4. BULGULAR VE YORUM
4.1 Birinci Alt Probleme Ait Bulgular
4.1.1 Soru 1
Um dado bastante interessante encontrado durante a realização das entrevistas, é que mesmo com a presença de espaços de lazer e convívio coletivo, a utilização por parte dos moradores é bastante baixa, sendo mais frequente entre aqueles que possuem filhos ainda crianças e entre os entrevistados que passaram parte da infância em enclaves fortificados residenciais. A convivência entre vizinhos também não se realiza de maneira frequente, sendo a relação estabelecida entre eles, em sua maior parte, de modo não íntimo e superficial, sendo
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classificada pela maioria dos entrevistados como de “conhecidos” por se tratar de contato visual e cumprimentos cordiais.
Ao contrário do que pode sugerir a presença de uma estrutura que possua espaços para interação e lazer, bem como em um formato que sugira uma suposta vida em comunidade como são os enclaves fortificados residenciais, esta estrutura não é capaz de realizar por si só a existência de um sentimento de comunidade que no termos de Bauman (2001), sendo as relações sociais estabelecida entre moradores de maneira bastante distanciada, não são muito diferentes das que estes estabeleciam com os antigos vizinhos dos bairros abertos, segundo alguns deles.
Um dos motivos apontados pelos entrevistados pela não frequência deles às áreas de lazer foi a falta de tempo decorrente do trabalho. Já com relação a existência de uma relação distanciada entre vizinhos, os motivos apontados foram a busca por privacidade, ao tempo reduzido para o contato, e a individualismo das relações sociais contemporâneas.
Segundo Jacobs (2000), não é apenas a presença de espaços que em tese favorecem o convívio e o contato que este ocorrerá, e além da presença de praças e playgrounds, o que determina o convívio é a sensação que este espaço proporciona. No caso dos enclaves fortificados residenciais, a presença de áreas de playgrounds retira as crianças e os adolescentes da vigilância dos pais, já que muitas delas frequentam tais espaços sozinhos, onde acaba não integrando os moradores, já que se apresenta mais como uma setorização do empreendimento.
Outro aspecto que demonstrou estar relacionado ao baixo índice de convivência entre os moradores é o comportamento que se encontra entre eles, como a postura de reserva, que é em parte explicada pela própria concepção de “modo de vida” desse grupo, que compreende a convivência mais intensa das áreas coletivas como uma associação às práticas da população mais pobre, um dos motivos que favorece essa recusa. Além disso, a oferta desses espaços nos empreendimentos nem sempre é considerada como um fator atrativo para sua utilização, mas sim como um diferencial a mais de um com relação ao outro, entrando assim na lógica dos bens simbólicos.
Quando perguntado sobre a possibilidade da existência de relações próximas entre moradores, da possibilidade de ajuda e colaboração entre eles um dos entrevistados de Marília respondeu:
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Eu acredito que são possíveis, mas não sei até que ponto elas são possíveis desprendidas de um motivo coletivo. Falo em termos mais claros, nessa reunião de condomínio várias pessoas se ofereceram para contribuir com o coletivo ali a partir da sua formação profissional. Os dois rapazes que estão como síndico e subsíndico um é contador e o outro fez administração e já trabalha em uma grande empresa há muitos anos. E formou-se uma comissão para poder acompanhar as obras de manutenção e o próprio processo de entrar na justiça contra a construtora. Essa comissão está sendo presidida por uma arquiteta e essas pessoas se mobilizaram justamente em função da experiência que elas têm. E disseram “não, eu posso contribuir porque sou arquiteta” o outro também por ser advogado e curiosamente se dispondo dentro de suas próprias limitações.
O rapaz que é advogado disse que se dispõe a advogar só que ele não tem como ser responsável pela causa porque ele tem um volume muito grande de trabalho, involuntariamente ele disse que não teria condições, mas ele está li enquanto morador pra acompanhar o advogado contratado, para dar prosseguimento como representante dos moradores. Então eu digo existe um motivo coletivo ali e essas pessoas se mobilizaram, mas não sei até que ponto um vizinho auxiliaria o outro em outro fato pontual desprendido de um motivo pessoal. Isso eu já não sei. (Gestor de Cultura, 27 anos e morador há um ano em um enclave fortificado residencial de Marília)
Em um relato semelhante, um entrevistado de São Carlos conta um pouco sobre sua relação com seu vizinho e sobre as relações sociais dentro do enclave fortificado que mora:
Pois é, eu conheço alguns, mas não conheço todos não tenho um relacionamento. Apesar da gente morar em um condomínio fechado as pessoas hoje elas não se relacionam muito entre vizinhos. O que mais tem é briga entre vizinhos, diferenças, rixas, picuinhas. As pessoas hoje são muito egoístas, pensam só nelas não pensam nos outros e não tem espírito de coleguismo. No condomínio isso acontece bastante, as pessoas se isolam nos seu materialismo. Elas têm as
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coisas, possuem a acham que não precisam se relacionar. Então eu não conheço meus vizinhos, os mais próximos como vizinhos de muro eu não tenho ainda, mas conheço algumas pessoas que moram aqui no condomínio, umas eu conhecia antes de vir morar aqui e outras eu conheci aqui, mas são poucos amigos. Amigos, amigos mesmo eu não tenho aqui.
E você acha que existe um sentimento de ajuda entre os moradores?
Em decorrência desse fenômeno atual, desse individualismo, das pessoas se fecharem, da falta de relacionamento entre as pessoas que começam a se relacionar cada vez menos e a se isolar em suas casas e tal eu acho que não. Eu acho que até existe um sentimento de ajuda, mas entre os amigos, aqueles amigos que já eram amigos antes de vir pra cá ou que ficaram amigos aqui. Então, o sentimento de ajuda vem pelo sentimento de amizade e não porque são moradores. Eu acho que o fato de ser morador não é um fato que motivaria a ajuda não, as pessoas não se importam não pelo fato de ser vizinho, a não ser que sejam amigos mesmo, para se mobilizar e ir ajudar. Acho que é o laço de amizade que iria no sentido da ajuda e não o laço condominial. (Advogado, 45 anos, morador há dois anos e seis meses de um enclave fortificado residencial de São Carlos).
Assim, a vida em um enclave fortificado como possibilidade de formação de uma experiência de habitar uma comunidade harmônica, onde todos se conheçam e convivam em harmonia, usufruindo e se divertindo em espaços de lazer com muita segurança não é o que se encontra na realidade dos moradores. O sentimento de isolamento e os desentendimentos entre eles se mostram presente ainda que o tipo de espaço e as ideias que se faz a seu respeito sugiram o contrário.
Como destacou Marques (2010), as formas de sociabilidade e as redes sociais tendem a variar entre os grupos de maior e menor renda. Segundo ele, os elementos “trocas, confiança, reciprocidade e intimidade” variam em grau e intensidade de acordo com a posição social que o indivíduo ocupa. Indivíduos inseridos em grupos de maior renda tendem a ter um grau mais elevado de intimidade e confiança em redes sociais mais específicas como é o caso da família e do trabalho, pois estas são mais desenvolvidas.
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Por sua condição socioeconômica não ser de dependência determinada pela precariedade, os sentimentos de confiança e reciprocidade possíveis através da prática de colaboração e solidariedade se mostram mais limitados, ou seja, a possibilidade de resolver problemas através de ações individuais colabora para que a existência de uma rede entre vizinhos e conhecidos, seja menos importante, e assim como mencionado pelo gestor cultural entrevistado, a dificuldade em se envolver em ações que não tenham uma motivação pessoal.
A postura dos moradores dos enclaves fortificados residenciais mencionada pelos entrevistados pode ser mais bem compreendida, na medida em que demonstra que a forma de sociabilidade entre muros não se diferencia daquela estabelecida por esse grupo extramuros, sendo ela caracterizada pelo menor grau de intimidade e confiança e pelo alto grau de reserva e superficialidade.
Durante uma visita a um empreendimento como possível compradora, dois porteiros que receberam a pesquisadora informalmente contaram um pouco sobre o empreendimento e questionou o motivo por querer morar em um lugar como aquele. Diferentemente da apresentação realizada por um morador ou um corretor de imóveis interessado na venda de um imóvel, os porteiros ressaltaram os aspectos negativos daquele tipo de moradia, e mencionaram que os incômodos e desentendimentos entre moradores são quase que diários.
Segundo eles, fica primeiramente a cargo dos porteiros intermediarem essas situações, e assim, se um morador se incomoda com o barulho que o vizinho está fazendo, por exemplo, este liga na portaria e pede para que seja tomada alguma providência. Segundo eles, esse tipo de situação é frequente e o contato que eles possuem entre os moradores torna possível perceber a dificuldade em um relacionamento mais amistoso entre eles.
“Se você quer privacidade e liberdade não compre casa em um condomínio fechado, porque aqui sua liberdade é determinada pelo silêncio do vizinho.” (Porteiro de um enclave fortificado residencial situado em Marília-SP)
Para um deles, a falta de privacidade e de liberdade se dá pela existência de um número muito grande de regras e regulamentos, que nem sempre são cumpridas pelos moradores e a ocorrência de “picuinhas” e desentendimentos entre eles são frequentes.
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Segundo ele, a situação é ainda pior em enclaves onde as casas ficam muito próximo uma das outras, citando o Moradas de Marília e Terra Nova Marília como exemplos.
Além da questão da privacidade decorrente da distância entre as casas e tamanhos dos lotes, outro aspecto que chamou atenção com relação às dimensões foi a diferenciação que existe entre moradores de padrões diferentes. Os níveis de status e prestígio se mostraram variáveis entre empreendimentos, dependendo do tamanho dos lotes e da estrutura que o espaço oferece, como pode ser verificado neste excerto da entrevista de um morador de um enclave de alto padrão de São Carlos, que se referia as brigas entre vizinhos que costuma atender em seu escritório de advocacia.
Sim, é bastante comum as pessoas são briguentas por natureza. As pessoas brigam muito, demais e por besteira. Principalmente em condomínios onde as pessoas ficam muito próximas acontece bastante. Aqui em São Carlos tem condomínios em que os terrenos são pequenos e as casas foram construídas muito próximas uma das outras, então isso, gera tensões, gera conflitos o tempo todo de morados reclamando de moradores. Então, o pessoal brinca e até deram apelido que é “favela de rico”, por causa dos problemas, por causa do amontoado de casas em que as pessoas ficam todas muito juntas. É um lugar onde a janela do quarto dá para a área de lazer do vizinho. Então, não tem como né? Você quer dormir e seu vizinho quer dar uma festa.
Então, são situações que geram muito conflitos, nesses condomínios menores é onde mais tem conflitos de moradores.