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“A televisão é e será aquilo que nós fizermos dela.”

Arlindo Machado26

Não chamaríamos este capítulo das conclusões. Afinal, o objetivo ao longo deste

trabalho foi o de pensar e discorrer sobre as questões que envolvem a relação da criança com

sua TV. E à medida que se desenrolavam as abordagens, nossas conclusões iam permeando o

texto, desde as opções teóricas, passando pelos conceitos sugeridos, pelo estudo metodológico

e nas análises dos dados colhidos na pesquisa de campo.

No entanto, alguns aspectos se destacaram ao longo do trabalho e não tiveram a

oportunidade de serem mais bem aprofundados, em função da especificidade da abordagem

naquele momento, focada nas concepções conceituais ou nos dados empíricos. Mas deles se

apontam novas sugestões e incentivos ao debate e às especulações que retomamos a partir

deste momento, na tentativa de extrair novos apontamentos e, aí sim, novas conclusões.

5.1. O aspecto sócio-econômico

Diferentemente das metodologias inspiradoras de boa parte da pesquisa de campo

desta pesquisa, houve aqui uma preocupação em estudar dois micro-universos distintos. As

crianças da escola privada do bairro Cabeças e as crianças da escola pública do bairro Pocinho

são representantes das pontas sócio-econômicas que margeiam o poço social da má

distribuição de renda do país. A intenção de estudar ambas as escolas sob os mesmos aspectos

da sua relação com a TV vinha no sentido de se comprovar, ou não, que, em se tratando de

relações, elas são dependentes do meio onde as crianças vivem. Existindo essa distinção,

comprova-se, em contrapartida, que se trata mesmo de relação com a TV e não apenas de

transmissão. Ou seja, a televisão não é um aparelho de mão única sua programação se

relaciona de forma diferente com diferentes públicos, em diferentes situações. Não há uma

televisão e uma massa de crianças sendo manipulada de forma igualitária, como um rolo

compressor. Há várias TVs e há várias crianças, dependentes de todo o complexo contexto

social que as circunda para, então, serem definidas as suas relações.

Pelas respostas apresentadas no capítulo anterior, fica comprovado o quanto isso é

verdade. Principalmente no que se refere ao que ‘faz sentido’ e ao que é de ‘valor’ para essas

crianças, vindo de sua relação com a TV. Utilizando apenas um dos exemplos, a questão da

violência, podemos refletir o quanto para as crianças do Arquidiocesano a violência ‘faz

sentido’, mas não necessariamente tem ‘valor’. Eles sabem o que é, conseguem identificar

onde existe em sua TV e chegam mesmo a rejeitá-la, mas não é algo que necessariamente vá

além da significação, que tenha um ‘valor’, seja positivo seja negativo. Está além de seu

universo, não do meio-ambiente, mas de desejo de apropriação, tanto de experiência quanto

de conhecimento. O processo se inverte para essa turma quando o tema é sexualidade, esse,

sim, de ‘valor’, ligado a seus desejos, não sexuais, mas de entendimento, de experimentação,

de apropriação do mundo, o seu mundo carregado de referências sexuais.

Já nas turmas do Pocinho, a violência certamente é bem mais presente do que as

referências midiáticas da sexualidade das classes mais privilegiadas e, portanto, é natural que,

na relação com a TV, ela, sim, é que tenha ‘valor’. A sexualidade, por sua vez, ‘faz sentido’, é

crianças conhecem a violência pela proximidade, não pelo que é noticiado pela televisão,

embora façam o laço social entre os dois. Daí sua caracterização como relação social.

Por outro lado, o que nos dá esperança de podermos elaborar projetos em prol das

crianças é que, se há o que as distingue, haverá sempre o que as une. Criança,

independentemente de classe social, gosta de se divertir e de brincar, é ávida pela socialização

com crianças e adultos, tem os pais em alta conta e como referência e valoriza as regras para

entender melhor o que se passa e se colocar em sintonia com o mundo. As crianças têm seu

mundo próprio povoado por criaturas cheias de nonsense, com uma moral duvidosa e

inadaptável. Mas essas referências, falta de senso, moral e adaptabilidade, têm mais a ver com

a nossa visão de adulto de um mundo perfeito, não com a visão delas. Assim, buscamos o

tempo todo as nossas vozes nas crianças, sem nos darmos conta de que precisamos escutar as

delas primeiro e, igualmente, observá-las em suas relações sociais, incluindo a com a TV,

presença constante em suas vidas.

5.2. As regras do brinquedo televisivo

Um dos destaques dos resultados da pesquisa de campo foi o respeito e o desejo pelas

regras, pela autoridade, na relação da criança com a TV. Tais dados fortalecem o

entendimento da TV como uma espécie de brinquedo, na concepção vigotskiana, mas também

ajuda a desmistificar a televisão como o lugar onde a autoridade dos pais é sobreposta por

uma ilusória hegemonia do meio sobre a criança.

