4. BULGULAR VE YORUM
4.3 Üçüncü Alt Probleme Ait Bulgular
4.3.2 Soru 11
A investigação acerca do processo de fortificação das cidades de porte médio, através da expansão da oferta de enclaves fortificados residenciais pelo mercado imobiliário, mostrou que este processo possui grande complexidade, não se tratando apenas de uma transformação espacial ligada a determinantes econômicos que apresenta características físicas e localização específica.
Ao analisar o processo de fortificação, diversos determinantes foram se aproximando de maneira mais ou menos direta, com participação importante na forma e no conteúdo que este apresenta.
A investigação do processo de urbanização das cidades de Marília e São Carlos apontou para a existência de um modelo urbano que se dá desde seu projeto – caracterizado pela ausência de planejamento e aparente ausência de projeto urbano por parte do poder público, mas que existe e se realiza de maneira bastante eficiente através do mercado imobiliário e que, como tal, acaba por se configurar em um projeto político na medida em que sua forma marcada pela negligência do poder público implica em uma postura por parte do mesmo – até a apreensão de seus aspectos simbólicos que determinam mudanças e padrões éticos e estéticos no decorrer de seu processo de desenvolvimento, que influenciou nos caminhos e formas que este seguiu, ora promovendo o desejo por determinado tipo de organização espacial, ora seu desprezo.
Desse modo, as experiências e vivências urbanas dessas cidades não se dão de forma exclusiva e isolada, pois se relaciona a modelos que superam o local e que se associam a modos de vida metropolitanos, tanto no que se referem aos padrões das construções alvos do desejo dos segmentos sociais que estimulam o mercado imobiliário mais intensamente, quanto pelas novas formas de sociabilidade encontradas entre seus citadinos.
Diante disso, a experiência de viver em uma cidade do interior se mostrou emaranhada por sentimentos e impressões complexas, e algumas vezes ambivalentes pelo grupo social de maior renda que tem a residência fortificada como forma de habitação, pois as impressões relatadas pelos entrevistados relacionaram suas rotinas cotidianas e experiências urbanas à experiências semelhantes a dos moradores dos grandes centros, destacando problemas como
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violência, trânsito, deficiências nos serviços público e formas de sociabilidade superficiais e conflituosas.
A adoção de medidas de segurança ao transitar pela cidade, como andar com vidros fechados, não parar nos semáforos à noite, ter cuidado ao caminhar, entre outros, são apresentados como reflexo dos sentimentos de medo e insegurança presentes no dia-a-dia na cidade, além do crescimento acelerado percebido pelos moradores, principalmente nos últimos dez anos, com o crescimento do setor industrial, expansão urbana e crescimento da frota de veículos, que apontam para um novo momento das cidades médias que se enquadram neste panorama de transformações.
Além de implicar em transformações na organização espacial e econômica dessas cidades, esse conjunto de mudanças, como se pode observar, transforma também o modo de vida do citadino do interior.
Tanto as transformações recentes vividas por essas cidades como as anteriores, estiveram ligadas a um tipo de desenvolvimento, que como na maioria das cidades brasileiras, se deu de modo concentrador e desigual, possuindo como principal resultado a condição de subcidadania. Assim, este modelo de cidade apresentou e apresenta a tendência a se distanciar cada vez mais de um projeto de cidade, no qual a heterogeneidade é tida como um aspecto positivo e propulsor do desenvolvimento do habitante urbano, construindo-se enquanto espaço do medo, do distanciamento e do não reconhecimento do outro.
Por esse motivo, a formação de paisagens fortificadas, como é o caso de Marília e São Carlos, se torna mais inteligível na medida em que se consideram os sentimentos de insegurança e desconfiança em relação ao diferente como formas de sociabilidade presentes no espaço urbano dessas cidades. Além do distanciamento físico, este tipo de organização espacial em curso nessas cidades reforça ainda mais o distanciamento social, onde o isolamento tem se mostrado como uma forma de relação segura e preferível entre os grupos de maior renda.
Assim, a segurança buscada pelos moradores dos enclaves fortificados residenciais não se liga apenas à eliminação de riscos referente à violência física e ao crime contra o patrimônio, mas está associada também ao controle e manutenção da condição de vida que possuem, ou seja, o acesso a serviços de qualidade que, no caso da habitação se refere à
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limpeza, lazer, segurança, convivência entre pares e demais elementos que colaborem para o que se chama hoje de “qualidade de vida”.
Nesse sentido o processo de fortificação em curso nas cidades analisadas, se difere do encontrado na cidade de São Paulo, no qual a busca por proteção impulsionada pela dinâmica da segurança esteve mais fortemente atrelada ao seu desenvolvimento e expansão.
A presença cada vez mais intensa desse tipo de moradia nas cidades torna claro os contornos de diferenciação social existentes entre os sujeitos que se dividem entre subcidadãos – que buscam alcançar a condição de cidadão através da precariedade e ilegalidade e a atinge parcialmente – e cidadãos privados que possuem acesso aos serviços através de meios individuais, existindo cada vez mais o mercado como meio para isso. A condição de cidadão privado, além de ser uma condição que fomenta e intensifica as condições desiguais, evidencia que a real cidadania não consegue se realizar.
Frente a isso, os enclaves fortificados residenciais se mostraram como um elemento urbano que traz a luz diversos aspectos do desenvolvimento urbano e social dessas cidades. A justificativa que mais é associada a presença desse tipo de construção costuma ser a violência urbana, mas ao se analisar mais atentamente, o crescimento de condições de desigualdade socioeconômica acentuadas, se mostra como um de seus possíveis determinantes, pois além de resultar em relações fragmentadas sócio-espacialmente entre grupos sociais de rendas distintas, o que contribui para relações permeadas pelo medo, o tensionamento das desigualdades suscita a necessidade de distinção social. Artefatos e sua posse passam a ser utilizados como comunicadores da condição socioeconômica dos sujeitos.
Assim, um dos aspectos do processo de fortificação das cidades do interior de São Paulo, especialmente Marília e São Carlos, relaciona a emergência de um estilo de vida das elites, pautado no isolamento construído através de técnicas e dispositivos de segurança e pelo desenvolvimento de uma arquitetura própria. Tais técnicas produzem artefatos, que ao serem associados a grupos sociais de prestígio e status, se tornam símbolos de distinção social e de um modo de vida elitizado.
Tendo os enclaves fortificados como carro chefe, os empreendimentos imobiliários dos mercados de Marília e São Carlos se voltam para uma forma de segregação sócio-espacial ainda mais intensa que reforça ainda mais as diferenças entre suas regiões, organizando a cidade em áreas de concentração de infraestrutura e equipamentos urbanos mais valorizados e
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destinados as camadas de maior renda e, áreas de precariedade compostas por bolsões de pobreza.
Essa dinâmica urbana de separação agressiva de espaços distintos sócio- economicamente através de muros e dispositivos de segurança organiza a cidade em áreas de autosegregação e de segregação imposta, o que transforma a realidade urbana apenas em vista ou não vista, mas que não elimina os problemas que transformam a cidade em um lugar recusado, caótico e perturbador.
Desse modo, ao entrar e sair dos enclaves fortificados e de seus espaços restritos e vigiados, o medo, a sujeira, o barulho, o mau cuidado e a pobreza que tanto incomodam continuam presentes e continuam tentando ser “eliminados” através da distância: seja pela distância segura de um grande vale, seja pelo corte de uma estrada de ferro, ou da construção de paisagens mais amenas onde essas questões não pareçam tão latentes. Isso torna a oferta paradisíaca dos enclaves fortificados parcial, na medida em que só pode se realizar em local específico e de forma específica – vigilância - e antidemocrática, já que é destinada apenas a um grupo específico e tem a exclusão como condição de existência.
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ANEXOS: