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BÖLÜM 1: KURUMSAL KAYNAK PLANLAMASI, KURUMSAL KAYNAK

1.5. Kurumsal Kaynak Planlaması ve Muhasebe

No Brasil, como apontado por Nardi (2003), houve um desenvolvimento incompleto da sociedade salarial (CASTEL, 1998), já que nunca existiu uma sociedade de "pleno emprego" e com generalização da propriedade social através da consolidação de um Estado Social, como o que foi implantado na Europa do pós-guerra. Na história do nosso país, o mínimo de propriedade social foi alcançado através da legislação trabalhista de cunho autoritário, implantada no Governo Vargas, na década de 30, e da seguridade social, restrita aos trabalhadores inseridos no mercado formal de trabalho, que possuem "carteira assinada". (NARDI, 2003)

Assim, em um país com imensas desigualdades sociais, em que grande parte da população sempre esteve fora dos vínculos formais de trabalho, vivendo na chamada "informalidade", as leis só oferecem proteções e seguridade àqueles que estão empregados formalmente (ACKERMANN, 2007). Segundo Telles (2001), as próprias leis brasileiras, portanto, não universalizam direitos e o indivíduo só se torna "cidadão" e tem garantias do mínimo de propriedade social, quando está incluído em contratos formais de trabalho:

Daí Santos dizer que a carteira de trabalho, mais do que uma evidência trabalhista, é uma certidão de nascimento cívico. Fora dessa condição, vigora o estado de natureza no qual são submergidos todos os que têm uma existência percebida como impermeável à regulamentação estatal e que, por isso mesmo, não existem para efeito legal. Desempregados, desocupados,

subempregados, trabalhadores sem emprego fixo ou ocupação definida são na prática transformados em pré-cidadãos. [...] Pois o que chama a atenção é a constituição de um lugar em que a igualdade prometida pela lei reproduz e legitima desigualdades; um lugar que constrói os signos do pertencimento cívico, mas que contém dentro dele próprio o princípio que exclui as maiorias; um lugar que proclama a realização da justiça social, mas bloqueia os efeitos igualitários dos direitos na trama das relações sociais. (TELLES, 2001, p. 23-24)

Na sociedade brasileira, o Estado retribui conforme a contribuição de cada um e, assim, os direitos sociais ficam sob a forma de um tipo de contrato de serviços que o contribuinte – o "proprietário-cidadão" – faz com o Estado: "as garantias contra a doença, a invalidez, a velhice, a orfandade dependem inteiramente da capacidade - e da possibilidade, diríamos nós - de cada um em conquistar o seu lugar no mercado de trabalho." (TELLES, 2001, p. 25).

Os que escapam às regras deste contrato são transformados em "não-cidadãos", em "não-iguais": são os "outros", os "azarados da vida", os "pobres", aqueles que estão fora, que não são considerados como trabalhadores, por mais que exerçam alguma atividade produtiva e que por não "conseguirem" inserção no mercado formal de trabalho, devido às suas próprias "incapacidades pessoais", não possuem e não "merecem" o "privilégio" de serem protegidos pelo Estado. É, portanto, uma lógica clientelista e individualista, que privilegia poucos, excluindo a maioria e que culpabiliza aqueles que são jogados para fora das leis, pela situação em que se encontram, destituindo-os ainda mais de seus direitos e da possibilidade de reivindicá-los através da "linguagem pública da justiça e da igualdade":

Quanto aos dramas da sobrevivência, são desvinculados das relações de classe e submergidos na figuração desidentificadora da pobreza: tornam-se "dado da realidade" nomeado apenas para lembrar as responsabilidades do Estado em aparar e proteger aqueles que não conseguem, com seu próprio trabalho, garantir um lugar ao sol numa sociedade generosa em possibilidades de ascensão e mobilidade social. (TELLES, 2001, p. 50) Estas pessoas são colocadas no mundo "natural" da pobreza, regido por "hierarquias naturais" e pelo "imperativo da sobrevivência", sendo reservada a elas o espaço da Assistência Social, em que o Estado só precisa garantir que tenham acesso aos "mínimos vitais da sobrevivência": "[...] pra ser assistido, é necessário manifestar os sinais de incapacidade, uma deficiência em relação ao regime comum de trabalho." (CASTEL, 1998, p. 608). Cria- se, então, a figura do "necessitado", do "carente", transformando a justiça em caridade e os direitos em favores prestados por um Estado "benevolente" a estes indivíduos considerados como "incapazes" de ascensão social, que "fracassaram" em lidar com os "azares naturais da vida" (TELLES, 2001; DRAIBE, 1995).

E, por não existirem juridicamente, já que não são protegidos pelas leis trabalhistas, estas pessoas não podem nem reivindicar e recorrer como os outros trabalhadores quando percebem que seus direitos foram violados (SPOSATI, 1988, citada por TELLES, 2001). Se lutam, resistem e protestam, se têm vontades, sonhos e constroem suas próprias razões, tudo isto fica silenciado e não interessa ao mundo público, à vida em sociedade, na qual são somente os "pobres", os "não-sujeitos": "que só podem esperar a proteção benevolente dos superiores ou então a caridade da filantropia privada." (TELLES, 2001, p. 42-43).

