habitantes é realista e empática. As misturas das culturas são vistas por Castro quando encontra habitantes do Iraque influenciados pela Europa com seus modos de se vestirem. Também retrata as fronteiras móveis, a Europa presente no passado do Médio Oriente culturalmente e como beneficiária das riquezas.
4.1.2. Palestina
“Na Palestina, o principal não é o que está; o principal é o que cada um traz dentro de si próprio.” (Castro, 1986:112, PMVC, vol. II). Castro visitara a região da Palestina, nos finais da década de trinta. A crónica está na sua primeira publicação de viagem,
Pequenos Mundos e Velhas Civilizações. Neste relato o autor irá refletir sobre os aspetos das cidades, as sensações que as paisagens imprimiram no viajante, os monumentos que fazem parte da história das religiões: cristã, judaica e muçulmana. Como também o conflito entre os judeus e os árabes, a presença da Europa nas cidades se misturando com a cultura do local.
A crónica é baseada em descrições da realidade que o viajante experimenta, mas num sentido pleno de sensações: a solidão, o silêncio, a amplidão. Dando-lhe um caráter narrativo afetuoso e valorizando a forma de como essas experiências são contadas se aproximando da envolvência das narrativas orais, como explica Walter Benjamin,
A experiência que passa de pessoa a pessoa é a fonte a que recorreram todos os narradores. E, entre as narrativas escritas, as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais [...] "Quem viaja tem muito que contar", diz o povo, e com isso imagina o narrador como alguém que vem de longe [...]. (Benjamin, 1936:198)
110 A narrativa feita de sensações não perde a qualidade informativa, visto que o autor, na estrutura do seu modo de relatar, dá prioridade a imagem que irá não só mostrar a Jerusalém rica dos monumentos e da história, mas como as minorias são tratadas relacionando-as à dureza da paisagem local. O autor transmite na sua escrita os contrastes da cidade, e como jornalista tece críticas às formas como são tratados os pobres. Castro aponta que em:
Naplusa e as demais povoações da Palestina, grandes ou pequenas, parecem chamuscadas, parecem saídas de uma enorme labareda. O barro e o tijolo das suas paredes dão-nos a sensação de sofrerem de sede, uma sede de há muitos séculos. Algumas destas casas encontram-se semidesmoronadas, seja nos ângulos, seja em cima, na beiceira das açoteias. Isso não indica, porém, que estejam sem habitantes: dentro delas formigam, promiscuamente, famílias de numerosa prole. (Castro,1986:101, PMVC, vol. II)
Castro não visita a cidade como peregrino, mas notou a dificuldade que existe para conhecer os pontos mais significativos daquela região. O escritor comenta que: “Os lugares célebres não se topam, todavia, com facilidade, na maranha de remotas e tortuosas ruelas. Temos de procurá-los pacientemente ou de chamar em nosso auxílio quem sirva de bússola no dédalo imenso, nesta vetusta cidade de complicado trânsito.” (Castro, 1986: 105,PMVC, vol. II).
