A questão de atribuição de efeitos retroativos ou prospectivos das decisões judiciais, especialmente daquelas que declarem inconstitucionalidade de determinada norma, está diretamente ligada ao confronto de dois valores
196 Nesse sentido, destacamos como dispositivos legais generalizantes da orientação jurisprudencial fixada
os artigos 557, § 1.º-A, 558, § 1.º, e 475, § 3.º, do Código de Processo Civil.
197 A Emenda Constitucional n.º 45/2004 introduziu as súmulas vinculantes – artigo 103-A da
139 constitucionalmente consagrados:198 a segurança jurídica vs. a supremacia da Constituição. Deixar de atribuir efeitos pretéritos à decisão que declara a inconstitucionalidade da lei corresponde a convalidar, ao menos em relação a determinado período de tempo, norma contrária aos preceitos da Lei Máxima.
Com fundamento no dispositivo constitucional que consagra a segurança jurídica, o legislador estabeleceu a possibilidade de modulação de efeitos das decisões proferidas pelo Supremo Tribunal Federal.
Tal regulamentação, veiculada pelo artigo 27199 da Lei n.º 9.868, de 11 de novembro de 1999, pelo artigo 11200 da Lei n.º 9.882, de 3 de dezembro de 1999, e pelo artigo 4.º201 da Lei n.º 11.417, de 19 de dezembro de 2006, representa reconhecimento expresso do legislador de que as decisões judiciais não devem sempre produzir efeitos retroativos.
Os dispositivos legais retromencionados, de forma literal, se aplicam tão somente aos processos submetidos ao rito de controle concentrado de
198 Neste sentido, o Ministro Teori Zavascki destaca que “mutatis mutandis, é justamente esse o quadro
suposto pelo art. 27 da Lei 9.868, de 10.11.99, o de um manifesto conflito entre valores constitucionais de mesma hierarquia: de um lado, a nulidade do ato; de outro, o sério comprometimento da segurança jurídica ou de excepcional interesse social. Tendo de dirimi-lo, o STF faz prevalecer o bem jurídico que considera ser mais relevante na situação em causa, ainda que isso importe a manutenção de atos ou situações formados, com base em lei que se pressupunha válida, mas que era nula”. Eficácia das
sentenças na jurisdição constitucional, São Paulo, RT: 2001, apud Misabel Derzi, Modificações da
jurisprudência no direito tributário, p. 239.
199 Lei que dispõe sobre o processo e julgamento da ação direta de inconstitucionalidade e da ação
declaratória de constitucionalidade perante o Supremo Tribunal Federal:
“Art. 27. Ao declarar a inconstitucionalidade de lei ou ato normativo, e tendo em vista razões de segurança jurídica ou excepcional interesse social, poderá o Supremo Tribunal Federal, por maioria de 2/3 (dois terços) de seus membros, restringir os efeitos daquela declaração ou decidir que ela só tenha eficácia a partir de seu trânsito em julgado ou de outro momento que venha a ser fixado”.
200 Lei que dispõe sobre o processo e julgamento da arguição de descumprimento de preceito
fundamental, nos termos do § 1.º do art. 102 da Constituição Federal:
“Art. 11. Ao declarar a inconstitucionalidade de lei ou ato normativo, no processo de argüição de descumprimento de preceito fundamental, e tendo em vista razões de segurança jurídica ou excepcional interesse social, poderá o Supremo Tribunal Federal, por maioria de 2/3 (dois terços) de seus membros, restringir os efeitos daquela declaração ou decidir que ela só tenha eficácia a partir de seu trânsito em julgado ou de outro momento que venha a ser fixado”.
201 Lei que Regulamenta o art. 103-A da Constituição Federal, disciplinando a edição, a revisão e o
cancelamento de enunciado de súmula vinculante pelo Supremo Tribunal Federal:
“Art. 4.º A súmula com efeito vinculante tem eficácia imediata, mas o Supremo Tribunal Federal, por decisão de 2/3 (dois terços) dos seus membros, poderá restringir os efeitos vinculantes ou decidir que só tenha eficácia a partir de outro momento, tendo em vista razões de segurança jurídica ou de excepcional interesse público”.
140 constitucionalidade (ação direta de constitucionalidade, ação direta de inconstitucionalidade e ação para arguição de descumprimento de preceito fundamental) e aos casos de revogação de súmula vinculante.
A interpretação literal dos dispositivos, no entanto, diante das premissas fixadas no presente trabalho, de que a norma não contém sentido completo e que a atividade do intérprete é criativa, não é suficiente para sabermos se apenas nessas hipóteses poderá ser limitado o efeito das decisões proferidas.
O Professor Paulo de Barros Carvalho leciona que
[...] a norma jurídica somente pode ser compreendida com base no conhecimento do ordenamento do direito. A tarefa de interpretar qualquer unidade do direito positivo é, portanto, uma função de estrutura sistêmica de que faz parte, comparecendo a chamada técnica de interpretação literal como pressuposto para o ingresso no interior do sistema. Afinal, ninguém poderá imitir-se no conhecimento da ordem jurídico-positiva sem travar contato com o suporte físico (plano de expressão) do produto legislado. [...] não é difícil distribuir as citadas técnicas de interpretação pelas três plataformas da investigação linguística. Os métodos literal e lógico estão no plano sintático, enquanto o histórico e teleológico influem tanto no nível semântico quanto no pragmático. O critério sistemático da interpretação envolve os três planos e é, por isso mesmo, exaustivo da linguagem do direito. Isoladamente, só o último (sistemático) tem condições de prevalecer, exatamente porque antessupõe os anteriores. É assim, considerado o método por excelência.202
141 Portanto, não se pode concluir, com base na literalidade dos textos de direito positivo, que a limitação da eficácia das decisões judiciais sejam aplicáveis apenas nas situações descritas nas Leis n.º 9.868/1999, n.º 9.882/1999 e n.º 11.417/2006. A partir de uma análise sistemática de todas as normas do ordenamento, como decorrência do Estado de Direito e da segurança jurídica, conclui-se que os tribunais superiores também poderão limitar a eficácia de suas decisões, especialmente nos casos em que haja alteração da jurisprudência consolidada.
