No caso de edificações multifamiliares, nosso objetivo com este trabalho, a interface deve permitir e auxiliar não apenas o projeto da unidade, mas a negociação espacial entre vizinhos. Nesse sentido, John Habraken (1981) sugere que sejam adotados dois níveis de decisão para os projetos de
edificações multifamiliares: o nível de decisão individual, relativo ao recheio e um nível de decisão coletivo, relativo ao suporte234.
Eles expressam a suposição de que uma área pode ser diferenciada sobre as quais o indivíduo tenha controle, e uma outra sobre a qual a comunidade coletivamente
de ide. Po isso, os o eitos de supo te e u idade desta el s o defi idos e
termos de quem toma as decisões.235
Pa a esse auto , supo te u a o st uç o que permite a disposição de habitações que pode se o st uídas, alte adas e de olidas, de fo a i depe de te u as das out as 236 estando
seu controle a cargo do arquiteto, po out o lado, o e heio, o posto pelas pa edes di is ias, equipamentos de cozinha e banheiro e todos os conduítes para eletricidade, aquecimento, água e gás, e ess ios pa a se ope a o e uipa e to 237, é de responsabilidade dos usuários, que podem alterá-
lo como bem entenderem.
Embora a construção civil no Brasil ainda seja manufatureira e pouco industrializada, em contraste com o contexto holandês no qual Habraken desenvolveu sua teoria (onde existe uma larga ofe ta de o po e tes de e heio i dust ializados e p -fabricados), as estratégias adotadas por ele para lidar com a compatibilização das decisões, bem como o próprio desenho dos suportes, podem ser adaptados ao contexto brasileiro sem grandes prejuízos.
Para Habraken (1999), ao projetar um suporte, os arquitetos deveriam guiar-se para o dese ol i e to de u a s ie de egras, que regeriam as possíveis variações, e que seriam simples o suficiente para que o residente pudesse visualizar todas as possíveis opções de mudança abertas à ele 238. As estratégias propostas por Habraken por meio dos níveis de distribuição do controle e dos
conceitos de suporte e recheio, possibilitam algumas opções de negociação, já que a distribuição do controle fica a cargo dos envolvidos, que podem decidir quais partes do edifício serão fruto de decisões coletivas e quais partes serão de decisão individual. Logo, os usuários podem decidir qual o grau de engajamento que gostariam de ter com o projeto. Além disso, tecnicamente, os edifícios construídos com a devida separação dos sistemas de suporte, possibilitando múltiplos usos e recheios, possivelmente tardarão a se tornar obsoletos por serem mais adaptáveis que os edifícios não construídos dessa forma.
234 HABRAKEN, N.J. Supports: an alternative to mass housing. 2a edição. Londres: The Urban International Press, 1999.
235 The e p ess the suppositio that a a ea a e diffe e tiated o e hi h the i di idual has o t ol a d a othe o e hi h the
community collectively decides. Theefo e, the o epts of suppo ts a d deta ha le u it a e defi ed i te s of ho akes the de isio s.
HABRAKEN, N.J. BOEKHOLT, J.T. THIJSSEN, A.P. DINJENS, P.J.M. Variations: The systematic design of supports. Cambridge: Laboratory of Architecture and Planning – MIT, 1981. p.21.
236 […] is a o st u tio hi h allo s the p o isio of d elli gs hi h a e uilt, alte ed a d take do , i depe de tl of the othe s . HABRAKEN, N.J. Supports: an alternative to mass housing. 2a edição. Londres: The Urban International Press, 1999. p.79
237 […] pa titio i g alls, kit he a d ath oo e uip e t a d all the o duits fo ele t i it , heati g, ate , a d gas, eeded to operate
the e uip e t. HABRAKEN, N.J. The uses of levels. Open House International, v.27 n.2, 2002. p.12.
Essas possibilidades oferecidas pelos suportes devem então ser avaliadas por meio da análise de capacidade, um procedimento que procura investigar as possíveis alternativas de ocupação e uso do espaço. Habraken (1996) sugere que a análise de capacidade seja utilizada como uma ferramenta para justificar as decisões, possibilitando uma variação maior de arranjos espaciais.239 Contudo, como
afirmam Kendall e Teicher (2000)240, a análise de capacidade deve ser abordada de forma sistemática,
avaliando primeiramente os usos por meio da comparação de uma série de layouts, depois a interação entre suporte e recheio.
A experiência do já citado grupo RAMTV oferece contribuição análoga à de Habraken no que diz respeito a negociação espacial entre usuários de forma autônoma. Após o levantamento das necessidades dos usuários como descrito na seção anterior, os arquitetos perceberam que existiam possibilidades de negociação espacial entre unidades verticalmente adjacentes, por meio de deformações no piso/teto que se dariam em função da relação atividade-posição corporal (FIG.28).241
Figura 28 – Seções esquemáticas elaboradas pelo grupo RAMTV mostrando as possibilidades de interação entre atividades e espaço a partir da posição corporal
FONTE: RAMTV. Negotiate my boundary! Londres: AA Publications, 2002. p.59
Posteriormente, foram gerados diagramas de cenários sociais a partir de uma matriz contendo o levantamento dos possíveis moradores, cada um com suas próprias necessidades e limites,
239 HABRAKEN, N.J. Eight: Capacity vs Function. In:Tools of the Trade: Thematic Aspects of Designing. 1996. p.27-28. 240 KENDALL, Stephen H.; TEICHER, Jonathan. Residential open building. London: E & FN Spon, 2000.
interações com outros moradores e modos de vida particulares, que para serem atendidos, demandariam unidades altamente adaptáveis.
Um potencial cliente para uma das habitações negocia com o seus/suas vizinhos(as) sobre o espaço gerado por meio de genótipos que se interseccionam. A formação das habitações é customizada pela seleção de atividades desejadas, e então as seções, que são definidas pela sua ergonomia.242
Esse processo de customização foi estruturado em três diferentes níveis: da vizinhança, do envelope espacial e dos limites. No nível da vizinhança a negociação deveria acontecer por meio de um questionário com perguntas relativas aos espaços, acessos, segurança, relações sociais desejáveis etc. No nível do envelope espacial, os usuários customizariam
[...] suas habitações acessando um website que procuraria suas preferências em termos restritivos, definindo o grau de interseção e conexão de sua unidade às habitações adjacentes. Suas escolhas, na forma de atividades preferidas, são traduzidas em posições ergonômicas que são então incorporadas às seções construtivas da unidade escolhida, em localizações particulares no seu interior.243 O terceiro nível, dos limites, refere-se à relação dos espaços e seus sistemas de invólucro, que poderiam ser programados para reagirem e aprenderem com os padrões de atividades dos ambientes. Em resumo, a proposta do RAMTV
[...] consiste em uma rede de estratégias, parâmetros e regulações que estabelecem um conjunto evolutivo de orientações ao invés de uma solução ou formulação arquitetônico definitiva. Essas ferramentas de planejamento, desenvolvidas a partir de uma série de interfaces entre o usuário e o time de designers, geram um conjunto sem fim de cenários. Existem várias atualizações possíveis, que em última instância
dependem do input social, da negociação e de considerações sobre o terreno.244
A experiência do RAMTV expõe um outro limite do processo convencional de projetos, dessa vez com relação a customização. Não é difícil prever o desafio que um arquiteto enfrentaria ao tentar, em um edifício com unidades customizadas, atender e conciliar todas as demandas dos usuários: um ciclo interminável de produção, apresentação e retrabalho de propostas, que ao fim inviabilizaria o projeto como um todo. Logo, são necessárias ferramentas que incorporem a incerteza e permitam resultados não-programados, como é o caso da interface proposta pelo RAMTV. Porém, se por um lado a estratégia de negociação espacial por meio da deformação de pisos/tetos permite a concepção
242 A pote tial lie t fo a i di idual d elli g egotiates ith his/he eigh ou s o e the spa e ge e ated i te se ti g genotypes. The
dwelling formation is usto ized sle ti g desi ed a ti ities a d the efo e se tio s, hi h a e defi ed thei e go o i s. Ibidem, p.84.
243 […] thei d elli gs a essi g a e site that seeks thei p efe e es fo o st ai ts defi i g the deg ee of i te se tio and connection
to adjacent dwellers and their units. Their choices, in the form of preferred activities, are translated into ergonomic positions that are e odied i the uilt se tio s of thei hose d elli g u it, at pa ti ula lo atio of the i te io . Ibidem, p.120.
244 […] o sists of a et o k of st ategies, pa a ete s a d egulatio s that esta lished a e ol i g set of guideli es athe than a definitive
architectural solution or formulation. These planning tools are developed from a series of user and design-team interfaces, which generate an open-ended set of scenarios. There are many possible actualizations, which will ultimately depend upon social input, negotiation and site
de espaços mais ricos espacialmente e criados a partir das demandas do usuário, por outro lado, essas mesmas deformações dificultam ou impedem modificações no médio e longo prazo, guardando se elha ças espa iais o os eis e al e a ia , p ese te e algu as asas ode istas, ue limitam as possibilidades de modificação espacial.
No projeto Steelhousing (FIG.29), Cedric Price guiou-se pelo p i ípio de p o er espaços com o i o de a iaç o dos possí eis usos 245, a gu e ta do a fa o da asa o o u i uedo
e o i o i o apaz de e i ue e os pad es de ati idade possí eis e desej eis pa a todos os o upa tes [da asa] du a te as ho as 246. Como aponta Baltazar (2009), apesar de Price reconhecer
a casa como uma mercadoria, sua preocupação é em criar espaços mais adequados ao ciclo diário.
Ele reconhece o status de mercadoria da arquitetura sem propor que a arquitetura seja projetada como mercadoria, focando no aumento do valor de uso no curto prazo. Ele é um dos poucos arquitetos propondo mudanças no processo de produção dos espaços, deixando-os o mais flexível possível para que os usuários acrescentem valor a eles.247
Embora os espaços sejam organizados como uma casa convencional, nenhum deles tem funções predeterminadas, podendo acomodar uma gama de usos não previstos durante um mesmo dia sem modificações em sua estrutura, consistindo em um exemplo de aplicação do conceito da transfuncionaidade.248
245[…] p o isio of spa e ith a a i u a iatio of possi le use […] . PRICE, Cedric. Cedric Price: The Square Book. London: Wiley- Academy, 2003. p.48
246 […] to e i h possi le a d desi a le a ti it patte s fo all o upa ts o e 24 hou s […] Ibidem, p.48.
247 He acknowledges the commodity status of architecture without proposing that architecture be designed as a commodity, and focuses on
increasing use value in the short term. He is one of the few architects proposing to change the process of production of spaces, leaving spaces as flexible as possi le fo use s to add alue to the . BALTAZAR, Ana Paula. Cyberarchitecture: The Virtualisation of Architecture Beyond
Representation Towards Interactivity. 2009. Pós-doutorado (Tese) – University College London. Londres, 30 jun 2009. p.187 248 Ibidem, p.188.
Figura 29 - Os usos da casa Steelhousing do arquiteto Cedric Price em diferentes cenários e horários
FONTE: PRICE, Cedric. Cedric Price: The Square Book, p.49.
As Steelhousi g de Price estabelecem um espaço no qual múltiplos cenários de interação familiar podem acontecer. Embora a estrutura da casa seja rígida e concebida sem a participação dos usuários, a organização dos espaços é flexível e não predetermina os usos, sendo aberta à interferência.
No livro Fle i le Housi g , Schneider e Till (2007) analisam um extenso número de projetos que utilizam de diferentes estratégias para conseguir flexibilizar seus espaços, categorizando-os ao final entre projetos flexíveis soft, referindo-se às táticas que levariam a um maior grau de indeterminação, permitindo que os usuários tenham controle sobre a adaptação da planta; e hard, onde o designer aparece determinando os espaços.249
No últi o apítulo do li o, de o i ado A Ma ual fo Fle i le Housi g , os autores propõem um manual com estratégias e táticas para a produção de habitações flexíveis, classificando-as com relação ao custo, custo benefício e ordem de prioridade de implementação. O designer deve então escolher, em relação ao seu contexto, quais estratégias adotar, mantendo sempre a atitude de
questionamento sobre o design, construção e adaptação ao longo do tempo das partes que compõem o projeto.250
O ponto principal da habitação flexível é o do uso. Como podemos projetar habitações que são flexíveis o suficiente para acomodar os desejos e necessidades dos usuários, tanto antes quanto depois da ocupação? A resposta para essa pergunta reside tanto
em como é projetado o layout da habitação quanto na maneira de construí-lo.251
Essa apologia do uso dos espaços é fundamental para uma atuação mais coerente com a lógica da economia da diversão. Os conceitos e estratégias apresentados demonstraram algumas alternativas adotadas durante a etapa de projetos, mas mais do que isso, exaltaram a importância de se considerar o uso dos espaços como um princípio coordenador na concepção dos espaços.