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4. ARITMA ÇAMURLARININ KOMPOSTLAġTIRILMASI

4.3 KompostlaĢtırmaya Etki Eden Parametreler

4.3.1 Su Muhtevası

Entre as afinidades dos percursos de recepção e significação dos quatro escritores, há um aspecto comum que consiste na evocação, por parte dos críticos, de elementos biográficos, anedotas e curiosidades para a composição de resenhas e estudos das obras. Nesse sentido, o trânsito dos quatro autores no campo literário e a difusão de suas obras contaram, em maior ou menor grau, com a presença de observações a respeito de eventos biográficos que, supostamente, teriam sido determinantes para a

construção dessas obras “sem par”. Tal relevância biográfica, por sua vez, parece

permanecer por um tempo como condição de legibilidade das obras. Talvez pela especificidade pouco ortodoxa de suas obras e pelo reforço das anedotas – que circulam sem deixarem de ser incrementadas –, os nomes de Macedonio, Felisberto, Emar e Palacio transitaram no campo literário envoltos em certa atmosfera peculiar e de estranheza. Pode-se pensar, pois, o conjunto de seus nomes como a evocação de um elenco de personagens excêntricos em relação a seus respectivos meios intelectuais e artísticos.346

Assim, seja o inadvertido relacionamento amoroso do anticomunista com uma espiã russa; uma queda, na infância, cuja decorrente fratura craniana teria deixado entrarem os ares da inspiração e o domínio das palavras; a insanidade da sífilis no fim da vida; o isolamento em uma propriedade rural, após uma vida de fartura e longas estadias na Europa, dignas do descendente de um proprietário de importante jornal, entre outras variadas informações biográficas mais ou menos precisas, as anedotas a

346Corrobora essa possibilidade o fato de que coletâneas de textos de ou sobre “atípicos”, “marginais”,

“loucos” na literatura latino-americana geralmente contem com considerações a respeito de alguns

respeito de Felisberto Hernández, Juan Emar e Pablo Palacio funcionaram, em alguma medida, como lentes de leitura de seus textos e como signos que acompanharam seus nomes enquanto figuras do meio artístico. As biografias – não como gênero textual, mas como uma dimensão de significação presente na fortuna crítica desses escritores –, tenham elas sido mais ou menos fiáveis, cumpriram papel determinante na circulação de seus nomes e nas entradas de leitura aos que se aventaram em suas produções literárias.

No sentido de evidenciar esse papel, trata-se, a seguir, do caso específico de Macedonio Fernández, cuja coleção de anedotas em torno de seu nome chegou a contar com maior difusão do que seus textos propriamente. O fato de ter sido respeitado e admirado por Jorge Luis Borges é dos mais alimentados e reiterados até hoje, funcionando ainda como estratégia editorial. Some-se a isso a informação de que tivesse costumes estranhos, como o de guardar guloseimas em uma maleta embaixo da cama, de onde as tirava para oferecer às eventuais visitas; que fosse hipocondríaco e desenvolvesse uma estranha e própria terapêutica; que deixasse seus escritos para trás, esquecidos em cada pensão da qual se mudava por razões financeiras, enfim, uma coletânea volumosa de informações a respeito do escritor participou na construção de uma imagem peculiar, assegurada pelos hábitos reclusos. Como ocorre com os outros três escritores, esse corpus anedótico que envolve a figura de Macedonio cumpriu função determinante no trânsito de seu nome, funcionando decisivamente como mecanismo de interpretação de sua obra por uma parte da crítica.

Essa atmosfera anedótica que se desenvolve em torno de Macedonio é observada, não obstante, como um fator que não colaboraria para maior compreensão de seus textos e suas ideias propriamente.347 De fato, ela terminou por implicar determinações na construção da imagem de um escritor solitário e um pouco desvairado, que não teria dado a devida importância ao extenso volume que escrevia. Por um lado, tal imagem acompanha certa bagagem que se consolida e se difunde na recepção dos textos do escritor e, por outro, ela pode ser legitimamente questionada a partir de seu histórico de publicações e da leitura de seus textos mais teóricos.