Corroborando o entendimento de que a limitação da eficácia das decisões judiciais independe de lei regulamentadora, cumpre destacar as sempre valiosas e contundentes lições do Professor Roque Antônio Carrazza, para quem os tribunais superiores, e não apenas o Supremo Tribunal Federal, em controle concentrado de constitucionalidade, podem, “com apoio no princípio da segurança jurídica, [...] apontar a prospectividade”, pois
[...] não faria o menor sentido que condutas adotadas com respaldo em reiterada jurisprudência do Tribunal Superior, pudessem vir imediatamente sancionadas, só porque, contrariando todas as expectativas, reverteu-se o entendimento dos julgadores. O mais adequado e correto, portanto, segundo pensamos, é que, na hipótese, sejam dados efeitos prospectivos à alteração jurisprudencial, de modo a preservar a segurança jurídica, com seu corolário de proteção à boa-fé e à confiança das pessoas.203
Sob a perspectiva de atribuição de efetivo conteúdo aos princípios jurídicos, e não somente de sua valorização retórica, desprovida de efetividade, podemos estabelecer como comportamento indispensável,204 decorrente do
203 Roque Antônio Carrazza, Segurança jurídica e eficácia temporal das alterações jurisprudenciais, p. 68. 204 O Professor Humberto Ávila, conforme destacamos em tópico retro, sustenta que é preciso fixar os
comportamentos indispensáveis e os instrumentos metódicos necessários à realização dos valores, abandonando a postura de apenas proclamar a importância dos princípios no sistema (Teoria dos
142 princípio da segurança jurídica, a limitação de eficácia temporal das decisões que impliquem alterações de jurisprudência consolidada.
Assim, tanto no âmbito do controle concentrado quanto no controle difuso de constitucionalidade, poderá o Supremo Tribunal Federal restringir os efeitos de suas decisões. Mais do que isso, havendo estabilização do entendimento de outros tribunais superiores, na esfera de suas respectivas competências, caso haja modificação da orientação, deverá ser limitada a eficácia temporal da decisão reformadora, independentemente da previsão infraconstitucional de tal medida. Tal modulação de efeitos tem como pressuposto de validade o princípio da segurança jurídica.
Misabel Derzi também reforça o entendimento de que é desnecessária lei infraconstitucional para que haja modulação de efeitos das decisões, afirmando que, “à luz da Constituição da República, a questão, entre nós, é e sempre foi de hermenêutica constitucional (jamais de regulação por lei infraconstitucional, como admitem outras ordens jurídicas)”.205
Apesar de não ter atribuído eficácia prospectiva à decisão proferida nos autos do Recurso Extraordinário n.º 370.682/SC, por questões que destacaremos a seguir, o Supremo Tribunal Federal conheceu da questão de ordem suscitada pelo Ministro Ricardo Lewandowski, e examinou a possibilidade de modular temporalmente a decisão, dando-lhe efeito prospectivo. Portanto, o exame da modulação foi procedido em processo de controle difuso de constitucionalidade, sobre o qual nem sequer havia reconhecimento de repercussão geral.
Vale ressaltar que o Tribunal, no julgamento do referido Recurso, discutiu se nos processos subjetivos também seria possível a modulação de efeitos. Esclarecedores os debates transcritos no acórdão, em que o Ministro Ricardo Lewandowski propõe a partição da apreciação da questão de ordem para,
143 inicialmente, verificar se é possível proceder à modulação nos processos de índole subjetiva. O Ministro Marco Aurélio, admitindo a aplicação analógica da Lei n.º 9.868/1999 no controle difuso, destaca que o Plenário já havia admitido a modulação em processos subjetivos, no julgamento do Recurso Extraordinário n.º 197.917/SP (caso da declaração de inconstitucionalidade da lei que aumentou o número de vereadores no Município de Mira Estrela-SP).
Além disso, os ministros discutiram se caberia a modulação de efeitos em casos sobre os quais não houvesse declaração de inconstitucionalidade de norma, mas apenas interpretação da Constituição. Prevaleceu a corrente de que, mesmo se tratando de mera interpretação, sem declaração de inconstitucionalidade de nenhum dispositivo, a eficácia prospectiva deveria ser aplicada. Nesse sentido, pronunciou-se o Ministro Gilmar Mendes, ressaltando que no caso específico não reconhecia a existência dos pressupostos para modulação, nos seguintes termos: “Tivéssemos nós uma situação consolidada, ainda que de mera interpretação constitucional se cuidasse, eu não teria nenhuma dúvida de subscrever integralmente os fundamentos aqui estendidos” (destacamos).
Portanto, a irretroatividade não tem sua aplicação limitada aos processos relativos ao controle concentrado de constitucionalidade e de revogação de súmula vinculante. Havendo modificação de jurisprudência consolidada, os tribunais superiores poderão modular os efeitos de suas decisões, inclusive que não impliquem declaração de inconstitucionalidade de dispositivo de lei, como forma de proteger a confiança legítima e a boa-fé objetiva, corolários da segurança jurídica.