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4. SONUÇLAR VE TARTI?MA
Como já foi afirmado anteriormente, o conceito clássico de identidade mudou, pois as sociedades modernas são sociedades de mudança constante, rápida e impermanente, de acordo com as palavras de Stuart Hall (2000). Sendo assim, o indivíduo precisa perceber essas mudanças para poder se adaptar a elas. A família ainda é o núcleo fundamental da sociedade dentro da concepção burguesa, contudo, pode ter diversas configurações; existem famílias com dois pais, ou duas mães e ainda as que são formadas pelo pai, mãe e namorada (o) do pai ou da mãe. Essas novas configurações ainda não possuem o aval da sociedade ou de suas instituições reguladoras, todavia, pelo fato de existirem e crescerem em números representativos colocam em xeque os estereótipos arraigados no conservadorismo. Os “modelos”, definidos pela sociedade e veiculados em seus meios de comunicação, preconizam a representação feminina seja no ambiente doméstico no papel de mãe, filha ou avó, seja no modelo de apelo sexual para vender produtos de desejo do universo masculino. A propaganda de um iogurte ganha credibilidade com a presença de uma mãe carinhosa ofertando ao seu filho um produto que pode lhe garantir dias saudáveis enquanto que o último modelo automotivo apresentado por uma modelo minimamente vestida garante a segurança necessária para a virilidade masculina.
No século XIX, a imagem da mulher burguesa foi construída pelos modelos representados na literatura, que descrevia seu comportamento, seu corpo e sua
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Na questão de demanda de mercado, o autor pesquisado Marçal Aquino, em entrevista à Reuters em 14 de outubro de 2013, durante a Feira do Livro de Frankfurt, afirmou que adaptar seus romances para o cinema é uma maneira de tornar a literatura mais próxima do público, o que para ele é um ponto positivo ao considerar que o brasileiro lê em média apenas quatro livros por ano. Entrevista completa disponível em www.br.reuters.com. Acesso em 15 out 2013.
vestimenta, e na pintura, que configurava a disposição do corpo, das vestes e do ambiente. Portanto, podemos afirmar que as artes no século XIX criaram um modelo de mulher ideal a ser seguido. A contemporaneidade altera e sacramenta esse modelo de uma maneira mais massificadora, pois tem em mãos a mídia diversificada em revistas, propagandas, novelas, filmes ou redes sociais.
Os modelos são perpetuados pelas instituições que sustentam e alimentam a organização da sociedade capitalista, organização esta fundamentada na divisão sexual do trabalho e no campo de atuação do homem e da mulher. A sociedade moderna insiste em divulgar e fazer com que as jovens introjetem os seus modelos manipulando-as desde a infância. Contudo, muitas mulheres não aceitam essas representações que na maioria das vezes estão muito distantes da realidade de cada uma. A discriminação e a segregação sexual ainda existem, contudo, as mulheres têm conseguido romper o silêncio por meio das denúncias que acabam gerando o reconhecimento de novos direitos e, por conseguinte, leis que as amparem. Essas atitudes reivindicatórias têm atingido os espaços coletivos, que englobam inclusive a família, levando a questionamentos inimagináveis no século XIX. No Brasil, a mulher moderna, ao buscar suas identidades, garante a sua cidadania.
Algumas transformações na sociedade são reflexos do que acontece no núcleo familiar moderno. O pensamento da mulher moderna tem feito com que os índices de natalidade e fertilidade diminuam7, em contrapartida, o número de casais e de nascimentos fora do casamento tem aumentado assim como o número de divórcios. A família passa do conceito coletivo para o individual, sendo um dos efeitos diretamente relacionados à busca pela identidade de cada um. De acordo com Ana Silvia Scott, essas mudanças indicam que “interesses e projetos individuais assumem hoje lugar fundamental também na vida das mulheres, que se veem em funções que extrapolam os espaços da família” (2012, p. 30). Vivemos a sociedade do instantâneo, do momento e, por conseguinte do descartável, do que se dissolve no ar, expressão usada por Karl Marx em seu Manifesto Comunista. As relações pessoais são infinitas, enquanto durarem, como bem poetizou Vinícius de Moraes em seu Soneto de Fidelidade.
A modernidade pode-se dizer, rompe o referencial protetor da pequena comunidade e da tradição, substituindo-as por organizações muito maiores e impessoais. O indivíduo se sente privado e só num mundo em que lhe falta o apoio psicológico e o sentido de segurança oferecido em ambientes mais tradicionais. A terapia oferece alguém para quem podemos nos voltar, uma versão secular do confessionário (GIDDENS, 2002, p. 38).
Essa nova ordem sentimental está mais fundamentada sobre o desejo de construir uma identidade do que sobre os valores coletivos. O “eu” sobrepuja o “nós”. E nesse contexto atual, os papéis sociais passam por transformações históricas. A sexualidade rompe o elo que a mantinha presa à reprodução, graças aos métodos contraceptivos e torna-se mais aberta aos mais variados e diferentes estilos de vida. Torna-se um tema de escolha pessoal fazendo parte da identidade de cada indivíduo, abolindo os conceitos coletivos que o normatizavam. O sexo passa a ser utilizado como estratégia de vendas, torna-se público em uma sociedade que cultua Narciso e o hedonismo, “O sexo, de reprimido e disciplinado, depois instrumento de emancipação e igualdade nos anos 70 e 80, passou a um poderoso aliado do consumo e do hedonismo” (PRIORE, 2011a, p. 236). E, inseridos em um mundo de redes sociais, a privacidade e a intimidade jamais serão como antes, “se no passado éramos castos e cobertos; agora, somos desnudos e exibidos” (ibidem, p. 237). Entretanto, de acordo com Carla Pinsky, as hierarquias entre masculino e feminino ainda persistem, principalmente no campo moral (2012, p. 521). Hoje em dia, a mulher tem a virgindade como opção assim como um individualismo acentuado e maior possibilidade de escolhas eróticas, entretanto, ela precisa avaliar os efeitos dessa nova condição sobre a sua reputação para não receber a alcunha de “vadia”. A busca pelo equilíbrio entre a liberdade sexual feminina e a respeitabilidade social acaba muitas vezes passando pelo crivo tênue da dissimulação. Se em Memórias Póstumas, Virgília assumiu o seu papel de mulher dissimulada do começo ao final da trama, em Eu receberia... , Lavínia desenvolve uma instabilidade psicoemocional que lhe permite um comportamento dúbio, justificado pelos narradores como se tratando de uma patologia, portanto, veremos como estes narradores constroem esta protagonista.
2.2 LAVÍNIA, A INSTÁVEL