Motta (2005:277) organizou um Dossiê sobre inovações na psicanálise winnicottiana brasileira, apresentando algumas das inovações ocorridas ao longo das últimas décadas, resultantes do reconhecimento do incremento da demanda de pessoas que necessitam de intervenções psicoterápicas e buscam por elas, pois “sintomas do adoecimento ou sofrimento psíquico dos dias atuais são revelados e nos convidam a pensar sobre diferentes estratégias ou intervenções necessárias à nossa prática clínica diária”.
paciente de sentir-se compreendido de imediato; assim, reserva-se a interpretação para o momento oportuno e o psicólogo fornecerá toda compreensão possível.
A autora enfatiza a organização de várias produções na clínica e na pesquisa, como vários congressos, seminários e vastas pesquisas desenvolvidas acerca de inovações no âmbito psicoterapêutico, nas quais se destaca a valorização do encontro humano no campo psicológico e intervenções psicológicas, privilegiando, como objetivo, a facilitação do desenvolvimento psíquico do ser humano.
Ivonise Fernandes da Motta muito tem contribuído com a orientação de pesquisas científicas que sustentam as inovações de paradigma da ciência pós-moderna, incluindo a flexibilização de técnicas psicoterápicas e de intervenções psicológicas em vários contextos psicoterapêuticos. Incluímos, evidentemente, as situações diagnósticas, como também enfatizamos os aspectos clínicos e sociais. O Lapecri,74 sob sua coordenação,
focaliza essa ampliação e esse aprofundamento na busca pelo conhecimento abarcado pelas inovações no emprego de intervenções diferenciadas no cenário psicoterapêutico. Pesquisas, atividades acadêmicas e projetos sociais vêm se promovendo como perspectiva de atuação do Lapecri, para a propagação da importância de investigações sobre o desenvolvimento do ser humano.
Em nosso meio, ao longo dos últimos tempos, têm-se desenvolvido, diretamente como fruto da expansão da clínica contemporânea, estudos importantes que têm aliado a avaliação diagnóstica e a intervenção.
Aiello-Vaisberg (2000:3-4) considera a prática de intervenções como inerente ao processo diagnóstico; por isso define, com propriedade, o diagnóstico:
Consiste o psicodiagnóstico na realização de discriminações que visam, primordialmente, orientar intervenções psicoterapêuticas e psicoprofiláticas. Ou seja, a nosso ver, o psicodiagnóstico só tem sentido no contexto de uma prática psicológica, pois existe um vínculo essencial entre o tipo de discriminação diagnóstica apreendida e o tipo de operação interventora que se pretenda aplicar à questão.
74 Laboratório de pesquisa sobre o desenvolvimento psíquico e a criatividade em diferentes abordagens psicoterápicas, pertencente ao Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, USP, sob a coordenação da prof. Dra. Ivonise Fernandes da Motta.
A autora (idem) tem se dedicado, nos últimos tempos, ao desenvolvimento da sustentação de práticas clínicas diferenciadas e também interventivas, além da orientação de diversas pesquisas interventivas psicanalíticas, tanto no campo clínico como social. Desenvolve e coordena, atualmente, a arteterapia de inspiração winnicottiana na Ser e Fazer – Oficinas Terapêuticas de Criação, pertencente ao Ipusp,75 visando à provisão
de um ambiente suficientemente bom e que, por meio de mediadores, como desenhos, pinturas, arranjos florais e outros, propicie a sustentação como intervenção. As intervenções eleitas pela autora são aquelas vinculadas à criatividade pessoal do profissional, como o contar histórias, poesias, metáforas etc. (2004:184), de modo a favorecer o contato pessoal do paciente e, assim, flexibilizar para um encontro mutativo.
Tardivo (2000/2004), também ao longo dos últimos anos, vem desenvolvendo e orientando estudos científicos que têm relacionado a avaliação diagnóstica e a intervenção psicológica a partir dos conteúdos emergentes do material obtido. Focaliza a proposta de medidas interventivas que possam conduzir a experiências mutativas (2004). Seu trabalho mais recente, a tese de livre-docência (2004), já citada, retrata o adolescente e o sofrimento emocional e é desenvolvida no contexto das consultas terapêuticas coletivas, utilizando o instrumento projetivo desenhos-estórias
com tema76 como mediador, assinalando a ampliação do processo
diagnóstico na atualidade; aliado às intervenções psicológicas, o sofrimento humano, identificado no processo avaliativo, pode ser sustentado e acolhido pelo profissional.
Vale ressaltar a importante colaboração de Tardivo (2003) na coordenação do Apoiar.77 Esse Serviço realiza atendimentos clínicos,
integrando ensino, pesquisa e prática clínica. A autora descreve o empenho em buscar o diagnóstico precoce, visando conhecer e também intervir, o mais precoce possível, “tão logo a pessoa nos procure”, pois, continua Tardivo, “trata-se de investigar e intervir em contínuo processo que visa a
75 Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, USP. 76 In TRINCA, 1997.
77 O Apoiar é um serviço inserido no Laboratório de Saúde Mental e Psicologia Clínica Social do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, USP, sob a coordenação da profa. dra. livre-docente Leila Salomão de La Plata Cury Tardivo.
compreensão e, se possível, a transformação da realidade dos indivíduos” (p.8-9), além de outros projetos de intervenção psicoterapêutica e atuação preventiva que visam minimizar o sofrimento humano.
Destacamos, também em nosso meio, importante contribuição no estudo de Paulo (2004). A autora desenvolveu uma pesquisa propondo-se a investigar a eficiência de um método de atendimento breve a partir do diagnóstico interventivo, utilizando os procedimentos projetivos Questionário desiderativo78 e o Teste de relações objetais de Phillipson (TRO)79 como
intermediadores do trabalho terapêutico.
O diagnóstico interventivo foi aplicado com pacientes deprimidos, e a autora objetivou propor métodos que compreendessem a depressão e auxiliassem no desenvolvimento de novos meios de atendimento institucional, de forma a ampliar, assim, os atendimentos psicológicos a uma parcela mais ampla da população. Os resultados dos instrumentos projetivos foram manejados para fundamentar e elaborar as intervenções psicológicas no decorrer do processo, com a finalidade de favorecer alguma melhora nos sintomas depressivos emergentes nos pacientes, considerando a individualidade, o significado específico da resposta e o estado emocional do paciente no momento do respectivo encontro.
Concluiu a autora que os instrumentos utilizados como mediadores do processo facilitaram a ocorrência de associações livres dos pacientes, bem como a comunicação com o mundo interno deles, além de elucidar a problemática vivida e a compreensão dos conflitos. Assim, conclui Paulo (idem), o diagnóstico interventivo pode facilitar o atendimento de um maior número de pacientes em menor tempo, além de se adequar ao ambiente institucional.
O estudo desenvolvido por Gil (2005), também de nosso meio, muito contribuiu para o contexto teórico aqui explanado. A autora retrata a evolução do percurso científico inicial direcionado à vertente psicodiagnóstica, e que se empreendeu, ao longo do processo, em direção à
78 NIJAMKIN, G. C.; BRAUDE, M. G. O questionário desiderativo. Trad. Leila S. P. C. Tardivo. São Paulo: Vetor, 2000.
perspectiva de intervenções inspirada nas consultas terapêuticas e resultou, dessa forma, em encontros terapêuticos.
Tendo como objetivo principal compreender o idoso que busca a clínica psicológica com sintomas de depressão e estabelecer relações entre depressão, envelhecimento e psicanálise, a autora apresentou dois atendimentos clínicos de pessoas idosas com sintomas depressivos. Por meio de narrativas utilizou os instrumentos projetivos Questionário desiderativo e SAT,80 os quais, além de auxiliarem no processo diagnóstico, apresentaram-
se principalmente como facilitadores e mediadores para o contato terapêutico. Declara ainda a autora (idem) que as intervenções se fizeram presentes como sustentação do processo terapêutico, o holding, valorizando a singularidade de cada paciente, e demonstraram ser, durante todo o processo, potencialmente mutativas.
