“Eu vou assim E venho assim Eu vou assim E venho assim Porque quem invade não Não chega não Chega não porque pera aí Sou mesmo assim Sou mesmo assim Sou mesmo assim Assim Um dia assim Um dia assado Um dia assim No duro tinindo tinindo trincando” (Novos Baianos) Feitas as analises sobre os planos de imanência e coordenadas trazemos para o plano de composição os abalos que irromperam dos corpos dos integrantes dos Dzi Croquettes e que nos inclinaram a um profundo deleite de sua arte. Pretendemos para isso estarmos excitados por esta volúpia que consome o corpo quando ele se choca com a potente força croquette. Todas as cores que brotam no horizonte do palco, as vozes finas que rompem com os ouvidos, a sensualidade que se extravasa da carne, a maquiagem que engrandece a expressão, o movimento que carrega consigo a intenção, a música que se liberta da garganta, e outros infindáveis aspectos que rodeavam o trabalho artístico dos Dzi Croquettes, carregavam junto a si um rebuliço de sensações que roçavam os artistas e os punham a criar.
Esta potencia criativa que aflora do artista é despertada por sua ânsia com a vida presente em sua entrega pela arte, as sensações tecem um tênue dialogo com o corpo ao passo que sua expressão perante o mundo seja norteada por seus desejos. Eis ai a embriagues a qual a arte provoca, o artista “bêbado” carrega em seu corpo sensações que cadenciam seus passos e tropeços no palco da vida. Mergulhando nesta embriagues com a arte a qual os Dzi Croquetes estavam dopados, bebendo deste licor que avermelha as bochechas dos deuses, que preenche as lacunas da carne e que alucina o homem em sua criação, o sujeito
saboreia o fim de sua sobriedade, as luzes se apagam e a vida tem a sua disposição os festejos do corpo.
A embriagues abala as montanhas dos instintos, delas se desprendem imensas pedras que rolam corpo a abaixo e desencadeiam uma avalanche de sensações. Neste arrasto o corpo rompe com seus cadeados, decola livre para o encontro com o mundo, a vida que ele experimenta em seu desbunde com a arte alimenta seus desejos mais famintos, as sensações se apossam do corpo e delineiam um processo de composição a qual o artista transfigura suas sensações nas experimentações que o mundo lhe oferece.
No árduo trabalho, em que o artista se refaz na tentativa de exprimir junto a sua expressão as efervescências de suas sensações, o “aqui e o agora” se tornam o retoque final para a obra artística. A assinatura do corpo impressa na composição afasta dele os modelos de uma arte que o aprisionaria, a imanência rompe com a dicotomia do tempo e espaço, o artista, sua obra e seu corpo estão juntos condensados a uma explosão que se faz no dado momento em que a criação soluça os devires presente no choque do artista com o mundo, e com o outro.
A alteridade presente no encontro do sujeito com o mundo, e com o outro, trás para o corpo abalos que preenchem as entranhas com sensações que florescem no fértil solo dos sentidos. Acumula-se no sujeito uma potente energia, a vibração e a expansão desta força dialoga diretamente com as inquietações do corpo, o movimento se faz presente ao modo que seu estribuchamento é amamentado pelas sensações. Distante de uma paralisia, o campo dos sentidos trás para o sujeito a sede pela criação, suas sensações borbulham pelo corpo e se derramam quando o individuo se inclina para a vida.
Neste passo em direção a dor e ao êxtase o homem em sua relação com o mundo sente no corpo as pesadas sensações de um mundo aparente, a representação que suaviza o risco do encontro golpeia fortemente as entranhas desse sujeito, ele se dá conta do quão ceifador este modelo é para seu movimento, o quanto inerte se torna o homem decadente ao se fixar na representação como símbolo da aurora da vida. A dinâmica repressiva alfineta o liberto homem, as tentativas de pará-lo são como ventos que favorecem sua decolagem para uma multiplicidade que se abre no instante em que a representação se distancia dando espaço a um intempestivo movimento cheio de vida.
O homem caminhando livre em sua relação com o mundo deixa rastros de um afrodisíaco perfume que convida o outro (humano) para o choque. Este sujeito que fixou o peso da vida em suas costas trás consigo os anseios do corpo, possibilitando que na aproximação de corpos irrompa do encontro uma potente energia, que sela os corpos em um processo “uno” de composição. O roçar da carne faz escorrer um prazeroso suor que se materializa nesta orgia onde os corpos colocam seus desejos sobre o lençol da cama. O intensivo floresce na relação saudando através de um potente orgasmo o novo corpo que se forma no instante em que ambos entrelaçam suas vontades e lançam seus desejos para as torrentes da vida. Discorrido sobre os processos que golpeiam o artista e ocasionam ao corpo uma ânsia pela composição, vamos agora mapear o momento em que se situou a forte energia croquette e os movimentos que desencadearam nos dzis a liberação de suas inquietações e o enfrentamento desta paralisia do sujeito.