347 A título de exemplo, vale mencionar os nomes de Juan Natalicio González e Ezequiel Martínez Estrada como intelectuais que formulam essa crítica de maneira bem fundamentada. Contudo, nem um nem outro se debruçaram especificamente sobre a obra de Macedonio, o que não deslegitima a observação que fazem a fim de apontar para o caminho da leitura dos próprios textos como prioritária para uma aproximação das concepções fundamentais do autor. Ambos explicitam a opinião de que a figura de Macedonio tenha sido consolidada a partir da imagem de louco, de humorista ou delirante por falta de leituras mais estreitas e rigorosas que encontrassem os termos mais valiosos de seus

A despeito do surgimento dessa névoa anedótica, muitas vezes assistemática, em torno da figura de Macedonio, desde o final dos anos 1930 estava sendo preparado o texto considerado como sua primeira biografia. Menos anedótico, mais analítico e pautado na correspondência trocada com o escritor argentino, Ramón Gómez de la Serna escreve sobre Macedonio Fernández um texto biográfico que será publicado nos anos 1940, com a reedição de Papeles de Recienvenido. Entre outras coisas, é nele que Gómez de la Serna apresenta a consideração, posteriormente reverberada pela crítica, de

que Macedonio tenha sido um “ingenio porteño” que encarnaria o ritmo criollo em seus

textos, inaugurando uma estética própria da literatura argentina. Macedonio, por sua vez, incorpora essa biografia em sua produção literária.

Por vários momentos, seja do romance Museo de la Novela de la Eterna, seja dos textos humorísticos ou teóricos, Macedonio introduz considerações sobre a dinâmica das políticas do campo artístico e literário, sobre o papel da crítica e da imprensa na circulação e reputação dos escritores e obras. Não raro, essa dinâmica é introduzida no movimento autorreflexivo que dá o tom à maior parte de seus textos. Nesse sentido é que, por exemplo, explicita a consideração de que a crítica exerce papel

fundamental na consagração do escritor: “sin críticas, pues, tanto vale el buen zurcido y la no lectura sumados, quedaré intacto de fama”.348

O trabalho de costura dos elementos do romance, que no caso do Museo envolve também o esforço de teorização, é inútil se não conta com leitores e, simultaneamente, a crítica é considerada como operação vital para manter a existência do texto como obra palpável, para que deixe de ser intacto.

Com essa, entre outras abordagens dos mecanismos do campo literário, e com desejo declarado de constante ficção e fantasia – que anuncia como norte do gesto criativo –, Macedonio desnaturaliza as políticas desse campo ao abordá-las de maneira direta e, constantemente, a partir de um olhar de estranhamento que desemboca no questionamento de seus mais elementares mecanismos:

... la posteridad [...] ya está, para cada obra, en la última edición periodística del día de aparición. Todos morimos ya juzgados por ella, libro y autor, hechos clásicos o enterrados en el día, mientras todavía nos estábamos recomendando a la posteridad quejosos del presente. Y todo eso se hace con bastante justicia hoy en 24 horas.349

O movimento de incluir as dinâmicas do campo literário no corpo da ficção – e

mesmo em suas teorizações – funciona em Macedonio como estratégia para

348

FERNÁNDEZ. Museo de la Novela de la Eterna. Ed. Crítica/Colección Archivos, p. 9. 349 FERNÁNDEZ. Museo de la Novela de la Eterna. Ed. Crítica/Colección Archivos, p. 44.

deslegitimá-las ou colocá-las em questão. E, nesse processo, as anedotas, biografias e autobiografias servem como eixos de articulação entre a dinâmica da crítica e a significação do texto. São gêneros mais ou menos precisos que constroem a imagem do escritor como um dos personagens da trama maior na qual se apresentam também os textos e suas possibilidades de difusão.

... con la velocidad alcanzada hoy por la posteridad el artista le sobrevive y al día siguiente sabe si debe o no escribir mejor o si ya lo ha hecho tan bien que debe contenerse en la perfección de escribir. O si ya no le queda más carrera literaria que la más difícil, la del lector. La facilidad actual de escribir hace la escasez de lo leíble y hasta ha suprimido la injuriosa necesidad de que haya lectores: se escribe por fruición de arte y a lo sumo para conocer la opinión de la crítica.350

Ciente do potencial de significação desse tipo de texto no meio intelectual e artístico, Macedonio convida a biografia feita por Gómez de la Serna para integrar a ficcionalidade de seus textos literários, derrogando, assim, o limite entre os gêneros. Comenta essa biografia em um artigo autobiográfico que, como seus demais textos autobiográficos, mais esconde do que apresenta informações objetivas a seu respeito.

No caso desta “Biografia de mi retrato em Papeles de Recienvenido”, o escritor se

ocupa de indicar como o texto escrito pelo amigo espanhol o teria escondido ainda mais:

Cuando miré aquél retrato largamente y fui convencido de que aquella cara tan decidida, perfilada y alegrona era la mía, tuve el acierto de hacer publicar en los diarios una circular previniendo que yo no era el que se había sacado la lotería en la jugada de esa semana, porque comprendí sensatamente que mi

retrato de “Papeles de Recienvenido” – y ese retrato es lo único que se ha

leído – era la cara del “hombre de la lotería recién sacada”. [...]

Después de ese exitoso retrato he trabajado quince años en parecérmele, que tal es la dificultad.

[...]

Así como tan lozana imagen de una fisionomía otra me constriñó al plan de mostrarme lo menos posible en persona para que siguiera vigente y aprovechado al sumo el retrato, así debí luego recluirme del todo para que no se me conociera el carácter luego de unas páginas del Poeta Máximo que es a mi juicio Ramón Gómez de la Serna favoreciéndome con un elogio grandísimo de mi carácter e inteligencia.

A aquella fotografía y esta biografía se debe mi constante estar a domicilio.351

350

FERNÁNDEZ. Museo de la Novela de la Eterna. Ed. Crítica/Colección Archivos, p. 44. 351 FERNÁNDEZ. Papeles de Recienvenido y Continuación de la Nada, 1981, p. 88.

Com essa dinâmica entre as modalidades textuais da biografia, autobiografia e ficção, é estabelecido o jogo de mostrar e esconder que desafia a formulação de uma imagem firme do escritor. Biografia e autobiografia são trazidas para a dimensão fictícia e suas relações com o sujeito biografado são postas em xeque por ele mesmo. Nesse jogo, é sublinhada a natureza textual dos relatos biográficos, assim como a ficcionalidade da figura do autor. O autor é parte da ficção na medida em que é construído pelas narrativas que o descrevem e que os meandros dessa construção são denunciados.

O gesto autocrítico de declarar-se constantemente uma construção narrativa que caracteriza o Museo de la Novela de la Eterna marca, também, as autobiografias de Macedonio. Nesse sentido, em texto escrito para La Gaceta del Sur em 1928, seu nascimento é ironicamente apresentado como um fato literário na medida em que passa a ser componente da autobiografia:

Nací, otros lo habrán efectuado también, pero en sus detalles es proeza. Lo tenía olvidado, pero lo sigo aprovechando a este hecho sin examinarlo, pues no le hallaba influencia más que sobre la edad. Mas las oportunidades que ahora suelen ofrecerse de presentar mi biografía (en la forma más embustera de arte que se conoce, como autobiografía, sólo las Historias son más adulteradas) háceme advertir lo injusto que he sido con un hecho tan literario como resulta la natividad.352

Concebida como embuste, a estratégia de Macedonio é armar uma autobiografia que denuncia sua própria máscara. No mesmo texto, Macedonio anuncia-se como autor:

“Como no hallo nada sobresaliente que contar de mi vida, no me queda más que eso de

los nacimientos, pues ahora me ocurre otro: comienzo a ser autor. De la Abogacía me he

mudado; estoy recién entrado a la Literatura”.353

A entrada na literatura é apresentada como outro evento literário, e a autoria, como a biografia e a autobiografia, é lançada por Macedonio à dimensão da construção textual, do manejo da linguagem que desestrutura suas relações ordinárias de sentido e representação.