[...] “O que fiz hoje?”, ao que a mãe responde: “Você acordou às seis e meia, depois brincou cantando com seu ursinho até que nós acordássemos, depois levantou-se e foi ao jardim, depois tomou café da manhã, depois...”, e assim por diante, até que todo o esquema daquele dia esteja reintegrado a partir do exterior. A criança sabe tudo o que aconteceu, mas quer ser ajudada e ter consciência do conjunto. Isso lhe dá um sentimento bom e verdadeiro, ajudando-a a distinguir a realidade do sonho e das brincadeiras imaginativas
(WINNICOTT, 1950/2001:207).
Iniciamos utilizando a citação de Winnicott a fim de destacarmos o encontro narrado pelo autor entre mãe e filho, a importância fundamental da relação, a qual, a partir da simplicidade, caminha para o alcance de uma importância ímpar: a reintegração podendo ser alcançada por encontros triviais, aos quais, por muitas vezes, não se atribui qualquer significado.
Dessa forma, a precoce separação da figura materna pode acarretar profundas cicatrizes na vida psíquica do bebê, comprometendo sua evolução saudável, como observamos na perspectiva winnicottiana sobre o desenvolvimento emocional.
Winnicott (1940/2002:11), em seu artigo “Crianças e suas mães”, escreve:
[...] Quanto mais jovem for a criança, menor será sua capacidade para manter viva em si mesma a idéia de uma pessoa; quer dizer, se ela não vir uma pessoa, ou não tiver provas tangíveis de sua existência em x minutos, horas ou dias, essa pessoa estará morta para ela.
É desnecessário focalizarmos que Winnicott tece as drásticas repercussões oriundas da separação do bebê de sua mãe, especialmente no início de vida, como a efetiva morte do objeto. Assim, a partir desse fato, como então prosseguirá a evolução de seu crescimento emocional?
Similarmente à concepção winnicottiana, Bowlby (1951/2002) contempla à mãe o atributo de ser a “organizadora” da mente da criança
frente aos estágios pouco desenvolvidos de seu crescimento inicial. Escreve Bowlby (idem:53):
Da mesma forma, para que o desenvolvimento mental se dê regularmente, parece ser necessário que a mente em formação seja exposta, por um determinado período crítico, à influência de um organizador psíquico – a mãe. Por esse motivo, quando pensamos nas perturbações a que se acham sujeitas a personalidade e a consciência, é imprescindível que se considerem as fases de desenvolvimento da capacidade da criança para estabelecer um relacionamento humano.
Bowlby (ibidem) considera a presença constante da mãe como um fator primordial durante as fases do desenvolvimento infantil, as quais, diferentemente da visão winnicottiana,31 estendem-se para o adentrar do
terceiro ano de vida, no mínimo.
O autor identifica que o bebê está a caminho de estabelecer a relação com a mãe aos cinco ou seis meses de idade, e não atribui muita ênfase aos primeiros seis meses de vida,32 Ele define ser esse período como aquele
pouco provável de se registrarem profundas marcas ao desenvolvimento diante da separação da figura materna, marcando novamente uma diferenciação da ótica winnicottiana.
Localiza ainda o autor que somente a partir de quatro a cinco anos é que a criança poderá ser capaz de manter a relação com sua mãe mesmo quando ela está ausente, mas por poucos dias ou semanas; a relação poderá se manter diante da ausência materna mais longa somente após os sete ou oito anos.
Spitz (1945-1946/1993) considera a etiologia das doenças de carência afetiva extremamente atrelada à ausência dos cuidados maternos e provisões afetivas vitais, que são normalmente, na esfera da saúde, experimentados por meio de intercâmbios com a mãe no decorrer do primeiro ano de vida. Escreve Spitz (idem:221):
31 Para Winnicott, a presença constante da figura materna como facilitadora ao processo evolutivo maturacional estende-se até o alcance da posição depressiva. Escreve o autor (1954-1955/2000:357): “a posição depressiva é algo que se localiza entre os seis e os doze meses e que representa uma evidência cada vez mais forte de um crescimento pessoal, crescimento esse que depende de uma provisão ambiental sensível e contínua”.
32 Essa observação foi contestada por vários estudos posteriores, que consideram que os efeitos negativos decorrentes da separação precoce entre mãe-bebê podem ocorrer tão arduamente na segunda metade do primeiro ano de vida, assim como na primeira metade, comprometendo a saúde mental.
Todas as relações humanas posteriores com qualidade objetal, a relação de amor, a relação hipnótica, a relação do grupo com o líder, e finalmente todas as relações interpessoais têm sua origem na relação mãe-filho.
À luz das considerações de Spitz (ibidem), pode-se afirmar que a relação objetal é a possibilidade do surgimento do Ser que é construído, sobretudo, na relação que se estabelece entre mãe e filho. É por meio do relacionamento do bebê com a mãe que se alcança a canalização das pulsões fundidas no objeto libidinal, o que vem, assim, a representar os modelos para as relações humanas.
Spitz (1946), citado por Bowlby (1957/2001:60-61), publicou alguns trabalhos sobre o sorriso do bebê e destaca o fato de o componente motor do sorriso não ser um padrão inato, mas fruto do início da relação objetal. Escreve Spitz:
[...] Foi isso que eu pretendi significar quando disse que a resposta de sorriso é um padrão de comportamento adquirido em resposta aos cuidados maternos; ele está presente desde o começo, como um de muitas dezenas de padrões de comportamento fisionômico; é cristalizado, dentre todos eles, em resposta à solicitude da mãe, ou seja, ao início da relação objetal.
Nosso objetivo não se prende a dissecar os contextos teóricos de cada autor aqui referendado, tampouco focalizar suas divergências, mas sim destacar, à luz de seus pensamentos, o denominador central presente no arcabouço teórico de cada um deles: a efetiva participação da mãe como auxílio ao filho em seu processo evolutivo emocional, cujo primeiro ano de vida sobressai como período de máxima importância.
As implicações emergentes no desenvolvimento da criança frente à ocorrência da separação precoce e duradoura de seu lar, fundamentalmente da figura materna, sem a presença de um substituto materno permanente, são o ponto centralizador destacado por esses autores. Passamos então, a examiná-las.
1.2. Focalizando os efeitos da separação precoce do par mãe-bebê: