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3. MATERYAL VE METOT

3.1. Java Programlar

O capitalismo tardio pode ser considerado como uma nova Idade da Máquina, não como a da exaltação feita por Marinetti, no futurismo, mas como uma nova preocupação estética de representação. As máquinas que chegam até nós não são os teares industriais ou automóveis, mas os televisores, computadores, smartphones e tablets. São máquinas não de produção, mas de reprodução, reprodução do simulacro, ou seja, das inúmeras imagens que já perderam seu referencial inicial devido à acelerada veiculação por meio das mídias vigentes. A literatura passou então a reproduzir a realidade com um viés cada vez mais individualista, gerando os mais diversos estilos e discursos. Em contraposição ao estilo empregado pelos realistas do séc. XIX, cuja classe dominante, burguesa, ditava as normas e padrões de moral e estética; os escritores pós-modernos retratam a heterogeneidade das sociedades capitalistas. A literatura brasileira, produzida a partir da década de 1990 (RESENDE, 2008, p. 15), por sua vez, resgata o realismo sob novas formas que o distanciam do realismo produzido no século XIX. Enquanto o realismo de Machado de Assis expunha os conflitos e os deslizes da sociedade burguesa emergente, traçando paralelos com a realidade e revelando a mulher de carne e osso que poderia existir em cada núcleo familiar, Marçal Aquino lança mão de um tipo de realismo nu e cru sob a ótica dos que estão à margem da sociedade, o que poderia

ser chamado de hiperrealismo; tal termo surgiu pela primeira vez como título de uma exposição organizada pela galerista belga Isy Brachot, em 1973. Para Jean Baudrillard, sociólogo francês, hiperrealismo “é a simulação de algo que nunca existiu realmente” 5. Nesta literatura contemporânea, não se procura criar por meio da mímesis a ilusão de uma realidade, pelo contrário, a literatura e a arte em geral surgem dentro de uma realidade sociocultural “incorporando essa realidade esteticamente dentro da obra e situando a própria produção artística como força transformadora” (SCHØLLHAMER, 2009, p. 54). Por mais paradoxal que possa parecer, é uma literatura engajada sem precisar levantar nenhuma bandeira político- ideológica e necessariamente sem tratar de uma temática atual, entretanto, as tintas do pincel do escritor são exageradas a fim de revelar diversos tipos de tensões.

É a tragicidade da vida na metrópole hostil que se entranha nos universos privados, circula da publicidade das ruas, cruzadas com rapidez, até o espaço sem privacidade da vida doméstica, onde a violência urbana se multiplica ou redobra (RESENDE, 2008, p. 31).

Não podemos deixar de apontar que a contemporaneidade é marcada pela invasão tecnológica promovida pelos variados tipos de mídias. Como afirmamos anteriormente, vivemos o momento do instantâneo, das notícias em “tempo real” e isso tem reflexo no tipo de produto que é consumido na literatura, televisão, música ou cinema. O foco de interesse está na vida real, ou como já disse o dramaturgo Nelson Rodrigues, na “vida como ela é”, daí o motivo pelo qual se vendem tantas biografias, autobiografias, reportagens históricas, diários, relatos de viagens e sem dúvida, livros de autoajuda. O escritor contemporâneo depara-se com o grande desafio de, através do discurso literário, falar do cotidiano de maneira atraente e verdadeira. Parece-nos que a grande temática é a violência urbana. Para Tânia Pellegrini, os espaços urbanos passaram de locus amenus para locus horribilis, por conta da sua interferência sobre as personagens; as cidades não são mais meros cenários para as tramas ficcionais, pelo contrário, são verdadeiras personagens capazes de alterar o comportamento e destino das demais (2008, p. 34). Marçal Aquino, entre outros escritores como Luiz Ruffato, Marcelino Freire, procura envolver

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De acordo com a pesquisa de Neli Klix Freitas disponível em www.e-publicacoes.uerj.br com acesso em 02 set 2013.

o leitor no contexto da narrativa, criando uma cumplicidade entre leitor e narrador. A linguagem é direta e contundente, não dando espaço para rodeios e nessa situação o narrador é valorizado, pois ele é o mediador entre a realidade e o leitor, o seu olhar é privilegiado e o seu ponto de vista passa a ser supervalorizado; a tentativa de imparcialidade é coisa do passado. É o conceito de refração, difundido no Círculo de Bakhtin, aplicado ao narrador. De acordo com Beatriz Resende, os críticos literários têm se preocupado com o excesso de realismo utilizado nas narrativas, o que poderia prejudicar a ficcionalidade e ultrapassar os limites que separam a ficção do jornalismo (2008, p. 33).

Outra marca da literatura contemporânea é o diálogo com outros textos e com a própria época. Muitas vezes, o texto produzido acaba representando a fragmentação do indivíduo. A degradação do ser humano se faz presente nos romances, e os segmentos marginalizados da sociedade surgem nas narrativas sem que necessariamente haja um engajamento sociopolítico por parte do autor e muitas vezes nem mesmo do narrador.

A ficção ainda hoje recria a violência, o niilismo, o esgarçamento do tecido social e a degradação das condições de vida nos grandes centros urbanos, com a perplexidade de seres humanos que, sem outras raízes, chegam ao leitor envoltos em um trabalho textual que lhes dá sentido (PEREIRA, 2011, p. 46).

A literatura, como qualquer veículo social, está inteiramente ligada à ideia de construção da identidade nacional. Nos primórdios do modernismo no Brasil, os autores exploraram exaustivamente o tema, mas nesse contexto de hiperrealismo a que nos referimos, a identidade nacional passa pela busca do indivíduo por suas identidades e seus vários papéis sociais. O discurso da narrativa contemporânea é heteroglóssico, isto é, constituído de diversos e diferentes tipos de linguagem e muitas vezes construído sobre o silenciamento de algumas vozes. A identidade individual e a identidade nacional são construídas a partir da relação de diferença, “assim sendo, a afirmação de dada identidade se dá pela sua negação: o que ela não é” (DALCASTAGNÈ; MATA, 2012, p. 36). Diante da fragmentação política e social do momento, na qual o indivíduo busca as suas identidades, a literatura apresenta a identidade nacional como um fruto da representação e na verdade, o

que temos são “identidades sociais fragmentárias e ambivalentes, como uma maneira de contestar as hierarquias do Estado-nação moderno” (DALCASTAGNÈ; MATA, 2012, p. 47). Sendo assim, a literatura contemporânea nos apresenta um imbricamento diversificado de registros linguísticos associados a diálogos cada vez mais correspondentes às demandas do mercado6.

Benzer Belgeler