4. ARITMA ÇAMURLARININ KOMPOSTLAġTIRILMASI
4.5 Arıtma Çamurlarının KompostlaĢtırılması Ġle Ġlgili Literatür ÇalıĢmaları
Para além dos textos declaradamente autobiográficos que compõem a coleção
chamada “A fotografiarse” de Papeles de Recienvenido nos quais se funda o
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FERNÁNDEZ. Papeles de Recienvenido y Continuación de la Nada, 1981, p. 83. 353 FERNÁNDEZ. Papeles de Recienvenido y Continuación de la Nada, 1981, p. 84.
questionamento da figura do autor como constructo, a figura aparece também no Museo
de la Novela de la Eterna. Em uma dimensão, tem-se o personagem Presidente que
palpita sobre o encaminhamento do romance e o outro, Quizágenio, que narra um segundo romance no correr do Museo. O primeiro, Presidente, ente integralmente de fantasia, participa – ainda que fantasiosamente – das decisões que cabem ao autor na construção do romance, seu encaminhamento e forma. Com isso, estende uma ponte que aproxima o autor da estrutura da ficção. O segundo, Quizágenio, é descrito pelo narrador como outro narrador. Assim, se, no romance, a figura do narrador, ainda que a narrativa aconteça em primeira pessoa não coincide com a do autor, nesse caso, o narrador é duplicado e narra um segundo narrador.354 Esse jogo com os componentes da narrativa, que embaralha as funções de escritor, personagem e narrador, sinaliza a imprecisão desses papéis e coloca em questão o tema da autoria. Da mesma forma, o jogo de ficcionalização das autobiografias e o questionamento da legitimidade do gênero autobiográfico a partir da própria forma esboçam uma figura de escritor cujos limites, indefinidos, escapam de qualquer modelo crítico de canonização tradicional. Numa outra dimensão, pode-se dizer que o Museo promove a emergência do autor como parte da ficção na medida em que ele é dotado de voz, como personagem, para dialogar e negociar com os demais personagens.
Vale notar que ocorre algo parecido em Niebla, de Miguel de Unamuno, romance que conta com um capítulo no qual o protagonista vai atrás do autor em Zaragoza para negociar seu destino, e ambos dialogam. Entretanto, a particularidade do
Museo de la Novela de la Eterna é que a voz do autor percebida pelos personagens é
salpicada no romance: não aparece em um capítulo específico, mas está presente em uma variedade de momentos e situações. Além disso, enquanto em Niebla o autor assume uma posição de autoridade no diálogo e, ao fim e ao cabo, é quem determina a sorte do protagonista, no Museo não é evidenciada uma hierarquia clara entre autor e personagens. Esses parecem ser mais interdependentes na medida em que, para cumprir
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A organização que permite, por exemplo, a Michel Butor fazer uma consideração dos significados e usos dos pronomes pessoais dentro de cada gênero, é desfeita nos textos de Macedonio. A esse respeito, Butor coloca que: «Dans les chroniques, les autobiographies, les récits de tous les jours,
celui dont on raconte l’histoire est identique à celui qui la raconte; dans les èloges, les discours de réception à l’Academie française, ou les réquisitoires, celui à qui l’on parle avant tout est aussi celui
dont on parle; mais, dans le roman, il ne peut y avoir une identité littérale, puisque celui dont on parle,
n’ayant point d’existence réelle, est nécessairement un tiers par rapport à ces deux êtres de chair et d’os qui communiquent par son moyen» (BUTOR. Essais sur le roman, p. 74). Macedonio, por sua
vez, subverte esses usos, coloca em questão os pronomes e seus referentes quando joga com imagens fluidas de autor, escritor, personagem e seus respectivos desígnios.
o plano de escrever um romance, o personagem autor necessita de personagens outros e, com isso, assume um tom gentil e solícito ao se dirigir a eles.
O autor do Museo chega a ser tema de conversa entre os personagens e, de ser de carne e osso que se esquiva de suas biografias e autobiografias, uma imagem do autor passa a inscrever-se na folha do romance e a articular-se como personagem aos mecanismos de sua proposta literária. Esse autor personagem mostra-se confuso, chega a duvidar de sua existência extratextual e questiona sua materialidade para além das palavras nas quais o romance se constrói.
Como proposta de uma nova estética, o “primeiro romance bom” objetiva
conquistar o leitor. Tal conquista se daria nessa mesma confusão, na aparente dúvida de uma existência real, para além do romance que o encanta como leitor e o convida a compor o elenco de personagens. Assim apresenta-se, portanto, um dos alicerces da estética proposta: realizar uma investida, intelectual, que faça derrapar corpo e intelecto seja do leitor, seja do autor, na medida em que são esses os dois seres dotados de ambos
– corpo e mente – entre os quais o romance se realiza.
Uma outra aproximação desta natureza, referente à dinâmica do texto que envolve autor, personagens e, neste caso, leitor, seria com Pirandello, que realiza a introdução do leitor de maneira que participe do corpo narrativo do romance. Conforme aponta Enrico Testa, a introdução da voz do leitor no texto Um, nenhum, cem mil de
Luigi Pirandello seria “a grande invenção do maior texto pirandelliano, o ponto extremo
de seu experimentalismo formal”.355 Da mesma forma, no Museo de la Novela de la
Eterna, lê-se a voz do leitor, ou melhor, dos leitores. Eles dialogam com o autor e com
os personagens, participam de discussões a respeito da natureza dos personagens e consolam Dulce Persona quando se sente angustiada.356
Essa derrapagem entre o corpo físico e as ideias sugere a coexistência dessas duas dimensões como determinações da identidade dos sujeitos. Uma identidade, no
355 TESTA. Um, nenhum, cem mil. Luigi Pirandello (1925-26), p. 976.
356 Um exemplo de entrada do leitor, em Macedonio, dá-se no Capítulo X do Museo de la Novela de la
Eterna, no qual participa do diálogo entre autor e personagens a respeito de que estes sejam seres de
vida ou de fantasia. Quizágenio, apaixonado por Dulce Persona, quer entrar na “vida”, possuir uma
existência para poder compartilhá-la com sua amada. Os dois personagens conversam sobre as
vantagens e desvantagens de “existir” até o momento em que intervém o autor: “_Me están
incomodando. ¿Qué cosquillas son ésas de ser que los hacen sufrir? Quién hubiera pensado que personajes míos – no le ha sucedido a ningún autor; muchos consiguieron personajes contentos como Hamlet, Segismundo, inclinados al no ser – por el contrario me consternarán con estos antojos.” Aí
então entra o leitor: “_ ¡Qué trastorno, dónde los leeré si salen a la vida! Que dejen su dirección...” E, mais adiante do diálogo, o leitor continua: “Me apenan los personajes. Pero yo existo. ¿Hay algún otro capítulo de ganas de vivir? Si es así no leo más; no hay otro espectáculo tan incómodo”
entanto, que vacila quando há um descompasso de ritmo entre o corpo e as ideias, entre o concreto e o intelectual. É em provocar o vacilar que Macedonio aposta como a função primordial da literatura e da estética que pretende inaugurar com o Museo. No interior desse Museo, autor e leitor são seduzidos a tornarem-se ideias e, assim, mergulharem integralmente na dimensão do intelecto, ainda que por alguns instantes. Nesses instantes, de acordo com Macedonio, experimentariam o sentimento de imortalidade, o que ocorreria uma vez que a morte é concebida como o perecer do corpo físico e material, ao passo que as ideias, por mais que se transformem com o tempo, não seriam corroídas por ele.
Assim, é viável pensar nas atividades de leitura e escrita como práticas que instauram o descompasso capaz de fazer vacilar as certezas da identidade. Entre outras coisas, a leitura e a escrita promovem o movimento das ideias, a agitação dos pensamentos que acompanham a exposição de um raciocínio, um enredo de romance, ou que orbitam as margens do texto, emprestando elementos para a formação de outras ideias. Concomitantemente a essa hiperatividade da dimensão intelectual, o corpo físico, material e palpável aproxima-se da imobilidade característica das posturas de leitura e escrita para as quais se é formalmente educado no Ocidente.357 Essa diferença de ritmos entre corpo e mente que parece dissociá-los é tomada ao mesmo tempo como função e tema literários. No caso do Museo de Macedonio Fernández, essa disritmia é esperada como arauto da imortalidade. Em outros casos, é motivo de angústia, prenúncio de alucinação e, igualmente, disparador da escrita.