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BÖLÜM 2: MALİYET MUHASEBESİ AÇISINDAN STOKLAR VE TÜRKİYE

2.2. Stokların Değerlemesi ve Maliyetleme Yöntemi

Como apontado anteriormente, no Brasil, mesmo não ocorrendo a construção de uma sociedade de "pleno emprego", durante um bom tempo, o trabalho com "carteira assinada" era uma realidade plausível para parcela significativa da população, especialmente no Sudeste, sendo um meio de assegurar um pouco de estabilidade para a vida destes trabalhadores (SATO, 2010). Assim, no país, sempre houve uma convivência do mercado formal, com o informal, mas, no contexto atual, há um processo de intensificação da precariedade nas relações de trabalho e de desestabilização de parte dos trabalhadores antes inseridos em empregos estáveis, fazendo com que a inclusão em trabalhos precários faça parte da vida de cada vez mais indivíduos.

A partir, principalmente, dos anos 1990, com a reestruturação produtiva e econômica na chamada Terceira Revolução Industrial (MATTOSO, 1994; KURZ, 2005), há a diminuição dos postos formais de trabalho, com até mesmo a extinção de algumas ocupações, que se tornam dispensáveis devido aos avanços tecnológicos; há também uma crescente flexibilização e desregulamentação dentro do próprio mercado formal de trabalho, que colocam cada vez mais em risco o mínimo de suportes sociais dos trabalhadores; há, enfim, a constante precarização das condições de trabalho, o grande aumento do desemprego, da inclusão de cada vez mais trabalhadores no mercado informal de trabalho e da dificuldade de inserção no mercado formal dos trabalhadores que já se encontravam anteriormente na "informalidade" (ACKERMANN, 2007; NARDI, 2003; TELLES 2001; FARINA; NEVES, 2007; CAVALCANTI; GUILLEN, 2001).

No Brasil, estas mudanças no mercado de trabalho começaram a surgir a partir da década de 80 e se intensificaram, especialmente, na década de 90. Em São Paulo, principalmente, uniu-se a esta nova realidade uma intensificação das políticas sociais neoliberais, caracterizadas por Höfling (2001) como políticas compensatórias:

Em um Estado de inspiração neoliberal as ações e estratégias sociais governamentais incidem essencialmente em políticas compensatórias, em programas focalizados, voltados àqueles que, em função de sua "capacidade e escolhas individuais", não usufruem do progresso social. Tais ações não têm o poder – e freqüentemente, não se propõem a – de alterar as relações estabelecidas na sociedade. (HÖFLING, 2001, p. 39)

Há, então, o aumento dos processos de privatização de empresas públicas e das terceirizações, diminuindo as contratações e descartando ainda mais a proposta de universalização dos direitos sociais no país (FARINA; NEVES, 2007; NARDI, 2003):

[...] a promessa constitucional da construção da "propriedade social", que seria garantida pelo Estado e que daria sustentação e segurança às pessoas, foi abortada, dando lugar a políticas públicas de bem-estar orientadas pela privatização e pela seletividade. (SATO, 2010, p. 27)

Nesse contexto, de acordo com Telles (2001), nem mesmo os direitos proclamados constitucionalmente são garantia de condições adeqüadas de trabalho e até as próprias empresas sabem como se "ajustar" às condições adversas, já que a legislação brasileira nunca se colocou como um obstáculo para estes "ajustes" que tanto precarizam as relações de trabalho:

Com isso, o que chama a atenção aqui é uma precariedade (e vulnerabilidade social) que se instala no interior mesmo do mercado formal de trabalho. [...] São esses os termos pelos quais vem sendo aplicada a chamada flexibilização do trabalho, modo de escapar da pressão sindical, de se liberar de custos trabalhistas e ampliar ainda mais a autonomia nas práticas de demissão. (TELLES, 2001, p. 97-98)

Para Castel (1998), diante destas mudanças, a nova questão social seria a crescente desregulamentação das relações de trabalho e a existência de, mais uma vez na história, "inúteis para o mundo", de "supranumerários", não integráveis ao mercado de trabalho atual, vivendo uma situação de constante instabilidade e incerteza sobre o futuro: "[...] os supranumerários de hoje, ou seja, indivíduos que sobrevivem abandonados à própria sorte, sem a possibilidade de exercício da cidadania, por não estarem inseridos em nenhuma estrutura coletiva que os integre na dinâmica social." (NARDI, 2003, p. 41).