Desprotegidos pelo Estado, precisam encontrar formas de garantir suas condições básicas de existência, um "se virar" que é visto como característica do "pobre" e não do trabalhador (TELLES, 2001). Assim, como apontado por Sato (2010), a falta de propriedade social acaba abandonando os indivíduos à própria sorte, fazendo com que tenham que buscar apoio em redes sociais, como a Igreja, a família, a vizinhança, os amigos, o que será discutido mais adiante no presente estudo:

[...] nos termos desse contrato social excludente, que, a rigor, não se constitui plenamente, a sobrevivência cotidiana depende inteiramente dos recursos materiais, das energias morais e das solidariedades que cada um é capaz de mobilizar e que se organizam em torno de princípios inteiramente projetados da vida privada, com suas lealdades e fidelidades pessoais, com seus vínculos afetivos e sua teia multifacetada de identificações e sociabilidade. (TELLES, 2001, p. 107)

Então, como apontado anteriormente, são as próprias leis, no Brasil, que colocam o trabalho e a pobreza como antagônicos (TELLES, 2001), fazendo do trabalho formal um poder e, ao mesmo tempo, um privilégio. O trabalhador seria aquele que consegue provar sua capacidade de viver em sociedade e que, por isso, é protegido pelo Estado e o "pobre" seria o "incapaz" e "impotente", que só encontra na ajuda e nos favores sua forma possível de sobrevivência:

[...] para ter direitos e acesso a uma existência legítima, o indivíduo tem que provar ser um trabalhador responsável com uma trajetória ocupacional identificável em seus registros, persistente na vida laboriosa e cumpridor de seus deveres. [...] Numa forma lapidar, o pobre é aquele que tem que provar o tempo todo, se fazer ver e reconhecer a si próprio e à sociedade a sua própria respeitabilidade num mundo em que os salários insuficientes, a moradia precária, o subemprego e o desemprego periódico solapam suas condições de possibilidades. (TELLES, 2001, p. 81-82)

É construída, desta forma, a figura do "trabalhador honesto", que é aquele que se salva dos estigmas da pobreza através do trabalho: "[...] o desvio histórico ensina que, até hoje, sempre existiram 'pobres bons' e 'pobres maus', e que tal distinção é baseada em critérios morais e psicológicos." (CASTEL, 1998, p. 607). O trabalhador "pobre" precisa, então, ficar

provando a toda hora que é um "trabalhador honesto", que difere dos "pobres" que decidiram superar as adversidades de suas vidas através do "trabalho sujo", do crime:

Ser pobre é sempre estar sob suspeita, não apenas de ser ladrão e vagabundo, mas de ser indigno. A suspeita sugerida e introjetada exige a reafirmação contínua da honra e integridade pessoais embora deteriore a identidade social dos que têm que conviver com ela. (MELLO, 1988, p. 189).

Desta maneira, apesar da condição de assalariado nunca ter se estendido a todos no Brasil, de acordo com Ackermann (2007), esta foi a forma em torno da qual os significados do trabalho se organizaram em nossa sociedade, impondo-se como provedora de identidade, reconhecimento social e significado para a vida dos indivíduos, criando a chamada "cultura do emprego", baseada nas seguranças e direitos sociais advindos da condição de emprego formal (JARDIM, 2004).

Mesmo que mínimos, estes suportes sociais, durante algum tempo na história do país, permitiram que os trabalhadores com "carteira assinada" tivessem certo controle sobre seus projetos de vida (NARDI, 2003) e, assim, o emprego formal se configurou, no imaginário social, como a forma "ideal" de trabalho, capaz de prover alguma segurança e possibilidade de planejamento do futuro em uma vida cheia de instabilidade.

Já hoje em dia, outra realidade se apresenta com mais força, com a crescente desregulamentação e precarização das próprias relações formais de trabalho, que joga ainda mais pessoas para o mundo da "informalidade", sem nenhuma proteção social, tornando muitas delas dispensáveis para o mercado de trabalho, aumentando ainda mais a insegurança em suas vidas:

É a re-mercadorização das relações de trabalho dos últimos 30 anos (pela qual o trabalho deixa de ser regulamentado e é re-transformado numa simples relação de compra e venda com um mínimo de proteções contratuais) que enfraquece o laço social construído em torno do trabalho assalariado e torna inválida uma expressiva parte da população ativa. (NARDI, 2003, p. 39)

Assim, para melhor compreender as condições de trabalho dos migrantes "pobres" que vivem hoje na cidade de São Paulo, torna-se necessário discutir algumas destas mudanças que ocorreram no mercado de trabalho mundial nos últimos anos, concentrando-se no caso brasileiro, o que será feito a seguir. Mudanças, estas, que já foram inicialmente discutidas no início deste capítulo, ao apontar a atual desmobilização mundial da força de trabalho, tornando "supérfluas" um número cada vez maior de pessoas que não são mais integráveis ao mercado de trabalho (KURZ, 2005).

1.4 Apontamentos sobre as configurações atuais do mercado de trabalho e