Dando continuidade às perguntas anteriores, tentamos investigar um pouco mais a
presença dos pais na relação da criança com a TV. Com essas questões, e as outras que a
complementam, queríamos entender se, havendo limites pré-estabelecidos, a própria criança
era ciente de sua condição de criança e, portanto, dependente de referências. Os resultados
canadenses, que motivaram essa investigação, eram animadores, pois indicavam que as
próprias crianças daquele país solicitam limites.
Gráfico 15 – A busca do limite pelas crianças
55 45 78,57 21,43 75 21,42 0,00 20,00 40,00 60,00 80,00
Turma A-1 Turma A-2 Turma B
Você acha que seu pai/mãe/responsável DEVEM PROIBIR você de ver algum programa de TV? - %
Sim Não
A parte quantitativa da pergunta já demonstrou que boa parte das crianças quer as
referências dos pais. Mais uma vez a turma A-1 demonstrou seu perfil um pouco mais
independente, mas a maioria ainda solicitou a presença dos pais nas proibições. As turmas A-
2 e B apresentaram números parecidos, com menos de um quarto das crianças afirmando que
não querem os pais proibindo programas.
Quando solicitadas que explicassem o porquê elas acreditavam que os responsáveis
deveriam proibi-las de ver algum programa de TV, as respostas basicamente se restringiram a
quatro grupos e uma curiosidade, que interagem entre si, mas que permite uma classificação:
1) o fato de serem crianças e, portanto, não poderem ter tudo e serem limitadas pela
autoridade, conhecimento e sabedoria dos pais.
“porque somos pequenos e tem programa que não devemos assistir” – A-1 “mostrar coisas que você não pode aprender nessa idade” - B
“ela sempre quer o bem de seus filhos” – A-2
2) os programas têm conteúdo violento ou impróprio (poderiam se encaixar no item
anterior, mas como as crianças foram muito específicas nas respostas, vale a pena a distinção).
“programa com muita violência e programa indecente” - B
“que tem vez que passa algumas coisas ruins que a gente não pode ver” – A-1 “tem muita coisa errada na TV” – B
3) relativo ao uso do tempo da criança.
“porque eu tenho que fazer a lição de casa” – A-1
4) causa distúrbios nas crianças, principalmente de sono.
“nós podemos sonhar com o que passou na TV” – A-2
“porque os programas citados acima meus pais sabem que, a noite eu tenho pesadelos se eu assistir” – B
E, por fim, duas respostas na turma B que poderiam ser encaixadas no item dois, mas
ainda que permanecem multiplicando as versões de meios de comunicação como formadores
da mente.
“porque vou ficar com a cabeça manipulada pela violência e esquecer coisas boas da vida”
“vou me influenciar por luta”
Agrupadas as respostas, a grande maioria se refere à necessidade da proibição pelo
fato de não estarem preparadas para um conteúdo que lhe é impróprio.
Gráfico 16 – Os motivos pelos quais os pais devem proibir – por motivo
Embora o campo que perguntava “por quê?” viesse logo depois do “sim” para que as
crianças justificassem sua resposta, boa parte das que responderam ‘não’ quiseram se
justificar. Principalmente a turma B que reforçou o seu perfil de as crianças se acharem mais
‘crescidinhas’ e, como tal, terem direitos especiais.
“porque eu tenho meus direitos” “eu já sou crescido”
“porque quando eu crescer não proibir meus filhos” “eu tenho o meu direito de assistir o meu programa”
Se investigarmos a fundo de onde estarão vindo essas vozes, certamente, poderemos
encontrar os direitos da criança e do adolescente, como política pública nacional e mundial, Por quê? - %
(os pais devem proibir determnados programas)
Causa distúrbios 11% Manipulação 5% Conteúdo violento/ impróprio 34% Referencia a serem crianças 39% Relativo ao Tempo 11%
sendo debatidos em sala e nas casas dos estudantes do Arquidiocesano. A questão dos direitos
não era o objetivo da pergunta, mas nos pareceu uma a oportunidade de presenciar,
tangencialmente, um possível resquício de ZDP. Embora não saibam exatamente quais são
seus direitos e deveres, as crianças já têm uma noção de suas diferenças na sociedade e que há
regras que as defendem. Como se chegou a tais elaborações, foi criada uma ZDP?