Assim, em meio a estas circunstâncias atuais, a instabilidade e a insegurança passam a ser constantes no cotidiano da vida de cada vez mais indivíduos, principalmente daqueles que, mesmo no "auge" da sociedade salarial brasileira, já viviam fora das proteções sociais asseguradas aos trabalhadores do mercado formal. Com a diminuição das possibilidades de trabalho e sem a propriedade social assegurada pelo Estado, estes indivíduos acabam se submetendo a condições precárias e injustas de trabalho, na tentativa de garantir pelo menos sua sobrevivência (DUARTE; FUSCO, 2008), aumentando então as: "[...] numerosas situações de insegurança e de precariedade que se traduzem através das trajetórias estremecidas, feitas de buscas inquietas para se virar no dia-a-dia." (CASTEL, 1998, p. 603). Como apontado por Telles (2001), a precarização do mercado de trabalho acarreta fragmentações de identidades e perda de referências coletivas, devido à ausência de direitos

como medida de equivalência. Os trabalhadores que possuem vínculos instáveis com o mercado acabam perdendo até mesmo o estatuto de trabalhadores, privando-os ainda mais de seus direitos e da possibilidade de reivindicá-los no espaço público. Assim, de acordo com Sennett (1998, citado por NARDI, 2003), a insegurança permanente e a impossibilidade de planejar o futuro acabam corroendo até mesmo o "caráter" dos trabalhadores:

A questão do desemprego é, nesse sentido, paradigmática. Sem direitos que garantam a identidade e o estatuto de trabalhador, o rompimento do vínculo do trabalho pode significar uma situação que joga o trabalhador na condição genérica e indiferenciada do não-trabalho, na qual se confundem as figuras do pobre, do desocupado, da delinqüência ou simplesmente da ociosidade e vadiagem. (TELLES, 2001, p. 101)

Estas mudanças atuais no mundo do trabalho produzem um novo tipo de exclusão social, em que à integração precária no mercado se acrescentam o bloqueio de perspectivas de futuro e a perda de uma sensação de pertencimento à vida social (LECHNER, 1990, citado por TELLES, 2001). Trata-se do que Martins (1997, 1998) conceituou como inclusão marginal e não como exclusão, que, para ele, é um termo que acaba sendo aplicado a qualquer âmbito da vida e a qualquer tipo de problema social, perdendo-se de vista a especificidade de cada de um deles e o modo de enfrentá-los.

Para Martins (1997, 1998), o problema da exclusão não existe em si, mas seria, na sociedade capitalista, um momento da dinâmica de um processo mais amplo, que tem como lógica o desenraizamento e a exclusão de todos os seus membros, para que sejam incluídos nas leis do mercado, transformando-se em vendedores e/ou compradores de força de trabalho e também em consumidores. Então, por muito tempo, a sociedade capitalista reincluiu de forma mais rápida os trabalhadores desenraizados, como por exemplo: um camponês expulso de sua terra, desenraizado acabava sendo absorvido rapidamente como mão-de-obra das indústrias da cidade grande. Assim, os migrantes que vinham para São Paulo, antes especialmente dos anos 90, acabavam sendo incluídos com mais rapidez no mercado de trabalho (CAVALCANTI; GUILLEN, 2001).

Mas, com o fenômeno do desemprego maciço e da precarização das relações de trabalho, este tempo de reinclusão do trabalhador se tornou mais demorado, constituindo-se em uma nova forma de vida na fronteira do processo de exclusão-inclusão. O problema social, portanto, não está na exclusão, mas sim nesta inclusão "perversa e marginal" que se instala como solução para parte significativa da população, havendo cada vez mais um estreitamento das possibilidades de ascensão e das oportunidades de vida:

Nós estamos em face de uma nova desigualdade social. [...] A desigualdade entre os plenamente incluídos (com acesso às oportunidades que a sociedade pode oferecer na economia, nas relações sociais, na cultura) em relação àqueles cuja inclusão se situa à margem dessa mesma sociedade, submetidos a permanentes insuficiências, carências e privações, não só materiais. Aqueles que se defrontam, de fato, com coisas, espaços e situações que lhes são vedados nas próprias relações cotidianas. (MARTINS, 1998, p. 28) Dentro deste contexto de exclusão-inclusão capitalista, o comum, de acordo com Martins (1998), seria migrar para procurar trabalho e se "reajustar" às leis do mercado. O problema social das migrações está, portanto, na demora na reinclusão dos migrantes na sociedade, sendo que muitos acabam vivendo nesta fronteira da exclusão-inclusão, incluídos marginalmente na cidade. Assim, é preciso pensar nos deslocamentos sociais presentes nos deslocamentos espaciais: pensar nos fatores sociais, culturais e políticos embutidos no processo de migração.

Frente a estas mudanças no mundo do trabalho atual, há também mudanças nos fluxos migratórios, havendo, por exemplo, aumento das migrações de retorno, que são inclusive incentivadas pelo Estado (CAVALCANTI; GUILLEN, 2001; PÓVOA NETO, 1997). Assim, aqueles que, outrora, foram mobilizados com a promessa de integração e desenvolvimento, hoje, como já foi dito, tornam-se improdutivos e "excedentários", sem espaço nas grandes cidades, como São Paulo (PÓVOA NETO, 1997). Pessoas, estas, incluídas marginalmente na cidade, lidando em seu cotidiano com a pobreza, o desemprego e a privação de direitos:

Desnecessários como força de trabalho, para que garantir-lhes direitos? Está preparado o terreno para o aprofundamento do descaso pelo direito ao trabalho, à escola, à saúde, à habitação, aos bens culturais, ao respeito social e à segurança pessoal. (PATTO, 2010, p. 12)

Com a crescente perda das proteções e seguridades sociais, estas pessoas buscam novas formas de lidar com as privações em que vivem, utilizando "táticas astuciosas" - conceito que será discutido mais adiante - para assegurar, de alguma maneira, alguns de seus direitos (SATO, 2010). Segundo Farina e Neves (2007), há diversidades de ações de enfrentamento para lidar com a situação de desemprego, como a busca por novas formas de geração de renda, a construção e o uso de redes sociais, a busca por políticas públicas de geração de renda e trabalho e também por políticas de assistência social.

Assim, dentro destas novas configurações da nossa sociedade, é preciso pensar quais seriam as formas possíveis de assegurar direitos, de garantir propriedade social: "Para tal, é necessário esforçar-se por pensar em que podem consistir as proteções numa sociedade que se torna cada vez mais uma sociedade de indivíduos. [...] O que quer dizer e o que pode significar hoje 'estar protegido'?" (CASTEL, 1998, p. 595).

Além disso, também é preciso pensar nas formas possíveis de inclusão que podem ser construídas hoje em dia, já que há, cada vez mais, uma precarização das relações formais de trabalho, antes consideradas como a "inclusão ideal":

Certamente esta noção de inserção é fundamentalmente ambígua. A inserção “ideal” que seria a integração num emprego estável é geralmente impossível. [...] Nessas situações (falamos então de inserção social e não de inserção profissional), a inserção corre o risco de ser um arremedo de certa forma improvisado, um simples ocupacionismo que consistiria, no limite, em fazer qualquer coisa em lugar de não fazer nada. [...] Inserir é geralmente menos que integrar, pois o vínculo social que se procura reconstituir é mais frouxo, correndo o risco de ser mais frágil que as interdependências que incluem um indivíduo num emprego estável e numa rede inter-relacional forte. (CASTEL, 1997, p. 37)

Quais seriam, então, as inclusões possíveis que permitiriam, como aponta Nardi (2003), a (re)construção de suportes sociais que possibilitem a existência de indivíduos com direitos iguais? E será que estas inclusões só podem ser feitas através do trabalho? Perguntas, estas, para as quais ainda não possuímos respostas, mas que não podem deixar de ser questionadas, de serem discutidas como um desafio na construção de uma sociedade mais democrática. São perguntas que acompanharam constantemente o caminhar do presente estudo.

1.5 Entre a "roça" e a "cidade grande": considerações sobre migrantes