Com essa questão aberta, ficou mais evidente a diferença entre as turmas. São visões
distintas do que seria aprender e relações opostas com a TV.
Na turma B, quando perguntamos o que a criança, sob seu ponto de vista, aprende nos
programas apontados anteriormente, as respostas apontam para uma visão mais ‘globalizada’.
Além de não se aterem aos programas citados e nem mesmo aos estudados durante as
atividades, as respostas remetem ao mundo, ao meio-ambiente, ao que está lá fora.
“notícias sobre minha região e sobre o mundo todo”24
“sobre a natureza, agricultura, cultura do povo brasileiro e animais” “a vida dos animais, culturas de outras regiões e etc”
“aprende a preservar a natureza”
“coisas que a gente não aprende na escola coisas boas coisas legais”
“Eu aprendo que o salário mínimo está aumentando e abaixando, os acidentes que estão acontecendo, só aprende na novela a namorar”
24 As respostas das crianças são copiadas como escritas, respeitando a pontuação e concordância original, pois
uma intervenção poderia alterar o sentido. Só foi alterada a grafia das palavras erradas, pois não afeta o entendimento e respeita o atual estágio da criança. Não há edição das respostas e, quando citadas, estarão sempre inteiras.
Nesta última resposta, aparece o que vai se diferenciar em relação às turmas do
Pocinho. Nas poucas respostas que trata do ‘aprender’, sobre comportamento, ou algo que lhe
diga respeito diretamente, não ao de fora, mas ao que se tem para si, as respostas são tão
pragmáticas quanto esta última.
“como fazer origames”
“No Mais Você eu aprendo artesanato e culinária coisas que eu gosto e no Globo Ciência eu aprendo a ciência de hoje em dia”
“Ilha – como a amizade é importante e como sobreviver em uma ilha deserta. Alô. Como são as coisas, quem as inventou, como era antigamente...”
Portanto, ‘aprender’ para essas crianças é algo que acrescenta mais ao que já têm. Que,
ao mesmo tempo, faça com que entendam seu mundo externo, amplo, globalizado e lhes dê
instrumentos para atuar no seu dia-a-dia. Uma espécie de global-individualizado. Lembrando
nosso conceito de educação, aprender para essas crianças é se formar para o mundo.
Lembrando mais uma vez Charlot (2000), aprender está ligado ao que tem ‘valor’ para a
criança, e é o que vem do amplo para si e estabelece uma relação que a impulsiona a um ato,
que seja de simples incorporação da informação ao seu repertório primário ou uma prática
lúdica ou concreta. O que está próximo e ‘faz sentido’ termina em si mesmo, mas para o que
tem ‘valor’ o mundo é o limite.
“Ilha Rá-Tim-Bum eu aprendo a respeitar mais a natureza. Fantástico eu aprendo várias coisas que acontecem no mundo todo”.
“escrever palavras, cuidar do meio ambiente, cuidar do corpo, e é legal”
Assim, a relação dessas crianças com a TV evoca a metáfora de ‘janela para o mundo’.
A TV é onde se espera descortinar esse grande mundo lá fora, mas sem perder a perspectiva
do indivíduo, que precisa saber coisas que este mesmo mundo, embora não seja cobrado nos
currículos escolares, vai exigir para a sua integração e interação. Uma relação com um colega
mais velho e experiente, talvez um tio viajado que irá conduzi-las pela mão para o mundo e
As turmas do Pocinho responderam, em grande parte, sobre os programas que citaram
na questão anterior. E ficaram quase que em contraposição à turma B. Se, nesta última
poderíamos visualizar a relação da criança e a TV como uma menina ou um menino
debruçado sobre uma janela olhando para fora, para o mundo, nas turmas do Pocinho, o
quadro muda de direção. É a da criança debruçada na janela olhando para dentro de seu
cotidiano, para suas relações, seu comportamento. Não deixaram de referendar o mundo,
principalmente sobre a questão da preservação do meio-ambiente, temática bastante explorada
no meio escolar, sendo natural o seu aparecimento (‘faz sentido’). Mas as respostas bem
elaboradas da maioria dos estudantes tinham as relações como aquilo que tem ‘valor’.
“que a gente deve ajudar os outros, que a gente deve compartilhar com os outros, e que não devemos maltratá-los” – A-1
“conviver um com os outros, ajudar a quem precisa e seremos ajudados também e felizes” – A-1
“Eu aprendo nestes programas a ser amigo, bom e amável” – A-1
“eu aprendo a respeitar meus pais e ensina também a saber amar as pessoas e tudo que existe” – A-2
“aprendo alguns conceitos sociais, como amizade, amor respeito. Na novela eu aprendo a preservar o meio ambiente” – A-1
O Pequeno Urso ganha destaque e dá indícios do seu sucesso: as relações com os outros.
“No pequeno urso eu aprendo a conviver com os outros e fazer amizade e outros conceitos” – A-1
“Em Pequeno Urso eu aprendi a tratar meus amigos bem como o Pequeno Urso” – A-1
“eu aprendi a compartilhar a viver, ser bom como a mãe de Pequeno Urso ser bons com nossos amigos como o Pequeno Urso” – A-1
“coisas boas e coisas ruins no Chaves. No Pequeno Urso só aprendi coisas boas” – A-2
Malhação pega ‘carona’ na avaliação que as crianças fazem na análise d’O Pequeno Urso, mas sem os seus principais atributos. As respostas em relação ao primeiro são pragmáticas, no segundo são sobre as relações:
“na Malhação aprende a estudar. No Pequeno Urso aprendo a ser educado com as pessoas” – A-2
“em pequeno urso eu aprendi a respeitar, não maltratar os animais. Em Malhação eu aprendo ser bons amigos” A-1
“Em Pequeno Urso eu aprendi a tratar meus amigos bem como o Pequeno Urso. Em Malhação eu aprendi com algumas com o namoro da Júlia e o Pedro” – A-1
Há também alguma diferença entre as respostas das turmas A-1 e A-2, embora não
exatamente de conteúdo e nem muito profunda. As respostas A-1 são elaboradas, há várias
citações sobre ‘convívio social’ discutido em sala e é mais explícita a preocupação com as
relações. A turma A-2 também tem respostas elaboradas, mas mais diretas e relacionadas ao
comportamento.
“a respeitar não brigar não pegar as coisas do outro não xingar as pessoas agradecer a minha mãe ter amizade com as pessoas e ter amigo”
“ter educação, obedecer os pais, ser disciplinado, ter amigos”
‘Aprender’, sob o aspecto de sua relação com a televisão é, para as crianças do
Pocinho, formar-se para o seu cotidiano, não para o vasto mundo. A relação com a TV é a do
amigo próximo que irá caminhar pela rua, falar sobre suas famílias, ajudar a entender o que é
certo ou errado e brincar com que lhe é próximo.