Possivelmente, um professor expôs uma necessidade da criança – a de ser defendida –, buscou
no social as referências – a luta pelos direitos das crianças e dos adolescentes e as regras da
humanidade para isso – e as colocou em pauta de discussão com as crianças. Desse processo,
surgiu uma criança mais amadurecida, que teve sua relação com o mundo e sua própria
percepção alteradas. Uma criança que reconstruiu e se apropriou de uma operação externa
para depois internalizar. Embora a criança ainda não tenha o domínio de que direitos são
esses, e se são justos ou não, certamente, eles ganharam um destaque, saíram de algo que ‘faz
sentido’ para algo de ‘valor’, que vai usar socialmente quando lhe for conveniente, como no
caso de suas respostas durante esta pesquisa.
Paradoxalmente, a turma B foi a mesma que mais pediu o uso de autoridade pelos
pais. Será que essas crianças, por se verem com direitos de criança, se percebem mais como
tal e, portanto, têm que ser submetidas à autoridade? Se, por um lado, elas se distinguem de
uma categoria específica de criança (não mais a criancinha que assiste a Xuxa), por outro
lado, enxergam que ainda não saltaram para uma categoria mais adiante, com mais autonomia
em relação aos pais? A investigação não chega a essa profundidade, mas é certo que as
crianças têm noção de si mesmas como propensas a limites, mesmo com direitos
estabelecidos.
Uma pista pode ser obtida a partir do número de respostas por categoria. Quando
olhadas por turmas, há novas evidências de distinções. Nas demais turmas, além da B, a
abordado pela escola. Neste caso, no entanto, as poucas crianças das turmas A-1 e A-2 que
defenderam não serem proibidas não reivindicaram ‘direitos’, mas apenas demonstraram que
acreditam ter uma relação sadia com a TV e, portanto, não passível de proibições.
“porque a gente gosta muito de televisão ela não deve proibir” “eu só assisto coisa boa”
Talvez, neste sentido, as crianças não enxergaram uma questão de direitos, pois não se
tratava de ter ou não direito de assistirem ao que quisessem, mas de ponto de vista diferente
da voz que proíbe.
Gráfico 17 – Os motivos pelos quais os pais devem proibir – por turma
A maioria da turma B ratifica sua condição de crianças e, portanto, os pais devem
proibi-las. O conteúdo impróprio, principalmente a violência, não é questão preponderante
como para as turmas do Pocinho, tema que, mais uma vez, aparece como importante na
relação com a TV para as turmas A-1 e A-2. No caso da turma A-2, ainda um fator
complementar: a preocupação com distúrbios causados pela programação, em especial ao
surgimento de sonhos, pesadelos e reflexos emocionais. Tal preocupação é preponderante
nessa turma e reflete a condição social e psicológica em que estão inseridas essas crianças.
Com a sensibilidade à flor da pele, em função das situações por que passam, são naturais os
distúrbios e, infelizmente, deve ser apenas uma das conseqüências do seu modo de vida.
27,27 45,45 18,18 36,36 4,55 54,55 27,27 9,09 4,55 0,00 20,00 40,00 60,00 Turma A-1 Turma A-2 Turma B Por quê? - %
(os pais devem proibir determinados programas)
Relativo ao Tempo Referencia a serem crianças Conteúdo violento/impróprio Manipulação
Há outra questão que permeia essas respostas: a moral. De qual moral estaríamos
falando, a das crianças ou a dos adultos? Nesse ponto, vale fazermos uma ressalva
metodológica. Temos a consciência das limitações e dos perigos que envolvem as análises.
Principalmente no que diz respeito às análises das crianças quanto a questões como moral,
autoridade, desejos e atribuição de valor. Não é uma preocupação menor, nem inédita, mas
que não encontra muitas soluções a não ser a de correr riscos e tentar cercar, da melhor
maneira possível. E, conforme Piaget, oferecer a experiência da pesquisa para sua replicação,
análise crítica e julgamento, confirmando ou não o descrito aqui. Diz ele:
o grande risco, principalmente quando se trata de moral, é fazer com que a criança diga tudo o que desejamos. Contra isso, nenhum remédio é infalível, nem a honestidade daquele que interroga, nem as precauções metodológicas (PIAGET, 1994: 21).