Concluindo: a partir do emprego de intervenções psicológicas durante o encontro paciente-psicólogo, inclusive em tarefa diagnóstica, concordamos com a importância da aplicabilidade de posicionamentos interventores quando em contato com o ser humano em situações de sofrimento psíquico.
Consideramos que situações diagnósticas pelo contato do paciente com conteúdos internos poderão propiciar o emergir de angústias acentuadas que requerem a continência, ainda encontrada na externalidade, como uma possibilidade de minimizar o sofrimento psíquico e facilitar a integração.
Apontamos em nosso escrito (CARETA & MOTTA, 2005) tal necessidade durante a aplicação do instrumento projetivo Procedimento de desenhos-estórias, no decorrer do processo diagnóstico com uma criança abrigada, diante do despertar de intensas angústias, tornando-se necessária a presença da continência empregada pela psicóloga, pois, além de contribuir para a integração de angústias emergentes, também adequamos à realidade institucional o acolhimento psicológico, pois sabemos das escassas oportunidades para o desenvolvimento de cuidados psicoterapêuticos em abrigos, tendo em vista a dependência de assistência por meios voluntariados.
Contemplamos as práticas interventivas como condições positivas para a facilitação de possível experiência mutativa, e enfatizamos que estamos nos posicionando de forma mais livre, segundo as mudanças de paradigmas da ciência, mas continuamos a utilizar o conhecimento psicanalítico. Vale retornarmos ao pensamento de Winnicott.
O autor (1962/1983) descreve, com aparente simplicidade, sua forma de praticar psicanálise, diferenciada de uma análise padrão clássica, mas aquela em que se observa o crescimento e o desenvolvimento emocional daquilo que havia se paralisado ou sido suspenso na constituição original do desenvolvimento psíquico. Reconhece a aplicabilidade da análise padrão, mas “para aqueles que podem tolerá-la”, e inclui em suas perspectivas a modificação proposta em ser um analista, versado na técnica psicanalítica clássica, mas que tenta satisfazer as necessidades de um caso específico, mediante a elaboração constante de um diagnóstico. Escreve o autor (idem:155):
Se nosso objetivo continua a ser verbalizar a conscientização nascente em termos de transferência, então estamos praticando análise; se não, então somos analistas praticando outra coisa que acreditamos ser apropriada para a ocasião. E por que não haveria de ser assim?
Ao mencionarmos a inclusão de práticas interventivas no interjogo relacional com o paciente, nos valemos da importante contribuição de Aiello- Vaisberg (2004) ao refletir sobre as várias formas de intervenções que possam se apresentar num contexto terapêutico sem a “decodificação de significados” como sustentação, segundo os paradigmas winnicottianos. Escreve a autora (idem:184):
O terapeuta pode recorrer a metáforas, comparações, historinhas, anedotas, provérbios, trocadilhos, duplos sentidos, gíria, neologismos, citações, poesias, canções, dramatizações, desenhos, pinturas, confecção de arranjos florais e tudo o que a criatividade pessoal lhe venha a permitir.
Ainda atrelada às idéias da autora na compreensão do despertar de experiências mutativas, Aiello-Vaisberg (idem:49) afirma que o verdadeiro fundante dessa mutação é “o encontro, o acontecer inter-humano”, o que incluímos assim, ainda neste tópico, a importância da análise da relação psicólogo-cliente, destacando o setting humanizado, o que também seguimos, abarcando a importante afirmação de Motta (2005), ao também enfatizar a necessidade de um encontro, na perspectiva winnicottiana, para a evolução do desenvolvimento emocional.
Faceta constitutiva básica do psiquismo estaria presente desde o início, quando nascemos, ou melhor, mesmo antes do nosso nascimento: a tendência humana em buscar o encontro com o outro, com o que é necessário, com o que é vital ao seu desenvolvimento e constituição (MOTTA, 2005:282).
Assim, prosseguimos nossa análise inserindo apontamentos teóricos importantes para a concepção do desenvolvimento evolutivo sustentado pelo encontro inter-humano.