A ditadura que se instaurara no Brasil desde 1964 tivera sua espada bastante afiada após assinatura, por parte dos militares, do ato inconstitucional 5. O “AI 5” mergulhou o pais em uma imensa onda de censura, toda obra artística era antes avaliada por uma comissão de censura. Foram proibidas inúmeras peças de teatro, musicas, shows e obras literárias, tudo era visto e logo amordaçado pelos militares. O ambiente quando se torna hostil para o processo criativo gera um mal estar nas entranhas do sujeito que encontra na criação a virilidade que havia se desprendido de seu corpo.
A tentativa de aprisionamento apertou dentro do grupo uma potencia que ansiava pela expansão, ao passo que a compressão chegou ao seu limite essa força se abriu brutalmente, rompeu com as correntes e deu ao corpo dos dzis uma violenta liberdade, um espasmo vingativo veio brindar a criação do grupo. O que não os matavam os deixavam mais fortes, a purpurina croquette golpeava os enormes muros que cerravam os horizontes da vida. Posto ao confronto, os dzis nutridos por esse espírito vingativo utilizam da arte como força para combater as barreiras que imperavam sobre a liberdade dos sujeitos. Saltitavam errantes sobre o palco descarregando uma energia que despertava o corpo de seu publico.
A dinâmica repressiva inclinou os integrantes ao um plano de composição que expunha todo um movimento que arrastou os Dzi Croquettes a subir no palco junto de seus contorcimentos e criações, trazendo para o gélido território brasileiro o calor de uma florida primavera. Mesmo com os esforços anestesiantes da ditadura, as
sensações borbulhavam dos corpos e teciam um movimento artístico que estava ligado à vida que se apresentava para o grupo.
Outro aspecto que alfinetava as inquietações dos dzis era a rotulação existente no trabalho que eles realizavam, por não conseguirem entender aquilo que se passava no palco e nos corpos dos artitas um mecanismo de “iluminação” se fez necessário para apaziguar esta força que se chocava com o publico. Tanto os militares, quanto as pessoas que não vibravam com os contorcimentos do grupo, diziam que o show não passava de um bando de travestis, drogados e alienados. Tal processo acontece quando a necessidade de conhecimento se faz presente no intuito de capturar algo demasiadamente denso que estremece o oco corpo dos sujeitos que se entregam para o inerte modelo representativo.
Dado este mecanismo de classificação os dzis se sustentavam nos primórdios do homem, sentiam o tempo em que o homem vinha antes da distinção de gênero. Apreciavam a força do corpo e percebiam o quão escasso ele se torna ao se engessar sobre algum modelo que dite seu movimento perante ao mundo. Experimentaram a liberdade e viram dela surgir uma criação que ultrapassava os limites que a ciência delineava para o artista, forneciam ao corpo as sensações provindas da gênese do homem, quando ele ainda estava em uno com sua natureza criadora.
Voltados aos primórdios e apoiados pela força que germinara dos impasses enfrentados, o grupo apresentava no palco o corpo em sua potencia, que se posta de frente às sensações de dor e êxtase presentes no degustar vida. Romperam com a idéia heróica do homem e trouxeram de volta o homem propenso ao mito, que experimenta a vida longe de uma custódia que santifique sua trajetória. Traziam o mito como uma força que golpeia o homem a cada passo sobre o mundo, que lhe apresenta o selvagem como sua própria natureza. De aspecto imoral não exerce ao homem um julgamento, oferece a ele apenas experimentações onde ele desfruta em delírio os sofrimentos presentes na vida. Na forma de mito, o homem erradica de si toda uma sobriedade que o alucina a ver a vida em sua forma mais sublime, as torrentes do mundo não mais oferecem risco, pelo contrário o incentiva a se jogar neste violento mar, de águas demasiadamente salgadas.
Esta sofrível experimentação que se abre junto ao mito trás para o homem uma livre relação com a vida, ao modo que seu contorcimento se torne própria obra dela. Assim o homem sente pairar sobre ele todo o peso e as dores que a vida descarrega
em seu corpo, seu movimento é cadenciado por esta sensação de desmantelamento, a qual o sujeito se refaz a todo o momento perante a brutalidade com que a vida golpeia sua carne. Os espasmos criativos que surgem do estribuchamento do corpo provêm das sensações deste seu deleite com o sofrimento, ao passo que o sujeito vá compondo com o corpo a obra da vida. Inclinado a composição o individuo ouve a violenta melodia da vida e sente suas entranhas vibrarem em êxtase.
Tamanho são os abalos proferidos nas vísceras que o sujeito se entrega aos prazeres da criação como forma de agüentar todo esse rebuliço de sensações que irrompem de seu corpo. O artista se refaz em sua composição apresentando junto a ela relâmpagos da violenta tempestade que irrompe do território dos sentidos, nesta entrega o corpo experimenta em liberdade a criação, e é dado a ele toda uma força em sua expressão que satisfaz sua necessidade de se findar como obra da vida.
O campo dos sentidos descarregando as violentas águas das sensações no corpo, faz germinar as sementes dos instintos que por tempo se encontravam encubadas pelas dinâmicas ceifadoras de sua potencia. Ao brotarem abrem no artista uma selvagem floresta, que guarda em seu interior as feras que há muito tempo amedrontavam o sujeito. Os instintos que ali habitam atiçam no homem as vontades de seus desejos, o movimento passa a carregar junto de si uma liberdade na criação que se intensifica ao passo que os desejos vão se extrapolando da carne. O individuo norteado pelos desejos sente surgir em si uma vontade pelo choque com o mundo e com o outro, passa ele almejar pelos afectos que o encontro lhe oferece. A sinestesia do roçar de peles, o desbunde ao outro, a liberdade que vem junto ao devir, a multiplicidade que se abre, o risco que se esvaece, a carne que se saboreia e a transformação em uno, são aspectos que explodem prazerosamente no corpo. Intensas são as sensações do encontro que o corpo sente na imanência do choque o pássaro da vida instalar seu ninho sobre suas entranhas. Neste ninho estão depositados os ovos que foram fertilizados neste coito propiciado pelo encontro, neles estão à vida de um novo corpo que romperá com as cascas no instante em que o corpo desfrutar dos orgasmos provindos do seu ansiado choque com o mundo e com o outro.
Os integrantes dos Dzis Croquettes traziam para a peça a exaltação de seus desejos, o exuberante figurino, às maquiagens que iluminavam as faces, a virilidade do corpo, à arte como um todo e outras fortes características são indicativos do
desejo que os artistas tinham para o choque com a multiplicidade presente no mundo. As inúmeras formas as quais eles brincavam no decorrer do show apresentam essa liberdade na criação, que junto de suas sensações nas experimentações da multiplicidade do mundo, transcorria num puro delírio artístico.
Os desejos propiciavam no grupo uma imensa orgia criativa, variadas cenas traziam para a peça essa relação de alteridade presente na composição com o outro, nelas se viam expostas a necessidade tátil que consome o corpo quando ele se choca com o outro. As coreografia em duos, trios e até mesmo as que continham o grupo todo atuando, apresentavam o quão antropofágico estava sendo o encontro para os artistas, o corpo se oferecia como alimento que satisfaria a fome pela vida que apertava o estomago dos artistas. Incitados por seus desejos a degustar as volúpias contidas no horizonte criativo do outro, as expressões artísticas dos Dzis Croquettes traziam o bailar dos corpos sobre o palco da vida, a condução se condensava a entrega fazendo nos movimentos coreografados se extravasar toda a liberdade que contemplava o corpo neste seu encontro com o outro.
Todo esse rebuliço de sensações que se atrelava a composição do grupo explodia no movimento artístico dos dzis uma sensualidade que provinha da virilidade de seus corpos. Entendemos a sensualidade como o afecto que se impregna no corpo quando ele sente roçar em suas vísceras a virilidade que a criação lhe oferece. Este afecto que brinda o processo criativo contém um poder contagiante, que ao se extravasar pela carne do artista culmina no expectador as sensação de ver nos artistas seus desejos também se libertarem. A sensualidade se torna o convite do corpo para seu choque com o outro, quer ele através de seus movimentos libertar as inquietações de quem o assiste, os sedutores gestos trazem consigo a intenção de que irrompa no publico desejos que empurrem seu corpo para junto do deleite daquilo que o artista experimenta.
Me atento aqui a esvaziar do leitor o pensamento burlesco a qual o sentido de sensualidade carrega custosamente, nos apegamos ao sentido de que o sensual atue na satisfação dos prazeres encontrados nesse desbunde a vida que os artistas experimentaram. Tamanho seria nosso erro em pensar que tal potencia expressada a cada segundo na peça tivesse a intenção de elevar os corpos dos artistas aos pódios da apreciação.
Os corpos que suspiravam de prazer durante as apresentações dos Dzi Croquettes demarcam fortemente toda essa virilidade latente no grupo as quais os
artistas desfrutavam e propiciava no publico o deslocamento de seu conforto. A presença de algumas mordiscadas nos lábios, o enorme requebro dos quadris, o êxtase estampado na face, as mãos que escorriam com desejo sobre o corpo, os abraços que findavam a união dos corpos são alguns elementos da peça que carregam consigo essa sensualidade que gozavam os artistas quando eles se umedeciam com os líquidos de seus prazeres. Entregues a criação e exalando do corpo um sedutor encanto, os dzis transgrediam suas sensações em seus trabalhos artísticos, as obras bailavam com os sentidos e com o corpo em sua máxima potencia, nestes soluçares criativos percebemos os purpurinados artistas compondo diante ao intensivo e intempestivo .
Nas sensações do intempestivo a imanência dá seu grito e direciona o artista a refletir em sua obra as tempestades que o mundo descarrega em si, o corpo acumula os relâmpagos desta torrente na forma de uma multiplicidade que se faz no instante em que o movimento se torna uma própria obra. Esta relação que se finda entre o artista e o mundo retira o processo criativo das garras da representação, a criação se faz das sensações que afloram do artista quando ele se lança para o mundo disposto a enfrentar os desafios que o apoiarão em sua composição com a vida.
O intensivo floresce na criação do artista quando seus anseios são saciados pela presença do outro, neste campo ambos se inclinam ao devir e deixam irromper do momento um movimento cadenciado pelas sensações do roçar dos corpos. Na entrega que se abre da aproximação dos corpos as influencias do estranhamento são enfraquecidas ao passo que no encontro os sujeitos se deixam conduzir por seus desejos. A criação surge nesta dança que os indivíduos realizam sobre suas vontades, um sustenta ao outro no salto para a vida, oferecendo uma plena liberdade de compor junto a essa sensação de mutualismo que se finda na presença do outro.
Com o processo criativo aberto ao intenso e ao intempestivo os dzis liberaram em suas obras uma força que rompeu com os limiares dos gêneros e que afastou as duvidas da classificação, no andrógino os Dzi Croquettes encontram a possibilidade de irromper em suas criações a liberdade que eles tanto esbanjavam em seu movimento. Esta alternativa que quebrava com qualquer aprisionamento para com o corpo e apoiava o grupo em sua composição, apresentava uma arte que não era feita nem por homens e nem por mulheres, mas uma arte feita por pessoas.
Compondo com o andrógino os dzis sentiam em seus corpos transitarem as força do masculino e do feminino, trazendo no palco a forma de um artista que assumia essa dualidade de maneira unificada em sua criação. A androgenia que emergia no grupo estava distante de uma que daria aos corpos masculinos características femininas, era uma androgenia que descarregava nos inquietos corpos afectos que provinham do choque dessas duas forças no processo criativo do artista, trazendo para o movimento da criação a brutalidade da força condensada a suavidade da delicadeza.
A junção das dicotomias floresceu em alegria naqueles jovens, embebedou os festejos de seus corpos trazendo a liberdade como drinque para a criação, engrandeceu o êxtase na expressão servindo como porto para os anseios daqueles artistas. No andrógino os dzis viram as inquietudes desse retorno ao cerne da criação do homem tomarem forma, a frente do grupo estava uma potencia que transformou as libertinas sensações do “ou” presentes na androgenia numa exuberante obra artística.
Posto até agora algumas das sensações que culminaram na explosão dos dzis em seus processos criativos, resta-nos agora mapear as sensações de mutualismo que estavam presentes na relação dos artistas com o grupo e que possibilitavam a criação ser feita pelo todo. A aproximação das inquietudes regidas pelo potente acaso da vida possibilitou o choque desses jovens e ao passo que os encontros se embebeciam do intenso surgia no plano de composição um novo corpo que se estruturava por cada membro do grupo, onde as sensações as quais contorciam os artistas eram abraçadas pela criação e depositadas a esse corpo que se findara uno pelos integrantes.
Essa dinâmica que condensa as sensações individuais no grupo oferece para o artista uma liberdade em sua criação, a qual ele vê no outro integrante o apoio para seus espasmos, e também deixa a criação aberta para que o outro venha e componha junto no processo. Tamanho era o sentimento uno que continha os Dzi Croquetes que os movimentos individuais eram lançados para a mesma direção, as explosões que ocorriam no contorcimento do corpo serviam como faíscas que também desencadeavam a explosão nos outros integrantes.
Os abalos continham uma força que não só fazia vibrar os corpos dos artistas, ela ressoavam potentes ondas que arrastavam o publico para o mar das sensações. O contágio pela arte dos Dzi Croquettes se fazia no momento em que os artistas
liberavam suas sensações no palco, e elas embriagavam o expectador até o ponto que eles sentissem suas sensações se libertarem e irem de encontro com os artistas, para juntos apreciarem os licores da vida. Marcante era este contagio que temos o exemplo de Claudio Tovar, que viu em um dos shows apresentados no inicio dos dzis suas sensações extrapolarem do corpo e ser atraídas por aquele movimento artístico que trazia a vida de volta para o corpo.