7. SONUÇ VE ÖNERİLER
7.1. Sonuçlar
Com relação à cidade, há que se dizer que Vinhedo mudou muito e acho que logo vai deixar de ser como é, porque as indústrias estão chegando e ela está se descaracterizando. Hoje é uma cidade meio turística, mas já está mudando. Tem muita gente começando a vender suas casas.
Os ricos vão vendê-las para comprar em outros lugares, porque pelo que estou vendo, Vinhedo vai ficar um lugar degradado, sua qualidade ambiental já está caindo... (Ana Terra)
Porto Velho é bom para se morar, para educar, porque aqui tem ótimas escolas, mas na parte da habitação e da saúde não está boa não, tem que dar uma melhorada grande. Se for depender da saúde pública muitas vezes a pessoa morre e nem sabe por que, como foi o caso de um amigo do meu pai, que morreu e ninguém soube a causa. (Junior).
No Chico Mendes havia aqueles prédios abandonados ao lado, mas não os ocupamos. Ele servia apenas para os crimes cometidos na cidade: desova de corpos, depósito de carros e motos roubadas, policiais matando pessoas inocentes que confundiam com criminosas, mendigos, eu mesmo já apanhei lá dentro, e deixo claro que não tenho passagem pela Polícia. (Marcos).
Os alugueis, em questão de pouco tempo aumentaram bastante e o preço das casas também. Hoje você não consegue comprar uma casa decente em Porto Velho por menos de R$: 50.000. [...]Existe, em Porto Velho, um lugar que me é particularmente especial, um lugar de memória, porque o freqüentava muito quando era menino. Trata-se do Parque Circuito. Gosto de lá porque é bem arejado, tem umas seringueiras bem grandes. Era um seringal que foi desativado, as árvores têm até as marcas da extração do látex. Lá tem um parquinho onde eu brincava, onde os pais levam as crianças para brincar, e tem trilhas onde as pessoas ficam caminhando. Só que assim: o lugar está do mesmo jeito a mais de 20 anos, ninguém se preocupa em melhorá-lo. Ele é um lugar bonito porque foi obra da própria natureza, e não dos governantes desta cidade. (Caio)
O que a Marta fez me adiantou: um corredor de ônibus porque agora não pego mais tanto trânsito para ir trabalhar, mas o resto que eles estão fazendo, derrubando, medindo rua, construindo sei lá o que... Vão construir um mercado logo mais aí na frente, não é nada do meu interesse. Se eles estivessem fazendo casas: “A, vão derrubar a favela e construir casas, construir apartamentozinhos e dar para as pessoas”, seria uma coisa interessante, mas político não pensa em pobre, político pensa em dinheiro e no seu voto, é claro. (Filipe).
Quando apresentamos as histórias de vida na parte anterior, sob o título de “Narrativas de uma família de São Paulo” e “Narrativas de uma família de Porto Velho”, talvez o leitor tenha criado a expectativa de conhecer “dados objetivos” dessas cidades, de conhecê-la em seus aspectos geográficos, econômicos, demográficos, mas elas foram apresentadas de modo diferente pelos narradores - e não nos preocuparemos em transmitir esse tipo de informação, que pode ser encontrada em almanaques e sites diversos da internet. Falaremos das cidades da memória de nossos colaboradores e tentaremos compreendê-la na dimensão em que são tonalizadas nas narrativas. Para isso, a primeira coisa que precisamos entender é que a São Paulo, a Itapecerica da Serra e a Porto Velho dos colaboradores não são “cidades absolutas e unívocas”, mas cidades
formadas por diversas experiências, urbanas e campestres. Assim, quando dizemos “narrativas de uma família de São Paulo”, esse “de” indica menos uma procedência do que uma necessidade do presente constructo verbal, necessidade de “localizar” territorialmente os colaboradores da pesquisa.
Os filhos de Maria da Paixão nasceram em São Paulo. De fato essa família vive em São Paulo e sua região metropolitana, mas ao falar desta cidade trazem também outras referências como as das cidades e campos nos quais viveram no nordeste no período que lá moraram. O mesmo ocorre com a família de Porto Velho, que apesar de se mostrar mais sedentária do que a família de Laura, possui ancestrais oriundos de outras experiências urbanas (Ceará, Mato Grosso). Neste texto chamado cidade é possível ler os sinais de variadas relações culturais, políticas, econômicas, sociais, de classe, de gênero, de luta por hegemonia. Polissêmico por excelência, nos desafia a todo o momento. É ao mesmo tempo esfinge e labirinto. Desafio e sedução. Com seus olhos pétreos nos diz: “Decifra-me ou devoro-te!”, e diante desse desafio, não temos outro caminho senão percorrê-la e adentrar em seus labirintos de concreto e gente, de imagem e som, significante e significado.
As narrativas das duas famílias são convites a um passeio por cidades de suas memórias. Grandes e pequenas, encantadas ou sem encantos, acolhedoras ou violentas, amadas ou odiadas, essas cidades, mais do que um referente aos cenários onde desenvolvem suas histórias, é parte delas.
Chegamos até essas cidades mediante narrativas que possuem como matéria-prima a experiência, a memória e o sonho. São esses elementos que a constituem, e como cada narrador é um ser singular, utiliza esses elementos de uma maneira única, conforme mais lhe apraz ou conforme lhe é possível no momento da gravação da entrevista que registra esse seu momento discursivo.
Essas cidades da memória, ficcionais, matizadas pelo desejo, possuem substrato concreto, dado pela experiência. Se fossemos escavá-las tal como fazem os arqueólogos, encontraríamos sob sua superfície camadas e mais camadas de “cidades reais”, de cidades que existem enquanto modo de produção, luta de classe, ideologias políticas e urbanísticas, fluxo de pessoas e idéias, concreto armado, modernidade e tradição. Sabemos assim, que a Teresina de Maria da Paixão, a Campo Grande de Marcelo ou a Rio Branco do Caio não são as mesmas e não são iguais às cidades de mesmo nome e até de mesmas proporções dos mapas geopolíticos, embora as tenha como referencial.
Para Maria da Paixão, Teresina é mais que uma cidade, ou melhor, é uma cidade sem limites, pois compreende o Estado do Piauí inteiro, os campos, o sítio onde foi criada, o sertão das histórias que ouviu de seu pai, onde ele viveu e trabalhou na juventude, as ruas onde ela e a
irmã, escondidas, pularam o Carnaval, o paraíso perdido, destruído pela serpente que picou sua mãe quando colhia os cachos de arroz. Esta cidade da memória de Maria da Paixão é sua origem, da qual não se envergonha, seu berço e o túmulo desejado para dormir o sono dos justos depois de cumprida a missão. Mais do que isso: é seu norte. É para onde toda a sua vida de trabalho em São Paulo se encaminhou, seu rumo certo, seu “porto seguro”:
[...] a qualquer momento, qualquer dia que eu disser: “Quero ir embora para o norte”, tenho um lugar para morar, tenho um campo para cuidar, para eu trabalhar. Meu filho falou: “Mãe, porque a senhora não comprou uma casa aqui? Lá no norte é ruim, é seco, é isso, é aquilo”, mas eu não pretendo ficar aqui. Pretendo ir para a minha cidade, curtir minha velhice lá.
A Campo Grande apresentada por Marcelo é como a cidade conquistada pelo jovem guerreiro solitário, último sobrevivente de muitas batalhas. Lá travou suas lutas mais difíceis, viu se deteriorar a saúde das pessoas que mais amava, viu a mãe falecer, viu-se privado da liberdade de fazer as coisas típicas de menino e até de comer as guloseimas que lhe apeteciam. Condenado ao trabalho para garantir a própria sobrevivência, a do irmão pequeno e a do pai doente, Marcelo resiste estoicamente, cresce, torna-se homem e precocemente adquire a sabedoria que muitos só conquistam na velhice: aprende a tirar do sofrimento lições para a vida e a querer viver sempre mais, “tocar a diante”.
Os parentes que eu tinha lá na época, que eram bem de vida me chamavam para viajar, se ofereciam para pagar todas as minhas despesas, mas eu não podia ir porque tinha que trabalhar, não podia deixar meu pai sozinho no escritório. Não ia, não brigava com meu pai por causa disso. Hoje tiro tudo isso como experiência de vida. Não desejo isso a ninguém, mas todo mundo está sujeito. Graças a Deus, de certa forma sou feliz. Tenho saúde, posso trabalhar e tocar minha vida.
A Rio Branco do Caio é antes de tudo seu sonho político, seu desejo para o país. Uma cidade modelo, exemplo de boa administração, de participação popular, de refinadas manifestações culturais, onde a cultura popular é expressa de forma autêntica. Cidade que conheceu de passagem, quando estava a trabalho, mas que seu olhar de viajante atento apreendeu em detalhes. Caio, ao retornar a Porto Velho, sua cidade natal, leva consigo esse ideal de cidade e a seu modo, luta por ele, com toda a convicção de quem crê que é possível construir um mundo melhor.
Assim como Maria da Paixão, Marcelo e Caio, os demais narradores também possuem uma visão e uma relação específica com suas cidades vividas-sonhadas. Ana Terra sente um “carinho geográfico” por Taboão da Serra, talvez por ter estudado a cidade, lido seus mapas,
palmilhado toda a sua extensão enquanto lutava junto ao MTST. Apesar de perceber a estrutura excludente da cidade, os inúmeros problemas sociais que comporta e promove e entender seus processos de especulação imobiliária, “higienização” e degradação dos espaços públicos, sente carinho pelo lugar, porque este é feito de pessoas. São as pessoas da cidade, com seus problemas específicos de abastecimento, segurança alimentar, carestia, que movem Ana Terra em sua luta por um mundo sustentável.
Para a pequena Luana, São Paulo, vista do alto dos seus doze anos é o caos. Violência injustificada e injustificável, medo, auto-encarceramento, deturpações morais e éticas, briga, morte e arbitrariedade dos que detêm o poder a tornam uma criança assustada, que pouco passeia, que não vive a “experiência da rua”, não brinca naquele espaço temendo que algum mal aconteça consigo ou com os colegas. Fechada no pequeno apartamento onde mora com a mãe, no Jardim Ângela, Luana sonha com o tempo em que vivia no Nordeste, no sítio de seu avô e podia brincar livremente, correr, colher as frutas que sentisse vontade de comer, ir a escola e fazer as travessuras próprias da infância.
Apesar de jovem, Luana já sente a fragmentação causada pela cidade. Sente-se dividida entre viver na periferia de uma grande cidade, tendo seu pai por perto, e o desejo de voltar para o Piauí, onde acredita que seria mais feliz. Como síntese desses dois mundos Luana possui a chácara do pai – um pequeno éden no meio do caos da metrópole – lá ela encontra as coisas que tinha no Nordeste: a fartura, os pássaros, o silêncio, as relações amigáveis, mas como todo paraíso, este também costuma ter suas portas fechadas e seus moradores condenados ao trabalho e à dor. O lugar existe, mas ela passa meses sem poder ir lá, porque seu pai, um exímio pedreiro, tem que trabalhar até mesmo nos sábados e domingos, não tendo tempo de desfrutar de sua chácara nem do carinho de sua filha.
Para Filipe, o irmão mais velho de Luana, que acabou tendo que assumir o papel de “homem da casa”, São Paulo é uma cidade inacessível na qual as responsabilidades do trabalho consomem seu tempo. Apesar disso, é uma pessoa atenta ao que está acontecendo, crítica da política local e que possui também outros referenciais urbanos, dedicando-se, quando lhe é possível, a desbravar as cidades por onde passa.
Todas essas pessoas cultivam um ideal de cidade e se juntássemos cada um deles teríamos uma cidade com a seguinte configuração: com casas simples e aconchegantes, equipamentos urbanos como escolas, quadras de esporte, postos de saúde, ilhas digitais, parques bem cuidados e abertos ao povo, com áreas verdes e espaço para apresentações artísticas, com pessoas bem alimentadas e dispostas a trabalhar não apenas para si, mas para o bem-estar da comunidade. Na cidade ideal existe o que falta na real, mas estas pessoas, além de imaginar, de
sonhar e fazer planos para o futuro, fazem também política. Muitas delas se envolveram com Movimentos Sociais que lutam por reforma urbana e moradia.