Não havia na cultura japonesa a noção de pecado no sexo. Ele era parte da vida humana situada no círculo dos “sentimentos humanos” e, como tal, era considerado de todo bom. Por não haver “mal” no sexo, então não havia a necessidade de estabelecer censuras moralistas quanto aos prazeres do sexo.231 Todavia, a liberdade sexual era um direito diferenciado para homens e mulheres. Os preceitos sobre o sexo libertavam os homens e escravizavam as mulheres. As relações sexuais dos homens com várias mulheres não somente eram permitidas, mas também frequentemente incentivadas. Porém antes de adentrar na desigualdade sexual de homens e mulheres e compreender as representações e práticas sociais associadas à sexualidade é fundamental abordar mais uma vez a divisão do mundo em dois círculos, o do giri e do ninjô. O giri não excluía o ninjô, o que deveria existir era a consciência dos espaços, não podendo modificar as prioridades.
O primeiro círculo era o mundo do dever decorrente da gratidão, uma devoção com níveis rigidamente hierarquizados. Primeiramente, vinha o dever contraído em benefício do kokumin sôka (chefe da família nacional – o imperador), seguia-se então para o honke (chefe da casa principal), o bunke (chefe da casa secundária) e o nushi (chefe-empregador). O súdito/filho/empregado deveria ser obediente e observar suas ações para que estas não causassem danos ou haji (vergonha). O segundo círculo era o “mundo flutuante”232, dos prazeres, era a expressão emocional e instintiva dos homens. O indivíduo poderia ir atrás de seus desejos desde que estes quando concretizados não afrontassem nem prejudicassem o giri. O conflito entre o primeiro e o segundo círculo era evidente, mas poderia ser contornado, desde que os indivíduos atuassem de forma que a ação não resultasse na perda de dignidade, ou seja, que não refutasse ou comprometesse a honra familiar ou não causasse haji para ela.
231 BENEDICT, 2002.
232 A expressão “mundo flutuante” deriva do termo ukiyoe (pinturas do mundo flutuante), estilo de pintura desenvolvido no Japão ao longo do período pré-moderno. As gravuras retratavam temas teatrais, mitos e os bordéis cortesãos.
Como dito no tópico que detalhou a questão da reprodução, o matrimônio tinha por finalidade precípua perpetuar a linhagem familiar e obter vantagens socioeconômicas e não a união de pessoas que se amassem. Muitos manuais confucianos advertiam sobre o perigo de o marido amar a sua esposa. Era aconselhado que ele adotasse uma postura moderada e comedida, pois o amor o impediria de agir com a razão e poria em “xeque” suas responsabilidades para com os pais. Ou seja, o amor entre o casal era um obstáculo à vida virtuosa e uma ameaça às hierarquias familiares. O sentimento mútuo que deveria existir entre os cônjuges era o da amizade e do respeito permitido a um suserano (marido) ao seu vassalo (esposa) e vice-versa. Os manuais apregoavam ainda que a esposa deveria respeitar seu marido incondicionalmente, o que significava que ela não deveria esperar ser amada por ele. Isso significava, portanto, que o respeito cultivado entre ambos tinha por razão um dever e não pela troca mútua de afetos. O nível de respeito que uma mulher poderia receber de seu marido seria em virtude das qualidades e dos feitos da esposa em favor da família dele. Adotar uma atitude de autoabnegação e humildade era um comportamento que deveria ser valorizado, pois a mulher teria superado a sua condição biológica como ser feminino. O estágio de valor mais elevado que uma mulher podia alcançar era ter concebido um filho- homem saudável para assegurar a linhagem familiar.
Durante o período moderno, o debate em torno do jiryren’ai (amor romântico livre) obteve maior visibilidade, porém, ainda que muitos intelectuais advogassem em sua defesa o consenso permaneceu vendo-o como volátil, irracional e perigoso, pois o julgavam pouco relevante ao proveito familiar ou resultaria em shinjû (suicídio amoroso).233 Na época, o casamento tinha uma função mais social do que afetiva. O calor simbolizado pelo irori (braseiro) localizado no centro da residência vinha do cumprimento das tarefas ligadas aos deveres giri/gimu decorrentes do casamento e não do amor mútuo cultivado pelos cônjuges.234
O direito ao divórcio privilegiou os homens em detrimento das mulheres. O marido poderia repudiar a mulher por motivos referentes à linhagem, aos deveres dela para com pais e para com o nome familiar dele. O julgamento negativo para os homens que se divorciavam se dava quando estes tivessem dado maiores atenções aos
233 MACKIE, 2003. 234 SAKURAI, 2008.
seus desejos pessoais do que ao seu código de obrigações. Como no sistema patriarcal tradicional, os pais ocupavam uma posição privilegiada. Os filhos deveriam aceitar e obedecer aos desígnios daqueles, ou seja, eram as lideranças familiares que ditavam a última palavra. Caso o marido se negasse a repudiar a esposa estaria deixando-se dominar pelo ninjô, ou seja, estaria adotando uma atitude não racional e individualista. De outro lado, se o homem desejasse separar por estar apaixonado por outra mulher, igualmente seria considerado de dominado pelas emoções e egoísta. Ele estaria ultrajando o nome da família por um motivo torpe e, se as lideranças não concordassem com o divórcio, estaria contrariando a piedade filial.
Enquanto no matrimônio o objetivo do sexo era produzir o herdeiro masculino, nas experiências extraconjugais a finalidade era a satisfação dos desejos. Era seu direito, como ser-homem, obter o prazer de ser entretido pelas mulheres dos prostíbulos e das casas de geisha. Por vezes esses homens faziam das prostitutas e
geisha suas amantes. Neste último caso havia um termo específico para essa
relação – o homem se torna danna (patrono). O fato do homem ter uma amante era símbolo de status social entre os demais, caso a amante fosse uma geisha, maior seria então o status.
O adultério masculino não era considerado crime pela lei. A ressalva figuraria apenas quando a amante também fosse casada. Ainda assim ele somente seria punido se o marido da amante o processasse. Por outro lado, o adultério feminino era crime de qualquer forma, independentemente de o amante ser solteiro ou casado. A esposa adúltera responderia criminalmente. Se condenada poderia receber uma pena de até dois anos de prisão, além da família desta ter que reparar financeiramente o marido traído. O adultério feminino autorizava que o homem pedisse o divórcio e requeresse a guarda dos filhos com a separação, estando as mulheres, então, desprotegidas economicamente. As esposas deveriam reconhecer esse direito masculino, pois era uma forma de canalizar a potencialidade sexual dos homens. A ressalva era quando ele contraísse doenças venéreas, pois o contágio colocaria em risco a “raça japonesa”, sendo lícito à esposa inclusive requerer a separação.235
Constata-se, portanto, que tanto a “mulher idealizada” quanto a “mulher estigmatizada” e a “mulher operária” eram tratadas como meros objetos e não como seres humanos. A vocação para a maternidade e a vida doméstica eram as marcas da feminilidade, já a iniciativa, a atuação no mercado de trabalho e a virilidade seriam as características da masculinidade. A naturalização dos destinos sociais faziam com que as mulheres fossem pessoas com “capacidades” limitadas quando comparadas com sua contra parte masculina. Portanto, sob o signo do patriarcalismo japonês as mulheres eram objetos para a satisfação sexual dos homens ou como reprodutoras dos herdeiros e como força de trabalho. Isso era devido ao fato de que a modernização não alterou a base material e os valores simbólicos do sistema patriarcal, pelo contrário, as reformas socioeconômicas e as adaptações culturais ratificavam as barreiras misóginas e preconceituosas em torno do feminino.