A análise kantiana da ação racional assim se inicia:
Toda coisa da natureza atua segundo leis. Só um ser racional tem a faculdade de agir
segundo a representação das leis, isto é, segundo princípios, ou uma vontade. Visto
que se exige a razão para derivar de leis as ações, a vontade nada mais é do que razão prática (GMS 4: 412; p. 183 – grifos do autor).
Em primeiro lugar, é conveniente precisar o sentido do termo “lei” presente no segundo período da citação. Com efeito, uma vez que o sentido deste termo na primeira sentença é o de “leis naturais”, uma abordagem literal da afirmação poderia considerar que o ser racional é aquele que age segundo a representação das leis naturais. Apesar de se prender à literalidade do texto e oferecer um sentido inequívoco ao termo “lei”, esta consideração, entretanto, dificilmente daria conta de explicar um argumento cujo objetivo será a formulação do imperativo categórico e nem mesmo o conceito de ação racional. De fato, ainda que um agente racional também possa agir algumas vezes segundo sua representação das leis naturais (ao discernir, por exemplo, algum evento físico ou considerar um perigo iminente), essa qualidade, por si só, não resume a própria ação racional. Por conseguinte, uma vez que o
terminus ad quem da análise kantiana do conceito de agente racional finito será a formulação
do imperativo categórico, é razoável considerar que as leis, segundo a representação das quais o ser racional age, identificam-se com as leis morais ou, mais amplamente, com os princípios
3 Pode-se fazer uma ideia dos destinatários das acusações do filósofo a partir dos temas que denuncia estarem
admiravelmente misturados nos ensaios sobre a moralidade: David Hume (“a destinação particular da natureza humana”), os estoicos (“a ideia de uma natureza racional em geral”), Christian Wolff e sua escola (perfeição), Christian Garve e outros eudaimonistas (felicidade), Francis Hutcheson (“sentimento moral”) e Christian August Crusius (“temor de Deus”) (TIMMERMANN, 2007, p. 56-57). Este ataque pode ter sido inspirado também pelas duas obras publicadas por Christian Garve em 1783, no período em que Kant redigia sua Fundamentação: sua tradução com comentários do De officiis, de Cícero, e sua Philosophische Anmerkungen und Abhandlungen.
práticos objetivos, válidos tanto para o ser racional em geral quanto para o ser racional- sensível4.
Em segundo lugar, é preciso considerar o significado de “representação” (Vorstellung). Noutras palavras, faz-se mister explicar porque o ser racional age segundo sua representação da lei e não segundo a lei, simplesmente. Uma vez que Kant distingue dois tipos de arbítrio presentes na natureza, o arbitrium brutum (patologicamente necessitado) e o arbitrium liberum (patologicamente afetado) e que o primeiro pode ser subsumido na expressão “toda coisa da natureza”, ao passo que o segundo diz respeito exclusivamente ao ser racional-sensível, pode-se compreender que a ação segundo a representação da lei é aquela em que o agente reconhece a lei como normativa para ele porque é normativa para todo ser racional em circunstâncias semelhantes, ainda que o primeiro seja afetado pelos sentidos e não necessariamente faça aquilo que a lei lhe prescreve fazer (ALLISON, 2011, p. 154). Nesse sentido, agir segundo a representação das leis ou segundo princípios é possuir a faculdade da vontade ou, simplesmente, da razão prática, pois “se exige a razão para derivar de leis as ações” (GMS 4: 412; p. 183). Desse modo, no caso de seres perfeitamente racionais, “a razão determina a vontade infalivelmente” e as ações desse ser são subjetiva e objetivamente necessárias. No caso do ser racional-sensível, justamente porque sua vontade é afetada (mas não necessitada) pelos sentidos, as ações que objetivamente são reconhecidas como necessárias são subjetivamente contingentes. A determinação de sua vontade pelas leis objetivas é entendida sob a categoria de “necessitação” (Nötigung), posto que nem sempre esta vontade é, por sua natureza, obediente à lei moral.
A partir desta noção de necessitação da vontade do ser racional-sensível, surge, por conseguinte, o conceito de “imperativo”: “A representação de um princípio objetivo, na medida em que é necessitante para uma vontade, chama-se um mandamento (da razão) e a fórmula do mandamento chama-se imperativo” (GMS 4: 413; p. 185 – grifos do autor). Trata-se da representação de um princípio para uma vontade que nem sempre é determinada subjetivamente pela lei objetiva da razão. Por isso, o imperativo, fórmula do mandamento, se serve do verbo “dever”. Neste sentido, o bom se distingue do agradável: o primeiro “é o
4 O termo “lei” nesta sentença também poderia ser identificado estritamente com a lei moral ou imperativo
categórico, posto que, para Kant, só ela é lei prática no verdadeiro sentido da palavra. Porém, esta definição é estreita demais, já que Kant também utiliza o termo “leis” no sentido amplo de “princípios práticos objetivos”, inclusos os princípios práticos instrumentais. Uma dificuldade ainda maior surgiria se se identificasse “lei” com “máxima”, pois as máximas são princípios meramente subjetivos do agir e ligam-se exclusivamente ao ser racional-sensível (e não à ação racional em geral). Ademais, seria vago considerar uma ação sob a representação de máximas (ALLISON, 2011, p. 151-153).
que determina a vontade mediante as representações da razão, por conseguinte, não em virtude de causas objetivas”; ao passo que o segundo “só tem influência sobre a vontade mediante a sensação em virtude de causas meramente subjetivas, que só valem para este ou aquele dos seus sentidos, e não como princípio da razão, que vale para todo mundo” (GMS 4: 413; p. 187)5. Para a vontade divina e a vontade santa não existem imperativos, pois, aqui, o querer concorda plenamente com a lei. O imperativo só exprime a relação da lei moral objetiva com uma vontade imperfeita, como no caso da vontade humana (GMS 4: 414; p. 189).
Ato contínuo, Kant apresenta dois tipos de imperativo: o imperativo hipotético e o imperativo categórico. Este último já recebera uma formulação inicial na “Primeira Seção” e será considerado, aqui, algumas páginas depois. O importante é salientar a diferença entre ambos. O imperativo hipotético apresenta a necessidade de uma ação como meio para um determinado fim (a ação é um dever apenas na hipótese de se perseguir certo fim). O imperativo categórico apresenta uma ação como necessária por si mesma, sem referência a nenhum fim particular. Sendo “bom” aquilo que a razão aponta como praticamente necessário, o imperativo hipotético apresenta a ação como boa para outra coisa (como meio), ao passo que o categórico representa a ação como boa em si (GMS 4: 414; p. 189- 191). É preciso ficar claro que a diferença entre imperativos hipotéticos e categóricos não é meramente gramatical. Ao considerar essa diferença, não se trata de perguntar o que os imperativos mandam, mas como mandam. São duas maneiras distintas de determinação da vontade: um imperativo determina a vontade para uma ação em vista de um fim; outro, determina a vontade imediatamente, sem referência a qualquer fim particular6.
5 Por isso, também o interesse diz respeito exclusivamente à vontade humana. A vontade humana não é
determinável pelos princípios da razão de maneira necessária, mas contingente. Para Kant, o interesse é a dependência dessa vontade dos princípios da razão. É preciso, todavia, distinguir o interesse prático na ação (tomar interesse em algo) do interesse patológico no objeto da ação (agir por interesse). Apenas o primeiro caso caracteriza a ação por dever, desprovida de qualquer interesse e sem levar em consideração qualquer inclinação (GMS 4: 413, nota; p. 187). Para ulteriores esclarecimentos sobre termos como “desejo”, “fins”, “máximas”, “volição”, “interesse”, dentre outros, cf. Wood (1999, p. 50-55).
6 Um exemplo pode tornar a distinção ainda mais clara: “Quem quer que se reconheça como destinatário dos
dois imperativos ‘pratique piano!’ e ‘mantenha sua promessa!’ reconhece ao mesmo tempo que pode livrar-se da necessitação expressa no primeiro imperativo abandonando seu propósito, a saber, aprender a tocar piano. O imperativo comanda hipoteticamente. Mas a promessa feita não pode ser desfeita unilateralmente; o cancelamento da necessitação não está em poder do destinatário. O imperativo comanda categoricamente” (LUDWIG, 2006, p. 141 – grifos do autor).