CRONOGRAMA DAS AULAS
O Programa segue o livro de Schimt-Nielsen. Os alunos têm uma aula teórica, pois tentamos fazer com que a aula teórica preceda a parte prática. A aula teórica agora tem duração de duas horas, e a aula prática tem duração de quatro horas.
As aulas práticas são terríveis. Faz dez anos que a gente está aqui e a cada ano tentamos algo diferente, porque não dá para dar a aula com o material que tínhamos.
Desde o ano que eu entrei, pedimos equipamentos e finalmente esse ano chegou um kit que vai ser um salto tecnológico imenso. Mas então, é um kit e você tem cinco grupos, assim as aulas vão ser bastante demonstrativas, não vai dar para cada grupo ter uma situação para trabalhar.
No ano em que eu cheguei não tinha nada, fizemos aulas práticas que vinham sendo feitas há anos e foi um desastre, porque já não eram mais aplicáveis, eram aulas fadadas ao fracasso, extremamente trabalhosas. Tínhamos que montar, emendar fiozinhos, colocar pesinho, coisas muito improvisadas; tinha peças de piano, bobina de carro, artifícios para você tentar estimular o nervo. Não foram feitos para estudar fisiologia. Já tentamos fazer trabalhos práticos maiores, mas mantivemos o trabalho de metabolismo, porque achamos interessante.
O que eu fiz nesse último ano que acho que funcionou super bem, foram as aulas direcionadas. Levo alguns trabalhos meus e apresento como se fosse uma palestra em um congresso, e são coisas muito próximas que foram feitas aqui, que dá para os alunos perceberem o que é possível ser feito, o que se interessa, que bichos tem aqui. Aplicar no primeiro semestre funcionou bem porque são os tópicos que eu trabalho, então quando vou falar sobre respiração, posso levar um trabalho de respiração meu, que conheço a história, da para criar uma história, fazer uma piada, prender a atenção dos alunos, já no segundo semestre não funcionou porque são tópicos que eu não trabalho, mas nesse ano combinamos que eu trabalharia no primeiro semestre, e então os alunos apresentariam os seminários no segundo semestre, e funcionou super bem. Os alunos tinham liberdade de ir e escolher o
trabalho que queriam para apresentar, e foi super produtivo porque tinham trabalhos sobre “Eco locação em golinhos”, “Percepção visual em borboleta”, “Orientação diamagnética em pingüim”. Foi super diversificado e tive a chance de ler um monte de trabalhos que normalmente eu não leria, e os alunos se interessaram porque eram coisas nas quais já tinham um interesse. Então esse ano foi o melhor por mais que não seja o objetivo da prática apresentar seminários, mas funcionou bem.
O kit de equipamentos, que conseguimos não tem a mesma precisão de um equipamento de pesquisa, eles ficam um pouco abaixo. E eles são montados por companhias de pesquisa, por exemplo, a companhia “Baiopec”, e têm módulos de aula. Sobre a respiração, eles têm três aulas montadas com equipamentos básicos que preciso para ter uma aula de respiração. Tem também o sistema de aquisição de dados: transistores de pressão, eletrodos, uma série de coisas para aplicar em aulas montadas. Tem a flexibilidade de montar a aula do seu jeito, mas eles dão um pacote básico, para montar uma aula prática em fisiologia animal. O ideal é que tivesse cinco, porque seria um para cada grupo de aluno, mas já é uma coisa extremamente difícil porque para funcionar precisamos de um computador. Isso já foi um grande salto na parte de equipamento, mas de laboratório é terrível, então, teria que mexer na estrutura física do laboratório, ter computadores para poder conectar tudo, demonstrar os programas, e seria ideal que todos os computadores estivessem em rede, assim, se alguém tem um dado interessante, todos podem observar mesmo em diferentes situações.
Este é o melhor equipamento para fisiologia animal, e se formos para a Inglaterra, Canadá, ou qualquer outro lugar do mundo, esse vai ser o pacote que estarão usando.
USO DE MODELO EXPERIMENTAL VIVO
Usamos bem menos modelos vivos que no passado. Quando eu fiz graduação, era comum abrir os bichos para ver o coração bater, e algo assim é inaceitável. No passado, aceitavam, mas hoje não. Colocando um eletrodo, um estetoscópio, você percebe que o coração está batendo, não precisa matar um bicho, nem nada. Eu acho que este ano a gente não matou um único bicho, não que eu seja contra, mas acho que tem que ter critérios, então se uma demonstração prática exige que você sacrifique um animal, tudo bem, vamos sacrificar o animal,
vamos demonstrar, vamos aprender o máximo com esse bicho que a gente sacrificou, mas até esse ano, não valia a pena matar o bicho porque não tinha estrutura física, não tinha equipamentos para poder aproveitá-lo, então esse ano a gente não matou um único animal.
Acho que é importante o modelo vivo porque fisiologia é uma das disciplinas que os alunos têm contato direto com animais, e no Brasil somos privilegiados porque ainda podemos trabalhar com vertebrados, na Inglaterra você vai poder abrir no máximo um camarão, mais do que isso os alunos não vão ter nenhum tipo de contato.
REAÇÃO DOS ALUNOS PERANTES AS AULAS COM USO DE MODELO EXPERIMENTAL VIVO
Acho que os alunos são inteligentes, eles percebem que você está sacrificando um bicho para demonstrar algo importante e que se está usando bem aquele bicho. Tem uns que não gostam, é claro, tem uns que saem da sala, mas ninguém vai contestar. Se eles percebem, que se está matando um bicho por nada, que vamos fazer um monte de coisa e não vai dar certo ou se vai demonstrar uma coisa que é obvia, aí percebo claramente que é algo que eles não aceitam muito bem, e isso é muito bom, mostra que eles são inteligentes, percebem as coisas.
Alguns anos, quando comecei aqui, fazíamos práticas que eram terríveis, tinha aluno que não queria abrir, e assim, a aula praticamente não funcionava. Acho que no começo era meio resistente, achava que fazer biologia é ter que pegar o bicho, ter que matar, ter que fazer, o que se tem que fazer, mas com o tempo fui percebendo que não é bem assim, que existem outras formas e se não tem como aproveitar bem aquele animal, é melhor apresentar um seminário. Você pega um trabalho de ponta, um trabalho que foi feito com todo um critério, com equipamentos.
Não é prático, mas você vai aproveitar melhor do que você ficar na aula matando bicho à toa.
Então eu acho que os alunos reagem bem, nunca tivemos problemas de atrito com o aluno. Existe uma gradação, claro! Existem aqueles que adoram, você fala que vai sacrificar um bicho, ou vai tirar sangue de um bicho, eles querem tirar, querem fazer e tem alguns que saem da sala, mas, é normal.
MÉTODOS ALTERNATIVOS
Existem softwares que demonstram praticamente tudo, só que acho que tem que ter um limite, porque você pode aprender com um software neural, porém, acho que como biólogo, tem que um dia alguém ter aberto um bicho para você e demonstrado: “Olha, aquilo lá é um nervo! Esse nervo, se você o estimula, ele contrai tal músculo.” Acho que nada substitui esse tipo de prática, mas existe uma série de alternativas, você não precisa matar um milhão de bichos, para fazer isso. Você pode fazer uma demonstração, e a partir daí, usar um programa, apresentar um filme, até porque todos os alunos que estão ali, nem todos vão trabalhar com isso, nem todos vão precisar desse nível de treinamento e de prática. Então acho que dá para amenizar, têm várias alternativas e quem for seguir a parte de biologia experimental, daí sim vai elaborando isso mais para frente, estágio, iniciação. Não precisa dissecar dez bichos cada um, mas existe sim uma série de alternativas válidas.
DIFICULDADE DO USO DESSAS TÉCNICAS ALTERNATIVAS
A dificuldade de aplicar essas técnicas é a falta de investimento. Desde quando a biologia foi criada, acredito que são os mesmos equipamentos que utilizávamos até há pouco tempo atrás, todos improvisados, todos extremamente limitados e nem existia computador. Então se você for ao laboratório de fisiologia, não terá nenhum computador disponível, se eu for mostrar algum programa de simulação, eu vou ter que levar meu laptop, meu projetor. Então, a principal dificuldade é na parte de investimento. Quanto deve custar? Uns 30 mil dólares? É caro, mas o salto tecnológico que você dá em colocar um equipamento desses em sala de aula, se você coloca isso perto do custo total de formar um biólogo, enfim é muito pouco e foi o único investimento, que eles fizeram esse tempo todo.
Esse equipamento funciona grande parte tendo os próprios alunos como cobaias, tem vários deles que pode usar animais também, num grau bem menos invasivo do que era feito, e bem mais elaborado também, se você sacrificar um bicho agora para ver a função cardíaca, não vai ser simplesmente no “olhômetro”. Acredito que a principal limitação é essa, a limitação de investimento, na graduação. A graduação é sempre deixada meio de lado.