As crianças tinham que responder quais os três programas preferidos na TV. Não
havia qualquer restrição, podendo colocar quaisquer que fossem, independente de dirigidos
para eles ou não. Com as exceções que veremos a seguir, não houve uma concentração em
determinados programas e as crianças mostraram um grande repertório de sua preferência,
diluindo o rol de respostas. A porcentagem abaixo corresponde ao número de crianças que
citou o referido programa.
Nas escolhas das crianças, há, antes de tudo, três pontos a serem lembrados. A
que, certamente, tinham na primeira referência. Em segundo lugar, a falta de opções na parte
da tarde, quando as turmas do Pocinho estão em casa, o que pôde refletir na preferência pelas
novelas do final do dia. A turma do Arquidiocesano está livre pela manhã, quando há uma
oferta muito maior de programas que à tarde. Ainda assim, por último, houve uma diluição
importante nas escolhas, com 54 programas diferentes sendo citados. Posto isso, vamos tentar
ir além dessas limitações para a interpretação dos dados.
TABELA 3
Os programas de TV preferidos
Turma Quais são os seus TRÊS PROGRAMAS de TV PREFERIDOS? % Crianças
A-1 Malhação e Kubanacan (novela) – Rede Globo O Pequeno Urso – TV Uni-BH Inconfidentes
Agora é que são elas (novela) – Rede Globo Desenhos
Mulheres Apaixonadas (novela) – Rede Globo
45 (cada) 35 25 20 15 A-2 O Pequeno Urso – TV Uni-BH Inconfidentes
Chaves/Chapolin - SBT
O Sítio do Pica-Pau Amarelo – Rede Globo
71,43 28,57 21,43 B Bob Esponja – Rede Globo/Nickelodeon
TV Globinho – Rede Globo
Dragon Ball Z – Rede Globo/Cartoon Netwook
Mulheres Apaixonadas/Jackie Chan/A Grande Família – Rede Globo
46,43 32,14 25
17,86 (cada)
Há distinções importantes que parecem refletir uma certa ‘personalidade’ das turmas.
Na turma B, que se julga mais ‘madura’ e não gosta de programas para ‘criancinhas’, os
desenhos são os preferidos. Em seu discurso está o desejo da realização na expectativa do
outro, mas gostam de assistir ao que é feito para elas, programas para crianças. Já nas turmas
do Pocinho, as preferências também se mostram muito distintas. A turma A-1 parece ter um
perfil mais maduro, ainda que sem a preocupação em se mostrarem maduros, mas já
refletindo a mudança de seus anseios. Os mais citados foram as novelas, muito embora com
um perfil de conteúdo e estético mais jovem, irreverente, circense e cômico que as novelas
tradicionais. No entanto, a lembrança do O Pequeno Urso e a citação dos desenhos em geral
uma demonstração de seu apego à infância lembrando dos programas diretamente dirigidos às
crianças, mesmo tendo um perfil etário mais velho.
O Pequeno Urso é mesmo um caso à parte. Sequer citado pela turma B, foi lembrado pelas turmas do Pocinho ainda mais que na fase de escolha dos programas para a pesquisa em
casa. Será que, incentivados pela pesquisa, observaram com mais atenção e, portanto,
passaram a gostar ainda mais do programa? Na turma A-2, quase foi uma unanimidade. O que
há nesse programa simples que é tão empático com essas crianças? Houve a criação de uma
ZDP onde, incentivados, eles partiram para uma nova interpretação do programa e
desenvolveram uma nova relação com seus personagens? Tentaremos compreender essa
questão a partir das respostas qualitativas.
Voltando à diversidade do repertório lembrado pelas crianças, dos 54 programas
citados, 37 (68,50%) eram voltados para o público infanto-juvenil. Aqui está uma das
questões mais discutidas na relação criança e TV: afinal, as crianças gostam mais de
programas de adultos ou dos infantis? Há tanto pesquisas que apontam que as crianças
preferem os programas para adultos em detrimento dos infanto-juvenis quanto as que
contradizem parcial ou totalmente essa afirmação (SAMPAIO, 2000: 174-175). No entanto,
no caso das primeiras, geralmente, são frutos de dados estatísticos ligados à audiência, em
amplas pesquisas quantitativas desenvolvidas por institutos generalistas como o IBOPE.
Nesses casos, o que ocorre é perceber que, nos programas voltados aos adultos, há uma
grande audiência infantil. No entanto, não é computado alguns fatores significativos: a falta
de opções de programação para a criança nos horários ditos nobres, a necessidade da criança
de compartilhar momentos com os adultos, a pouca oferta de programas infanto-juvenis na
grade de programação em geral.
Portanto, a hipótese é que não necessariamente a criança gosta mais de programas
momentos de lazer e, menos ainda, em que podem compartilhar com os adultos. Em pesquisas
específicas realizadas com crianças e jovens (PACHECO, 1998; REMOTO CONTROLE,
2004), aparecem como programas preferidos àqueles dedicados a esse público. Na realidade,
o que se deve questionar é essa categoria ‘programa infantil’ ou ‘programa infanto-juvenil’.
Uma das primeiras atividades realizadas durante a pesquisa de campo era pedir aos
alunos que listassem, para que fossem anotados no quadro, os tipos de programas que existem
na TV. A intenção era que eles mesmos indicassem os ditos ‘infantis’ para a pesquisa, em
uma abordagem posterior. Nas turmas A-1 e A-2, foi listada uma grande lista: novela, filme,
jornal, desenho, comédia/humor, jogos. Não apareceu a categoria ‘infantil’. Quando
perguntados se não haveria um tipo ‘infantil’, as crianças se mostraram um pouco surpresas,
como se não entendessem que haveria uma categoria específica para elas. Na turma A-2,
houve consenso em torno da observação feita por uma das crianças de que não há essa
distinção, já que “meu pai assiste e gosta do Chaves e eu gosto dos jornais”.
Como lembrado por Pacheco (1998), a criança exorciza seus monstros interiores e o
que a assusta pelos jogos, pelo lúdico. Diz ela, “Perder-reparar, aparecer-desaparecer, pegar-
largar, abrir-fechar são os temas que a criança tenta entender, para explicar” (ibid: 34). Ou
seja, o que ela gosta é da fantasia para elaborar suas perdas e materializar seus desejos,
incorporar e ser incorporada na realidade que a cerca. Groebel (2002: 71), em pesquisa
mundial com crianças de 12 anos em 23 países, dentre eles o Brasil, mostrou que o que as
crianças gostam mesmo é de histórias de crimes ou ação, ficção científica e horror, seguidas
por música e histórias de amor: “Um número menor (7%) afirmou que o noticiário era seu
programa favorito”. Portanto, a fantasia impera e é ela que dita as preferências, podendo estar
em um desenho animado ou em uma novela.
A categoria ‘infantil’, então, parece ser criada pelos adultos na tentativa de enquadrar
citada pela turma B, que lembra também dos programas ‘educativos’, mas suspeitamos que
isso se deve justamente ao fato de, em contato com a variedade segmentada da TV paga, a
criança ‘aprende’ que existe um canal de televisão para cada coisa, inclusive para criança e
para se educar.
Como lembrado por Magda Soares (2003a), Carlos Drummond de Andrade já
duvidava da existência de um gênero específico de ‘literatura infantil’ como se a criança fosse
um ser à parte, reclamando uma literatura também à parte. De fato, são seres distintos dos
adultos e, portanto, sua literatura e televisão têm características que reforçam essa distinção.
Mas essa especificidade ‘infantil’ é costumeiramente associada a um peso quase
obrigatoriamente educativo. Como se, para ser literatura infantil, um livro tem que ter uma
‘missão nobre’. Como visto, essa é uma visão do adulto e não coincide com a das crianças.