O viajante interpreta o Outro-nativo de forma generalizada. Nesta viagem não há relato de contato direto com o nativo, apenas observações distantes. O viajante comenta que:
[…] as gentes, cá fora, falam , gesticulam muito, altercam entre si, num rumor infindável; dentro, porém dos pequenos estabelecimentos há sempre figuras de árabes, esboçadas na obscuridade, que se mantêm em completa quietude, pensativas, abstractas, os olhos com a neblina da distância, o corpo presente e o espírito ausente. A alma muçulmana, feita destes contrastes bruscos, dá ao pitoresco das ruas de Jerusalém alguma coisa que está por cima do pitoresco, do ruído e da ânsia de quitar proveito do estrangeiro; algo de melancólica espiritualidade, de leve sombra que se estende, indolentemente, sobre o sol que dorme nas vetustas pedras. (Castro, 1986: 103 e104, PMVC, vol. II)
As marcas da Europa estão na parte moderna da cidade e se misturam com a cultura do Médio Oriente, no sentido da saída do velho para a entrada do novo, mas com
111 as características da cultura árabe. Essas impressões da Europa são percebidas pelo cronista como benéficas para alguns, menos para os que tem “carência de pão”, assim como o autor tem assinalado em vários textos sobre esse tema. Castro anota que:
Fora das muralhas estende-se outra cidade, cidade ocre, menos escura do que esta, que os tijolos das suas paredes foram postos uns sobre os outros há poucos anos ainda. É a cidade moderna, dos luxuosos hotéis, das avenidas largas e asfaltadas, das vivendas particulares e cercadas de jardins; a cidade europeizada, que segue, em faixa estreita, desde a porta de Jafa até a estação do caminho-de-ferro e se prolonga pela estrada de Betlém. (Castro, 1986:104, PMVC, vol. II)
Ao entrarmos em Telavive temos a ilusão de que regressamos a uma cidade da Europa, mesmo mais limpa do que as da Europa. Este novo aglomerado humano, com os seus hospitais, a sua universidade, distingue-se de todos os outros da Palestina pelo seu carater não asiático, pelo seu comércio, sua indústria, pela higiene das habitações, pelo traçado das ruas, por tudo. (Castro, 1986:115, PMVC, vol. II)
E certo ter a Inglaterra, durante o seu domínio, aberto aqui excelentes estradas, difundido a iluminação eléctrica e realizado outros melhoramentos. Nenhum deles, porém, resolveu a carência de pão e de bem-estar com que vive o nativo. (Castro, 1986:114, PMVC, vol. II)
Castro marca na crónica a sua posição de viajante português ao procurar impressões sobre seu país. Encontra-as no Mausoléu onde mostram vários símbolos do cristianismo, o escritor comenta sobre isso: “Perto, vêem-se altares cheios de preciosidades, que reverberam à luz dos círios. Num deles, encontra-se uma Mater
Dolorosa, oferecida, no século XVI, por D. Manuel I, de Portugal.” (Castro, 1986:106,
PMVC, vol. II).
Ferreira de Castro descreve o contexto histórico da luta entre os judeus e os árabes, logo após o retorno daqueles à Palestina. Mostrando que o autor nunca fica alheio aos problemas da sua atualidade e as grandes crises humanitárias, que persistiram até a nossa atualidade. O cronista, através do seu olhar fraterno, tenta compreender as diferenças entre os dois grupos e escreve de forma imparcial que:
Os Judeus acusam os Árabes de indolentes e de terem feito, durante um ror de séculos, uma vida quase primitiva, ao passo que eles, em poucos anos, tornaram prósperos os terrenos que lhes foram entregue, com vantagens para indígenas e alienígenas. Os Árabes afirmam que os Judeus desenvolvem a riqueza colectiva apenas em seu benefício, muitas vezes com prejuízo da restante população. E que não foi só o trabalho de uns e a indolência de outros que estabeleceu a desigualdade existente. Que foi também o capital e a preparação cultural de que dispunham os primeiros e faltavam aos segundos, faltas de que não são responsáveis, pois a culpa devia atribuir-se aos vários dominadores da Palestina, que mantiveram sempre o povo em ignorância e miséria. Se ouvirmos uns e
112 outros de alma aberta e espírito compreensivo, verificamos, facilmente, que ambos têm razão. O drama da Palestina reside justamente no facto de a razão não estar de um só lado. (Castro:1986:116, PMVC, vol. II)
O escritor termina a crónica com uma mensagem positiva de paz entre os dois grupos na Palestina ao dizer que “ A paz que se assina nos papéis só tem valor quando é assinada também nas almas.” (Castro, 1986:116,117, PMVC, vol. II)
4.1.3. Egito
“No Egipto perde-se a noção de antiguidade.” (Castro, 1986:74, PMVC, vol. II). A viagem de Ferreira de Castro ao Egito, que o autor chama de viagem “[…] ao país de