A questão da regra não é inédita, pois Piaget, em 1932, já demonstrava que até mesmo

as crianças pequenas têm valores como o gosto pelas regras e disciplina. Conforme TAILLE

infantil, ao pensamento lógico e à questão do conhecimento que a criança tem do mundo. Tal

isolamento, no entanto, ao invés de descredenciá-lo como referência e participante desse

diálogo, nos fortalece, pois é contemporâneo do Vigotski e, se não bebiam da mesma fonte

referencial, no mínimo, foram influenciados pelas mesmas preocupações de seu tempo. Uma

dessas preocupações de Piaget era ter “no estudo da criança um acesso privilegiado ao

conhecimento do Homem” (TAILLE, 1994: 17). Para ele, “A moral infantil esclarece, de

certo modo, a do adulto.” (PIAGET, 1994: 22)

Piaget só retorna ao tema quando, justamente, vai tratar da “socialização da criança e

de sua afetividade” (TAILLE, 1994: 16). Seguindo sua metodologia de dividir em etapas o

desenvolvimento da criança, Piaget também caracteriza em estágios a interpretação e/ou

assimilação das regras. No terceiro estágio, que engloba as crianças na faixa etária que

abordamos nesta pesquisa, é que, não por coincidência, elas começam a abrir mão da

operacionalidade psicomotora oferecida pelas regras nos dois primeiros estágios e mudam

seus interesses para a interação social. Segundo observou: “O jogo tornou-se social.”

(PIAGET, 1994: 46). Como a maioria das regras é dada pelos adultos, fica comprovada a

importância da referência de pais e responsáveis na construção e estabelecimento de regras.

Mesmo que se acredite que as crianças devem ter liberdade para crescer de acordo com suas

aptidões e necessidades, as regras devem ser negociadas.

As regras morais, que a criança aprende a respeitar lhe são transmitidas pela maioria dos adultos, isto é, ela as recebe já elaboradas, e, quase sempre, nunca elaboradas na medida de suas necessidades e de seu interesse, mas de uma vez só e pela sucessão ininterrupta das gerações adultas anteriores. Daí, a extrema dificuldade de uma análise que deveria distinguir o que provém do conteúdo das regras e o que provém do respeito da criança pelos próprios pais (PIAGET, 1994: 23).

Por que a televisão não tem regras claras se tudo o mais tem? A criança já cresceu,

entendeu e se diverte em seu mundo demarcado por regras, especialmente dadas pelos mais

velhos. Portanto, é natural que estranhe sua ausência e queira que um de seus brinquedos

regras dadas pelos adultos não é a inexistência de qualquer regra. Elas sempre irão existir e a

criança as buscará em outros lugares. O ato de assistir a televisão, se não é regulado, será

ritualizada pela própria criança. As regras ou o ritual darão um sentimento de obrigação se

transformada em uma operação social, um acordo consigo mesma que, na realidade, deriva de

acordos com a expectativa dos outros, algo que para a criança terá mais ‘valor’ do que ‘faz

sentido’. Em resumo, a importância que o entorno dá à interação com a TV, assim como as

regras que este entorno estabelece para as relações telespectador/televisão, será a base para a

própria relação da criança com a TV e as regras estabelecidas.

Piaget se inspira em Bovet sobre o sentimento de obrigação para quem “só aparece

quando a criança aceita imposição de pessoas pelas quais demonstra respeito” (PIAGET,

1994: 52). Daí que corresponder à expectativa da criança e estabelecer regras negociadas e

explicadas sobre a relação com a TV só deve ter resultados positivos (assim como em todas as

demais relações sociais vividas pelas crianças). O problema no caso da TV é sintonizar o que

os adultos querem impor com o seu próprio exemplo, ou seja, demonstrar coerência entre a

sua própria maneira de se relacionar com a TV com a que julga e impõe como a melhor para a

criança. Como vimos antes no discurso de algumas crianças, a TV é algo de que elas gostam,

que os adultos demonstram que gostam, mas que gostam de dizer que não gostam e que as

crianças, portanto, também não deveriam gostar. Se está confuso para quem lê, imagine para

uma criança!

É preciso distinguir, em todos os domínios, dois tipos de relações sociais: a coação e a cooperação, a primeira implicando um elemento de respeito unilateral, de autoridade, de prestígio; a segunda uma simples troca entre indivíduos iguais. (...)

[Na coação] De um lado, a criança tem logo a ilusão de um acordo o qual, entretanto,

segue apenas sua própria fantasia. Por outro lado, o adulto abusa de sua situação, em lugar de procurar a igualdade. No tocante às regras morais, a criança intencionalmente se submete, mais ou menos por completo, às regras prescritas. Mas estas, permanecendo, de qualquer forma, exteriores à consciência do indivíduo, não transformam verdadeiramente seu comportamento. É por isso que a criança considera a regra como sagrada, embora não a praticando na realidade. (...) Veremos, realmente, que a cooperação entre iguais não só vai mudar pouco a pouco a atitude prática da criança, mas ainda, fato essencial, vai fazer desaparecer essa mística da autoridade (PIAGET, 1994: 58).