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MOTIVAÇÃO

Eu acho que eu comecei a fazer biologia, pela zoologia. Por paixão aos animais, para compreender, entender. Então quando eu entrei aqui, isso ampliou um pouco, eu ainda sou um zoólogo convicto, só que não está sendo só isso, está sendo a compreensão de como a vida funciona, então acho que são esses dois motivos principais. Entender a vida, e dentro dela entender os animais.

RELAÇÃO DO BIÓLOGO COM A VIDA

Acho que antes de tudo, eu me vejo como parte da vida. Porque também parto do seguinte princípio: “Nós humanos somos apenas animais, com uma capacidade incrível de usar ferramentas, acima da média da maioria dos primatas, e nada mais do que isso.” Então, se eu estou estudando biologia, estudo tudo que tem vida, e não posso me excluir disso, por motivo óbvio. Então, o estudo de biologia, pode ser um estudo de si mesmo e a relação que tenho com ela. Quanto mais aprendo sobre o mundo vivo, mais aprendo sobre nossa própria espécie, e cada vez mais vejo nosso papel no mundo como “mais uma espécie” que tem sua população, tem suas doenças, tem seus ciclos biológicos.

USO DE MODELOS EXPERIMENTAIS VIVOS

Acho importantes as aulas que fazem uso de modelos vivos, porque o biólogo precisa ter uma formação generalista, a princípio. E como ele estuda seres vivos, precisa ter contato com coisas vivas, de verdade. Então, por exemplo, se quer conhecer uma estrutura, não pode se prender a um modelo, a um desenho esquemático, porque na maioria das vezes, eles não são representações tão fiéis que encontramos no mundo real, que é seu campo de estudo. E eu não vejo nenhum problema no uso de animais em experiências ou em aulas práticas, porque como eu tinha dito: Nós somos animais, só que a nossa evolução fez com que tivéssemos outra necessidade além da alimentação, que seria um motivo para matar outra espécie, e esta outra necessidade é a de conhecimento. Então um predador

vai matar um animal e não vai ser recriminado por isso, porque ele precisa comer. Nós também precisamos comer. Muitos de nós matamos bovinos, galinhas, para se alimentar, só que nós também temos essa necessidade intrínseca, que é o conhecimento. Então, se eu matar um animal para conhecer o funcionamento o organismo dele, eu estarei suprindo uma necessidade natural, então é perfeitamente justificável o uso desses animais para o suprimento dessa necessidade humana, desde que feito com respeito, provocando o menor sofrimento possível, para não cair no sadismo.

SENSAÇÃO DE REALIZAR UMA VIVISSECÇÃO

Bom, eu encaro com naturalidade um sacrifício bem feito. E por exemplo, tenho a impressão que os meus colegas que são mais voltados para zoologia, também levam o fato com mais naturalidade. Eu não fico com sentimento de dó ou de nojo. Eu encaro como algo perfeitamente natural. Não vou dizer que me divirto com a morte de um animal, apenas acho que é um procedimento padrão. Tão natural quanto comer carne e eu sou um carnívoro convicto também!

Agora, os meus amigos que são zoólogos convictos, por terem um campo de estudo diferente, mais voltado para ecologia, para outras áreas que não aquela zoologia tradicional, estes já têm um pouco mais, não sei se seria dó ou se seria uma forma de respeito, mas eles têm mais dificuldade de encarar esse tipo de situação.

Eu tenho a seguinte impressão: se você não participar desse tipo de aula prática, às vezes me soa como transferência de culpa. Por exemplo: “Ah, para que matar um animal se pode fazer um vídeo, daí todo mundo assiste e todo mundo vê como é que é!”. Nisso eu vejo dois problemas: O primeiro é transferência de culpa. Para fazer o vídeo, pelo menos um animal teve que ser sacrificado uma vez. E como não foi você quem sacrificou então tudo bem! Isso eu considero transferência de culpa. E o outro problema é, por exemplo: Eu tenho certo interesse por artes marciais e não é assistindo filmes de artes marciais que eu vou aprender. Eu teria que ir lá e treinar por mim mesmo. Então, seria a mesma coisa, ver os outros fazendo pode te dar uma idéia, mas, por exemplo, você não saberia aplicar uma anestesia, você não saberia manejar um bisturi, se não for você mesmo ali manipulando o animal e os instrumentos. E acho que se negar a participar disso, é

um direito, inclusive previsto por lei, pode alegar objeção de ideologia35, só que você

vai sair com uma formação incompleta, não vai saber lidar com o ser vivo real, quando ele cair em suas mãos.

MÉTODOS ALTERNATIVOS

Tudo o que falei, eu acho que se enquadra tanto para aula quanto para pesquisa. A diferença é que na aula você não precisaria usar tanto quanto para uma pesquisa. Não faria sentido sacrificar dez animais, em uma aula prática. Você pode fazer isso, em um número bem reduzido e já explicar para todo mundo. Eu sei que existem as alternativas como os vídeos, os modelos, modelos físicos mesmo, só que eu acharia vergonhoso você passar a sua graduação estudando com modelos. Porque você é um BIÓLOGO, você estuda seres vivos e não bonecos. E quanto ao vídeo eu já falei do problema, as alternativas existem, mas não são válidas, isso do meu ponto de vista. Eu não concordaria em aprender com base em modelo. Agora, no caso de pessoas que se recusam a todo custo, por causa de ideologias próprias, acho que têm o direito de ter uma aula baseada num modelo ou num vídeo. Isso seria uma coisa para, com algum esforço, tentar implementar nas universidades.

Outra coisa que acho importante é sempre estar batendo nessa tecla: Nós somos BIÓLOGOS, estudamos coisas vivas e a vida não tem um padrão, tem plantas que são autótrofas, tem animais que se alimentam do que der para se alimentar, dependendo do ambiente, tem bactérias que respiram enxofre, que é algo totalmente absurdo, foge de qualquer padrão, então não podemos definir um padrão para um ser vivo, exceto um, que eu até costumo fazer uma brincadeirinha meio sarcástica, “Ser vivo é aquele que tem a capacidade de morrer.” Então, a morte é parte da vida, se nós estudamos a vida, nós também temos que ter algum contato com a morte, eu acho que seria uma parte importante. O insetário foi um bom exemplo disso, lidar com o animal vivo, com a morte desse animal e com a preparação do animal morto. Acredito que tudo isso faz parte do processo de aprendizagem sobre a vida.

TESTES EM ANIMAIS PARA FINS HUMANOS

Às vezes um remédio que é perfeito para mim, pode dar uma reação alérgica para outra pessoa, e nós somos da mesma espécie. Então, minha opinião é que usam ratos porque seria plenamente inaceitável, do ponto de vista social, usar humanos. Mesmo porque tem pessoas que se tornam voluntários por serem apaixonados, fanáticos pela ciência, e segue a idéia: “Tudo pelo bem da ciência”. Doam seu corpo para os testes ou então, é aquele cara que está desesperado por dinheiro, por mais que, pela lei, os serviços de cobaia de uma pessoa não possam ser cobrados, com certeza isso aconteceria. Então, o ideal seria testar remédios humanos, em humanos, só que como isso é totalmente inaceitável, utilizam outros mamíferos que são mais próximos do organismo humano e eu acho que não usam macacos porque também iria afetar do ponto de vista ético. Assim, acredito que é o que temos, mas eu ainda acho que o ideal seria fazer teste em humanos voluntários, mesmo por uma questão de realismo, a não ser que sejam remédios baseados em processos muito universais, por exemplo, o funcionamento do sistema nervoso de um rato, que se eu não me engano, não tem praticamente diferença nenhuma com o funcionamento de um sistema nervoso humano, exceto pela complexidade do nosso telencéfalo, que é bem maior, enfim, depende muito do remédio. Um remédio de pele, já seria complicado, teria propriedades fusivas de pele humana para pele de rato. Enfim, é uma técnica que precisa ser aprimorada.

PRÁTICAS DE DISSECÇÃO EM ESPECIALIZAÇÕES

Acho que o biólogo tem que ter de tudo um pouco. Eu sou um zoólogo convicto, mas fiz e estou fazendo, matéria de botânica, de microbiologia, e são áreas que, se Deus quiser, eu nunca mais vou precisar usar na minha vida, mas eu tive contato físico com as plantas, com os fungos, com as bactérias (graças a Deus, nenhuma delas era patogênica). Acredito que na formação inicial como graduando, temos que ter um contato com tudo, até para manter sua dignidade como biólogo. Por exemplo, eu não entendo muito de plantas, mas eu sei como uma planta funciona, e mais ou menos, como ela é por dentro. Se algum aluno pequeno, numa escola, me perguntar como funciona uma planta, vou saber responder; se ele me perguntar como um animal respira, vou saber responder, então acho que até por uma questão de sobrevivência no mercado de trabalho, porque a maioria deles vai

acabar sendo professor uma vez na vida, tem que ter sim, um conhecimento prático, por mais que não goste, por mais que não vá trabalhar com isso.

Agora, nas aulas de botânica, mutilam plantas que estão vivas, e ninguém vai atrás dos direitos das plantas, é muita injustiça. Queimam as bactérias vivas para esterilizar os equipamentos e ninguém liga para elas; e não vai longe, se olhar para cima, vai ver vários pernilongos e a maioria deles, cheios do meu sangue. Matam pernilongos sem nenhum problema, ou mesmo as baratas. Agora, se pegam um inseto maior, onde as estruturas são mais visíveis, vão ter um pouco mais de dó para matar, porque quanto maior o animal, maior é a identificação.

Benzer Belgeler